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Calvário de Frei Tito

Wiliam Mendonça e Maria Vitória  interpretam Tito e sua irmã Nildes de Alencar. Foto: Gustavo Portela

Wiliam Mendonça e Maria Vitória interpretam Tito e sua irmã Nildes de Alencar. Foto: Gustavo Portela

X Festival de Teatro de Fortaleza

Por uma hora e meia o público faz uma viagem no tempo. A um passado recente e cruel da história brasileira. Da época da ditadura militar, do massacre, das ameaças, do confisco dos direitos individuais, de mortes e torturas. E também das resistências, das utopias, da dignidade de algumas criaturas como o frade Tito de Alencar Lima (1945-1974), dominicano cearense, militante político, que foi preso, torturado, exilado e cometeu suicídio na França. Frei Tito: Vida, paixão e morte é uma oportunidade de conhecer e se emocionar com essa personalidade. O espetáculo fez uma sessão domingo, no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno. A segunda apresentação dentro do X Festival de Teatro de Fortaleza é nesta terça-feira (25/11), no Teatro Dragão do Mar, às 20h.

Frei Tito é uma figura histórica que lutou pela liberdade e pagou com a própria vida. A trajetória do religioso já inspirou o filme Batismo de sangue, de 2007, do cineasta Helvécio Ratton, baseado no livro homônimo de Frei Betto. A montagem Frei Tito: Vida, paixão e morte, em Fortaleza, traz uma proximidade com as primeiras batalhas do visionário, com o local onde nasceu e onde ainda moram seus familiares.

A estrutura dramatúrgica está fincada no chamado teatro documental ou drama documentário, uma combinação de texto teatral com jornalismo, depoimentos, relatos, pesquisas, baseado em fatos reais. E foi assim que o dramaturgo e ator Ricardo Guilherme construiu seu texto, contextualizando o percurso do frei. A peça obteve menção honrosa no Concurso Internacional de Obras Teatrais do Terceiro Mundo, da Unesco, em 1987. Alguns ajustes foram feitos depois.

A encenação do grupo Formosura de Teatro tem direção de Graça Freitas e tem um cenário minimalista. O Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, com suas paredes escuras, já contribuiu para criar um ambiente soturno proposto pela encenação. A diretora utiliza como principal objeto de cena um armário de aço, com quatro gavetas, utilizado em repartições públicas, inclusive em delegacias. O objeto tem várias utilidades no espetáculo, reforçando a ideia de prisão, mas também servindo como mala, por exemplo.

A história por si só já é de grande apelo dramático. O dramaturgo Ricardo Guilherme faz contrapontos com a situação do país naquela época, das propagandas utilizadas pelo governo, e que ele declama ou canta no pequeno tablado. Ele também faz comentários, como uma espécie de locutor, a pontuar o que aconteceu ano a ano, canções exploradas no período e até o clima do futebol e do país gigante.

Passado terrível da história brasileira é contado em montagem do grupo Formosura de Teatro. Foto: Jotacílio Martins

Passado terrível da história brasileira é mostrado pelo grupo Formosura de Teatro. Foto: Jotacílio Martins

A força do texto é defendida com vigor pelo elenco. A interpretação do ator Wiliam Mendonça, como Frei Tito, é primorosa. Ele trabalha as nuances do caçula de uma família de 14 irmãos, criado pela mana Nildes de Alencar Lima. Do despertar para a política e para o bem-comum, até a militância contra o regime militar, a prisão, torturas, exílio e as feridas emocionais que geraram alucinações da perseguição do carrasco, que o levou ao suicídio na cidade de Lyon, na França, aos 28 anos de idade.

O público acompanha o calvário do cearense, que sai de Fortaleza para estudar no Recife, e depois segue para Minas Gerais e São Paulo, para cursar Filosofia, na Universidade de São Paulo (USP). Ele foi preso junto com outros militantes no lendário XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (Une), em Ibiúna, interior de São Paulo, em 1968.

Maria Vitória interpreta a irmã amorosa e protetora Nildes de Alencar, preocupada com a ousadia política do irmão idealista. As várias facetas dessa mulher determinante na vida de Tito são defendidas com dignidade pela atriz, com densidade. O ator Leonardo Costa interpreta três personagens, sendo um deles, o torturador.

Graça Freitas conduz as cenas com segurança e equaliza bem a emoção. Explora imagens poéticas, cria metáforas no interior das cenas. Outro trunfo da montagem é a música de Rami Freitas, que acompanha a trama. Essa trilha ao vivo cria o clima, modela as cenas, intensifica movimentos e intensões. E joga a plateia a lidar com uma batida do que seria uma tortura.

Frei Tito: Vida, paixão e morte é uma experiência inesquecível. Emocionante e que permite ao espectador vivenciar o que foram aqueles episódios sombrios.

Memória das atrocidades cometidas durante a ditadura  militar brasileira. Foto:  Jotacílio Martins

Memória das atrocidades cometidas durante a ditadura militar brasileira. Foto: Jotacílio Martins

Serviço:
Frei Tito: Vida, paixão e morte
Grupo Formosura de Teatro
Direção: Graça Freitas
Texto: Ricardo Guilherme
Elenco: Wiliam Mendonça, Maria Vitória, Leonardo Costa, Ricardo Guilherme e Rami Freitas (músico)
Quando: dia 25/11/14, às 20h
Onde: Teatro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema, Fortaleza – CE)
Informações: (85) 3488-8600

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