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Justeza da Fúria

A mais recente peça da coreógrafa Lia Rodrigues transforma o palco num mundo de f(r)icção em constante mudança. Fúria desloca-se nas fronteiras entre dança, performance, instalação e ritual, mirando tanto o imaginário como a consciência do espectador. Foto: Sammi Landweer / Divulgação

Os corpos de nove bailarinxs da companhia (Leonardo Nunes, Felipe Vian, Clara Cavalcante, Carolina Repetto, Valentina Fittipaldi, Andrey Silva, Karoll Silva, Larissa Lima e Ricardo Xavier) traçam  formas em meio às roupas, sacos plásticos, sobras, em uma mistura de estruturas, cores e texturas. Foto: Sammi Landweer / Divulgação

Em Fúria, um mundo povoado de imagens de dor, beleza, violência, opressão e liberdade se constrói e se desmancha sem trégua, diante dos olhos da plateia. Foto: Sammi Landweer / Divulgação

Um trecho de uma música tradicional dos povos indígenas Kanak, da Nova Caledônia, repetido infinitamente, acompanha grande parte da performance. Foto: Sammi Landweer / Divulgação

Miséria, fome, escravidão. Sabotagem, estupro, negação. Tortura, drogas, crimes. Corpos dominados. Revolta. A trupe de Lia Rodrigues acusa a brutalidade da sociedade brasileira no espetáculo Fúria. A companhia da coreógrafa está situada na Favela da Maré, no Rio de Janeiro e o lugar de fala é imprescindível, no caso, para valorizar o engajamento.  A favela, entendida por extensão dos bairros negros e mais pobres a seus cidadãos desrespeitados em seus direitos civis e constitucionais.

Fúria estreou em novembro de 2018 em parceria com o Festival de Outono de Paris no Théâtre National de Chaillot (Paris) e no teatro Le Cenqquatre (Paris).  A peça já passou por sete países, 16 cidades, em mais de 40 apresentações, inclusive pelo Festival de Curitiba em março. Fica em cartaz no Sesc Consolação, em São Paulo, de 10 de outubro até o dia 27 deste mês.

A obra é o 20º trabalho da Lia Rodrigues Cia de Danças e o nono após a parceria do grupo com a Redes da Maré, uma OSCIP (Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público) criada e dirigida por moradores e ex-moradores da Maré, que busca criar e executar projetos de impacto na trajetória dos moradores de áreas periféricas.

O título Fúria reflete bem a situação do Brasil atual. Sentimento de perplexidade e indignação. A opressão escancarada. A insegurança está em toda parte e virou “lei” mais conhecida pelas pessoas comuns, ameaçadas em suas vidas constantemente.  No Brasil, um jovem negro é assassinado a cada meia hora. Isso é a barbárie. Preservar a existência a qualquer custo  é o objetivo de muitas criaturas ameaçadas,  inclusive pelo poder do estado.

No espetáculo, uma massa disforme de resquícios coloridos toma forma de procissão de seres humilhados. Algo ganha força para um ataque rítmico. Muito do que é assustador nas reações humanas. Uma galeria de personagens onde o grotesco e o que já chamaram de beleza expressam o horror em suas cenas.

A coreógrafa brasileira luta há quarenta anos contra a discriminação. Reflete desta vez sobre a violência no Brasil e trabalha a questão da alteridade, investiga as relações de poder, lança luz sobre o contexto de acirramento e polarização, destaca que muitas fúrias são atravessadas nos territórios em que polícia invade favelas atirando de helicópteros e matando até crianças.  Há imagens de gente baleada, de rainha africana, de escravo arrastado. Há pulsões do pensamento de escritoras negras como Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro e Sueli Carneiro, de livros que pensam as conexões entre racismo e capitalismo como Crítica da razão negra, de Achille Mbembe.

No país onde um autocrata foi eleito (não por mim: #elenão), a odiosidade é projetada no espaço dos noticiários, é matéria-prima das políticas públicas claramente de extermínio; está presente nas declarações desprezíveis de políticos que envergonham a democracia e comprometem o presente e o futuro do país.

Fúria traça uma confissão sucessiva da dominação de um corpo (social ou individual) sobre o outro. A exclusão social gerou imagens duras, perturbadoras e violentas no palco. Não nos esqueçamos que a sordidez é maior na real.

Serviço

Fúria

Criação: Lia Rodrigues
Assistente de criação: Amália Lima
Dançado e criado em estreita colaboração com: Leonardo Nunes, Felipe Vian, Clara Cavalcante, Carolina Repetto, Valentina Fittipaldi, Andrey Silva, Karoll Silva, Larissa Lima, Ricardo Xavier.
Dramaturgia: Silvia Soter
Colaboração artística e imagens: Sammi Landweer
Criação de Luz: Nicolas Boudier
Produção e difusão internacional: Thérèse Barbanel/Colette de Turville
Secretária: Glória Laureano
Professoras: Amália Lima, Sylvia Barreto
Produção Brasil: Corpo Rastreado / Gabi Gonçalves
Coprodução: Chaillot – Théâtre national de la Danse, CENTQUATRE-Paris, Fondation d’entreprise Hermès dans le cadre de son programme New Settings, Festival d’Automne de Paris, MA scène- nationale, Pays de Montbéliard, Les Hivernales – CDNC (França); Künstlerhaus Mousonturm Frankfurt am Main, Festival Frankfurter Position 2019 –BHF-Bank-Stiftung, Theater Freiburg, Muffatwerk/Munique (Alemanha); Kunstenfestivaldesarts, Bruxelas (Bélgica); Teatro Municipal do Porto, Festival DDD – dias de dança (Portugal).
Realização: Sesc SP
Idealização: Lia Rodrigues Companhia de Danças com o apoio da Redes da Maré e do Centro de Artes da Maré
Lia Rodrigues é artista associada ao Chaillot-Théâtre national de la Danse e ao CENTQUATRE, França.
Agradecimentos: Zeca Assumpção, Inês Assumpção, Alexandre Seabra, Mendel Landweer, Jacques Segueilla, equipe do Centro de Artes da Maré e da Redes da Maré.

SERVIÇO
Fúria
Lia Rodrigues Companhia de Danças
Quando: 10 a 27 de outubro de 2019; quintas, sextas e sábados às 21h; domingos às 18h
Onde: Teatro Anchieta (280 lugares) – Rua Doutor Vila Nova, 245, São Paulo – SP
Duração: 70 minutos | Não recomendado para menores de 18 anos
Ingresso: R$ 12,00 (trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculados no Sesc e dependentes/Credencial Plena) | R$ 20 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor de escola pública com comprovante) | R$ 40,00 (inteira).

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Teatro de reflexão e resistência. Vem aí a MITsp!

Espetáculo belga abre a 4ª MITsp. Foto: Phile Deprez

Espetáculo belga abre a 4ª MITsp. Foto: Phile Deprez

Que estamos vivendo uma crise econômica, política, social, não há nisso novidade. Um golpe arquitetado por homens brancos, ricos, corruptos e vestindo ternos tirou do poder a presidenta Dilma Rouseff. Depois disso, diariamente, nos deparamos com notícias e declarações que nos fazem quase perder a fé de que ainda há alguma possibilidade neste país. Mas qual o papel dos artistas diante disso? E de um festival de teatro? A quarta edição da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, que começa na próxima terça-feira (14) e dura uma semana (21), decidiu ao menos (um grande intento) tentar refletir sobre o momento que estamos atravessando. O texto curatorial, praticamente um manifesto, assinado por Antônio Araújo, diretor artístico da MITsp, e Guilherme Marques, diretor geral de produção, fala sobre resistência. “Não apenas resistência de sobrevida para um festival ainda novo, mas de fortalecimento da imaginação, de recusa ao cinismo, de superação da apatia e, principalmente, de continuar acreditando na nossa capacidade de ação e de transformação. Recusamos, em igual medida, tanto o estado de coisas a que chegou este país, quanto o estado de ‘coisa’ que insistem em nos imputar”.

Desde a primeira edição da MITsp, não só a curadoria dos espetáculos faz com que a mostra tenha se tornado a mais significativa do país para o teatro de pesquisa, mas a ideia fundamental de que teatro e reflexão andam juntos. Se os espetáculos conseguem, em sua grande maioria, nos tirar do eixo pela experimentação artística, pelas temáticas, pelas abordagens, pelo hibridismo de linguagem, a discussão criada em torno desses espetáculos e do próprio teatro sempre foi um dos pilares da mostra. Este ano, a curadoria do eixo denominado Olhares Críticos, responsável por pensar todas essas conexões em torno da reflexão que a mostra pode gerar, foi assinada pelos jornalistas e críticos Kil Abreu e Luciana Romagnolli. As ações pedagógicas continuam sob a responsabilidade da jornalista Maria Fernanda Vomero. Há ainda o seminário internacional Discursos sobre o Não Dito: racismo e a descolonização do pensamento, cuja curadoria é de Eugênio Lima e Majoí Gongora.

A mostra começa oficialmente (algumas atividades pedagógicas já iniciaram) no Theatro Municipal de São Paulo, dia 14, com o espetáculo belga Avante, Marche!, direção de Alain Platel, Frank Van Laecke e Steven Prengels. Uma banda de música, que pode servir como retrato da nossa sociedade, e a situação de saúde de um músico nos colocam diante da resistência e da finitude. O espetáculo vai contar com músicos brasileiros, sob a regência do maestro Carlos Eduardo Moreno. Para quem for na segunda sessão, no dia 15, um presente: Tom Zé vai comentar o espetáculo ao final da apresentação, na ação intitulada Diálogos Transversais.

Artista libanês Rabih Mroué apresenta três trabalhos. Foto: Houssam Mchiemech

Artista libanês Rabih Mroué apresenta três trabalhos. Foto: Houssam Mchiemech

Ainda no dia 14, começam as sessões da Mostra Rabih Mroué. O artista visual, dramaturgo, diretor e performer libanês apresenta três espetáculos: Tão Pouco Tempo, Revolução em Pixels e Cavalgando Nuvens. Na coletiva de imprensa da mostra, Antônio Araújo revelou que tenta trazer o artista à MITsp há alguns anos. O trabalho de Rabih Mroué condiz com um dos principais eixos da mostra este ano: o teatro documentário, produções que utilizam fatos reais, documentos, história. No caso do libanês, o contexto de guerra do seu país é levado ao palco, como em Revolução em Pixels, quando ele discute como os sírios estavam documentando a guerra e a própria morte; ou em Cavalgando Nuvens, que tem como performer seu irmão, vítima de um tiro durante a guerra civil libanesa. A ação Pensamento-em-processo, uma conversa com Rabih Mroué, sua esposa (que também é performer em Tão Pouco Tempo) Lina Majdalanie, e seu irmão Yasser, será mediada no dia 16, às 10h, no Itaú Cultural, por Pollyanna Diniz, uma das editoras do Satisfeita, Yolanda?.

Por que o Sr. R, Enlouqueceu? Foto: Ju Ostkreuz

Por que o Sr. R, Enlouqueceu? Foto: Ju Ostkreuz

Outros três espetáculos internacionais compõem a MITsp: o alemão Por que o Sr. R. Enlouqueceu?, com direção de Susanne Kennedy para a Münchner Kammerspiele, uma montagem que faz a adaptação do filme homônimo de Rainer Werner Fassbinder; Mateluna, continuação de Escola, vista na primeira MITsp, do chileno Guillermo Calderón; e Black Off, de Ntando Cele, diretora e performer da África do Sul. Esse último trabalho compõe outro eixo significativo na MITsp: a discussão sobre racismo, empoderamento negro, branquitude e opressão. Tanto que dois dos três espetáculos brasileiros que integram a mostra, A Missão em Fragmentos: 12 cenas de descolonização em legítima defesa, com direção de Eugênio Lima, e Branco: o cheiro do lírio e do formol, de Alexandre Dal Farra e Janaina Leite, enveredam por esse caminho, mas por diferentes vias. O terceiro espetáculo brasileiro da mostra é Para que o céu não caia, da Lia Rodrigues Companhia de Danças. Os ingressos já estão esgotados, mas quem teve a sorte de comprar para a sessão do dia 18 de Para que o céu não caia, no Sesc Belenzinho, vai ter a chance de ouvir o xamã yanomami Davi Kopenawa, cujo livro inspirou o espetáculo, ao fim da apresentação, nos Diálogos Transversais.

Branco: o cheiro do lírio e do formol. Foto: André Cherri

Branco: o cheiro do lírio e do formol. Foto: André Cherri

Dentro dos Olhares Críticos, alguns destaques: o seminário Dimensões públicas da crise e formas de resistência, que contará com quatro mesas e convidados como Heloisa Buarque de Hollanda, Marcio Abreu, Vladimir Safatle, Suely Rolnik e Marcelo Freixo; uma discussão sobre teatro na Palestina, com o diretor Ihab Zahdeh, a atriz Andrea Giadach e Maria Fernanda Vomero; uma entrevista pública com Guillermo Calderón; o lançamento da nona edição da Trema! Revista de Teatro, do Recife; e a mesa Crítica e engajamento, uma proposta da DocumentaCena – Plataforma de Crítica (que reúne Satisfeita, Yolanda?, Questão de Crítica e Horizonte da Cena), que será mediada por Ivana Moura, editora do Satisfeita, Yolanda?.

O Satisfeita, Yolanda?, aliás, acompanha a MITsp desde a sua primeira edição. Este ano, participamos novamente da mostra escrevendo críticas que serão distribuídas nos teatros e publicadas aqui no blog e no site da MITsp.

Confira a programação completa da MITsp no site da mostra.

Mateluna. Foto: Felipe Fredes

Mateluna. Foto: Felipe Fredes

Para Que o Céu Não Caia. Foto: Sammi Landweer

Para Que o Céu Não Caia. Foto: Sammi Landweer

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