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Abertura do JGE: Livro no primeiro ato

Cleodon Coelho e o biografado José Pimentel. Foto Pedro Portugal

Cleodon Coelho e o biografado José Pimentel. Foto Pedro Portugal / Divulgação

Hermila Guedes e José Pimentel. Foto Pedro Portugal

José Pimentel e a atriz Hermila Guedes. Foto Pedro Portugal

Escritora e jornalista Crla Denise, encenador Marcondes Lima e Cleodon Coelho. Foto Pedro Portugal

Escritora e jornalista Carla Denise, encenador Marcondes Lima e Cleodon Coelho. Foto Pedro Portugal 

A abertura do 24º Janeiro de Grandes Espetáculos – Festival Internacional de Artes Cênicas e Música de Pernambuco, na noite da quarta-feira (10/01), pode ser dividida em atos. O primeiro, o lançamento do livro no foyer do Teatro de Santa Isabel. O segundo composto por discursos e homenagens. E o terceiro, a exibição do musical Dorinha Meu Amor. No conjunto, sucesso de público, com a casa lotada.

Em clima festivo, o jornalista Cleodon Coelho lançou José Pimentel – Para Além das Paixões, em que desenha a trajetória do ator, diretor e jornalista pernambucano de Garanhuns, muito conhecido por suas atuações na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém e na Paixão de Cristo do Recife. Autor e biografado passaram mais de duas horas dando autógrafos e entrevistas, tirando fotografias com os fãs.

De cabelos longos, mesmo depois de ter passado o bastão do papel de Cristo para Hemerson Moura, Pimentel parecia abatido, com uma alegria contida, mas cansado. Cleodon Coelho se mostrava jubiloso com a missão cumprida.

Essa é a terceira publicação assinada por Cleodon Coelho. A primeira foi Nossa Senhora das Oito (Mauad editora, 2003), sobre a novelista Janete Clair, em parceria com o crítico carioca Mauro Ferreira. A segunda foi Lilian Lemmertz – Sem Rede de Proteção (imprensa oficial, 2010).

 Para Além das Paixões está dividida em capítulos curtos e envolventes, que são flashes da vida do filho de Virgínio Albino Pimentel e dona Florentina nascido em 11 de agosto de 1934.

O rumo desse leonino que carregou a cruz de Jesus, na Paixão, por 40 anos, é curioso e marcado por ousadias e insistências

Algumas figuras foram fundamentais na escolha de caminhos desse artista. Entre elas, seu amigo de toda a vida que o encaminhou às artes, o diretor Octávio Catanho, o Tibi e o escritor Ariano Suassuna (1927-2014). “Sempre estive ao lado dele em todos os momentos de sua vida. Já fiz de tudo nos projetos que ele inventa. Trabalhei como ator, cenógrafo, produtor…”, conta Catanho no livro.  Foi com Tibi, no Grupo Dramático Paroquial de Água Fria, que Pimentel assumiu o primeiro personagem, o de Pôncio Pilatos, na montagem O Drama do Calvário.

Já seu début num palco italiano ocorreu com a peça Lampeão, em cinco atos de Raquel de Queiroz, sob a direção de Octávio Catanho, no papel de Ezequiel, cangaceiro conhecido como Ponto  Fino.

Cleodon registra que de uma maneira nada cordial, o crítico Isaac Gondim filho anunciou a novidade no Diário de Pernambuco “o Grupo Paroquial de Amadores (conjunto que não conhecemos e do qual nunca ouvimos falar) vai apresentar no Teatro de Santa Isabel representando a peça Lampeão, de Rachel de Queiroz…” Depois da estreia, apesar de apontar as falhas, Gondim Filho foi mais generoso: “Por isso, quando o GTA se apresenta pela primeira vez no teatro de Santa Isabel, só lhe podemos ter palavras de estímulo e de incentivo, sobretudo pelos valores positivos de sua realização …”

Já na crítica assinada por Ariano Suassuna, publicada no Diario de Pernambuco, em 16 de setembro 1956, sobre a peça A compadecida, depois chamada o Auto da Compadecida o escritor é só elogios a Pimentel: “José Pimentel viveu, no espetáculo do Teatro Adolescente, a figura do rico fazendeiro Antônio Moraes, e, posteriormente, o Encourado (o diabo). Saiu-se muito bem em ambas, tendo sido mesmo uma revelação de ator, com muito senso de ritmo nos gestos e nas falas, comedido e presunçoso como fazendeiro, odiento e perigoso como o diabo”.

Essa foi a primeira encenação do texto do escritor paraibano, montado por Clênio Wanderley com Teatro Adolescente do Recife. O livro revela detalhes deliciosos sobre a estreia na capital pernambucana, após alguns adiamentos, até a consagração no primeiro Festival de Amadores Nacionais no Rio de Janeiro. “Deu uma vontade danada de esfregar a medalha de ouro na cara de quem nos criticou na nossa própria terra”, comenta Pimentel na obra.  

As polêmicas da sua saída da montagem de Nova Jerusalém são bem conhecidas e estão retratadas. Mas uma outra faceta de Pimentel como colunista do jJornal da cidade dá uma apimentada na publicação.

O jornalista Cleodon Coelho selecionou algumas edições da Coluna Sinal Fechado, dentre elas estão alfinetadas em outros encenadores e grupos do Recife:

“Uma clara alusão aos espetáculos O Calvário de Frei Caneca e Batalha dos Guararapes, o pretensioso e pedante Toninho Candonga (nunca sei direito o nome desse cara) disse que ia resgatar, através de Shakespeare, a alegria e o barroquismo da Cidade Maurícia, no que ela tem de mais vivo e menos a arqueológico. Num ato falho, fala da Maurícia do século XVII”.

“A companhia teatral Fundação de Cultura Cidade do Recife Ltda. enviou-me dois convites para a estreia de Sonho de uma noite de verão, by (sic) Shakespeare. Na fila U, lateral, do Teatro do Parque. Levei luneta e amplificador. Na entrada, uma surpresa: a bolsa da minha mulher foi revistada.  Que será que os caras pensavam encontrar? Bombas, ovos podres, revólver? Máquina fotográfica? Pois é, os espiões teatrais, como os industriais, estão à cata de novidades e bem que poderiam documentar cenários, figurinos, peitos etc. Para utilizar em futuras montagens. … Sentei-me estiquei o pescoço e juro que vi. Gostei. Como sou leigo em teatro e não sou crítico de, deixo os comentários para Valdir Coutinho e Enéas Alvarez. Apenas, como espectador, devo dizer que gostei mais da revista Tal e qual – nada igual. Bom, pelo menos fui ver. Pior fazem eles que picham meus espetáculos sem vê-los.”

O encenador Antonio Cadengue comenta no livro que “Relendo o texto depois de muitos anos, eu dei boas risadas. Mas me chamar de Candonga não era um erro. Era provocação mesmo”.

Histórias do teatro pernambucano.

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Pimentel carrega cruz de Cristo há 40 anos

Paixão de Cristo do Recife chega à 21ª edição. Foto: Laís Telles

Paixão de Cristo do Recife chega à 21ª edição. Foto: Laís Telles

Fico pensando quando o ator José Pimentel parar de fazer o papel de Jesus Cristo. Vai ficar um vazio nesses dias da Semana Santa no Marco Zero. Será que alguém será tão ágil para ocupar o lugar? Não sei. Mas a tenacidade desse artista beira a uma ideia de missão. Não bem entendida por todos. Muitos o condenam por ter se agarrado a esse papel com tanta paixão. Ter colado sua imagem à personagem bíblica, jovem de 33 anos, ele que já passou dos 80. Mas outros (muitos) incentivam e aplaudem sua atuação. Pimentel carrega a cruz de Cristo há 40 anos – 19 em Nova Jerusalém e 21 no Recife. Por prazer. Por acreditar que essa história tem que continuar. Nesta Sexta-feira da Paixão ele sobe mais uma vez ao palco armado na Praça do Marco Zero, no Bairro do Recife, para a temporada 2017 da Paixão de Cristo do Recife. As apresentações ocorrem de hoje (14) a domingo (16), às 20h. E a previsão é que mais de 30 mil pessoas compareçam a cada noite.

Ele é tratado como um pop star por seu público e fãs. Ao terminar cada sessão, muita gente vai falar emocionada com o ator, tirar selfies. Durante muitos anos a produção explorou a “chamada” de “A Paixão de Todos”, por ser gratuita. Concebida em 1997, a Paixão de Cristo do Recife foi encenada no estádio do Arruda durante cinco anos. Depois migrou para o Marco Zero, onde ficou de 2002 a 2005. Em 2006 ocorreu em frente ao Forte do Brum. E desde 2007 ocupa o Marco Zero e se torna uma espécie de renovação de fé em um Ser que se sacrificou pela humanidade. O calvário de Jesus é uma das poucas coisas que comovem esse mundo tão embrutecido. Essa representação mobiliza multidões.

Cena da Crucificação em Nova Jerusalém, onde o ator interpretou Jesus por 19 anos. Foto: Arquivo José Pimentel

Cena da Crucificação em Nova Jerusalém, onde o ator interpretou Jesus por 19 anos. Foto: Arquivo José Pimentel

Pimentel está certo que “encarnar” Cristo o tornou uma pessoa melhor. Gosta de repetir que o mandamento “Amai-vos uns aos outros” deveria ser utilizado em todos os momentos da nossa existência. Agora mais do que nunca, com tanta violência e ódio multiplicado em todas as instâncias. Para ele, a peça também é uma lição de vida.

As dificuldades para fazer o papel foram maiores neste ano. Em dezembro passado, o ator, diretor e autor do texto passou 12 dias internado depois de se submeter à cirurgia para tratar uma hérnia inguinal e de complicações como uma embolia pulmonar. Mas seu histórico como fisiculturista e o hábito de realizar exercícios físicos regulares ajudaram na recuperação.

O papel exige muito. As cenas da crucificação e levitação de Jesus Cristo, por exemplo, são exaustivas. E mesmo que o pulmão não esteja 100%, ele descartou qualquer possibilidade de ter um dublê. “Não iria enganar a plateia com um dublê. Muitas das pessoas que lotam o Marco Zero me acompanham há anos. Não seria justo com elas”.

Temporada em 2017 vai de sexta a domingo, no Marco Zero. Foto: Wellington Dantas/ Divulgação

Temporada em 2017 vai de sexta a domingo, no Marco Zero. Foto: Wellington Dantas/ Divulgação

Cem atores e 300 figurantes ocupam a estrutura montada no Marco Zero, com três plataformas onde as cenas são desenvolvidas. Os cenários são assinados por Octávio Catanho e os figurinos por Edilson Rygaard (saudoso ator da Trupe do Barulho) e Roberto Costa.

No elenco estão Angélica Zenith no papel de Maria; Gabriela Quental faz Madalena; Renato Phaelante, do Teatro de Amadores de Pernambuco, interpreta Caifás; Pedro Souza, Pilatos; e Ivo Barreto, do Coletivo Angu de Teatro, defende o personagem Judas.

José Pimentel investiu sua carreira nos megaespetáculos ao ar livre e também leva sua assinatura como dramaturgo, ator e diretor de O calvário de Frei Caneca, Jesus e o Natal, Batalha dos Guararapes, A Revolução de 1817 e o mais recente, O massacre de Angico – A morte de Lampião, encenado em Serra Talhada, no Sertão pernambucano.

Desde o início da Paixão de Cristo do Recife Pimentel vive nessa peleja. Todo ano é a mesma dificuldade de produção. Os apoios governamentais são insuficientes, segundo o artista. Os patrocínios não chegam. E ele não desiste. Pelo menos até agora. O artista conta que precisaria de R$ 800 mil para cobrir todos os custos, mas a produção só conseguiu metade deste valor. É um milagre que Pimentel realize essa Paixão de Cristo há 21 anos. “Posso segurar a cruz! ”, diz resistente.

SERVIÇO
21ª PAIXÃO DE CRISTO DO RECIFE
Quando: 14, 15 e 16 de abril, às 20h
Onde: Praça do Marco Zero, Bairro do Recife
Quanto: Gratuito

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Paixão de Cristo do Recife comemora 20 edições

José Pimentel começou a interpretar Jesus em Nova Jerusalém. Foto: Wellington Dantas

José Pimentel começou a interpretar Jesus em Nova Jerusalém. Foto: Wellington Dantas

Há quase 40 anos, José Pimentel interpreta Jesus Cristo. Homem de teatro, aguerrido, teimoso, aos 81 anos, diz que só deixa o papel quando não aguentar mais; ou, diz ele, quando o bisneto, também José Pimentel, tiver idade para assumir o posto. Na sua 20ª temporada, a Paixão de Cristo do Recife, comandada por Pimentel, mais uma vez é realizada em meio a muitas dificuldades. Até agora, o Governo do Estado ainda deve parte do patrocínio do ano passado e não há garantias de que vai arcar com parte do espetáculo deste ano, um dos principais do calendário religioso do estado.

Mesmo assim, José Pimentel, autor do texto, diretor e, como já dito, protagonista, comanda um elenco de cerca de 100 atores e 300 figurantes. Serão apenas três sessões, começando nesta sexta-feira (25) e seguindo até o domingo de Páscoa (27), sempre às 19h. A expectativa da produção é que até 30 mil pessoas acompanhem o espetáculo a cada noite.

O elenco da Paixão de Cristo do Recife conta com atores experientes, como Reinaldo de Oliveira, que interpreta Herodes, e Renato Phaelante (Caifás), ambos do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), e Ivo Barreto, intérprete de Judas. Os principais personagens femininos ficam com Angélica Zenith, que vive Maria; e Gabriela Quental, Madalena.

Shows – Antes de cada espetáculo da Paixão de Cristo do Recife, no Marco Zero, artistas pernambucanos fazem apresentações especiais, às 18h. Nesta sexta-feira (25), a atração será a banda Som da Terra. No sábado, Geraldo Maia e Beto Hortis sobem ao palco, separadamente. Encerrando a programação musical, no domingo é a vez de Walkyria Mendes se apresentar.

Serviço:
20ª Paixão de Cristo do Recife
Quando: 25, 26 e 27 de março, às 19h (às 18h iniciam as apresentações musicais)
Onde: Praça do Marco Zero, Bairro do Recife
Quanto: Gratuito

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Uma batalha histórica – e outra atual

Batalha dos Guararapes – assim nasceu a Pátria. Fotos: Ivana Moura

TEXTO: IVANA MOURA

Sábado me mandei rumo ao Parque Histórico Nacional dos Guararapes, em Prazeres, Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife, para conferir o megaespetáculo Batalha dos Guararapes – assim nasceu a Pátria. A peça começa como uma aula de história e foi com alegria que vi Zuleika Ferreira no palco, como uma das alunas.

Com 64 atores atores, fiquei tentando identificar os artistas que conheço e essa busca se tornava mais interessante nas cenas com muita gente. Pedro Francisco de Souza (Nassau), Reinaldo de Oliveira (João Fernandes Vieira), Ivonete Melo (Maria César, esposa de João Fernandes Vieira) – se destaca na cena em que confronta o marido.

Reinaldo de Oliveira e Rogério Costa

As mulheres dessa história são muito infelizes no casamento. A que tinha mais chance de levar uma vidinha feliz, Bárbara (Ana Claudia Wanguestel), mulher de Calabar (Eduardo Filho), vê seu homem ser enforcado por suposta traição.

Como é sabido, a montagem trata da expulsão dos holandeses no Brasil no século XVII. A peça tem texto e direção de José Pimentel, que também atua no espetáculo no papel de Vidal de Negreiros.

Aparecem em cena figuras como, além das já citadas, Henrique Dias (Demétrio Rangel), Felipe Camarão (Felipe Lopes), Barreto de Menezes (Manoel Constantino), Frei Salvador (Rogério Costa), Carlos Mesquita (Tourlon), Ana Paes (Angélica Zenith).

Lógico que as marcas de Pimentel estão lá. A cena do enforcamento, a subida ao céu de Nossa Senhora, na cena em que os heróis pernambucanos rezam para vencer a luta. E também no final, com o show pirotécnico. Mas isso nao é pecado, digamos que é estilo.

José Pimentel atua e dirige a montagem

Acho importante destacar a garra com que os atores defendem o espetáculo. Com algo de idealismo, de paixão, de resistência mesmo. Como dissemos aqui no Yolanda, a prefeitura de Jaboatão deu pra trás no patrocínio e na estrutura que havia apalavrado. Mesmo asim a produtora Métron, de Edivane Bactista e Ruy Aguiar, renegociou caches de atores e serviços de fornecedores para manter a Batalha.

A produtora também faz questão de dizer que A Batalha dos Guararapes faz parte do calendário cultural e turístico do Estado de Pernambuco. Mas se é assim, porque todo ano é essa mesma peleja atrás de patrocínio? Não interessa que essa historia seja contada? O governo não acha importante?

O espetáculo cumpre o seu papel. Com as cenas encurtadas, a montagem ficou mais ágil. E a engrenagem complexa funciona a contento, com gente, som, luz, precisão de tempo, efeitos especiais.

Gostaria de ver essa Batalha com verba suficiente para realizar tudo o que foi planejado. De elenco a efeitos especiais. Uma grande producão.

Reinaldo de Oliveira e Ivonete Melo

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Auto do salão do automóvel

Cena da montagem pernambucana Auto do salão do automóvel. Fotos: Divulgação

A montagem de Auto do salão do automóvel integra o projeto Transgressão em 3 atos, produzido pela atriz e jornalista Stella Maris Saldanha em parceria com Alexandre Figueirôa e Cláudio Bezerra. A ideia do projeto é ótima e foca em três grupos teatrais de Pernambuco e suas encenações. São eles o Teatro Popular do Nordeste (TPN), o Teatro Hermilo Borba Filho (THBF) e o Grupo Vivencial (Vivencial Diversiones era o nome da casa de espetáculos, em Olinda, e não o nome da trupe). A primeira peça montada foi Os fuzis da senhora Carrar, de Bertolt Brecht, que foi levada em 2010, como homenagem ao THBF.

A primeira encenação do Auto foi feita pelo TPN, em 1970. A direção seria de Hermilo Borba Filho, mas ele ficou doente e o médico o proibiu de fazer grandes esforços; então a tarefa foi repassada para o jovem diretor José Pimentel. Osman assistiu ao ensaio geral da peça e não gostou do resultado. Isso está registrado em cartas trocadas entre Osman e Hermilo, documentos que a produção teve acesso.

É uma ousadia montar Osman Lins, pela dificuldade que o texto impõe. E a produção merece admiração por isso.

Peça de Osman Lins foi encenada em 1970 pelo TPN

O cenário é o que mais se destaca. Formado por peças de veículos, carcaças de carros, o cenário está distribuído nos vários cantos do palco e isso já determina a encenação. Os atores também ocupam seus lugares em cinco pontos distintos e a partir disso fazem suas movimentações ora no centro ou em outro lugar do palco.

O elenco é formado pelos atores Alexandre Guimarães, Evandro Lira, Roger Bravo, Stella Maris e Zé Ramos, que fazem vários personagens, entre guardas de trånsito, motoristas e outros. A direção é assinada por Kleber Lourenço.  A montagem fez cortes no texto e deu agilidade a alguns fragmentos, com a utilização do diálogo. Mas esse ajuste não se opera a contento no todo da peça. Então é irregular a interferência na dramaturgia osmaniana.

O sempre bom José Ramos dá seu recado, mas permanence numa zona de conforto de tudo que já conquistou como ator. Lógico que é bom vê-lo no palco, pela força e vitalidade de intérprete. Mas poderia ir além. Roger Bravo cresce nos vários papeis que interpreta, levando em consideração o seu trabalho em Os fuzis da Senhora Carrar. A sempre linda em cena Stella Maris continua bela com sua postura cênica. Mas não há muitas variações entre os personagens que interpreta. Um pouco menos daquela postura professoral, assumida principalmente na voz, daria flexibilidade nas várias figuras que ela defende no palco. O quadro Cruzamentos me pareceu com indicações errôneas para que a atriz empreendesse o grande voo da encenação.

Roger Bravo e José Ramos estão no elenco

O texto de Lins é difícil de se instalar no palco. E mais de 40 anos após sua escritura pegar o caminho do trânsito caótico e da mobilidade urbana parece um reducionismo. Também não consigo perceber a força da mão da direção. O elenco como um todo não arrisca, pega o beco mais fácil, inclusive com alguns vícios. Não vejo transgressão na encenação. E chego à conclusão que esse Auto do Salão do automóvel não alcançou a grandeza de Osman Lins.

Stella Maris Saldanha

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