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Para percorrer as nervuras do mundo, palestra não acadêmica com Rabih Mroue

Estreia mundial de Antes de cair procure o amparo da sua bengala, do libanês Rabih Mroue ocorre nesta segunda-feira (23), às 19h, em apresentação única e gratuita via YouTube da Complexo Sul. Foto: Bobby Rogers

O trabalho que o diretor de teatro, performer, dramaturgo e artista visual Rabih Mroué desenvolve é simplesmente apaixonante. Se pensarmos em temática ampla, ele vasculha vida e morte. Para quem cresceu atravessado pela experiência da Guerra Civil Libanesa (1975-1990), ele tem muito a questionar. E o artista nos envolve com perguntas ampliadas sobre a representação, o poder das imagens e a natureza subjetiva da história. A política contemporânea do Oriente Médio pulsa nas suas obras, que ardem de dúvidas sobre o estado da humanidade. Suas investigações sobre o estatuto das imagens e sua influência na percepção já levaram esse libanês radicado Beirute a muitos lugares do mundo. Inclusive ao Brasil. Mroué participou da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, em 2017, com três peça Revolução em pixels (2012), Cavalgando nuvens (2013) e Tão pouco tempo (2016).

Rabih Mroué já disse que considera o teatro e as artes como a filosofia, que, talvez, não possam mudar o mundo, mas podem fabricar novas inquietações, inspirações, estímulos a novos debates. A palestra não acadêmica Antes de cair procure o amparo da sua bengala versa sobre arte e esfera pública, o que inclui um instigante diálogo sobre legitimação da arte e dos artistas e esgarça ainda mais os limites entre ficção e realidade. Quais são as fronteiras entre arte e vida quando estas se encontram fora da instituição da arte? Como um objeto de arte perde a sua definição enquanto arte, e se torna um objeto-ameaça? São instigações que desencadeiam e se entrelaçam com outras histórias, como os panfletos de aviso jogados por aviões de guerra estadunidenses em diferentes ocasiões, como os bombardeios a Hiroshima e Nagasaki (1945), a Guerra do Iraque (2003-2011) e a Guerra Civil Libanesa (1975-1990).

Com estreia internacional na Complexo Sul 2020, nesta segunda-feira, 23/11, no canal YouTube do Complexo Duplo (youtube.com/complexoduplo), Antes de cair procure o amparo da sua bengala teve como disparador um incidente que envolveu a polícia de Salzburgo, acionada para deter uma suposta ameaça aos cidadãos numa exposição de Mroué numa galeria na Áustria. A apresentação online ao vivo é em inglês com legendas em português e não ficará gravada. Após a apresentação, segue uma conversa com o artista, com tradução consecutiva, tendo como provocador o crítico de teatro e professor de filosofia Patrick Pessoa e mediação de Daniele Avila Small.

Nesta segunda edição da Complexo Sul, toda online, a reflexão e a experimentação da linguagem da palestra-performance norteiam as atividades deste ano de 2020, em novembro e dezembro.

A primeira parte da programação, ocorreu de 2 a 17 de novembro, no Palco Virtual do Itaú Cultural. A segunda parte da programação segue até 18 de dezembro, no canal do YouTube do Complexo Duplo. Esta edição da Complexo Sul conta com o Itaú Cultural, o Goethe Institut e o Consulado Geral da República Federal da Alemanha no Rio de Janeiro como realizadores.

OUTRAS AÇÕES – OFICINAS

Plataforma de intercâmbio internacional para artistas da cena, a Complexo Sul aposta na incrementação da tarefa criativa na perspectiva de que encenação, dramaturgia e pensamento crítico constituem faces de um mesmo trabalho, intrincados e interdependentes. Do Rio de Janeiro, os diretores artísticos do Complexo Duplo, Felipe Vidal e Daniele Avila Small, associados ao curador e produtor Paulo Mattos, investem em inscrever o Brasil no circuito de ações latino-americanas, para reforçar o diálogo da cultura teatral no continente.

As inscrições para os laboratórios criativos da Complexo Sul 2020 foram prorrogadas e podem ser feitas até o dia 25/11. Cada participante pode se inscrever em apenas um dos laboratórios. Os laboratórios conduzidos por Daniele Avila Small e Felipe Vidal serão realizados em português. A oficina de Andrés Castañeda, em espanhol. Em todos eles, haverá uma monitora presente para colaborar com o intercâmbio entre falantes de português e espanhol. Candidaturas podem ser feitas no site Complexo Sul – Plataforma de Intercâmbio Internacional, complexosul.com.br

Andrés Castañeda, do Mapa Teatro Laboratório de Artistas, da Colômbia. Foto: Reprodução do Facebook

SITIO SPECIFIC, UNA PUESTA ON-LINE
OFICINA ONLINE COM ANDRÉS CASTAÑEDA
Segundas e quartas das 15h às 18h, pelo Zoom
De 07.12.20 a 16.12.20

O artista interdisciplinar, ator, performer e diretor Andrés Castañeda, mestre em Teatro e Artes Vivas pela Universidade Nacional da Colômbia e integrante do Mapa Teatro Laboratório de Artistas, vai investir no site site-specific. Pode ser casa, escritório, rua, automóvel, edifício. O termo se refere a um tipo de trabalho especificamente desenhado para um lugar em particular, no qual se pretende uma interação única com o espaço. O laboratório se propõe a investigar as casas como ambientes de confinamento durante pandemia, numa condição de site specific (o banheiro, a cozinha, o quarto, a janela), para desta vez colocar estes lugares no plano da construção e da criação-poética. O trabalho será desenvolvido a partir dos textos: Espécies de espaços, de George Perec, Corpos dóceis, de Michel Foucault e O livro das passagens, de Walter Benjamin. A oficina será realizada em espanhol, com a presença de uma monitora para colaborar com o intercâmbio entre falantes de português e espanhol
Carga horária: 12 horas
Número máximo de participantes: 10
As inscrições devem ser feitas até o dia 25 de novembro pelo formulário https://forms.gle/W9vXSbypEcXEon327

Daniele Avila Small. Foto: Reprodução do Instagram

MUSEU, TEATRO E HISTÓRIA
LABORATÓRIO CRIATIVO ONLINE COM DANIELE AVILA SMALL
Encontros coletivos às terças e sextas das 10h às 12h, pelo Zoom
De 01.12.20 a 18.12.20
A crítica, pesquisadora e curadora de teatro Daniele Avila Small, Doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO, vai ministrar o laboratório, que busca é reunir artistas de teatro para experimentar a criação na linguagem da palestra-performance, tendo como tema as relações possíveis entre teatro e história em museus. Cada participante vai criar, ao longo dos encontros, uma palestra-performance online de curta duração que aborde alguma questão relativa ao tema proposto, exercitando uma espécie de crítica historiográfica das narrativas que aparecem em museus, sítios históricos ou monumentos, bem como as teatralidades dos seus dispositivos de apresentação. O laboratório será realizado em português, com a presença de uma monitora para colaborar com o intercâmbio entre falantes de português e espanhol.
O trabalho é um desdobramento das pesquisas iniciadas com a peça Há mais futuro que passado – Um documentário de ficção, projeto idealizado por Clarisse Zarvos e Daniele Avila Small, e que tem uma filmagem disponível neste link, com opção de legendas em inglês: https://vimeo.com/210527894
Número máximo de participantes: 20
As inscrições devem ser feitas até o dia 25 de novembro pelo formulário https://forms.gle/oFnzYYJbKcHmm7eW7[/caption]

Felipe Vidal. Foto: Reprodução do Instagram

OUTROS MUNDOS
LABORATÓRIO CRIATIVO COM FELIPE VIDAL
Encontros coletivos às terças e quintas das 18h às 20h, pelo Zoom
De 01.12.20 a 17.12.20

O diretor de teatro, ator, dramaturgo, tradutor e preparador de elenco de cinema e TV Felipe Vidal vai conduzir esse laboratório para dialogar com as canções do lado B do álbum Dois da Legião Urbana, continuando a pesquisa para a obra Dois (mundos) do Complexo Duplo. A ideia é que cada participante crie, ao longo dos encontros, uma palestra-performance online de curta duração que dialogue com uma das canções do álbum. Ao final, cada integrante deverá fazer uma apresentação de até vinte minutos. Como a equipe inicial de criação de Dois (mundos) parte do elenco de Cabeça (Um documentário cênico), que é formado só por homens, esta convocatória busca parceiras criadoras mulheres, atrizes e criadoras de teatro e cinema do Brasil e de toda a América Latina. O laboratório será realizado em português, com a presença de uma monitora para colaborar com o intercâmbio entre falantes de português e espanhol.

Link para o primeiro episódio do Lado A de Dois (mundos), Daniel da cova dos leões:
https://www.youtube.com/watch?v=mn8zwrsPm7g

Esse trabalho é também um desdobramento das pesquisas iniciadas com Cabeça (um documentário cênico), espetáculo do Complexo Duplo de 2016 e que tem uma filmagem disponível neste link: https://www.youtube.com/watch?v=7uqaNUpxO6Q

Número máximo de participantes: 18
As inscrições devem ser feitas até o dia 25 de novembro pelo formulário https://forms.gle/mzZDotmYJdLYKgQx8

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Teatro de reflexão e resistência. Vem aí a MITsp!

Espetáculo belga abre a 4ª MITsp. Foto: Phile Deprez

Espetáculo belga abre a 4ª MITsp. Foto: Phile Deprez

Que estamos vivendo uma crise econômica, política, social, não há nisso novidade. Um golpe arquitetado por homens brancos, ricos, corruptos e vestindo ternos tirou do poder a presidenta Dilma Rouseff. Depois disso, diariamente, nos deparamos com notícias e declarações que nos fazem quase perder a fé de que ainda há alguma possibilidade neste país. Mas qual o papel dos artistas diante disso? E de um festival de teatro? A quarta edição da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que começa na próxima terça-feira (14) e dura uma semana (21), decidiu ao menos (um grande intento) tentar refletir sobre o momento que estamos atravessando. O texto curatorial, praticamente um manifesto, assinado por Antônio Araújo, diretor artístico da MITsp, e Guilherme Marques, diretor geral de produção, fala sobre resistência. “Não apenas resistência de sobrevida para um festival ainda novo, mas de fortalecimento da imaginação, de recusa ao cinismo, de superação da apatia e, principalmente, de continuar acreditando na nossa capacidade de ação e de transformação. Recusamos, em igual medida, tanto o estado de coisas a que chegou este país, quanto o estado de ‘coisa’ que insistem em nos imputar”.

Desde a primeira edição da MITsp, não só a curadoria dos espetáculos faz com que a mostra tenha se tornado a mais significativa do país para o teatro de pesquisa, mas a ideia fundamental de que teatro e reflexão andam juntos. Se os espetáculos conseguem, em sua grande maioria, nos tirar do eixo pela experimentação artística, pelas temáticas, pelas abordagens, pelo hibridismo de linguagem, a discussão criada em torno desses espetáculos e do próprio teatro sempre foi um dos pilares da mostra. Este ano, a curadoria do eixo denominado Olhares Críticos, responsável por pensar todas essas conexões em torno da reflexão que a mostra pode gerar, foi assinada pelos jornalistas e críticos Kil Abreu e Luciana Romagnolli. As ações pedagógicas continuam sob a responsabilidade da jornalista Maria Fernanda Vomero. Há ainda o seminário internacional Discursos sobre o Não Dito: racismo e a descolonização do pensamento, cuja curadoria é de Eugênio Lima e Majoí Gongora.

A mostra começa oficialmente (algumas atividades pedagógicas já iniciaram) no Theatro Municipal de São Paulo, dia 14, com o espetáculo belga Avante, Marche!, direção de Alain Platel, Frank Van Laecke e Steven Prengels. Uma banda de música, que pode servir como retrato da nossa sociedade, e a situação de saúde de um músico nos colocam diante da resistência e da finitude. O espetáculo vai contar com músicos brasileiros, sob a regência do maestro Carlos Eduardo Moreno. Para quem for na segunda sessão, no dia 15, um presente: Tom Zé vai comentar o espetáculo ao final da apresentação, na ação intitulada Diálogos Transversais.

Artista libanês Rabih Mroué apresenta três trabalhos. Foto: Houssam Mchiemech

Artista libanês Rabih Mroué apresenta três trabalhos. Foto: Houssam Mchiemech

Ainda no dia 14, começam as sessões da Mostra Rabih Mroué. O artista visual, dramaturgo, diretor e performer libanês apresenta três espetáculos: Tão Pouco Tempo, Revolução em Pixels e Cavalgando Nuvens. Na coletiva de imprensa da mostra, Antônio Araújo revelou que tenta trazer o artista à MITsp há alguns anos. O trabalho de Rabih Mroué condiz com um dos principais eixos da mostra este ano: o teatro documentário, produções que utilizam fatos reais, documentos, história. No caso do libanês, o contexto de guerra do seu país é levado ao palco, como em Revolução em Pixels, quando ele discute como os sírios estavam documentando a guerra e a própria morte; ou em Cavalgando Nuvens, que tem como performer seu irmão, vítima de um tiro durante a guerra civil libanesa. A ação Pensamento-em-processo, uma conversa com Rabih Mroué, sua esposa (que também é performer em Tão Pouco Tempo) Lina Majdalanie, e seu irmão Yasser, será mediada no dia 16, às 10h, no Itaú Cultural, por Pollyanna Diniz, uma das editoras do Satisfeita, Yolanda?.

Por que o Sr. R, Enlouqueceu? Foto: Ju Ostkreuz

Por que o Sr. R, Enlouqueceu? Foto: Ju Ostkreuz

Outros três espetáculos internacionais compõem a MITsp: o alemão Por que o Sr. R. Enlouqueceu?, com direção de Susanne Kennedy para a Münchner Kammerspiele, uma montagem que faz a adaptação do filme homônimo de Rainer Werner Fassbinder; Mateluna, continuação de Escola, vista na primeira MITsp, do chileno Guillermo Calderón; e Black Off, de Ntando Cele, diretora e performer da África do Sul. Esse último trabalho compõe outro eixo significativo na MITsp: a discussão sobre racismo, empoderamento negro, branquitude e opressão. Tanto que dois dos três espetáculos brasileiros que integram a mostra, A Missão em Fragmentos: 12 cenas de descolonização em legítima defesa, com direção de Eugênio Lima, e Branco: o cheiro do lírio e do formol, de Alexandre Dal Farra e Janaina Leite, enveredam por esse caminho, mas por diferentes vias. O terceiro espetáculo brasileiro da mostra é Para que o céu não caia, da Lia Rodrigues Companhia de Danças. Os ingressos já estão esgotados, mas quem teve a sorte de comprar para a sessão do dia 18 de Para que o céu não caia, no Sesc Belenzinho, vai ter a chance de ouvir o xamã yanomami Davi Kopenawa, cujo livro inspirou o espetáculo, ao fim da apresentação, nos Diálogos Transversais.

Branco: o cheiro do lírio e do formol. Foto: André Cherri

Branco: o cheiro do lírio e do formol. Foto: André Cherri

Dentro dos Olhares Críticos, alguns destaques: o seminário Dimensões públicas da crise e formas de resistência, que contará com quatro mesas e convidados como Heloisa Buarque de Hollanda, Marcio Abreu, Vladimir Safatle, Suely Rolnik e Marcelo Freixo; uma discussão sobre teatro na Palestina, com o diretor Ihab Zahdeh, a atriz Andrea Giadach e Maria Fernanda Vomero; uma entrevista pública com Guillermo Calderón; o lançamento da nona edição da Trema! Revista de Teatro, do Recife; e a mesa Crítica e engajamento, uma proposta da DocumentaCena – Plataforma de Crítica (que reúne Satisfeita, Yolanda?, Questão de Crítica e Horizonte da Cena), que será mediada por Ivana Moura, editora do Satisfeita, Yolanda?.

O Satisfeita, Yolanda?, aliás, acompanha a MITsp desde a sua primeira edição. Este ano, participamos novamente da mostra escrevendo críticas que serão distribuídas nos teatros e publicadas aqui no blog e no site da MITsp.

Confira a programação completa da MITsp no site da mostra.

Mateluna. Foto: Felipe Fredes

Mateluna. Foto: Felipe Fredes

Para Que o Céu Não Caia. Foto: Sammi Landweer

Para Que o Céu Não Caia. Foto: Sammi Landweer

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