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Gonzagão volta ao Recife em fevereiro

 

Na peça de João Falcão tem encontro inventado como entre Gonzaga menino e Lampião. Foto: Magali Moraes / Divulgação

Na peça de João Falcão tem encontro inventado entre Gonzaga menino e Lampião. Foto: Magali Moraes / Div

Luiz Gonzaga penou muito antes de virar mito e suas músicas, clássicos. Há quatro anos o dramaturgo e diretor João Falcão levantou o musical Gonzagão – A Lenda, que distribui seus encantos. O espetáculo volta ao Recife para três apresentações, de 10 a 12 de fevereiro, no Teatro RioMar.

Poesia encenada com nove atores em formato de cordel, o musical embaralha ficção e realidade, como a do encontro entre Gonzaga e Lampião, que nunca aconteceu.

Intérpretes e músicos executam 50 canções do Rei do Baião, como Asa Branca, Xote das Meninas, Cintura Fina, Qui nem jiló. Espetáculo para ver e rever.

                                                                                                                                                  100 palavras
FICHA TÉCNICA
Texto, Direção e Roteiro Musical: João Falcão
Direção Musical: Alexandre Elias
Direção de Movimento: Duda Maia
Direção de Produção e Idealização: Andréa Alves
Cenografia e Adereços: Sergio Marimba
Figurinos: Kika Lopes
Iluminação: Renato Machado
Preparação Vocal: Carol Futuro
Arranjos: Alexandre Elias e Músicos
Sound Designer: Fernando Fortes
Visagismo: Uirandê Holanda
Assistente de Direção: João Vancini e Clayton Marques
Assistentes de Direção Musical: Beto Lemos
Elenco: Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Paulo de Melo, Renato Luciano e Ricca Barros
Apresentando: Marcelo Mimoso e Lu Vieira (ou Larissa Luz)

MÚSICOS
Viola, Rabeca e Pandeiro: Beto Lemos
Cello: Daniel Silva
Bateria e Percussão: Rick De La Torre
Acordeon: Rodrigo Marchevsky

Supervisão geral: Leila Maria Moreno
Produção Executiva: Rafael Vitor
Realização: Sarau Agência De Cultura

Patrocínio: Rede
Realização: Sarau Agência de Cultura e Ministério da Cultura, Governo Federal

SERVIÇO
Gonzagão – A Lenda
Dia 10 de fevereiro (sexta), às 21h
Dia 11 de fevereiro (sábado), às 21h
Dia 12 de fevereiro (domingo), às 20h
Teatro RioMar: Av. República do Líbano, 251, 4º piso – RioMar Shopping
www.teatroriomarrecife.com.br

Duração: 90 minutos
Classificação: 12 anos

Ingressos:
Balcão: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia)
Plateia Alta: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia)
Plateia Baixa: R$ 160 (inteira) e R$ 80 (meia)

Canais de vendas oficiais: bilheteria do Teatro RioMar Recife (terça a sábado, das 12h às 21h, e domingos e feriados, das 14h às 20h)
Vendas online: www.ingressorapido.com.br
Televendas: 4003-1212

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O malandro nosso de cada dia

 

Elenco praticamente todo masculino propõe um distanciamento brechtiano. Foto: Leo Aversa/Divulgação.

Elenco praticamente todo masculino propõe um distanciamento brechtiano. Fotos: Leo Aversa/Divulgação.

Desde Muito pelo contrário, montado no Recife em 1981, que João Falcão faz experimentos musicais com acento bem brasileiro. Em Ópera do Malandro, clássico musical de Chico Buarque, que faz duas sessões no Teatro Guararapes, sábado às 17h e às 21h, o encenador conservou praticamente todas as músicas do espetáculo original, de 1978, e adicionou composições do disco Malandro e do filme homônimo, dirigido por Ruy Guerra em 1985.

Além disso, João Falcão fez pequenas intervenções no texto original, invertendo e excluindo cenas, valorizando personagens secundários, como Barrabás, funcionário do malandro que “vira a casaca”.

Na montagem, todos os personagens são interpretados por atores, com exceção de Larissa Luz, que assume o papel de João Alegre, o narrador, nome que remete a John Gay. Depois da experiência bem-sucedida de Gonzagão – A Lenda, Falcão queria conservar a trupe de atores – oito homens e apenas uma atriz – nesse mergulho.

O mundo do crime e do contrabando é explorado na peça, que se passa no Rio de Janeiro, mais especificamente na Lapa de 1940, durante a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas e no apogeu da 2ª Guerra Mundial. Um ambiente apinhado de bordéis, agiotas, cafetões, contrabandistas e policias corruptos. Até que ponto o poder, com suas armas de chantagem e persuasão, pode atingir as pessoas idôneas? Boa pergunta.

No papel de Geni

Eduardo Landim no papel de Geni

O casal Fernandes de Duran (Ricca Barros) e Vitória Régia (Adrén Alves) são os proprietários de um bordel da Lapa carioca, frequentado por “bandidos da lei” e foras da lei. Teresinha, a filha de Duran e Vitória cresceu no exterior, longe da bandidagem. Esses cuidados dos pais não foram suficientes para impedir que a garota se casasse com o malandro Max Overseas, sob as bênçãos do inspetor Chaves, o Tigrão (Alfredo del Penho). E talento para a contravenção parece que está no sangue da família e a mocinha se revela na chefia desse submundo.

O texto de Chico Buarque é inspirado A Ópera dos Três Vinténs (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill; que por sua vez se baseou na A Ópera do Mendigo (1728), de John Gay.

Segundo o diretor, “Brecht e Chico falam da ambição movida pelo dinheiro, que se transforma em um meio de opressão e provoca a mercantilização dos corpos e a manipulação do povo”. No segundo ato da peça, Falcão reforça a atualidade da obra de Chico, com as manifestações, protestos e até uma bandeira do Ocupe Estelita, agitada pelo ator pernambucano Thomas Aquino.

João Falcão é um descobridor/ impulsionador de talentos e na sua lista estão nomes como Wagner Moura, Vladimir Brichta, Lázaro Ramos, Laila Garin, entre outros. Fabio Enriquez foi revelado em Clandestinos, projeto de João com jovens atores que rendeu peça e série na TV Globo. Ele interpreta Teresinha. Já Moyseis Marques, que defende o papel de Max Overseas, o malandro do título, é um experiente sambista e cantor de shows nos bares da Lapa. Falcão assistiu a um show dele e o convidou para um teste. Esbanja carisma e gingado.

Malandro e Teresinha

Moyseis Marques defende o papel de Max Overseas e Fabio Enriquez interpreta Teresinha

Integrantes do elenco de Gonzagão – a lenda, Adren Alves, Alfredo Del Penho, Eduardo Rios, Fabio Enriquez, Larissa Luz, Renato Luciano e Ricca Barros estão novamente em cena, ao lado de atores selecionados em uma concorrida audição: Bruce de Araújo, Rafael Cavalcanti, Thomas Aquino e Eduardo Landim, que interpreta uma Geni muito aplaudida.

A direção musical e os arranjos de Beto Lemos garantem ótimos momentos em interpretações de canções como FolhetimTeresinha e Geni e o Zepelim, O Meu Amor, Pedaço de Mim, Sentimental, Hino da Repressão e Uma Canção Desnaturada.

A produtora de Gonzagão – a lenda e diretora da Sarau Agência Andrea Alves é a Idealizadora do projeto. Completam o quadro a figurinista Kika Lopes, o iluminador Cesar de Ramires, coreógrafo Rodrigo Marques e a cenógrafa Aurora dos Campos.

A primeira versão de Ópera do Malandro, que estreou em junho de 1978 no Teatro Ginástico, recebeu direção de Luís Antonio Martinez Correa e contou no elenco com Ary Fontoura (Duran), Claudia Jimenez (Mimi Bibelô), Elba Ramalho (Lucia), Emiliano Queiroz (Geni), Maria Alice Vergueiro (Vitória), Marieta Severo (Teresinha). A direção musical ficou a cargo do maestro John Neshling, que também assinou os arranjos. A cenografia e os figurinos eram de Maurício Sette e a iluminação de Jorginho de Carvalho. Uma turma da pesada. As últimas montagens foram assinadas por Gabriel Villela (em 2000) e pela dupla Charles Möeller e Claudio Botelho (2003).

FICHA TÉCNICA
Adaptação e Direção: João Falcão
Direção Musical: Beto Lemos
Direção de Produção e Idealização: Andréa Alves
Elenco: Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Bruce de Araújo, Davi Guilhermme, Eduardo Landim, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Guilherme Borges, Larissa Luz,  Rafael Cavalcanti, Renato Luciano, Ricca Barros e Thomás Aquino.
Apresentando: Moyseis Marques
Músicos: Beto Lemos (violão, rabeca, bandolim, viola e guitarra), Daniel Silva (violoncelo e baixo elétrico), Rick de la Torre (bateria e percussão), Roberto Kauffmann (teclado e acordeon), Frederico Cavaliere (clarineta) e Dudu Oliveira (flauta, sax e bandolim).
Cenografia: Aurora dos Campos
Figurinos: Kika Lopes
Iluminação: Cesar de Ramires
Coreografia: Rodrigo Marques
Projeto de Som: Fernando Fortes
Visagismo: Uirandê de Holanda
Assistente de Direção: Clayton Marques
Preparação Vocal: Maria Teresa Madeira
Programação Visual: Gabriela Rocha
Produção Local: Art Rec Produções

SERVIÇO
Ópera do Malandro
Quando: Dia 24 de outubro, às 17h e às 21h
Onde: Teatro Guararapes: Centro de Convenções de Pernambuco
Informações: (81) 3182.8020
Ingressos:
Plateia: R$ 160 (inteira) e R$ 80 (meia)
Balcão: R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia)
À venda na bilheteria do teatro, lojas Reserva dos shoppings Recife e Plaza, Livraria Jaqueira ewww.ingressorapido.com.br.
Classificação: 14 anos
Duração: 180 minutos (já com intervalo de 15 minutos)

 

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Folia cênica para Gonzagão

Rei do Baião é celebrado com cores, som e paixão. Fotos: Ivana Moura

Rei do Baião é celebrado com cores, som e paixão. Fotos: Ivana Moura

logo garanhuns O público de Garanhuns já estava totalmente nocauteado, no bom sentido, conquistado, entregue, emocionado, agradecido com o espetáculo Gonzagão – A Lenda, de João Falcão. Para dar o arremate final, o carioca de origem paraibana Marcelo Mimoso canta Onde o Nordeste Garoa, de Luiz Gonzaga, já nos agradecimentos. Ele, que era taxista e vocalista de uma banda de forró e foi levado para o teatro por Falcão, se disse muito honrado em se apresentar na terra de Dominguinhos. Era o que faltava para consolidar o clima sentimental para a plateia de quase duas mil pessoas, que lotou o Palco Pop, na noite de sexta-feira do Festival de Inverno de Garanhuns.

O musical foi concebido para celebrar Luiz Gonzaga, o Rei do Baião (1912-1989), no centenário de seu nascimento. Já tem muitos quilômetros de estrada. A adesão do público é alta por onde passa. Uma cena vibrante, com uma trilha sonora bem executada e um elenco afinado a contar de um jeito bem particular a trajetória de um herói da música brasileira.

João Falcão embaralha a trajetória do Rei do Baião com a de uma trupe, Barca dos corações partidos, que mambemba com a história de Gonzagão. O dramaturgo e diretor se afasta de uma concepção biográfica ou de um compromisso com a verdadeira história de Gonzaga. Não é um espetáculo documental e muitas das quadros foram inspirados em causos que o próprio Luiz Gonzaga contava em seus shows.

E isso fica claro desde o início do espetáculo, quando o elenco entoa em versos: “Quase tudo que sabemos / Do nosso protagonista / Vem de gerações extintas / De um tempo a perder de vista / O resto nós deduzimos / Juntando pista com pista / Por Deus, perdoem os deslizes / Que certamente virão / As imprecisões dos fatos / Os erros de condução / As relevantes ausências / No enredo desse baião”.

A fluidez dramatúrgica é equalizada por uma encenação ágil, bem-humorada, de uma musicalidade contagiante. Falcão acelera o texto com flashes da história do protagonista real/ficcionado, em que os atores assumem vários papeis e a troca entre eles se dá como uma passagem de bastão imaginário. É uma profusão de informações, sem ordem cronológica, permeados por lindas músicas e uma movimentação de cena em ritmo alucinante.

Marcelo Mimoso e Larissa Luz como Gonzagão e Branca

Marcelo Mimoso e Larissa Luz como Gonzagão e Branca

A outra “subtrama” é da atriz que vira a cabeça de todos integrantes do grupo. Mas nessa trupe, segundo o líder não há espaço para a mulher, porque ela desestrutura o ambiente. A atriz e cantora Larissa Luz no papel de Branca não se intimida e sai com os versos “Que diferença da mulher o homem tem? Espera aí, que eu vou dizer, meu bem! Se Eva deu mancada, Adão também deu!”, em Pouca Diferença, com pegada de jazz. A intérprete transborda de energia, sensualidade e vigor e colabora para manter um espetáculo pra cima.

Até tornar-se uma lenda, Gonzagão encara muitas aventuras, que são traduzidas no palco nesses dramas curtos, justapostos, com as canções conduzindo as cenas. Das melodias choradas da sanfona, são apresentadas quase 40 composições, entre elas, Cintura fina, O xote das meninas, Qui nem jiló, Xamego, Baião, Olha pro céu e Asa Branca. Os arranjos musicais tomam outras ousadias, como Roendo Unha como drum’n’bass e Assum Preto como uma peça para violoncelo e voz.

No elenco estão Marcelo Mimoso, Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Thomas Aquino, Renato Luciano , Ricca Barros e Larissa Luz, além dos músicos Rick de La Torre, Daniel Silva, Beto Lemos e Rafael Meninão.

Encontro de Gonzagão e Gonzaguinha em Sangrando

Encontro de Gonzagão (Marcelo Mimoso) e Gonzaguinha (Alfredo Del-Penho) em Sangrando

O reencontro entre Gonzaguinha e Gonzagão é um momento especial e ganha um tom emotivo por tudo que o público sabe, ou imagina, sobre pai e filho. Os atores Marcelo Mimoso e Alfredo Del-Penho dividem a música Sangrando.

Adrén Alves, Ricca Barros e Renato Luciano, no musical que celebra o Rei do Baião. Fotos: Ivana Moura

Adrén Alves, Ricca Barros e Renato Luciano, no musical que celebra o Rei do Baião.

O ator Adrén Alves carrega na garganta vários timbres. Com sua aparência andrógina, ele desliza por personagens masculinos e femininos com muita facilidade. Assume o papel de Santana, a mãe de Gonzaga, se traveste de demônio, ou se queda amorosamente apaixonado. O pernambucano Thomas Aquino (que já foi do Cordel do amor sem fim) trafega com desenvoltura por vários personagens.

A movimentação cênica de Duda Maia enche o palco, com o entra e sai de atores, que carregam os elementos de cada cena. Sergio Marimba, que assina a cenografia e os adereços, criou as sanfonas cenográficas, que produzem um belo efeito. Os figurinos, com seu acento clownesco, são de Kika Lopes.

Nessa celebração à vida, João Falcão inventou um encontro que nunca ocorreu: entre Luiz Gonzaga e Lampião. É uma peleja bem interessante que traz para a peça as experimentações temporais do diretor.

Depois de um solo de rabeca comovente de Beto Lemos, o musical encerra em tom apoteótico, otimista, arrebatado, com Óia eu aqui de novo.

A trupe inteira fica "louca" por Branca.  O primeiro da esquerda é o pernambucano Thomas Aquino

A trupe inteira fica “louca” por Branca. O primeiro da esquerda é o pernambucano Thomas Aquino

* A jornalista Ivana Moura viajou a convite do 25º Festival de Inverno de Garanhuns

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“Um homem em cima do palco pensando”

Uma noite na lua, com o ator Gregório Duvivier, substituiu o belga Kiss & Cry. Fotos: Daniel Isolani

Uma noite na lua, com o ator Gregório Duvivier, substituiu o belga Kiss & Cry. Fotos: Daniel Isolani

Uma noite na lua é um espetáculo que fez muito sucesso com Marco Nanini no final dos anos 1990. A montagem com texto e direção de João Falcão utilizava recursos tecnológicos, como projeções, para contar a história de um lunático que persegue a peça perfeita, ou pelo menos sua primeira obra escrita. Mas na verdade tudo o que ele faz é para chamar a atenção de Berenice, sua ex- mulher. Seja no plano “real” ou dentro de sua cabeça, a figura busca uma explicação por ter sido largado.

Em 2012, depois de mais de um ano batalhando por patrocínio, Gregório Duvivier montou o mesmo texto de João Falcão, que também assina a direção, a movimentação de luz e as músicas. Desta vez o palco está nu e o intérprete está sozinho.

O monólogo entrou na programação do Festival de Teatro de Curitiba para substituir a montagem belga Kiss & Cry, espetáculo este que parte da pergunta “Para onde as pessoas vão quando desaparecem de nossas vidas?”. As mãos são os personagens principais dessa jornada de lembranças para reviver o primeiro amor de uma mulher. Intrigante.

Um rapaz ao meu lado falava ao telefone e comentava com sua interlocutora que havia comprado ingresso para a encenação belga. Como ela foi cancelada e ele não trocou o ingresso, foi conferir Uma noite na lua, que não sabia nem do que se tratava. Mas a meia casa do enorme Teatro Guaíra não era só de desavisados. Havia fãs de Duvivier e do trabalho que o ator desenvolve, inclusive na internet. Os admiradores foram parabenizar o intérprete depois da apresentação.

Luz do espetáculo funciona quase como personagem

Luz do espetáculo funciona quase como personagem

Bem, de qualquer forma, foi um desafio e tanto. O protagonista parte de uma frase “Um homem em cima do palco pensando” para criar diálogos com ele mesmo, que em sua cabeça se transformam em vários seres, todos eles no fundo lutando pelo amor de Berenice. São os fluxos de pensamento do personagem. E ele vive diversas emoções, desde a sensação de fracasso por ainda não ter concluído um único texto ou peça até culpar os grandes escritores que nasceram antes. Porque o nosso herói teria aquela ideia brilhante de Shakespeare ou de Garcia Lorca.

Nesse costurado de João Falcão, o ator percorre um caminho que parece um jogo em que ele pode avançar ou retroceder. No fundo é uma peça contemporânea sobre o amor, com doses generosas de humor e poesia. E que ganha o espectador ao mostrar as fragilidades do homem que precisa de sua Berenice para viver melhor.

Duvivier se entrega totalmente ao personagem e à cena. E elogia seu encenador (quando vou conversar com ele nos camarins) dizendo que João Falcão é o melhor diretor de ator do Brasil, que nada fica fora do lugar, que o Falcão amarra bem as cenas, com palavras, entonações e gestos.

Duvivier conquistou o troféu de “ator em papel protagonista” do 7º Prêmio APTR de Teatro, promovido pela Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro

Duvivier conquistou o troféu de melhor ator do 7º Prêmio APTR de Teatro

O miolo da peça é simples. O protagonista vai a uma festa (na esperança de encontrar Berenice) e num determinado momento oferece um texto a um jovem ator em ascensão. O ator topa a parada e diz que vai pegar a obra no dia seguinte. O problema é que não existe obra nenhuma. Ele não escreveu nada ainda.

O personagem enfrenta seus fantasmas, articula histórias sem lógica, que entram pela madrugada. É o show de Gregório Duvivier. Seus deslocamentos físicos traçam desenhos coreográficos no palco. Seu gestual tanto segue por momentos grandiosos quanto investe em mínimos detalhes, sempre com muita propriedade. A voz do ator é boa e ele traça modulações enquanto o tempo passa e o seu estado de espírito vai ganhando novas camadas. É uma interpretação potente, de um jovem de 26, que mereceu o troféu de “ator em papel protagonista” do 7º Prêmio APTR de Teatro, promovido pela Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro, que foi entregue na segunda-feira.

O rapaz do lado riu em alguns momentos, praticamente não se mexeu na cadeira e aplaudiu com entusiasmo ao final.

* A jornalista viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba

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O que vi do FRTN – Parte I

Abertura do 15º Festival Recife do Teatro Nacional. Fotos: Victor Jucá/Divulgação e Pollyanna Diniz

A abertura

Não foi nada fácil colocar o Festival Recife do Teatro Nacional nas ruas este ano. Reconhecidamente foi um empenho pessoal de André Brasileiro, ator, diretor, produtor e também presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, de Simone Figueiredo, atriz e produtora antes de tudo, e secretária de Cultura do Recife, e da equipe envolvida na produção. As dificuldades estavam estampadas – eles assumiram os cargos já no segundo trimestre do ano; a classe estava desmotivada, com raiva até, principalmente por conta dos descasos com os pagamentos de cachês; os teatros com muitos problemas de equipamentos. Um prefeito ‘muito difícil’, para ser gentil, que não teve nem a oportunidade de disputar a reeleição.

Então diante de todo esse cenário, fazer um festival que homenageia Marcus Siqueira (1940-1981), como disse Roberto Lúcio, gerente operacional de artes cênicas da Prefeitura do Recife, no catálogo da mostra, é um ato político. “(…) um ator e diretor teatral marcante, combativo, questionador, amante e defensor do teatro de grupo e do aspecto pedagógico da arte do teatro”.

É preciso mesmo contextualizar para entender a emoção de Simone Figueiredo na abertura do festival, no palco do teatro de Santa Isabel, casa que ela já dirigiu. Para entender o porquê da importância ainda maior da celebração, da reunião, de lotar o Santa Isabel logo na abertura. De ver as pessoas rindo e chorando. Vivendo o teatro.

Gonzagão – A lenda

Talvez tudo tenha a sua hora. E foram 15 anos de espera até que o diretor e dramaturgo pernambucano João Falcão pudesse participar do Festival Recife do Teatro Nacional. Ele disse que sentia uma pontinha de inveja dos amigos que diziam que tinham participado do festival, que iam participar do festival. Como é mesmo difícil santo de casa fazer milagre! No teatro então…santo de casa geralmente precisa se benzer bem muito! E foi lindo ver um Santa Isabel lotado aplaudindo João, em suspenso depois de uma apresentação que tomou os corpos e as emoções por inteiro. (Na realidade, foram duas sessões; como o grupo ainda está em cartaz no Rio, eles voltaram ainda na madrugada para apresentar o espetáculo lá no dia seguinte).

Gonzagão – A lenda tem o espírito da celebração, da homenagem. Como bem disse Ivana Moura, não há opções pelo risco. O caminho é muito estruturado, a partir das músicas, para que mesmo que você não tenha nenhuma relação com o mito Luiz Gonzaga, seja alcançado de alguma forma. Imagina então apresentar esse espetáculo aqui! São cerca de 50 músicas que vão alinhavando a tentativa de contar a história do Rei do Baião. Mas não há uma preocupação histórica, em seguir fatos cronológicos, ou ser verdadeiramente fiel. Fica muito claro desde o início; até pela opção dramatúrgica: é uma trupe teatral quem remonta a história de Gonzagão. Em várias cenas há um jogo rápido, eletrizante; é até difícil acompanhar, respirar, compreender todo o diálogo. A fala, o gesto, a música, a troca de papeis.

Gonzagão – A lenda. Foto: Pollyanna Diniz

É um espetáculo que se constrói a partir da força do grupo; não teria o mesmo impacto se as escolhas fossem pelos talentos individuais dos atores. E nisso João Falcão é craque, em formar um elenco que se complementa, que não briga em cena, que se acrescenta. Mas tenho que dizer quão foi bom ver Eduardo Rios, do Quadro de Cena, se superando, com um timing perfeito, levando a plateia junto com as suas histórias; e também conhecer o trabalho de outro pernambucano, petrolinense, Paulo de Melo. E, em se tratando de um musical, se há que se destacar alguém é a única mulher no elenco: que voz linda e forte tem Laila Garin.

Para completar, os figurinos de Kika Lopes são lindos, bem cuidados, um quê de pop-hippie-chic; e a iluminação de Renato Machado complementa a cena – muito bem marcada, entradas, saídas, trocas de personagens, tiradas e piadinhas, tudo no momento certo.

Uma montagem que começa sem muitas pretensões e que vai aos pouquinhos ganhando forma, invadindo qualquer espaço que o espectador, solícito ou não, tenha deixado entreaberto.

### Para quem perguntou, João Falcão disse que tem muita vontade de fazer uma temporada aqui com esse espetáculo; mas não há previsão. O grupo ainda está em cartaz no Rio e próximo ano vai para São Paulo.

Absurdo

Alguns espetáculos me lembram muito a minha mãe. Preciso dizer que embora ela goste de teatro, gosta mais de televisão porque acha que consegue perceber a expressão dos atores em todos os detalhes. Odeia espetáculo ‘cabeçudo’. Fiquei pensando que teria levado a surra que não tomei quando criança se tivesse feito minha mãe ir ao teatro ver Absurdo, da Cia Atores de Laura. Imaginei ela perguntando: “Pollyanna, o que é isso? Que história mais sem pé nem cabeça é essa?”. “Satisfeita, Yolanda?”. O espírito é esse!

Absurdo, da Cia Atores de Laura, do Rio de Janeiro. Foto: Pollyanna Diniz

Os Atores de Laura apostam nas ideias do Teatro do Absurdo; uma cena que seria cotidiana, mas descolada do real, as situações non sense, os diálogos aparentemente sem sentido. Talvez seja a dramaturgia que nem sempre consegue nos fazer caminhar pelo ilógico sem perder o interesse. Em alguns momentos, é chato mesmo.

A peça traz dois casais, que podem trocar de pares; eles dividem a mesma cena mesmo antes de se conhecerem e também, depois descobrimos, o mesmo filho. O jogo de aparências, o medo contemporâneo, o consumismo, a hipocrisia estão lá. Um cara que sai de casa há 20 anos tentando encontrar a sua “verdadeira” casa, os diálogos cujos textos dizem uma coisa, mas representam outra completamente diferente. Sob direção de Daniel Herz estão Ana Paula Secco, Anderson Mello, Luiz André Alvim, Marcio Fonseca e Verônica Reis. Todos muito bem em cena – não há desníveis ou queda nas atuações.

O cenário é a sala de uma casa e, mais especificamente, como elemento (des)agregador, a mesa; onde pode acontecer um velório, um jantar sem comunicação, o esconderijo eterno do filho. Para mostrar mesmo que ninguém é normal; que a fotografia pode até dar indícios, mas o teatro consegue ser muito mais efetivo na crítica do cotidiano.

A mão na face, do grupo Bagaceira, estreou no FRTN. Foto: Pollyanna Diniz

A mão na face

O cenário da nova montagem do Grupo Bagaceira, do Ceará, é o camarim de uma boate. A cantora decadente acaba de sair do palco e agora quem se prepara para entrar é um travesti. Enquanto estão ali conversam sobre a vida. O texto de Rafael Martins nos dá vários socos no estômago ao longo da encenação; mas é na oscilação entre a comédia e o drama que está a chave para a montagem. Démick Lopes (Gina) e Marta Aurélia (Mara) conseguem segurar muito bem esse jogo. Podem sair de um embate de palavras dolorido, cheio de significados, para sonoras gargalhadas.

É um texto sensível; que traz as incompletudes, as frustrações, a falta de amor, mas também a amizade, o carinho. No meio desses dois personagens está um homem que já morreu e que, ao que parece, era dividido pela cantora e pelo travesti. E com o tempo passando, até disso eles conseguem rir ou chorar.

A direção é de Yuri Yamamoto. A construção do cenário é muito interessante. Traz o espectador pra bem pertinho; como voyer de uma relação que pode ter muitas reviravoltas; mas onde as coisas não necessariamente esão explícitas. Há paredes, mesmo que imaginárias. São os espelhos que tentam revelar, mas só mostram os personagens já montados, o batom vermelho, a luz caindo aos poucos, a fumaça do cigarro no ar.

Demick Lopes faz um travesti e Marta Aurélia uma cantora

### No dia em que vi o espetáculo, a atriz Ceronha Pontes estava na plateia. O espetáculo, inclusive, foi dedicado a ela, que também é cearense. Talvez a presença de Ceronha tenha despertado em mim algo que é por demais óbvio. Como esse trabalho é próximo do coletivo Angu de Teatro! A temática, o tratamento, a estética. Impossível não pensar que aqueles personagens cairíam como luvas em Ceronha Pontes, Márcia Cruz, Arilson Lopes, Vavá Schön-Paulino. Deu ainda mais vontade de ver o projeto Abuso, que surgiu a partir do intercâmbio que as duas companhias fizeram através do edital do Itaú Cultural, ser levado aos palcos.

Matilde, la cambiadora de cuerpos

Não vou mentir que a primeira coisa que me veio à mente quando a história de Matilde, la cambiadora de cuerpos se estabeleceu no palco foi o blockbuster brasileiro E se eu fosse você?. É meio assim mesmo. Uma bandida paraguaia tem o poder de trocar de corpo com quem ela quiser. É só beijar a pessoa. E não é que o delegado resolve apostar na história louca que o homem com corpo de mulher sentado à sua frente conta? Daí para a história invadir as televisões, jornais e programas de rádio sensacionalistas é um pulo.

As atrizes Elaine Cardim e Tatiana de Lima se revezam nos papeis; é através do gestual que incorporam os personagens, além de contar com a ajuda, por exemplo, de sapatos dispostos na lateral do cenário. É na opção dramatúrgica por transformar a história numa crítica à imprensa que para mim está o erro da montagem. Pode até dar agilidade, permitir a utilização do vídeo, tornar a história mais engraçada. Mas cai nas armadilhas reducionistas, na opção pelos caminhos menos tortuosos, por um enredo que não nos surpreende. Apesar do talento das atrizes, que arrancam gargalhadas do público.

Matilde, la cambiadora de cuerpos. Foto: Victor Jucá/Divulgação

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