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Magia do circo para encarar vida Severina

Severinos . Foto: Fernanda Acioly

Lívia Lins e Madson de Paula no espetáculo Severinos, Virgulinos e Vitalinos. Foto: Fernanda Acioly / Divulgação

A alegria está na essência dos jovens integrantes da Dispersos Cia de Teatro, que levam essa matéria para suas montagens. Severinos, Virgulinos e Vitalinos, com texto e direção de Samuel Santos, é o segundo espetáculo do grupo, que produziu anteriormente uma ode à amizade  chamada Abraço – Nunca estaremos Sós. Severinos, Virgulinos e Vitalinos utiliza elementos da arte circense e da cultura popular para narrar uma história de busca, de dois jovens filhos de artistas, pelos pais que seguiram com o circo.

O musical estreou em novembro, dentro da programação do 18º Festival Recife do Teatro Nacional e esta crítica foi escrita a partir daquela apresentação. 

Três emblemas nordestinos estão no arcabouço da dramaturgia, a partir de João Cabral de Melo Neto (Severina, a morte), do cangaço (Virgulino, o Lampião) e da arte popular (Vitalino, o artesão). Um território rico em imagens e metáforas. Samuel Santos, o diretor convidado, se afasta neste trabalho da pesquisa com Antropologia Teatral, que desenvolve junto ao Poste, seu grupo, para investir numa proposta mais lúdica.

Lívia Lins e Madson de Paula interpretam Muriqueta e Tramboeta, figuras que sonham em descobrir o paradeiro dos pais mambembes. Os atores são acompanhados pelos músicos, Danielle Sena, Tiago Nunes, Leila Chaves, Victor Chitunda, com direção musical de Chitunda e Leila.

Lins e Foto: Ivana Moura

A peça tem texto e direção de Samuel Santos. Foto: Ivana Moura

As crias vão se descobrir artistas também, mas para isso percorrem um caminho tortuoso, em que enfrentam o clichê do que seria a saga nordestina: a morte pela seca e pela fome; a brutalidade humana e a falta de reconhecimento da arte popular.

A encenação segue pelas veredas, entre narrativas e diálogos dos dois atores, e a intervenção da banda. Lívia Lins e Madson de Paula usam microfones, fazem seus solos e mostram desenvoltura. Eles também se multiplicam em vários papéis, alguns mais convincentes do que outros.

Mas para mim há uma cena memorável, em que o diretor faz uma homenagem ao Auto das Sete Luas de Barros, de Vital Santos, montagem do Grupo Feira de Teatro Popular de Caruaru. Um momento rápido e brilhante como um meteoro.

Na estreia, no dia 20 de novembro, no Teatro Apolo, Severinos, Virgulinos e Vitalinos, pareceu mais longa que seu próprio fôlego. Alguns ajustes pareceram necessários naquela época, no que se refere a ritmo, andamento e duração.

A direção de arte de Álcio Lins ergue um picadeiro circense, com muitos elementos desse universo. Compõe com artefatos cênicos de fácil deslocamento, como também figurinos com peças-chave para a mudança de personagens e situações.

O projeto de iluminação é assinado por Cleison Ramos, que utiliza a técnica do “Laser Blisslight”. É uma luz muito poderosa, que está mais para o Circo de Soleil do que para as lonas itinerantes de médio porte que circulam pelo Nordeste.

É uma encenação jovial, folgazona, que se destaca pela garra e alegria do elenco – atores e músicos, pela riqueza dos detalhes, pelo trabalho autoral.

Mas a exultação se traduz na cena como algo próximo de uma imaturidade, refletida na exterioridade das personagens. Falta um peso aqui e ali, uma dor que traduza o desespero e a desesperança de algumas situações.

A parte dedicada a Severina se arrasta um pouco com conjunturas repetitivas. O excesso também pode ser notado em vários outros quesitos, da direção de arte, passando pelas interpretações e luz.

Esses excedentes tiram um silêncio necessário para dar respiro à obra. A abundância impede de enxergar uma beleza da falta, da carência, da solidão, do abandono de que eles falam.

Na estreia, narração, diálogos, música ainda não seguiam um fluxo contaminado uns pelos outros. Ainda havia demarcações estanques (inclusive com dispersão da banda) que impediam a fluidez plena da história.

Mas apesar dessas observações, Severinos, Virgulinos e Vitalinos tem vocação para fazer uma carreira próspera. Além das plateias adultas, um investimento em um público jovem, infanto-juvenil pode ter uma boa repercussão e instigar a formação de público. Munição, o grupo tem de sopra.

FICHA TÉCNICA
Texto e direção: Samuel Santos
Direção musical: Leila Chaves e Victor Chitunda
Direção de arte: Álcio Lins
Luz: Cleison Ramos
Cenotécnico: Felipe Lopes
Consultoria de mágicas: Rapha Santacruz
Preparação vocal: Leila Chaves
Produção executiva: Duda Martins
Coordenação de produção: Lívia Lins
Produção: Dispersos Produções Criativas
Bandinha: Leila Chaves (violão, banjo, zabumba, caixa, kazoo e efeitos), Victor Chitunda (violão, congas, kazoo e efeitos), Tiago Nunes (pandeiro, cajón, alfaia, kazoo e efeitos) e Danielle Sena (claves, triângulo, agogô, alfaia, kazoo e efeitos)
Atores: Lívia Lins e Madson de Paula

SERVIÇO
Severinos, Virgulinos e Vitalinos – Dispersos Cia. de Teatro (Recife/PE), dentro da programação do 23º Janeiro de Grandes Espetáculos
Onde: Teatro Apolo
Quando: 26 de janeiro de 2017 (quinta-feira), às 20h
Quanto: R$: 30,00 (Inteira) e 15,00 (Meia)
Classificação etária: a partir dos 12 anos
Duração: 1h20

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Elogio da amizade

Musical Abraço – Nunca estaremos sós, da Cia Dispersos. Foto: Fernanda Acioly

Musical Abraço – Nunca estaremos sós, da Cia Dispersos. Foto: Fernanda Acioly

“Um amigo de verdade é aquele que nos protege dos tormentos do amor, nos afasta da fúria raivosa, faz recuar a morte”, conceitua o filósofo e psicanalista francês Jean-Bertrand Pontalis. E isso é melhor do que a invisível capa protetora dos super-heróis, que sonhamos na infância. Mas os tempos são líquidos, as relações fluídas, os laços afetivos frágeis e os seres cada vez mais volúveis, como esclarece Zigmunt Bauman. E tantos equipamentos (Smartphone, tablets, computadores de todos os tamanhos) não conseguem nos proteger da solidão. E é para falar desse tema complexo – que Cícero defendia que só pode existir entre pessoas de bem – que a Dispersos Cia de Teatro ergueu seu primeiro musical, Abraço – Nunca estaremos sós. A peça encerra temporada neste fim de semana, no Teatro Hermilo Borba Filho.

Para fugir um pouco dessa liquidez, a trupe situou a história nos anos 1990, protagonizada por adolescentes que sonham em viver da música. Nos encontros constantes na casa do personagem Sacola (Mateus Maia) eles conspiram para o nascimento da banda ou conjunto, como se dizia.

O elenco é formado por oito atores-cantores (Duda Martins, Lívia Lins, Gustavo Arruda, Victor Chitunda, Danielle Sena, Juliana Menezes, Glauco Bellardy e Mateus Maia) e quatro instrumentistas (Victor Bertonny, Leila Chaves, Júnior Silva, Luiz Diniz), que executam a trilha sonora ao vivo. No repertório estão canções autorais e desconhecidas, intercaladas por versões de composições de Milton Nascimento, da cantora mineira Liz Valente e outros.

Viver da arte torna-se um sonho possível, por um tempo. Esses jovens acreditam na vida. Eles conseguem montar um musical e começam a fazer sucesso. Mas aí a humana disputa por poder e liderança ganha contornos mais nítidos entre dois integrantes do grupo: Miguel (Gustavo Arruda) e Bebeto (Victor Chitunda). É o começo do fim.

O espetáculo ganha força nas canções, na interpretação cantada, nas coreografias. E perde potência nos diálogos, na dramaturgia textual, que é superficial, ingênua e descamba até para os recônditos da auto-ajuda. Mas o elenco reverte essa fragilidade com a alegria, vitalidade das interpretações e numa ligação direta com a emotividade que o tema da amizade, com suas dificuldades e superações, proporciona.

ABRAÇO - por Fernanda Acioly O trabalho dirigido por Duda Martins e Lívia Lins desliza entre o o passado de sonhos e da concretização da banda e presente do reencontro dos “ex-amigos” 15 anos depois. As vozes são valorizadas pela dupla de diretores musicais, o maestro Victor Bertonny e Leila Chaves, que tornam a montagem contagiante. O elenco “solta a voz” lindamente.

Os personagens Paulinha, Bebeto, Téo, Sacola, Soninha, Miguel, Maria e Gabi conquistam a plateia. Com seus modismos, gírias até os hits musicais dos 90.

O espetáculo é caloroso, energético. O público é acolhido com um abraço antes do início da apresentação e isso começa a fazer a diferença. A encenação toca nas nervuras das esperanças de que os encontros sejam mais reais e menos virtuais. Que nossos afetos sejam mais comprometidos e menos descartáveis.

Talvez esse texto descambe para um tom meio meloso, contaminado pela peça. Acontece. É que em meio a tantas guerras (de todas natureza), acreditar que o mundo e as relações podem ser melhores pode direcionar para aquele julgamento de Pessoa sobre as cartas de amor, que são ridículas. Mas isso também passa por subjetividades. Depende do dia, da hora, do valor do encontro.

É que Abraço remete para um lugar mais ingênuo, mas de esperança. É um refúgio possível, em que são espelhados o quanto de responsabilidade nas nossas acões para harmonizar o mundo ou pelo menos nossa roda de amigos. A peça tem uma nostalgia, daquelas que abalam o coração. Mas tem principalmente muita juventude, com seu impulso vital. Nesse caso, as precariedades viram trunfos, por carregarem nessa vertente da emoção que humaniza.

Essa turma criou Abraço com suor e dinheiro do próprio bolso, sem apoio financeiros do poder público ou privado. Esse dado atravessa como metaficção do enredo. É para aplaudir jovens que apostam na cena teatral, depositam energia e os melhores sentimentos nessa arte.

Serviço
ABRAÇO – Nunca estaremos sós
Quando: Sábado (27), às 19h e domingo (28), às 18h; (últimas apresentações)
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 à venda no ingressoprime.com; 99574-7657 ou 2h antes, na bilheteria do teatro
Duração: 1h20

Ficha técnica

FICHA TÉCNICA:
Texto: Bruno Gueiros
Direção geral: Duda Martins e Lívia Lins
Direção musical: Victor Bertonny e Leila Chaves
Produção geral: Dispersos Produções Criativas
Elenco: Duda Martins,Lívia Lins, Gustavo Arruda, Victor Chitunda, Danielle Sena, Juliana Menezes, Glauco Bellardy, Mateus Maia
Músicos:
Violões: Victor Bertonny e Leila Chaves
Baixo: Júnior Silva
Percussão: Luiz Diniz
Vozes: Manu Rodrigues e Mateus Amaral
Cenário: Lucas Maia
Figurinos: Duda Martins e Livia Lins
Coreografias: Danielle Sena e Juliana Menezes
Iluminação: Lucas Maia
Projeto gráfico: Marcos Lima
SOCIAL MEDIA: Mateus Fontes
EQUIPE DE PRODUÇÃO:
Gerente de Produção: Mateus Fontes
Assistentes de Produção: Gabriela Cavalcanti, Nathalia Timba, Lillian Mendonça e Ninna Valentini

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