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Magiluth vasculha política nos laços afetivos

Apenas o Fim do Mundo, com o Grupo Magiluth, estreou no Sesc Avenida Paulista e celebra os 15 anos da trupe. Fotos: Cacá Bernardes / Divulgação

A ação se passa num domingo

Dormi, e sonhei, envolta nas pulsações de Apenas o Fim do Mundo, espetáculo do Grupo Magiluth, a partir do texto Juste la Fin du Monde, do francês Jean-Luc Lagarce. Esses sonhos atravessados por pesadelos sinistros ocorreram ontem, semana passada ou durante todo o ano. As irrupções temporais embaralham essa narrativa complexa e propõe uma experiência rica de sensações no espaço, na memória, na ficção.

O amor em sua plenitude, o que inclui camadas feias, deterioradas, todas as vulnerabilidades desse sentimento – que não cabe em si e por isso mesmo precisa do outro para circular – ronda a temática dessa peça. É uma montagem dura e terna, libertadora, mas dolorida. E nos empurra a um mergulho profundo para enxergar os rastros, os reflexos, os sinais que imprimimos nos mais chegados. É assustador o que as palavras e os silêncios podem causar.

Apenas o Fim do Mundo, em cartaz no 13º andar do Sesc Avenida Paulista até 5 de maio, maximiza o risco, essa ousadia que a trupe recifense se impõe paulatinamente nos 15 anos de trajetória. O Magiluth iniciou as comemorações dos 15 anos com uma “ocupação” no Sesc Avenida Paulista. Foram apresentadas as montagens do repertório Aquilo Que Meu Olhar Guardou para Você (2012) e Dinamarca (2017). Além de oficinas e uma roda de conversa sobre o teatro nordestino (com Fernando Yamamoto e eu, Ivana Moura) .

Com o texto de Lagarce, a palavra comanda o desafio. O dito e o não-dito com sua dor acumulada ao longo dos anos na teia de uma família. De uma escrita delicada e sofrida, de uma economia lírica e avassaladora.

Eu entendi que esta ausência de amor de que me queixo e que foi para mim sempre a única razão das minhas covardias,
sem que nunca até então a tivesse percebido,
que esta ausência de amor fez sofrer sempre mais os outros do que eu. Luiz, fala de Apenas o Fim do Mundo

Entendo que o Magiluth não renuncia ao aspecto político de suas investigações anteriores. Vislumbro um deslocamento de rota, uma escavação rumo à formação do núcleo duro do poder, o treinamento dessa atuação política – a estrutura familiar. Longe de ser o paraíso na Terra, a família é uma coisa assombrosa, prodigiosa, impregnada de sentimentos que vão dos mais sublimes aos mais sórdidos.

É na essência da família onde tudo começa e prossegue em movimentos sem trégua. A peça convoca para investigações do que é família. De que laços emotivos e de compromisso estão repletas essas ideias. A concepção psicanalítica de família concebida por Freud postula-a como uma instituição humana duplamente universal. Lacan atribui à família a responsabilidade de agenciar o procedimento de humanização do indivíduo, pela invenção da subjetividade.

É evidente que os novos contextos fazem composições de famílias bastante diferentes em questões de estrutura e dinâmica – homoparentais; transparentais, monoparentais, famílias instituídas pela ciência.

Cena simultânea em dois planos

“… diante de um perigo extremo, imperceptivelmente, sem
querer fazer barulho ou cometer um gesto muito violento que acordaria o inimigo e que te destruiria imediatamente,

assumindo o risco e sem nunca ter esperança de sobreviver,
apesar de tudo,
no ano seguinte,
eu decidia voltar a vê-los, voltar atrás,
voltar sobre os meus passos e fazer a viagem,
para anunciar, lentamente, com cuidado, com cuidado e precisão

a minha morte próxima e irremediável…”  Luiz, fala de Apenas o Fim do Mundo                                                                                                                            

Enquanto outras produções do grupo estão impregnadas de preocupações políticas explícitas, da militância ou de referências a movimentos espalhados pelo mundo, em Apenas o Fim do Mundo esse caráter escorre pelas brechas de uma possível política que atinge corpos individuais nas guerras executadas contra alguns.

Jean-Luc Lagarce morreu jovem, aos 38 anos, em 1995, vítima da Aids. Há, possivelmente, qualquer coisa de autobiografia em Apenas o Fim do Mundo. O protagonista da peça – Luiz – está doente, com uma perspectiva de morte próxima, mas que nunca é nomeada no texto.

Luiz (Pedro Wagner) volta à casa materna, depois de uma dúzia de anos fora, para contar que tem uma doença terminal. Ele nos conta – a nós espectadores – mas não fala para a família. Dá pra conjecturar sobre a parábola do filho pródigo.

A Mãe (Erivaldo Oliveira) utiliza todas as estratégias para que Luiz se sinta bem-vindo. O irmão Antônio, guarda mágoa pelo que considera abandono, e reage com pequenas explosões de violência. A irmã Suzana, uma quase desconhecida para Luiz, oscila entre a mágoa e a excitação. Para completar o quadro, Catarina, a atenta mulher de Antônio, que também não conhecia o cunhado.

Erivaldo Oliveira faz A Mãe

Pedro Wagner faz Luiz

Em Necropolítica (N-1 Edições), o filósofo e pensador camaronês Achille Mbembe segue o pressuposto de “que a expressão máxima da soberania reside em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer”, razão pela qual “matar ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais.”

Então “ser soberano é exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implantação e manifestação de poder.” Nessa visada “a soberania é a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é ‘descartável’ e quem não é.”

Mas o que isso tem a ver com Apenas o Fim do Mundo, uma peça escrita por um francês em 1990, traduzida para o português por Giovana Soar, em 2005, sobre um filho que retorna à casa materna para anunciar sua morte próxima? O que uma reunião familiar que fala sobre o amor diz sobre quem importa e que não importa?

Projeção no começo da peça

No início das apresentações são projetadas poucas frases. Uma diz respeito à Aids e aos riscos atuais.

Na página da Fiocruz, do Ministério da Saúde, está exposta uma linha do tempo sobre a epidemia da Aids.

Alguns tópicos:
1977/78 – Estados Unidos, Haiti e África Central apresentam os primeiros casos da infecção, definida em 1982;
1982 – Confirmação do primeiro caso de Aids no Brasil e identificação da transmissão por transfusão sanguínea. Adoção temporária do termo Doença dos 5 H – Homossexuais, Hemofílicos, Haitianos, Heroinômanos (usuários de heroína injetável), Hookers (profissionais do sexo em inglês).
1983 – Uma reportagem publicada no jornal Notícias Populares traz como manchete: Peste-Gay já apavora São Paulo. É a pior e a mais terrível doença do século – dois brasileiros mortos.
1986 – Criação do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde.
1989 – Pressionada por ativistas, a indústria farmacêutica Burroughs Wellcome reduz em 20% o preço do AZT no Brasil.
1990 – Cazuza morre aos 32 anos. Mais de 6 mil casos de Aids são registrados no país.
1991 – O Ministério da Saúde dá início à distribuição gratuita de antirretrovirais. A OMS anuncia que 10 milhões de pessoas estão infectadas pelo HIV no mundo. No Brasil, 11.805 casos são notificados
1997 – Morre o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.
1999 – O Governo Federal divulga redução em 50% de mortes e em 80% de infecções oportunistas, em função do uso do coquetel anti-Aids. O Ministério da Saúde disponibiliza 15 medicamentos antirretrovirais.
2003 – O Programa Brasileiro de DST/Aids recebe prêmio de US$ 1 milhão da Fundação Bill & Melinda Gates em reconhecimento às ações de prevenção e assistência no país, que abriga 150 mil pacientes em tratamento.
2004 – Recife reúne quatro mil participantes em três congressos simultâneos: o V Congresso Brasileiro de Prevenção em DST/Aids, o V Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids e o I Congresso Brasileiro de Aids. Mais de 360 mil casos de Aids são registrados no país.

O Programa Nacional de HIV/Aids do Brasil é reconhecido, até o ano passado, como exemplo no mundo inteiro. Entidades do setor receiam retrocessos nos direitos conquistados e na prevenção à doença no governo de Jair Bolsonaro. Acendeu o sinal vermelho sobre o futuro das políticas de saúde no país.

Parece-me que o Magiluth também fala sobre isso. Dos corpos ameaçados, do que estão na mira para serem destruídos, apagados. E as políticas públicas definem muitos desses caminhos. Para os alvos preferencias, as lutas são incessantes. E suponho que tudo começa na família.

Numa das conversas da família de Apenas o Fim do Mundo, Catarina, a cunhada, conta sobre os filhos. O menino carrega o nome de Luiz.

CATARINA – Ele tem o nome do pai de vocês,
eu acho, nós achamos, nós achávamos, eu acho que é bom,
isso era do gosto do Antônio, era uma coisa, uma coisa que ele, que ele fazia questão,

Na minha família há o mesmo tipo de tradição, …
o nome dos pais ou do pai do pai do filho macho, o primeiro rapaz, essas histórias todas.
E depois,
e já que você não tinha filhos,

o Antônio diz que você não vai ter
já que você não tem nenhum filho,
é sobretudo por isso,
já que você não vai ter nenhum filho,

parecia lógico,
foi o que nos dissemos, que nós o chamássemos Luiz,
como o seu pai, e, portanto, como você.

ANTÔNIO: Mas você continua sendo o mais velho, não há dúvida nenhuma em relação a isso.

Não há luta política confessada no texto de Lagarce. As conspirações, boicotes e desejos inconfessáveis de vingança vêm pela via do afeto, dessa ligação mais íntima com os parentes, nutridos por um cromatismo de amor.

A cidade de São Paulo entra pelas vidraças

(o que eu quero dizer)
«no fim das contas»
como que por desencorajamento, como que por cansaço de mim,
que eles me abandonaram sempre porque eu peço o abandono
Eu acordava com a ideia estranha e desesperada e indestrutível também
de que me amavam vivo como gostariam de me amar morto
sem nunca poder nem saber me dizer nada. Luiz, fala de Apenas o Fim do Mundo

A direção compartilhada entre Giovana Soar – que traduziu o texto para uma montagem da Companhia Brasileira de Teatro em 2005, e Luiz Fernando Marques, Lubi, do grupo XIX maximiza competências. Giovana traz um olhar denso para o texto, uma atenção sutil aos detalhes periféricos, o cuidado com a fala e as inflexões, ampliando as possibilidades de leitura desse peça complexa e profunda. Lubi tratou da encenação, da ocupação do espaço cênico, inventou ambientes da cena naquela sala multiuso com uma criatividade impressionante. As cenas – nascem e desaparecem – em cada canto, com os solilóquios das personagens. Eles desenvolvem uma direção envolvente, compõem com seus atores cenas admiráveis.

A disposição das situações nos cômodos fechados de uma casa e as dinâmicas entre as cenas são bem solucionados na apropriação da sala multiuso do Sesc Avenida Paulista. A varanda iluminada se abre para a cidade, remetendo ao confronto Metrópole/província e de suas articulações e projeções de desejos das personagens. É uma das paisagens mais icônicas de São Paulo e isso remete a muitas reflexões sobre poder, capitalismo, máquinas desejantes. O espetáculo foi erguido a partir da ideia de site specific, segundo o grupo.

Site specific é um termo utilizado há décadas para designar obras traçadas de acordo com o espaço na sua concepção e execução, transformando ou incorporando o espaço ao trabalho. Atualmente pode ser qualquer trabalho cênico que ocorra fora de um teatro tradicional.

No fundo, a solidão de tudo

A trajetória do Magiluth está pontuada por criações de dramaturgias próprias, montagens irreverentes de textos consagrados, com direito ao improviso, aos exageros, a expansões de teatralidades. Em Apenas o Fim do Mundo o risco passa pela contenção. É na moderação que reside o desafio. “A dramaturgia de Lagarce é poderosa, preponderante, quase insuportável”, escreve Giovana Soar no programa.

A palavra é um olho d’água que o elenco trata com sensibilidade para facilitar o rio caudaloso. Os atores fazem o jogo da presença com sutileza nas minúcias, nas ondulações. A violência interna das personagens garante uma dimensão profunda e dolorosa.

Espaço mínimo cria sensação de sufocamento

Após muitos anos longe da casa materna, sem contato com seus parentes, o escritor Luiz volta a sua cidade natal, para um almoço em família. Ele iria falar sobre morte iminente. É um domingo, mas poderia ser a vida inteira, porque os procedimentos são os mesmos. Ao encarar o peso da figura materna, sua – praticamente desconhecida – irmã mais nova Suzana, seu ciumento irmão Antônio, e sua cunhada Catarina, ressentimentos vem à tona.

Todos os artistas brilham: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral e Pedro Wagner. Todos usam roupas do cotidiano, inclusive os que defendem personagens femininas. As palavras reverberam no corpo e no espaça. Esse texto não realista, inspirado em analogias realistas permite que os artistas potencializem a presença.

Pedro Wagner carrega um Luiz contido, que emana ondas de sentimentos em seus silêncios, em sua concentração. O motor do seu “ganhar o mundo” não fica claro – o abandono de que os parentes falam. Talvez o fato de ser homossexual tenha sido decisivo para a partida. Enquanto o prestígio do dramaturgo crescia, lá fora, a família acompanhava suas vitórias através do noticiário. O escritor só enviava cartões postais nos aniversários com duas ou três frases.

o que a gente espera,
é que o resto do mundo desapareça com a gente,
que o resto do mundo poderia desaparecer com a gente,
se apagar, se devorar e não mais sobreviver à mim.

Na cena 10, Luiz quase silente abre as comportas das palavras:

Que vão fazer de mim quando eu não estiver mais aqui?
A gente gostaria de mandar, de reger, de aproveitar mediocremente da perturbação deles e conduzi-los um pouco mais.
A gente gostaria de ouvi-los, eu não os ouço,
obrigá-los a dizer besteiras definitivas
e saber enfim o que eles pensam.

A figura materna suporta um peso, do conflito do amor / ódio dessa família. Erivaldo Oliveira trabalha as contradições dessa Mãe, que tenta controlar as relações humanas nessa casa, vislumbrar os segredos, entender os silêncios, as meias-verdades, as omissões.

Há diálogos incríveis e solilóquios arrebatadores para todos os papéis.

Acerto de contas entre os irmãos Antônio (Mário Sergio, em pé) e Luiz (Pedro Wagner, de costas)

Bruno Parmera faz a irmã Suzana

Mário Sergio Cabral é irmão de Pedro Wagner e são também manos na ficção. Na pele de Antônio, Mário Sérgio eleva o grau da emoção nas cenas de desabafos, que jorram de uma fonte profunda.

Suzana, a irmã, é feita por Bruno Parmera, que idealiza e deseja a vida do mais velho da prole. Giordano Castro aproveita bem o nervosismo e a submissão da cunhada, Catarina, com nuances interessantes. Giordano também investe no contraponto mais humorado em algumas cenas, para dar um respiro a tanta tensão. Lucas Torres não dispõe de nenhum papel, mas cuida das mudanças de cenas, deslocando objetos, respondendo pela contrarregragem e tocando bateria na banda.

Mesmo o fato do elenco tocar mal os instrumentos da banda parece uma camada a mais. Enquanto a trilha sonora gravada assume a função de criar ambientes, a música tocada bate em outro lugar. Esse som causa ruído… desconforto… como os insuportáveis incômodos que famílias de LGBTS provocam nos encontros que deveriam ser festivos. Aqueles vigilantes mais próximos do desejo alheio… esses seres que trafegam freneticamente entre a intimidade e a estranheza.

Na peça experimentamos estados de desconforto, nervosismo, sensação de sufocamento. Claustrofobia que vem deles e atinge o público. Os monólogos na tentativa de diálogos são fulminantes. O estranho familiar, de que fala Freud, produz esse sentimento de ultrapassagem, como o atropelamento de um estranho nem tão desconhecido assim.

Carregando o desassossego desse corajoso e implacável espetáculo intuo que a melhor opção ainda seja o amor, mesmo em segredo, mesmo que não pareça justo, mesmo que machuque.

Ficha técnica

Direção: Giovana Soar e Luiz Fernando Marques
Assistência de direção: Lucas Torres
Dramaturgia: Jean Juc-Lagarce
Atores: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sérgio Cabral e Pedro Wagner
Desenho de luz: grupo Magiluth
Direção de arte: Guilherme Luigi
Fotografia: Estúdio Orra
Design Gráfico: Guilherme Luigi
Realização: Grupo Magiluth

Serviço:
Apenas o fim do mundo
Quando: de 11 de abril a 5 de maio, de quinta a sábado, às 21h, e aos domingos, às 18h. Sessões extras: 1º/05 (quarta-feira), às 18h; 2/5 (quinta), 3/5 (sexta) e 4/5 (sábado), às 17h. Até 05/05
Onde: Sesc Avenida Paulista– Arte II (13º andar)
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Duração: 1h40 min

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Magiluth: uma nova peça para falar de amor

Magiluth comemora 15 anos com a estreia de Apenas o fim do mundo. Foto: Estúdio Orra

Grupo pernambucano comemora 15 anos com a estreia de Apenas o fim do mundo. Foto: Estúdio Orra

Desde os últimos dias do mês de março, o 13º andar do Sesc Avenida Paulista, inaugurado em abril do ano passado em São Paulo, é ocupado pelos atores do Magiluth. Através das paredes envidraçadas, a cidade se exibe, apressada e urgente, como sempre, a partir de uma das paisagens mais icônicas da capital. Do lado de dentro, apesar da aparente proteção em meio ao caos, também há urgências e a rotina está exaustiva. Prazerosa, desafiadora, mas exaustiva. Além de apresentar os espetáculos Aquilo que o meu olhar guardou para você e Dinamarca em semanas consecutivas e sessões sempre cheias, o grupo recebeu oficineiros que se inscreveram, interessados em acompanhar o processo de montagem do novo espetáculo, Apenas o fim do mundo, que estreia nesta quinta-feira (11), na mesma sala em que foi criado.  

A ação se passa em um domingo, ou ainda, ao longo de quase um ano inteiro, somos avisados logo no início do texto do francês Jean Luc-Lagarce. Talvez tenha sido mais ou menos assim a gestação de Apenas o fim do mundo. Em julho do ano passado, já tendo se aproximado da dramaturgia, o grupo fez uma residência artística no mesmo Sesc Paulista, aberta a interessados, com Giovana Soar, que traduziu o texto para uma montagem da Companhia Brasileira de Teatro em 2005, e Luiz Fernando Marques, Lubi, do grupo XIX. Em outubro, numa parceria com o Feteag, uma nova residência artística, desta vez no Centro Cultural Benfica, no Recife. Nos dois momentos, o processo contou com a apresentação de ensaios abertos ao público. Os atores passaram ainda duas semanas no sítio Valado, em Chã Grande, a 80 km da capital pernambucana, ao redor de uma mesa, dedicados ao texto.

Apesar de muito coerente com a trajetória do grupo, a escolha de montar essa dramaturgia é uma tarefa de grandes proporções para o Magiluth. “Como atores, eles nunca tinham encarado um texto com essa complexidade, tanto em tamanho quanto em profundidade e formalismo”, explica Giovana, que assume a direção ao lado de Lubi. A atriz, diretora e tradutora conheceu o grupo no Rumos Teatro, em 2011. Antes da estreia de Viúva, porém honesta, assistiu aos ensaios, mas trabalhou mais diretamente com os atores durante o processo de Dinamarca. Já com Lubi, a parceria vem desde a direção de Aquilo que o meu olhar guardou para você (2012).

Acostumados a trabalhar com dramaturgias próprias ou mesmo com adaptações, mas em processos mais livres, que permitiam, por exemplo, o improviso, os atores agora encaram palavras que precisam ser ditas com cuidado, para que não corram o risco de se perderem ou de não alcançarem a devida dimensão. “Eles estão acostumados a uma dramaturgia muito mais coloquial, a falar a palavra que querem, a colocar um caco, fazer piada com o cotidiano, e isso está proibido! Eu tenho sempre um chicote na mão!”, brinca Giovana.

Dramaturgia é do francês Jean Luc-Lagarce

Dramaturgia é do francês Jean Luc-Lagarce

Apenas o fim do mundo é um texto vertical, que esmiúça sentimentos a partir de uma relação familiar. Luiz decide reencontrar a mãe, o irmão e a irmã ao se deparar com a iminência da morte. Basicamente, é uma peça sobre o amor. Uma observação interessante é que Pedro Wagner e Mário Sérgio Cabral, irmãos na vida real, serão irmãos também na ficção. Pedro faz Luiz; Mário é Antônio; Erivaldo Oliveira é a mãe; Suzana, a irmã, é feita por Giordano; e a cunhada, Catarina, ficou com Bruno Parmera. Lucas Torres não está com nenhum personagem, mas é fundamental para o espetáculo, avisa Giovana. “Eles têm uma coisa louca de fazerem tudo! Não tem técnico de luz, de som, eles montam tudo, operam tudo! Por isso Lucas é uma peça primordial”.

Diante da iminência da morte, Luiz (Pedro Wagner) reencontra a família

Diante da iminência da morte, Luiz (Pedro Wagner) reencontra a família

Mesmo com o rigor no trabalho com a palavra, o jogo que é a base da performatividade do grupo se revela na construção das cenas. O espetáculo foi erguido a partir da ideia de site specific, da apropriação do espaço, explica o ator Giordano Castro. “Essa estreia será de muitas descobertas. Nunca vamos ter um espetáculo fechado: ele vai acontecer aqui em São Paulo, mas não necessariamente vai acontecer do mesmo jeito no Recife. Estamos usando o espaço, com o que ele nos proporciona. Em cada lugar que a gente chegar, vamos ter que repensar o trabalho novamente. Isso é muito doido!”, comenta.

A expectativa é que o Recife só veja a peça no segundo semestre. “Estamos terminando uma pesquisa sobre o bairro de São José, vamos fazer a criação de parte do roteiro de uma série em parceria com Hilton Lacerda, e ainda queremos fazer um novo espetáculo de rua. No meio disso tudo, tem a comemoração dos 15 anos do grupo. Pretendemos apresentar algumas peças do repertório e o trabalho novo”, adianta.

A temporada em São Paulo vai até 5 de maio. Antes disso, entre os dias 17 e 20 de abril, os atores ministram uma oficina intitulada “Jogo Total”. As inscrições já estão encerradas. No dia 17, às 20h30, haverá um bate-papo com Ivana Moura, uma das editoras do Satisfeita, Yolanda?, e o diretor do grupo Clowns de Shakespeare, de Natal, Fernando Yamamoto, sobre “Os últimos 15 anos de teatro no Nordeste”. A entrada é gratuita.

Ficha técnica

Direção: Giovana Soar e Luiz Fernando Marques
Assistência de direção: Lucas Torres
Dramaturgia: Jean Juc-Lagarce
Atores: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sérgio Cabral e Pedro Wagner
Desenho de luz: grupo Magiluth
Direção de arte: Guilherme Luigi
Fotografia: Estúdio Orra
Design Gráfico: Guilherme Luigi
Realização: Grupo Magiluth

Serviço:
Apenas o fim do mundo
Quando: de 11 de abril a 5 de maio, de quinta a sábado, às 21h, e aos domingos, às 18h
Onde: Sesc Avenida Paulista
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Duração: 1h40 min

 

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Aquilo que o meu olhar guardou para você, do grupo Magiluth

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Fotos do espetáculo Aquilo que o meu olhar guardou para você, do grupo Magiluth, feitas no dia 11 de maio, durante sessão no Teatro de Contêiner Munguzá, em São Paulo, por Blenda Souto Maior.

*Blenda Souto Maior é pernambucana, atualmente moradora de São Paulo. Fotógrafa freelancer, também se dedica à arte-educação. No Recife, atuou como fotojornalista, integrando a equipe do jornal Diario de Pernambuco.

Ficha técnica do espetáculo:

Aquilo que o meu olhar guardou para você
Direção: Luiz Fernando Marques e grupo Magiluth
Dramaturgia: Giordano Castro
Atores: Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sérgio Cabral e Pedro Wagner Direção de Arte: Thaysa Zooby e Guilherme Luigi
Iluminação: Pedro Vilela
Projeto Gráfico: Guilherme Luigi
Produção e Realização: Grupo Magiluth

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Derivas erótico-sociológicas de Túlio Carella

Orgía Ou De Como Os Corpos Podem Substituir As Ideias, do Teatro Kunyn

Orgía Ou De Como Os Corpos Podem Substituir As Ideias, do Teatro Kunyn

Foi nos anos 1960, na cidade do Recife, que um discreto professor universitário deixou emergir seus secretos desejos homoeróticos e mergulhou na prática homossexual registrada em detalhes no seu caderno. Essas memórias são descritas no livro Orgia, Os Diários de Tulio Carella. A publicação inspirou o Teatro Kunyn, dirigido por Luiz Fernando Marques, a montar a peça itinerante Orgia ou De Como os Corpos Podem Substituir as Ideias, que estreou em 2015. A encenação integra a programação do Trema! Festival de Teatro e faz três apresentações na cidade, de hoje a sexta-feira. A peça começa no Espaço Pasárgada e o público segue para um apartamento, onde será encenado o primeiro ato.

Nessa primeira parte, Carella (interpretado por Ronaldo Serruya, Paulo Arcuri e Luiz Gustavo Jahjah), está de malas prontas para viajar ao Brasil. Contratado pela Universidade Federal de Pernambuco, ele deixa a mulher em Buenos Aires e se encanta com os corpos de homens, do cais do porto e de outros pontos da cidade.O público participa dessa festa de despedida. De lá, segue até o Parque 13 de Maio, munido de aparelhos de MP3 para ouvir as falas sobre as descobertas do dramaturgo argentino.

Serruya, Arcuri e Jahjah circulam e contracenam com os 12 atores pernambucanos selecionados para a oficina Deriva. O espetáculo OrgÍa discute a homoafetividade na esfera pública e vasculha a reação da cidade diante da multiplicidade de desejos.

FICHA TÉCNICA
Criação: Teatro Kunyn (Luiz Fernando Marques, Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri e Ronaldo Serruya)
Direção: Luiz Fernando Marques
Atuação: Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri E Ronaldo Serruya
Dramaturgia Ato I e Ato Ii: Teatro Kunyn
Dramaturgia Ato Iii: Alexandre Dal Farra
Direção De Arte: Yumi Sakate
Iluminação: Wagner Antônio
Assistente De Iluminação: Robson Lima
Desenho De Som: Alessa
Produção: Fernando Gimenes
Realização: Teatro Kunyn E Lei De Fomento Ao Teatro Para A Cidade De São Paulo

SERVIÇO
Orgia Ou De Como Os Corpos Podem Substituir As Ideias
Teatro Kunyn (SP)
Quando: 10, 11 e 12 de maio, às 14h30
Onde: Espaço Pasárgada
Quanto: R$ 20 e R$ 10
Duração: 120 minutos
Recomendação: 18 anos

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Tempo de vida

Aquilo que meu olhar guardou para você, do grupo Magiluth, no Trema! Foto: Cecília Gallindo

“Teatro significa um tempo de vida em comum que atores e espectadores passam juntos no ar que respiram juntos daquele espaço em que a peça teatral e os espectadores se encontram frente a frente”. Essa definição de Hans-Thies Lehmann no prólogo do seu necessário Teatro pós-dramático ficou martelando depois da sessão de Aquilo que meu olhar guardou para você, no festival Trema, ontem à noite. Tempo de vida em comum. Vida que se entrelaça. Vida que pode ser real ou ficção, mas que é verdade, como diz o ator-personagem Pedro Vilela. Vida que emerge não só do palco, mas da plateia.

Geralmente digo isso quando escrevo sobre o Magiluth: como é bom vê-los em cena. Porque eles fazem por completo. São inteiros, se jogam sem rede de proteção. São fieis ao que defendem, não abrem concessões. E assumem as consequências disso.

Nessa montagem, que surgiu a partir de uma troca de fotografias com o grupo Teatro do Concreto, de Brasília, o ponto de partida até poderia ser a memória do lugares pelos quais eles passaram; seja a boate Metrópole ou a Estação Central do metrô do Recife. Essas referências estão lá. Mas são meros detalhes para uma colcha de retalhos; várias cenas curtas que vão compondo um dramaturgia fragmentada, não-linear, que se apoia no episódico e na ação daquele momento.

A dramaturgia é formada por várias cenas curtas

Pode ser um encontro, um desencontro, as partidas, o afeto imediato, a perda, a ilusão de completude, a memória da infância, a música que me traz tanta coisa à mente. Não é novela. Não precisa ter início-meio-fim.

No jogo teatral que se instala no palco e na plateia há cumplicidade. Tudo ali pode ser teatro (ou não, esse é o jogo) – mas é como se ainda houvesse, por parte do público, uma necessária busca pela ficção, por um história a ser contada. E aí nem sempre esses nós se amarram em Aquilo que meu olhar guardou para você. Talvez não fosse necessária a obrigatoriedade de usar o nome dos atores em cena. Pra quê eu preciso saber que aquele personagem é Giordano, Pedro, Erivaldo? Sim, em determinados momentos, quando o jogo se coloca mais declaradamente e eles até trocam de lugar, sim. Mas logo no começo da montagem, já que não é pra ter personagem tradicional, também não preciso de um nome. Seja um nome ficcional ou real.

Também não é sempre que as cenas conseguem convencer. Que o público consegue esquecer do jogo e, numa linha muito tênue, se entregar. Senti isso ontem no abraço entre Pedro Vilela e Giordano Castro; e, mais uma vez, na briga fake no meio do espetáculo. É como se descolasse da dramaturgia. E nesse espetáculo especificamente (senti isso bem menos no mais recente, Viúva, porém honesta, por exemplo) o elenco está em níveis diferentes. Pedro Wagner e Giordano Castro dão um salto na montagem quando estão em primeiro plano. Há ainda no elenco Pedro Vilela, Lucas Torres e Erivaldo Oliveira. A direção é de Luiz Fernando Marques, do grupo XIX.

Talvez o maior mérito da montagem é o que ela consegue fazer com o público. As surpresas que pode causar. A ida ao palco nos faz ver as coisas sob outro ângulo – mesmo que talvez isso pudesse ser melhor resolvido. (É preciso ser convidado a ir ao palco? Ou já estou no palco? Tenho que me predispor a levantar e a aceitar um convite? Ou poderia já estar lá de qualquer maneira? Não tenho nenhuma certeza sobre isso!). Mas ouvir a música predileta, ler uma carta endereçada a alguém da plateia, ter a oportunidade de estar no meio da dramaturgia – tudo isso encanta muito. E ver todo aquele público no Teatro Apolo numa terça-feira para um festival de teatro de grupo é muito, muito bom.

Pedro Vilela

Notes – Já vi Aquilo que meu olhar guardou pra você três vezes. No Hermilo Borba Filho, no Joaquim Cardozo e agora no Apolo. O melhor lugar é definitivamente o Hermilo. O público ganha muito com a proximidade maior com o espetáculo. Ontem a iluminação – que é linda; não funcionou como geralmente funciona. Talvez por problemas técnicos e do teatro mesmo.

Ficha técnica – Aquilo que meu olhar guardou para você

Direção: Grupo Magiluth e Luiz Fernando Marques
Dramaturgia: Giordano Castro
Atuação: Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Pedro Wagner e Pedro Vilela
Direção de arte: Guilherme Luigi e Thaysa Zooby
Iluminação: Pedro Vilela
Sonoplastia: Grupo Magiluth e Luiz Fernando Marques

Serviço:
Aquilo que meu olhar guardou para você
Trema! Festival de Teatro de Grupo do Recife
Quando: quinta-feira (11), às 21h
Onde: Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)

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