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Abertura do JGE: Política no segundo ato

Foto: fotos de wellington dantas

Leda Alves, Marcelino Granja, Márcia Souto, Paulo de Castro e Astrogildo Santos . Foto: Wellington Dantas

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O coordenador-geral do festival e a secretária de Cultura do Recife. Foto: Wellington Dantas

A noite de 14 de março de 2017 ficou na minha memória como uma experiência poética e política incrível e inesquecível. Com o Theatro Municipal de São Paulo lotado, os gestores representantes dos secretários municipal e estadual de cultura de São Paulo, e do então ministro da cultura foram silenciados por ensurdecedoras vaias, um festival de apupos, na abertura da 4ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp). Um momento histórico no teatro brasileiro. O produtor da MITsp já havia demarcado a posição do evento contra a precarização da cultura, o congelamento do orçamento e a ameaça de destruição das políticas culturais significativas.

No Recife dos casarões coloniais e estruturas de pensamento conservadoras da elite e classe média que ocupavam as cadeiras do Teatro de Santa Isabel, na quarta-feira, na abertura do Janeiro de Grandes Espetáculos, as reações foram amenas e acanhadas. O coordenador-geral do JGE, Paulo de Castro, falou rapidamente dos desafios desta edição e da alegria em sua realização. Depois foram convidados ao palco o secretário de cultura de Pernambuco, Marcelino Granja; a presidenta da Fundarpe, Márcia Souto; a secretária de Cultura do Recife, Leda Alves e o diretor de Cultura da Fundação Joaquim Nabuco, Astrogildo Santos.

A fala de Marcelino Granja surpreendeu e provocou uma tensão cognitiva. Ele se posicionou a favor de Luís Inácio Lula da Silva e contra o golpe. Fez um discurso em defesa da democracia, do estado de direito e do ex-presidente Lula. E foi enfático de que a ameaça de condenação de Lula é uma infâmia, que pode se alastrar por todos setores.

A preleção parece boa, para quem se posiciona contra o golpe midiático, parlamentar e jurídico que afastou a presidenta Dilma Rousseff. A não ser por alguns pequenos “detalhes”, que motivaram discretos protestos de “Fora Temer” e ensaios de vaias, que sobraram para outro representante.

Granja é filiado ao PC do B (partido que é contra o golpe), mas é secretário de Cultura do Governo Paulo Câmara, declaradamente a favor do golpe. Então existe aí , pelo menos, uma esquizofrenia política.

Estamos em tempos em que as narrativas são construídas e desconstruídas ao bel-prazer de hábeis oradores. Granja portanto, lembrou dos editais do Funcultura (principal fonte de financiamento da produção cultural pernambucana – audiovisual, música e geral) para enaltecer o governo e e dizer que está do lado dos artistas. Numa estranha passividade, a plateia baixou a cabeça e alguns até aplaudiram o discurso.

Depois dele, a presidenta a Fundarpe, Márcia Souto também do PC do B falou pouco e destacou que a atriz e produtora Paula de Renor (que ficou por 15 anos na coordenação do JGE, junto com Paulo de Castro e Paula Valença), e que estava sentada na plateia, é a nova presidenta do Conselho de Cultura. Uma função merecida para Paula de Renor que luta há anos por políticas públicas mais justas em Pernambuco. Mas o anúncio pareceu uma cortina de fumaça em meio ao fogo cruzado.

A secretária de Cultura do Recife, Leda Alves, reafirmou que é um soldado na política do PSB e que luta pela cultura pernambucana. Ela tem um histórico, inclusive como artista e gestora que impõe respeito, e é muito querida no setor. Mas a realidade da política cultural recifense não é um palco iluminado e todos nós sabemos disso.

Dessa etapa protocolar, o produtor Astrogildo Santos, que atua como diretor na Fundaj, iniciou sua fala dizendo que estreou como ator no Teatro de Santa Isabel e outros feitos, para depois defender que o Ministro da Educação, Mendonça Filho, está fazendo grandes ações pela educação e cultura. Vaia na certa. Fora Temer! e Golpistas! foram as palavras de ordem gritadas por uma parte da plateia.

Coube a Paulo de Castro arrematar com as palavras de que este ano tem eleição e teremos condições de eleger os nossos representantes. Será? Há muitos meses da campanha política já há apostas de quem será o próximo deputado federal mais votado. Então, será que já saímos da era das capitanias hereditárias?

HOMENAGEADOS

Nesse clima tenso foram convidados os homenageados desta edição Vanda e Renato Phalante, dois queridos atores pernambucanos, com uma trajetória ligada ao Teatro de Amadores de Pernambuco e que ostentam 40 anos de profissão. Eles receberam os aplausos e carinho do público, muitos de seus pares de palco. Palavras de afetos foram transmitidas em vídeo, inclusive as de Geninha da Rosa Borges. E também foram presenteados com um quadro pintado por Cleusson Vieira .

Vanda Phaelante. Foto: Wellington Dantas

Vanda Phaelante. Fotos: Wellington Dantas

Homenageados desta edição ganham quadro pintado por Cleusson Viana

Homenageados desta edição ganham quadro pintado por Cleusson Vieira

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Artistas discordam sobre uso de teatro pela polícia

Teatro Santa Isabel. Foto: Marcelo Lyra

Teatro de Santa Isabel. Foto: Marcelo Lyra

Quando a atriz e produtora Paula de Renor soltou um post no Facebook com a marcação de mais de 60 pessoas, pensei: Aí vem bomba. Virou o principal assunto do pessoal de teatro e das pessoas ligadas à cultura de Pernambuco nesta terça-feira. O Teatro de Santa Isabel foi cedido, na semana passada, para a festa dos 199 anos da Polícia Civil de Pernambuco. A reação da classe artística foi imediata e inundou de críticas as redes sociais quanto à postura da Prefeitura do Recife, em especial da Secretaria de Cultura do Recife e da titular da pasta, Leda Alves.

No decreto municipal de maio de 2006 está registrado que o palco do Teatro de Santa Isabel é exclusivamente dedicado a atividades de caráter cultural, “especialmente nas linguagens artísticas da música, do teatro, da dança e da ópera”.

Não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que o governo do estado ou a prefeitura do Recife, desta ou de gestões anteriores, utilizam (ou cedem) o teatro-monumento para ações que não pertencem ao campo artístico stricto sensu. A casa de espetáculos já abrigou ritual de nomeação de guardas municipais do efetivo que atua no trânsito do Recife, em 2012; Programa de Aceleração de Estudos de Pernambuco – Travessia e aniversário de empresa jornalística, entre outros eventos.

A cerimônia comemorativa da Polícia Civil contou com apresentação da Banda Sinfônica do Recife. E é neste ponto que a Secretaria de Cultura arma sua defesa. Em nota à imprensa explicou que a festividade “não desrespeitou o decreto, uma vez que a solenidade foi marcada pela apresentação da Banda Sinfônica do Recife. Sempre que houver uma apresentação artística é uma norma de ocupação de pauta no teatro”.

Entrega das medalhas pelo governador. foto: Foto: Roberto Pereira/ SEI

Entrega das medalhas pelo governador. Foto: Foto: Roberto Pereira/ SEI

O governador Paulo Câmara destacou no seu discurso “a integração entre as diferentes instituições que atuam no combate à violência”. Isso foi publicado na página da Secretaria da Casa Civil Pernambuco do dia 29 de abril. O evento ocorreu na quinta-feira (28/04), no Teatro de Santa Isabel, às 17h.

O gestor – que não é visto prestigiando as produções teatrais pernambucanas – comandou a entrega das Medalhas de Honra ao Mérito Policial – classe Ouro a pernambucanos que sua administração destaca na promoção da segurança pública. O estado condecorou 200 personalidades: figuras da sociedade civil, oficiais civis, militares bombeiros e polícia cientifica, entre eles o deputado federal que votou a favor do impedimento da presidenta Dilma Rousseff, Francisco Tadeu Barbosa de Alencar.

Reprodução do Facebook

Reprodução do Facebook

“Quinta (28/04) passada tomei um susto ao ver tanto policial civil na porta do teatro [de Santa Isabel]. Achei que alguma confusão estava se armando por ali. Fiquei sabendo, então, que era a comemoração do Aniversário da Polícia Civil com celebração dentro do teatro”
                  Paula de Renor – atriz e produtora cultural

O decreto que regulamento a ocupação do Santa Isabel tem como critérios (1) a excelência da qualidade artística da programação cultural a ser apresentada; e (2) a comprovação da trajetória dos eventos mencionados e/ou da equipe de criação do espetáculo, já testada e devidamente comprovada com base em filmes, crítica em jornais ou revistas, fotografias, CD’s DVD’s, etc.

Paula de Renor questionou em sua conta pessoal no Facebook.

“O Santa Isabel é o único que está funcionando AINDA bem: teatros do Parque e Barreto Júnior fechados, Apolo e Hermilo se ultimando, sem ar, sem equipamentos. Agora estão voltando as carteiradas que conhecemos muito bem, e a Secretaria de Cultura sob pressão, se obriga a ceder o nosso teatro monumento para eventos não culturais, desrespeitando o Decreto nº 21.924 de 2006, que trata exatamente da utilização do teatro, permitindo exclusivamente sua ocupação para eventos culturais?!

Desde quando niver da Polícia Civil é cultura? Só porque uma banda musical tocou no meio da cerimônia?! Se pautas estão sobrando, cedam para ocupação de espetáculos (não falta quem queira!)”.

Banda Sinfônica. Foto: Andrea Rego Barros

Banda Sinfônica. Foto: Andrea Rego Barros

DECRETO Nº 21.924 DE 10 DE MAIO DE 2006
EMENTA: Regulamenta a ocupação da pauta do Teatro Santa Isabel.
O PREFEITO DO RECIFE, no uso de suas atribuições constantes no Art. 54, IV, da Lei Orgânica do Recife,
CONSIDERANDO a necessidade de definir regras para ocupação da pauta do Teatro Santa Isabel;
CONSIDERANDO a importância do estabelecimento de critérios para a definição da programação do referido Teatro;
DECRETA:
Art. 1º A Pauta do palco do Teatro Santa Isabel deverá ser ocupada exclusivamente por atividades de caráter cultural, especialmente nas linguagens artísticas da música, do teatro, da dança e da ópera.
Art. 2º Além do observado no artigo anterior, deverão ser considerados os seguintes critérios:
I – Excelência da qualidade artística da programação cultural a ser apresentada;
II – Comprovação da trajetória dos eventos mencionados e/ou da equipe de criação do espetáculo no Art. 1º, já testada e devidamente comprovada com base em filmes, crítica em jornais ou revistas, fotografias, CD´S, DVD´s, etc;

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Foto: Marcelo Lyra

Repercussão

“Vergonha”, “absurdo”, “vamos compartilhar” foram as frases mais publicadas nas redes sociais. O sentimento de indignação vem na esteira de uma política cultural débil, que não prioriza a cultura como aposta na economia. Mas, ao mesmo tempo, esses gestores estaduais e municipais utilizam da imagem de um estado e de uma cidade de efervescência cultural para projetar suas gestões, mesmo não incentivando devidamente essas “minas de ouro”. É uma contradição.

“Falta respeito aos que fazem cultura. Ouvi uma vez do prefeito que iria trabalhar para os artistas daqui não precisarem ir embora da cidade… Estamos neste lugar e trabalhando aqui há anos e vamos continuar realizando, mesmo que ele ao invés de criar política pública, tire de nós o pouco que ainda temos!!!”
Mônica Lira Coreógrafa e bailarina, fundadora e diretora do Grupo Experimental, que integrou o Conselho de Cultura da Prefeitura da Cidade do Recife (2001-2003), e mais recentemente, ocupou o cargo de gerente de dança da Fundação de Cultura Cidade do Recife.

“Quando Diego Rocha, Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, diz que “Cultura não é prioridade”, nós vamos para onde depois disso?”
Maria Paula Costa Rêgo Coreógrafa e bailarina, fundadora e diretora do Grupo Grial de Dança.

“Quando pedimos autorização à Prefeitura para fazer rodas de leitura voluntárias do meu livro Bichos Vermelhos, na Praça de Casa Forte, para uma escola pública estadual, só liberaram o asfalto. Fizemos na grama por teimosia. Já imaginou as crianças sentadas na pedra quente? Isso porque os livros foram doados, viu? É assim que tratam bens imateriais e patrimônios materiais”.
Lina Rosa Vieira Publicitária, diretora de criação da Aliança Comunicação e Cultura, escritora e idealizadora e diretora do Sesi Bonecos do Mundo.

“Isso é uma completa falta de respeito, de compromisso, de consideração com a população, com a comunidade. Infelizmente o poder público deveria se envergonhar cada vez que temos que passar por situações como essa. Infelizmente a classe artística, de pesquisa sofre com esse descaso”.
Fernando Tranquilino Professor

“É assustador como os politiqueiros desse feudo chamado Recife andam tratando os artistas e os equipamentos de cultura. Uma vergonha. Lamentável!!! Bora gritar!!!”
Waldomiro Ribeiro Produtor e diretor de teatro do Grupo Longânime, Ator e Professor de Música

“Absurdo! Tratam os espaços públicos como se fossem suas casas (da mãe Joana!) É preciso que tomemos uma atitude!”
Ana Elizabeth Japiá Mota Dramaturga, professora e diretora teatral

“É realmente um absurdo. Abram o teatro para à infância e juventude!”
Benedito Jose Pereira Ator e diretor de teatro, Tv, cinema e publicidade

“Temos que saber quais os meios pra entrar com uma denúncia formal contra a Prefeitura e a Secretaria de Cultura. Eles não podem agir nessa cara de pau e ficar por isso. Leda Alves, minha filha? Que porra é essa?”
Iara Campos Atriz e bailarina

“O Teatro de Santa Isabel é “para as linguagens artísticas da música, do teatro, da dança e da ópera”. Exigimos isso!”
Leidson Ferraz Jornalista, pesquisador, ator, diretor e professor

“Fazem o que querem como quem sabe que nada vai acontecer com eles. Se “nossos políticos” “cuidam” do bem público, quem cuida dos nossos políticos?”
Luiz Felipe Botelho Dramaturgo, Diretor de teatro e cinema, professor

“É uma vergonha a maneira como a cultura está sendo tratada em nosso Estado. A degradação total dos aparelhos públicos e a redução de incentivos é uma afronta a todos os artistas e produtores. Pernambuco tem se tornado uma verdadeira ditadura, com sua política cultural aos cacos e um Governo, nos parecendo, cada vez mais preocupado em restringir o direito de acesso à arte, artifício este de uso frequente em outros governos ditatoriais como maneira de subjugar uma população.”
Fabio Pascoal Diretor e produtor teatral.

“Creio que a falta de uma classe organizada em prol do Teatro e da cultura vai de encontro às propostas dos governantes que quase sempre são depreciativas ao teatro e à cultura… E ir de encontro aos governantes ninguém quer, nem sindicatos, nem produtoras, nem grupos… pois todos mamam nas tetas, seja leite tipo A ou leite azedo. Todos mamam!
Ninguém quer se indispor com os senhores gestores e perder uma pauta livre (leite azedo) ou um cargo comissionado (leite tipo A)… Melhor deixar pra lá e ir levando…
Os que falam são rotulados como loucos, faladores, polemizadores…
Tem um mói de gente que meteu a boca no trombone outrora é hoje, anos depois, viraram gestores de diversos escalões e vivem caladinhos… O que era errado antes consertou-se e tá tudo bem? É isso? Claro que não. Resumindo: não vejo previsão de uma classe unida e organizada. Cada um só defende o seu! E é o que inclusive vou fazer agora: O Mascate, A Pé Rapada e Os Forasteiros estreia nesta sexta no Espaço Cênicas e fica em temporada todas sextas e sábados sempre às 20h”
Diogenes D.Lima Ator e produtor teatral

“Engraçado que esta mesma polícia tem um Teatro só deles que não abrem pra ninguém, o Teatro do Derby. Boraaaa cair na real, políticos, vão ver as leis e ponham em prática. … Até porque outubro está chegando…”
Sharlene Esse Atriz, participou do Grupo Vivencial

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Trema! Festival de Teatro divulga programação

Jacy, do Grupo Carmin, abre o festival no Teatro Apolo. Foto: Nityama Macrini

Jacy, do Grupo Carmin, abre o festival no Teatro Apolo. Foto: Nityama Macrini

A importância de um festival de teatro não pode ser medida por sua duração ou pela quantidade de atrações. A proposta da curadoria, quando refletida na programação, é o que de fato mais importa. É nesse lugar que o Trema! Festival de Teatro se estabelece na capital pernambucana. Até então, o festival, que levava a assinatura do Magiluth, se voltava para o teatro de grupo. Agora, sob o comando da Trema! Plataforma de Teatro, tendo na coordenação Pedro Vilela, Mariana Rusu e Thiago Liberdade, a proposta foi ampliada, podendo incluir solos. Na realidade, a principal marca do festival continua: agregar montagens que tenham a pesquisa e a experimentação cênica como pressuposto.

Para fazer um breve retrospecto, pelo Trema!, já vimos no Recife o Teatro Kunyn, de São Paulo, a Cia Hiato, também de São Paulo, o Teatro Inominável, do Rio de Janeiro, o Grupo Espanca, de Belo Horizonte, o coletivo As Travestidas, de Fortaleza. São espetáculos de grupos que, com os seus trabalhos, têm muito a dizer sobre a realidade que vivemos e sobre os próprios procedimentos teatrais contemporâneos.

Nesta quarta edição, o Grupo Carmin, de Natal, abre a programação com a delicada Jacy, montagem de teatro-documentário que já foi vista em Garanhuns, no Festival de Inverno, mas ainda não havia chegado ao Recife. Jacy vem de uma recente temporada de sucesso no Rio de Janeiro, de uma passagem pelo Itaú Cultural (com lotação esgotada), em São Paulo, e começa agora a percorrer o Brasil pelo Palco Giratório.

De Belo Horizonte, o festival traz o grupo Primeira Campainha, com dois espetáculos do seu repertório: Isso é para Dor e Sobre Dinossauros, Galinhas e Dragões. Depois dos espetáculos, o grupo vai conversar sobre o processo criativo que norteou as montagens. A vinda da Primeira Campainha está sendo financiada pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2014 em parceria com o festival.

O coletivo As Travestidas volta ao Recife com o mais recente espetáculo, Quem tem medo de travesti. A montagem faz parte da pesquisa continuada sobre o universo trans no Brasil. Recentemente, foi vista no Festival de Teatro de Curitiba. O coletivo também comanda a festa Cabaré das Travestidas, que vai acontecer no Roda Cultural, no Bairro do Recife. A festa promete improviso, dublagem, talk show e a participação de DJ´s.

Grace Passô apresenta trabalho solo. Foto: Kelly Knevels

Grace Passô apresenta trabalho solo. Foto: Kelly Knevels

Por fim, uma das artistas mais interessantes da sua geração, Grace Passô, apresenta o solo Vaga carne. Depois de dez anos no Espanca, grupo que ajudou a fundar, Grace tem dirigido muitos espetáculos e participado de outros como atriz, como Krum, da Companhia Brasileira de Teatro. O solo Vaga carne, que tem direção, texto e atuação de Grace, integra o projeto Grãos da imagem, que reúne peças em torno de temas identitários.

Do Recife, a programação contará com as estreias de Retomada, do Grupo Totem, importante grupo de performance no cenário nacional, e pa(IDEIA), do Coletivo Grão Comum, um trabalho sobre Paulo Freire. Ainda estão na grade Soledad – A terra é fogo sob nossos pés (Confira a crítica), com Hilda Torres, e Vento Forte para Água e Sabão, musical para infância e juventude do Grupo Fiandeiros de Teatro, com texto de Giordano Castro e Amanda Torres.

Durante o festival, os produtores aproveitam para lançar a sexta edição da Trema! Revista, projeto que conta com o apoio do Funcultura.

Grupo Totem estreia Retomada. Foto: Fernando Figueiroa

Grupo Totem estreia Retomada. Foto: Fernando Figueiroa

Os ingressos já estão à venda pela internet, através do site www.eventick.com.br/tremafestivaldeteatro.

Tivemos uma importante conversa com Pedro Vilela, um dos produtores e idealizadores do festival. São questões sobre política cultural, resistência e permanência. Afinal, “a crise não é de agora. Para nós, trabalhadores da arte, ela sempre esteve presente”.

Pedro Vilela é um dos produtores do Trema! Festival. Foto: Bob Souza/divulgação

Pedro Vilela é um dos produtores do Trema! Festival. Foto: Bob Souza/divulgação

ENTREVISTA // PEDRO VILELA

De que maneira foi pensada a curadoria desta edição? Vocês falam, por exemplo, em (re)construção de paradigmas da nossa sociedade. Como isso se refletiu nos espetáculos escolhidos?

O teatro sempre será um espaço para enfrentamentos de ideias. Todo aquele que não se propõe a isto está fadado a ser apenas mais um mecanismo de reprodução da indústria cultural e da massificação de nosso povo. Ao pensar a curadoria do Trema! neste ano, procurei comungar trabalhos que em si carregam questões pertinentes para nosso tempo e que venham encontrando visibilidade no cenário artístico brasileiro. Poderíamos encher nossos palcos com obras de maior retorno financeiro para nós, organizadores, mas nosso compromisso ético com a ação faz com que estejamos muito atentos às reflexões que queremos propor. Ao assumir o tema (re)construção, estamos dispostos a percorrer um caminho duplo.

O primeiro está ligado à trajetória dos próprios organizadores, ao abandonarem antigos projetos artísticos na cidade e re-iniciarem novos percursos a partir da Trema! Plataforma de Teatro. (Re)construímos pois não achamos justo destruirmos algo que foi importante para nossa trajetória artística, ao passo que alimentamos o desejo por novos trajetos. O próprio nome do festival traz isto, este ano abandonamos o recorte exclusivo de “festival de teatro de grupo” e passarmos a ser apenas “Festival de Teatro”. Continuamos investindo na pesquisa de linguagem, mas ampliamos o olhar para artistas solos.

Em relação aos espetáculos, ao escolhermos espetáculos como os que compõem a programação, estamos nos propondo a reflexão em torno de temas como identidade, gênero, educação, tradição, ditadura, política, ou seja, pautas muito urgentes para nosso país. Acreditamos portanto que através do teatro podemos (re)construir nossa sociedade.

“Fechar um teatro é tão absurdo quanto fechar uma escola”

“Recife é a cidade dos festivais”. Essa frase é bastante dita quando discutimos a política cultural pernambucana, sem que a gente pare para avaliar de fato a importância de cada um dos festivais de artes cênicas da nossa cidade. No atual cenário, qual a importância do Trema!, tanto pra cidade quanto para os artistas? Porque insistir em fazer um festival, mesmo com a crise que assola os festivais no país todo?

Recife já foi a cidade dos festivais. Minha formação enquanto artista esteve muito ligada aos que aconteciam na nossa cidade. Esperava ansiosamente a cada ano e acompanhava absolutamente tudo. Os tempos são outros e o mais triste é perceber que retrocedemos. Já não temos o Palco Giratório, do SESC, e o Festival Recife virou um triste fantasma de anos anteriores, só para citar alguns. Os privados que teimam em resistir, a cada ano ou desistem pelo meio do caminho ou precisam fazer das tripas coração para serem executados. Isso é apenas uma breve demonstração do descaso do poder público para com as artes.

“Pensamos seriamente se realizaríamos o festival neste ano. Mas percebemos que não fazer significa que os propagadores da barbárie, da corrupção, da falta de educação, estariam saindo como vencedores desta batalha”.

É meio absurdo ter que nominar a importância desses eventos. Eles alimentam uma vasta cadeia produtiva, além de todas as questões simbólicas que suportam. O grande problema é que não conseguimos sermos vistos como utilidade pública, como elementos primordiais de construção da nossa sociedade. Fechar um teatro é tão absurdo quanto fechar uma escola. Mas se vivemos numa conjuntura que nem mesmo educação e saúde são ofertadas à população de maneira digna, o que podemos dizer das artes….

O Trema! resiste e insiste há quatro edições. Pensamos seriamente se realizaríamos o festival neste ano. Mas percebemos que não fazer significa que os propagadores da barbárie, da corrupção, da falta de educação, estariam saindo como vencedores desta batalha. A crise não é de agora. Para nós, trabalhadores da arte, ela sempre esteve presente.

Tentamos captação com diversas empresa do Estado e todas negaram recursos. Empresas inclusive que recentemente aportaram em nosso Estado com slogans ligados à cultura e ao desenvolvimento de nosso povo. O capital toma conta de nossos cidadãos, jogando-os num clico vicioso de consumo e onde apenas uma parte é beneficiada, o que vende.

Ninguém chega a Berlim, Paris ou qualquer lugar do mundo onde a produção artística é efervescente e fica deslegitimando a pluralidade que encontra. A única crítica que poderíamos fazer é quando invertemos o fomento às atividades continuadas e ficamos navegando exclusivamente em eventos passageiros. E isso sim é uma prática recorrente em nossa cidade. O que gastamos com decoração de Natal daria pra fomentar inúmeros festivais que possuem trajetória comprovada, por exemplo. Palco com banda tocando no Marco Zero aos domingos nunca será construir sociedade. Talvez seja por isto que ao acabar o show se inicie recorrentemente arrastões naquele lugar. O povo tá cansado de faz de conta. Educação é a única saída. Teatro, literatura, artes plásticas…. Isso sim muda um panorama.

“Palco com banda tocando no Marco Zero aos domingos nunca será construir sociedade. Talvez seja por isto que ao acabar o show se inicie recorrentemente arrastões naquele lugar”.

Qual o orçamento do Trema!? De onde vem o recurso? Qual o apoio, efetivamente, da Prefeitura do Recife e do Governo do Estado?

O Trema! neste ano tem orçamento de R$ 60 mil. Algo muito abaixo do que precisaríamos para executar o festival. Às vezes fico com a sensação de sermos malabaristas em conseguirmos realizar a ação. Mas seria injusto de nossa parte levarmos todos os méritos. O festival só será possível graças a todas as parcerias criadas e principalmente pelo desejo que a classe artística de todo o país tem por sua realização. Os grupos locais receberão apenas as bilheterias, por exemplo; nos sentimos até envergonhados ao termos que propor isso. Os grupos de fora estão vindo com cachês muito abaixo do comumente praticado. Isso mostra a seriedade com que lidamos com o Festival ao longo dos últimos anos e também a união dos artistas nesta guerrilha. Poderia não querer responder a vocês sobre questões orçamentárias, mas acho importante para que as coisas comecem a ter seu devido valor. A Fundação de Cultura entrará com algo em torno de R$ 15 mil (recursos e serviços) e o Governo do Estado com R$ 20 mil (recursos e serviços). Se dividirmos por exemplo o aporte da Prefeitura pela quantidade de habitantes na cidade daria algo em torno de R$ 0,01 por pessoa. Não chega nem a 1 centavo! Pouco, não?! O restante são parcerias criadas e principalmente recursos nossos. Em todas as edições não ganhamos absolutamente nada para realizar o Festival, mas ao mesmo tempo não queremos ver o Festival morrer! O por quê de fazermos esta loucura? Fico me perguntando a todo momento. E não sabemos por quanto tempo conseguiremos.

Talvez este também seja o momento de (re) construirmos o elo perdido com o poder público. Talvez. O que nos resta é fazemos um apelo ao público do Recife para que estejam juntos conosco nesta batalha. A melhor maneira de contribuir neste momento é compartilhar o quanto puder nossa divulgação. Os tempos são outros e sabemos o quanto juntos podemos mudar este paradigma. Ao ocuparmos os teatros, estaremos mostrando a importância da ação e, ainda que simbolicamente, requisitando o que nos é de direito. Como bem postamos ao anunciar que iríamos fazer o festival: não é por nós, é pela cidade!

“Se dividirmos por exemplo o aporte da Prefeitura pela quantidade de habitantes na cidade daria algo em torno de R$ 0,01 por pessoa. Não chega nem a 1 centavo!”

Programação Trema! Festival de Teatro:

28/4
Jacy / Grupo Carmin (RN)
Teatro Apolo – 20h

29/4
Sobre dinosauros, galinhas e dragões / Primeira Campainha (MG)
Teatro Arraial Ariano Suassuna – 19h30

Quem tem medo de travesti / Coletivo As Travestidas (CE)
Teatro Santa Isabel – 21h

30/4
Isso é para dor / Primeira Campainha (MG)
Teatro Arraial Ariano Suassuna – 19h30

Quem tem medo de travesti, do coletivo As Travestidas. Foto Allan Taissuke

Quem tem medo de travesti, do coletivo As Travestidas. Foto Allan Taissuke

FESTA: Cabaré das Travestidas / Coletivo As Travestidas (CE)
Roda cultural – a partir das 23h

01/5
Isso é para dor / Primeira Campainha (MG)
Teatro Arraial Ariano Suassuna – 19h30

03/5
Lançamento TREMA! Revista #6
Teatro Hermilo Borba Filho – a partir das 19h

pa(IDEIA) Pedagogia da autonomia / Coletivo Grão Comum (PE)
Teatro Hermilo Borba Filho – 20h

Coletivo Grão Comum estreia pa (IDEIA). Foto: Amanda Pietra

Coletivo Grão Comum estreia pa (IDEIA). Foto: Amanda Pietra04/5

 

04/5

Retomada / Grupo Totem (PE)
Teatro Hermilo Borba Filho – 20h

05/5
Soledad, A terra é fogo sob nossos pés / Cria do Palco (PE)
Teatro Hermilo Borba Filho – 20h

06/5
GRÃOS DA IMAGEM: Vaga Carne / Grace Passô (MG)
Teatro Hermilo Borba Filho – 20h

07/5
Vento Forte para água e sabão / Cia. Fiandeiros (PE)
Teatro Hermilo Borba Filho – 16h

08/5
Vento Forte para água e sabão / Cia. Fiandeiros (PE)
Teatro Hermilo Borba Filho – 16h

INGRESSOS:
R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada), com exceção do espetáculo Quem tem medo de travesti, com sessão no Teatro de Santa Isabel ao valor de R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada) e a festa Cabaré das Travestidas, com preço único de R$ 20.

Vendas antecipadas pelo site www.eventick.com.br/tremafestivaldeteatro.

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Precariedade no Teatro Apolo ameaça Clotilde

Peça pode ter temporada interrompida

Peça pode ter temporada interrompida. Foto: Ivana Moura

A temporada em comemoração aos seis anos do espetáculo O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas pode ser interrompida antes do prazo. A peça entrou em cartaz neste último fim de semana no Teatro Apolo, no Bairro do Recife, e deveria seguir até o dia 24 de abril, mas a produção do espetáculo aguarda um posicionamento sobre um teste na potência do ar-condicionado do teatro, gerido pela Prefeitura do Recife, para decidir se há viabilidade de continuar as apresentações. Vale lembrar que o Teatro Apolo é o teatro mais antigo da cidade do Recife – sua construção foi iniciada em 1839. O equipamento de ar-condicionado da casa é da década de 1980.

Nas apresentações da estreia, o público e os próprios artistas sofreram com a falta de refrigeração. “Fizemos o espetáculo no sábado passando mal. Quem saía de cena ia beber água e corria para o único ventilador que estava nas coxias. O elenco ficou com a voz bem comprometida, suando muito, o figurino encharcado, a maquiagem derretendo. O bigode do meu personagem caiu por conta do calor e do suor”, conta o ator Tatto Medinni, que interpreta o vilão João Favais.

O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas é um espetáculo divertido, engraçado, com alto poder de adesão do espectador. Para caracterizar cada personagem, utiliza figurinos (de Marcondes Lima) que se sobrepõem, como casacos, jeans, blusas e meias e uma maquiagem carregada, assinada pela própria Trupe Ensaia Aqui e Acolá. Além disso, há muita movimentação no palco e coreografias repletas de elementos kitsch, que garantem o bom-humor da encenação. A peça dura 1h30.

“Nós não sabíamos do problema com o ar-condicionado. Como estávamos bastante focados com a estreia, no sábado, ensaiamos sem refrigeração, mas achamos que o equipamento seria ligado à noite. Parte do elenco já foi se maquiar no camarim do Teatro Hermilo Borba-Filho (equipamento que, com o Teatro Apolo, integra o Centro Apolo-Hermilo), porque era impossível permanecer no camarim do Apolo sem ar-condicionado. Quando entramos em cena, logo percebemos que o problema era grave. De todos os ângulos, víamos as pessoas se abanando e na segunda cena já estávamos sofrendo”, explica Jorge de Paula, encenador e intérprete do pai da mocinha.

No sábado, havia 121 pessoas na plateia (a capacidade da plateia, sem contar a galeria do teatro, é de 275 pessoas); no dia seguinte, foram 50 espectadores. No domingo, o público já foi avisado com antecedência que o ar-condicionado não estava funcionando. O ator Tiago Gondim, que já fez parte do elenco da peça, assistiu à montagem na noite de ontem. “É uma falta de respeito com o público e com os próprios atores. Não há mais desculpas”, comentou.

Ao final das duas sessões, os atores compartilharam com a plateia a dificuldade de encenar a peça; citaram o compromisso que a Prefeitura do Recife e o Governo do Estado, noutra escala, precisam ter com os equipamentos culturais da cidade e do estado.

O Apolo é o teatro mais antigo do Recife. Foto: Pollyanna Diniz

O Apolo é o teatro mais antigo do Recife. Foto: Pollyanna Diniz

“A equipe do teatro é bastante comprometida, prestativa, tenta fazer o melhor. Mas não há vontade política e pulso administrativo. O teatro e o camarim têm cheiro de barata. Enquanto montávamos o cenário, matamos baratas no palco. Não tem uma luz funcionando no espelho do camarim”, reclama a produtora e atriz Iara Campos, que interpreta Clotilde. “Estamos falando de uma situação de descaso que é generalizada. E que mostra o quanto a classe artística está desmobilizada e o quanto não somos representados pelo sindicato, que não tem atuação”, complementa.

De acordo com a produção do espetáculo, se a questão do ar-condicionado não for solucionada, a temporada será cancelada. “Do jeito que está, não dá. É uma condição desumana. A gente não tem como trabalhar dessa maneira. Espero que o Apolo não siga o caminho do Parque e do Barreto Júnior”, torce Tatto Medinni.

Mais problemas – Outros equipamentos geridos pela Prefeitura do Recife também enfrentam problemas. No ano passado, durante uma sessão da peça Incêndios no Teatro de Santa Isabel, um dos 14 teatros-monumento do país, o público sofreu com a falta de refrigeração. Uma espectadora chegou a questionar em voz a alta a secretária de Cultura do Recife, Leda Alves, que estava na frisa da Prefeitura. Leda respondeu fazendo sinal para baixo com o polegar, indicando que realmente não estava funcionando, algo que todos já haviam percebido.

O Teatro Barreto Júnior, localizado no bairro do Pina, está fechado desde novembro de 2014. Motivo principal: falta de ar-condicionado. A Federação de Teatro de Pernambuco (Feteape), publicizou que foi avisada com menos de 15 dias da abertura da 17ª edição do Todos Verão Teatro, que a Fundação de Cultura Cidade do Recife não dispunha de verba para a locação do equipamento de climatização do Barreto Júnior. Isso foi no começo de março.

O estado do centenário Teatro do Parque é ainda mais grave. O equipamento está fechado desde 2010 e teve a reforma suspensa desde julho do ano passado, seis meses depois de ter sido iniciada. O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) cobra na Justiça estadual a retomada da obra de restauração, para evitar a ruína total de um prédio protegido por lei, já que o Teatro do Parque é considerado Imóvel Especial de Preservação (IEP) pela Prefeitura do Recife.

O ator e produtor cultural Oséas Borba Neto, que está à frente das denúncias pela defesa do Parque, garante que o teatro perdeu três pianos devido ao ataque de cupins: um Steinway e dois Essenfelder. Borba Neto criou uma petição pelo tombamento pelo IPHAN do Cine-Teatro do Parque, que fez 100 anos em agosto de 2015 e é o único representante em Pernambuco do grupo de Teatros-Jardins Brasileiros. A petição pode ser assinada no link www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR89351

Resposta da Prefeitura do Recife – De acordo com a Secretaria de Cultura do Recife, o ar condicionado do Teatro Apolo parou de funcionar no dia da estreia do espetáculo e “a direção do Centro Apolo-Hermilo está fazendo o levantamento para efetuar o conserto até a próxima sexta-feira”. Sobre o Teatro Barreto Júnior, finalmente há alguma previsão: “o equipamento já foi licitado e a obra deve começar na próxima segunda-feira, 11. A conclusão dos serviços está prevista para a primeira semana de junho”.

A nota responde ainda os questionamentos sobre o Teatro do Parque. “A Prefeitura do Recife, por meio do Gabinete de Projetos Especiais, esclarece: o Teatro do Parque vem ao longo de muitos anos sofrendo um processo sério de degradação. Por isso, a primeira etapa já realizada diz respeito ao trabalho que sanou os problemas encontrados na estrutura da edificação a partir da substituição de toda a cobertura do teatro. Essa etapa sanou os problemas de infiltrações que comprometia a estrutura do patrimônio. Esse trabalho também revelou características do equipamento até então desconhecidas e encobertas por outras reformas. A partir daí, foi necessário realizar uma investigação mais aprofundada sobre as características originais do teatro, que contemplou a segunda fase das obras de reforma do Teatro do Parque. Para realizar a obra de maneira a contemplar as especificidades de restauro, a Prefeitura do Recife fará novo processo de licitação que deverá acontecer dentro de aproximadamente 60 dias. A obra está orçada em cerca de R$ 13 milhões. Ressaltamos ainda que, para resguardar o patrimônio, é mantido serviço de segurança no local”.

*Texto escrito por Ivana Moura e Pollyanna Diniz

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Engolindo baratas: atriz questiona falta de pagamento da Prefeitura do Recife

Atriz apresentou leitura dramatizada em agosto e ainda não recebeu pagamento. Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR

Atriz apresentou leitura dramatizada em agosto e ainda não recebeu pagamento. Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR

Entra governo e sai governo e parece que as coisas mudam muito pouco. Aqui mesmo no Satisfeita, Yolanda? algumas (muitas) vezes já fizemos matérias cobrando pagamentos de cachês atrasados. Artistas que trabalharam e não tiveram suas atividades remuneradas; ou que levaram meses e passaram por muito constrangimento até conseguir o que era simplesmente um direito. Agora a história se repete. Mais uma vez. Luciana Lyra utilizou as redes sociais neste sábado (18) para protestar e fazer um apelo às autoridades. A atriz e diretora participou da abertura da programação da 12ª edição do Festival Recifense de Literatura A Letra e A Voz, realizado pela Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura Cidade do Recife, com curadoria do jornalista Schneider Carpeggiani.

Sob direção de Newton Moreno, a atriz apresentou a leitura dramática A Paixão segundo GH que, inclusive, voltou aos palcos recentemente em São Paulo. A apresentação criada especialmente para o festival no Recife foi no mês de agosto do ano passado e, até agora, nem sinal de pagamento de cachê. “(…)Por meio da intensidade das palavras da escritora, engoli barata e ‘dei inocentemente a mão ao público, e porque eu a segurava é que tive coragem de me afundar’. Tive a competente direção de Newton Moreno respondendo ao convite delicado do curador Schneider Carpeggiani. Ainda para completar o cuidado todo dedicado à leitura dramática realizada em homenagem ao romance de Clarice, tive produção de Karla Martins, indumentária de Fabiana Pirro e música de Ricardo Braz”, escreveu Luciana Lyra.

“Infelizmente o mesmo cuidado que empregamos na lida com este lindo público e com o evento, não teve a Fundação de Cultura da Cidade do Recife, da Prefeitura do Recife, em fazer o pagamento desses artistas a espera há longos oito meses”, continuou. Segundo Luciana Lyra, há pelo menos seis meses uma nota fiscal foi entregue à Prefeitura, mas “não tivemos sequer retorno ou satisfação dos coordenadores do Festival acerca do pagamento por nossa atuação em terreno pernambucano”.

Schneider Carpeggiani durante entrevista coletiva que anunciou a programação do festival. Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR

Schneider Carpeggiani durante entrevista coletiva que anunciou a programação do festival. Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR

O jornalista Schneider Carpeggiani, que fez pela terceira vez a curadoria do festival, também usou as redes sociais para se manifestar. “Como curador passei um tempão tentando ajudar os convidados do festival, que não conseguiam informações de quando ou se iriam receber. Mas acabei ficando sem conseguir essas informações para repassar, tanto quanto os outros. (…) Compartilho aqui a indignação de Newton e de Luciana, porque como curador a minha principal moeda é justamente a confiança das pessoas que eu convido para o meu trabalho, confiança que tanto o conceito vai ser bom quanto que elas vão receber”, escreveu.

Em entrevista ao blog, Carpeggiani ressaltou a falta de capacitação da equipe que compõe a Fundação de Cultura. Segundo o seu relato, um dos autores que participou do festival recebeu um e-mail dois meses após o evento, informando que ele só receberia se enviasse fotos comprovando que participou da programação de fato. “É preciso haver uma capacitação das pessoas que fazem parte atualmente da Fundação de Cultura, para que elas entendam o que estão fazendo. Há uma percepção que eles contratam não pessoas especializadas, mas técnicos, pessoas de ação. Só que para a realização de um festival é preciso que esses técnicos tenham noção não apenas de ação, mas de com quem e em relação a que estão trabalhando”, pontuou o curador, afirmando que a parte operacional e de produção durante o festival é competente. “Eles precisam saber quem é um Newton Moreno ou o que é A paixão segundo GH de Clarice, porque isso facilita o processo”.

Para o curador, que disse ter conhecimento de que outros artistas também não receberam, “não é só honrar com os compromissos. Além disso, as pessoas não podem se sentir constrangidas quanto ao fato de procurarem informações em relação ao pagamento”, concluiu.

Enviamos um e-mail para a assessoria de imprensa da Prefeitura do Recife para tentar algum esclarecimento com relação ao não pagamento dos convidados do festival A Letra e A Voz.

Mas será mesmo que é só esse festival que está sofrendo com a falta de compromisso do poder público? Que outros eventos ainda aguardam pagamento? Se você é artista e também não recebeu, comente! Quem sabe não conseguimos ampliar esse clamor na luta por respeito e dignidade?

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