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Guerrilha e amor, uma mistura explosiva

Hilda Torres no espetáculo Soledad

Hilda Torres no espetáculo Soledad

janeiro-de-grandes-espetáculos-SSSS Muitos morreram pela liberdade. E cada vez que um personagem desses ganha os holofotes é uma justiça para a história. A  guerrilheira paraguaia Soledad Barrett Viedma (1945-1973) teve sua voz sufocada pela opressão das ditaduras por 42 anos. Até o ano passado, quando a atriz Hilda Torres, a diretora argentina Malú Bazán e a própria filha da militante, Ñasaindy Barrett, se juntaram para montar o espetáculo Soledad – A terra é fogo sob nossos pés.

O drama de “Sol” expõe as veias abertas da América Latina numa época de grande opressão política. Um trajeto de vida e poesia. Soledad foi mais uma vítima das barbaridades da ditadura militar do Brasil (1964-1985).

Ela morou na Argentina, no Uruguai, em Cuba e no Brasil, fugindo das repressões. Ao ser sequestrada por um bando de neonazistas em Montevidéu, ela adotou a guerrilha. Ao se recusar dizer a frase “viva Hitler!”, ela foi marcada nas coxas com a suástica nazista. Em Cuba, onde aprendeu a luta armada, conheceu Zé Maria, pai de sua filha Ñasaindy.

No Brasil se apaixonou por José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, companheiro que a entregaria à polícia, às garras do delegado Sérgio Fleury. O Massacre de São Bento matou Soledad grávida e outros cinco militantes na Chácara São Bento, em Abreu e Lima.

É um espetáculo emocionante.

SERVIÇO

Espetáculos de Hoje no Janeiro de Grandes Espetáculos

Soledad – A Terra é Fogo Sob Nossos Pés (Cria do Palco – Recife/PE)
Quando: Dia 18 de janeiro de 2016 (segunda), 20h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho
Quanto: R$ 20 e R$ 10

Luas de Há Muito Sóis (Papelão Produções e Fafe Cidade das Artes – Recife/Brasil/  Fafe/ Portugal)
Quando: Dias 18 e 19 de janeiro de 2016 (segunda e terça), 20h
Onde: Teatro Capiba (SESC Casa Amarela)
Quanto: R$ 20 e R$ 10

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Em nome do primeiro amor

Matheus Nachtergaele em Processo de Conscerto do Desejo. Foto: Marcos Hermes

Matheus Nachtergaele abre Janeiro de Grandes Espetáculos com Conscerto do Desejo. Foto: Marcos Hermes

janeiro-de-grandes-espetáculos-SSSS Quando entrevistei Matheus Nachtergaele pela primeira vez, ele já havia passado pelo método do diretor paulista Antunes Filho, pela Escola de Arte Dramática (USP-SP), e deixado sua marca no grupo Teatro da Vertigem, dirigido por Antônio Araújo, por sua atuação nos espetáculos Paraíso Perdido e O Livro de Jó. Já colecionava prêmios como Shell, Mambembe e APCA. Foi uma conversa durante as filmagens de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, dirigido por Guel Arraes, em Cabaceiras, na região do Cariri Velho, a 200 km de João Pessoa. A cidadezinha de apenas três ruas tinha virado um set de filmagem. O cotidiano pacato da população foi alterado com a presença de tanta gente famosa.

Intenso, profundo, boêmio, conversador, bem articulado, magrinho, de uma energia etérea. Matheus Nachtergaele, que interpretava João Grilo, despertava cuidados. Era tanta entrega que parecia que ele poderia explodir. “O tempo vai cuidando de tranquilizar a gente. Mas acho que, daquele tempo, 1998, até agora, acho que estou mais tranquilo. Acho que a minha intensidade talvez fosse um romantismo juvenil, uma entrega muito grande ao personagem, sempre fui muito boêmio. Tinha uma preocupação da produção ‘será que ele vai chegar às 5h da manhã ao set?’. Eu chegava. Mas também não tenho a mesma saúde daquela época para aguentar o tranco.

O ator é uma presença forte no cinema pernambucano. Atuou em quatro filmes de Cláudio Assis: Amarelo Manga, Baixio das Bestas, Febre do Rato e Big Jato. Além de Árido Movie e Sangue Azul de Lírio Ferreira; e Nina, de Heitor Dhalia. Já está com mais um na agulha. Uma adaptação de Nelson Rodrigues dirigida pelo pernambucano Jura Capela, com Lucélia Santos no elenco.

Hoje Nachtergaele abre o festival Janeiro de Grandes Espetáculos com Conscerto do Desejo uma homenagem e tentativa de apaziguamento pela ausência da mãe, que se suicidou quando Matheus tinha três meses. Depois de 30 anos de divã ele resolveu tornar pública essa dor da falta que carrega desde a infância. Acompanhado pelos músicos Henrique Rohrmann (violino) e Luã Belik (violão) o ator faz sua oração profana. Das entranhas, da memória, da imaginação, uma emoção vertiginosa como o primeiro amor que escapou tão rápido.

ENTREVISTA // MATHEUS NACHTERGAELE

Com esse espetáculo, imagino que você está tentando se curar totalmente. Por que você resolveu levar essa inquietação ao palco?
Veja só: comecei a fazer teatro no Antunes Filho. Era 1989. Não estreei nenhuma peça lá. Era o processo de Paraíso Zona Norte, duas peças de Nelson Rodrigues, que ele ia montar; e o trabalho dos atores era muito baseado no trabalho do Kazuo Ohno, o bailarino japonês. Então a gente leu muitos textos de Kazuo Ohno, nem sabia que tinha, mas a gente descobriu na época. Foi a minha primeira experiência teatral realmente. Kazuo Ohno, a física quântica e Nelson Rodrigues eram os nossos três focos. Essa dança expressionista oriental, que tinha o Hijikata e o Kazuo Ohno como pais, essa dança japonesa pós-guerra, o universo de Nelson Rodrigues e a física quântica. Assim eu fui apresentado ao teatro e isso me deixou marcas profundas, até hoje. É claro que eu tive muitas experiências, fui para o Teatro da Vertigem, onde eu fiz o Jó (O livro de Jó), passei pela Escola de Arte Dramática da USP, fiz muito cinema, tive muitos diretores, mas essas coisas me marcaram muito. Dessas coisas todas, alguns princípios me nortearam e me norteiam até hoje. Um deles é o depoimento pessoal. Isso está no Kazuo Ohno, isso está no butô, quer dizer, fazer da sua dor, a dor universal. O trabalho do butô era um trabalho de procurar a sua dor particular e dançar essa dor particular, sem palavras. E isso daria origem, se você fosse um poeta, a uma dança de alguma maneira universal, que atingisse todo mundo, a ideia de que quanto mais você fala do seu quintal, mais você fala do mundo, quanto mais você fala da sua dor, mais você fala da dor de todo homem. Então acho que o processo de Desejo de Conscerto tem a ver com isso. Acho que mais do que nunca estou indo no âmago das minhas questões e acreditando que isso deva fazer sentido para todos nós. Se cada um tem uma grande dor, uma grande perda, uma grande alegria, a minha deve também se comunicar com a dor de todo mundo; e me torna, minha dor especial, igual a todos. Todo mundo tem sua história, suas barbáries e suas maravilhas. Por isso que estou fazendo essa peça. Desde o Woyzeck, em 2005, eu não produzo um espetáculo de teatro. Fiquei muito envolvido com cinema, dirigi um longa-metragem, fiz muitos filmes como ator, muitos trabalhos na televisão e não me ocorria um texto que fosse importante de ser montado. Achava que os meus colegas que faziam teatro, que eu gosto, estavam fazendo teatro que tinha que ser feito, como o Zé Celso, como algumas pessoas que admiro. E me contive. De vez em quando pensava em fazer um Tennessee Williams, por exemplo, logo depois de uns meses de projeto, eu dizia: “não é isso. A veia não é essa!”. Eu tinha feito Woyzeck, que é uma peça determinante, uma peça de texto muito forte, moderno, que inaugura a tragédia moderna. É no Woyzeck que o destino do herói deixa de ser decidido pelos deuses para ser decidido pela sociedade capitalista. É uma peça que fala sobre muitas coisas. Que fala sobre um Brasil que não mudou muito de 2005 para cá. Então eu me sentia um pouco sem tema. Algumas pessoas me diziam: “faz o Hamlet”. Mas o meu Hamlet é o Woyzeck. O meu ser ou não ser estava no Woyzeck. Então me dediquei a outras coisas. Tinha os poemas da minha mãe guardados. Desde os 16 anos que eu tenho esses poemas, eles são o meu único contato oral, mental, racional com a minha mãe. Para mim, minha mãe é uma lembrança, também é uma perda, uma ausência. Eu estive com ela durante doze meses. Dentro do útero e fora do útero. Todo período deu doze meses. Não me lembro disso porque aos três meses é que você cria os primeiros laivos de alteridade. Parece que aos três meses é que a criança saca que existe outro. Até os três meses ela e a mãe são uma coisa só. Então minha mãe se matou justamente quando eu não era mais uma coisa só. Uma mulher inteligente, provavelmente não foi à toa. Não se matou enquanto eu era uma coisa só com ela. Esperou aquele neném entender que ele também existe sozinho e aí ela foi. Eu tinha esses textos como um tesouro. A transmissão oral que me foi possível, intelectual.

Você só teve acesso aos textos aos 16 anos?
Eu tinha 16 anos quando o meu pai me deu, pouco tempo depois de eu saber como ela tinha morrido. Até os 16 anos eu sabia que a minha mãe tinha falecido, que a minha mãe não era minha mãe, minha mãe era uma madrasta, que eu chamo de mãe até hoje, a Carmem, é minha mãe também. Mas eu não sabia como tinha acontecido. Eles demoraram um pouco porque na nossa sociedade o suicídio é uma coisa complexa. Eu acho que na nossa sociedade não…é complexo. Então demoraram um pouco para me contar. Quando me contaram eu tinha 16 anos e logo na sequência papai me deu os poemas. E eu então guardei. Foi mais ou menos quando eu decidi ser ator. Acredito que, de alguma forma, eu estou esperando esse momento há muito tempo. Como você falou, talvez uma certa intensidade, uma boêmia, um romantismo meu, me impediram de fazer isso antes. Sempre achei que se eu fizesse, eu ia ficar muito mexido e não ia aguentar a barra. E agora eu me sinto diferente. Eu me sinto homenageando não a mamãe exatamente, mas o que nós temos em comum, homenageando a possibilidade de ser feliz com o que se tem. Então tenho mamãe, que morreu em condições tristes, não são as condições ideais, um suicídio é de alguma maneira como um acidente, como um câncer, como algo que a gente não gostaria que acontecesse. Sendo que a pessoa que morre empunhou a arma que a matou. Mas, ao mesmo tempo, a mamãe me deixou os poemas, me deixou o talento, me deixou 50% de tudo que acontece em mim. Então quando eu faço essa peça e só agora eu posso fazer dessa forma, eu celebro o fato de, por ter sofrido a falta dela, talvez, também ser um ator, e usar o que eu tenho para dizer os textos dela, quer dizer, dar voz ao que foi calado. Fazer uma peça com mamãe, já que eu não pude fazer muitas coisas com ela, além de ser gerado e mamar, se é que é pouco. Agora a gente faz uma peça juntos. Eu não sou místico, então eu não acredito que ela esteja, em nenhum nível aqui acompanhando espiritualmente. Mas acredito que ela energeticamente, uma palavra mais ampla, está junto, os textos são dela, não mudo uma palavra do que ela escreveu, visto um vestido parecido com o vestido que dizem ela tinha separado para usar no meu batizado, ela morreu na madrugada que antecedia o meu batismo. Nunca se sabe se esse vestido preto foi guardado para o meu batismo ou se já foi reservado para o enterro. Ela foi enterrada com essa roupa, então eu nunca vi essa roupa, mas eu sei que era um vestido preto. Então eu visto essa roupa e falo os poemas da mamãe, mas sou eu falando. A gente faz a peça juntos. É uma peça bem simples, é um recital, com música, tem um violão clássico, com Luã Belik, e um violino clássico tocado por Henrique Rohrmann, e eu falo os poemas da mamãe, a gente canta e toca músicas que eu sei que a mamãe gostava, por notícias de parentes, de papai. E a gente faz disso então um concerto.

Você falou que não é místico. Você é agnóstico?
Eu não gostaria de definir, sabe por que? Eu acho que nenhuma palavra daria conta do que acontece exatamente. Nem comigo, nem com ninguém, não é? Se eu disser que eu sou um agnóstico, eu estaria mentindo. Se eu disser que sou ateu, eu vou estar mentindo também. Mas se eu disser que eu creio, eu também estou mentindo. Então eu sou um ateu que acredita em milagre. Eu sou um agnóstico com presságios, entendeu? Eu tenho sentimento de agradecimento pela vida, no sentido budista, mas não sou budista. Eu acredito que o amor é uma força bonita, poderosa e criadora, mas não acho que isso tenha um nome, não acho que isso vem de um ser, isso é uma consequência de um fluxo de coisas. Me sinto em Deus, se é que eu tenho que usar uma palavra para que todo mundo possa falar a mesma palavra. Então não sinto que eu preciso acreditar em Deus, uma vez eu já estou em Deus, eu, você, a planta, a máquina fotográfica. Está todo mundo em Deus, nesse fluxo que tem vida, tem morte, tem poema, tem suicídio, tem políticos roubando a gente, tem gente passando fome, tem Aids, tem amor, tem dança, tem festa, tem batuque, tem flor, tem espinho, tem leão matando a gazela, tem a gazela dando à luz um bebezinho de gazela, que sai e come uma plantinha, entendeu? E tudo isso vai sendo Deus. Então não preciso acreditar em Deus, uma vez que estou nele. E aí eu me defendo da pergunta dessa forma. Por que eu acreditaria, se eu já estou? Se já estamos todos aqui. Não é muito diferente do que as doutrinas pregam, mas não é doutrina.

A peça estreou no Rio de Janeiro. Recife é a primeira cidade que recebe a montagem depois da estreia?
É a primeira vez que a gente viaja. Estou bem contente de ser aqui, por motivos óbvios. Sou um pouco pernambucano de alma. Artisticamente eu sou muito pernambucano. Por muitos motivos eu fui jogado para dentro de uma poética que é a poética pernambucana, a poética de vocês, que se tornou a minha também. Acho que isso começou a acontecer no Auto e depois isso seguiu acontecendo nos meus encontros com Cláudio Assis, com Lírio, com Guel. Eu frequento a família Suassuna, sou amigo de Dantas, amava Ariano. Fiquei muito tempo no Sertão, trabalhando, filmando, e participando acho que poeticamente do universo pernambucano. Então apesar de ser paulistano, eu tenho cadinho que é pernambucano. Tenho grandes amigos aqui, pessoas que eu amo de verdade. Então estou contente de a primeira viagem da peça ser para cá. Acho que é um colo bom. É a primeira vez que a peça vai ser feita no palco italiano, é a primeira vez que a gente vai ter muito público. A peça sempre foi feita no Teatro Poeira, que é um teatro pequeno, como um útero. É uma cerimônia. Aqui a gente vai ter que fazer essa cerimônia se tornar uma missa, uma missa ateia, uma missa laica. Manter essa delicadeza da oração laica, mas para 700 pessoas. Então estar com amigos por perto é bom.

Por falar em amigos, acho muito bonita a relação que você tem com Conceição Camarotti. Então já que estamos falando de amor, de amizade, qual o significado dessas pessoas na sua vida?
Eu sempre me achei um cara meio incapaz de amar. Mas eu acho que subestimei minha capacidade. Muito tempo eu sentia culpa. Dizia: ‘poxa, eu não sou tão amigo dos meus amigos quanto eles são de mim’, ‘poxa, não sou tão amigo da minha madrasta quanto ela é de mim’. Eu colocava muita culpa nessa minha dor da mamãe ter morrido e ao longo do tempo e do amadurecimento que a gente vai tendo, eu fui percebendo que não, que eu tinha amigos de longa data e pessoas que estão na minha vida de uma maneira tão determinante. E a Conceição Camarotti é uma dessas pessoas. A gente se conheceu no Amarelo Manga, filme do Cláudio Assis, a gente criou um vínculo afetivo para além das cenas e do convívio no cinema, no set de filmagem. A gente ficou amigos íntimos, a gente é confidente, a gente se frequenta, a gente se fala de quando em quando, ela me liga quando tem saudades, só para dizer que estava com saudades, só para falar oi para mim. E eu penso na Conceição quase todo dia da minha vida, em algum momento, lembro da Conceição, assim como lembro de algumas pessoas que eu amo para sempre. Acho que a Conceição é uma dessas pessoas que me ensina que eu sei amar. Claro que grande parte disso é um mérito dela, ela que foi me ensinando ao longo do tempo, que uma amizade pode ser algo muito duradouro, muito eterno, muito bom. Eu fico muito calmo quando estou perto dela, me sinto em paz. A gente dá muita risada e fala muita sujeira! Vocês não têm noção da quantidade de porcaria que a gente fala dando gargalhadas. Ao mesmo tempo a gente é capaz de passar horas em silêncio, sem se incomodar, isso é importante eu acho, alguém com quem você possa ficar em silêncio muitas horas, é muito gostoso. Eu estou doido para que ela veja a peça, porque ela conhece essa minha história, conhece os poemas, ela se comove com a história da mamãe, ela gosta da história da mamãe, mesmo sem ter conhecido a minha mãe; ninguém conheceu a minha mãe, só meu pai e os meus avós. É engraçado…ela sempre gostou muito da mamãe, simpatiza com a mamãe. Então acho que ela vai se emocionar.

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Crítica // Se estes espasmos falassem

Robert Softley dá lição de coragem. Fotos Ivana Moura

Relatos são poesias em doses generosas

É encantadora, forte e envolvente a perfomance de Robert Softley em If these spasms could speak (Se estes espasmos pudessem falar). Ele fez três sessões, na Caixa Cultural do Recife, dentro do Janeiro de Grandes Espetáculos. Em cena uma grande e confortável poltrona e um telão ao fundo com projeções. O artista entra engatinhando e explica que seu problema na fala pode dificultar o entendimento (o texto é dito em inglês, com legendas em português). E o ator e dramaturgo já mostra aí um dos trunfos da peça: o humor sem nenhum tipo de autocomiseração. Softley comenta que acha estranho – essa dificuldade de comunicação – já que na cabeça dele sua fala chega “como a de Laurence Olivier”.

Se estes espasmos pudessem falar é composto por quadros em que o artista narra suas vivências e as de outras pessoas com deficiência em situações divertidas, ternas, tristes, de embate, de alegria, tristeza, vitalidade, prazer, tesão.

Há o episódio da moça que chama a atenção pelos seus seios numa festa de casamento e não por seu problema físico. Do cara vidrado em música que vai a um festival e tem que enfrentar um mar de gente para chegar ao banheiro para cadeirantes, que fica do lado oposto do palco. De suas memórias, Softley conta sobre a arrogância e estupidez de um jovem médico, que o toma por paciente quando ele vai visitar um irmão internado no hospital.

Carismático, o ator envolve a plateia com suas tocantes confissões e de seus entrevistados. Ao falar desses corpos limitados, ele amplifica as possibilidades de existências. E passeia por questões  familiares, sexo, amor, relações humanas e jogos de poder quando os “corpos normais” ditam as regras.

Artista se entrega com alegria ao trabalho

Corajoso e com auto-estima robusta, o artista desafia a sociedade, qualquer uma, que ainda trata os deficientes como seres menores. Alí, ele diz que não aceita a posição de invisibilidade. E chama atenção para os problemas de acessibilidade que estão em toda parte.

A sonoplastia usa trechos de músicas que ressaltam os climas dos depoimentos. E para marcar a mudança de histórias ele ocupa posições diferentes na cadeira ou assume outro gestual.

Softley tem paralisia cerebral grave, distrofia muscular e problemas de fala. E um sorriso vitorioso no rosto. Seu espetáculo é uma celebração à vida e um soco em cada um de nós que vive reclamando por coisas banais.

Humor e ironia são trunfos da montagem

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Janeiro começa com irreverência do Dzi Croquettes

Encontro do Dzi Croquetes e Vivencial, na Galeria Café Castro Alves. Foto: Helder Ferrer

Encontro do Dzi Croquetes e Vivencial, na Galeria Café Castro Alves. Foto: Helder Ferrer

Duas potências cênicas num encontro memorável. O grupo Dzi Croquettes cambiou alegrias no encontro com os integrantes da trupe Vivencial, ontem, na Galeria Café Castro Alves (Rua do Lima, 280, Santo Amaro) Com o espaço lotadíssimo, ambas as tropas irreverentes, marcos do teatro brasileiros travaram um conversa sobre arte e vida.

Hoje o grupo abre o Janeiro de Grandes Espetáculos com a montagem –, Dzi Croquettes em Bandália – Um Musical Eletrônico. É um musical brasileiro que traz de volta uma tropicalidade, na pele de vedetes antropofágicas carnavalizando o mundo, com suas críticas certeiras. O diretor e ator Ciro Barcellos se inspirou para a encenação em Torquato, Capinan, Macalé, Gil e Caetano. Mas a peça remete para o Brasil de sempre, com toda a bandalheira.

A volta do celebrado bando de artistas ao palco ganhou um empurrão definitivo com o sucesso do documentário Dzi Croquettes (2009), de Raphael Alvarez e Tatiana Issa. Com apenas três integrantes do grupo original Claudio Tovar (figurino), Bayard Tonelli participação especial e Barcellos (a maioria dos integrantes do Dzi já morreu). O elenco jovem foi selecionado entre 450 candidatos.

O Dzi Croquettes desafiou a ditadura militar há 40 anos, encarou a censura e desbundou nos palcos. Treze homens barbudos travestidos causaram furor. Foram exilados, fez turnê pela Europa, ganhou um fã-clube de estrelas, como Liza Minnelli, e em 1975 o grupo se desfez. Com o documentário, o grupo passou a ser conhecido, admirado e festejado pelas novas gerações.

Coletivo carioca faz três apresentações no Recife. Foto: Divulgação

Coletivo carioca faz três apresentações no Recife. Foto: Divulgação

SERVIÇO

Dzi Croquettes em Bandália – 40 Anos de História / Dzi Croquettes (Rio de Janeiro/RJ)
Quando: Hoje, amanhã e sexta-feira, às 21h
Onde: Teatro de Santa Isabel
Quanto: R$ 40 e R$ 20
Indicação: a partir de 16 anos

Ficha técnica –
Concepção, texto e direção geral: Ciro Barcellos.
Assistência de direção e roteiro: Radha Barcellos.
Direção musical: Demétrio Gil.
Coreografias: Ciro Barcellos e Lennie Dale.
Direção técnica: Ronaldo Tasso.
Iluminação: Aurélio de Simoni.
Trilha sonora: Demétrio Gil e Flaviola.
Figurinos e adereços: Cláudio Tovar.
Cenário: Pedro Valério.
Supervisão artística: Thina Ferreira.
Direção de produção: Robson Agra.
Produção executiva: Anna Ladeira.
Elenco: Ciro Barcellos, Demétrio Gil, Udilê Procópio, Leandro Melo, Thadeu Torres, Franco Kuster, Pedro Valério, Ricardo Burgos, Sonny Duque e Robson Torinni, com participação especial de Bayard Tonelli.

Escrevi textos sobre o Dzi Croquettes que foram publicados no Diario de Pernambuco. Reproduzo aqui:

Documentário sobre o grupo ganhou muitos prêmios em festivais e incentivou a volta do grupo. Foto: Divulgação

Documentário sobre o grupo ganhou muitos prêmios em festivais e incentivou a volta do grupo. Foto: Divulgação

Desbunde desafia regime militar
Cine BH // Grupo de teatro que virou símbolo da contracultura brasileira, Dzi Croquettes provocou revolução nos costumes nos anos 1970 e inspira documentário
2009/10/20/viver15

Passeata de coturno rimava com arrepios de pavor. Cada vez menos cidadão, o brasileiro gradativamente perdia seus direitos individuais. A repressão política sumia com pessoas nos seus porões. A força bruta sustentava o regime militar. Nesse cenário, no início da década de 1970, surgiu um grupo que revolucionou os costumes do lugar, influenciou artistas no Brasil e na Europa e conquistou o coração da cantora Liza Minelli e a sempre surpreendente Paris.

Desbunde com inteligência, ironia com coragem, alegria contagiante são algumas das qualidades do grupo de teatro Dzi Croquettes, que fez da arte sua arma naqueles anos de chumbo, primeiro no Rio de Janeiro, depois em São Paulo. O bando, que se tornou símbolo da contracultura brasileira, usava humor, graça, talento, em númeroscantados, dublados e dançados, entremeados por monólogos inspirados na experiência dos integrantes para falar da realidade, da repressão sexual passando pela censura e pela ditadura.

A trupe causou furor, com seus figurinos ousados, maquiagem pesada e um árduo trabalho de interpretação. Wagner Ribeiro, a Mammy, era uma espécie de “cabeça” do grupo (criador dos textos), e Lennie Dale, dançarino norte-americano, era o Pappy, “o corpo” da equipe (coreografias). Participam ainda do bando os bailarinos Cláudio Gaya, Cláudio Tovar, Ciro Barcellos, Reginaldo de Poli, Bayard Tonelli, Rogério de Poli, Paulo Bacellar, Benedictus Lacerda, Carlinhos Machado e Eloy Simões.
Esses rapazes ensolarados despertavam paixões em homens e mulheres. Juntos, eles eram manifestações de criatividade, sensualidade, androginia. Seus shows resplandeciam de purpurina, brilhos e escracho com grande impacto visual. Eles fizeram escola.

A atriz e cineasta Tatiana Issa, filha do cenógrafo Américo Issa, que fazia parte da equipe técnicada trupe, captou esse espírito meio louco, de quem rompeu com os paradigmas, no documentário Dzi Croquettes. Quando Tatiana tinha dois anos, em Paris, conviveu com o grupo, que chamava de palhacinhos. Ela assina a direção em parceria com Raphael Alvarez. Dzi Croquettes foi exibido no domingo na Mostra Cine BH, onde arrancou calorosos aplausos. Dzi Croquettes ganhou dois prêmios no Festival do Rio, o do Júri popular e o de melhor documentário, dividido com Reidy, aconstrução da utopia, de Ana Maria Magalhães.
O documentário está dividido em segmentos em que os personagens são apresentados um a um, sem necessariamente seguir uma ordem cronológica. E é entrecortado por depoimentos atuais de quem conviveu ou foi influenciado pela trupe. Na lista de entrevistados constam Marília Pêra, Gilberto Gil, Nelson Motta, Ney Matogrosso, José Possi Neto, Claudia Raia, Miguel Falabella, Pedro Cardoso, Elke Maravilha e Liza Minelli.

O tom do filme é apaixonado, ao ponto de suplantar até mesmo alguns obstáculos técnicos, com a precariedade do som. Além dos depoimentos (inclusive dos cinco integrantes do grupo que estão vivos) entrecortados por temas, que enriquece a construção da memória, os diretores utilizaram imagens de arquivo (o mais rico foi um super-8 de um ensaio, único registro audiovisual dos dançarinos, que encontraram na Alemanha).

O filme começa com um painel sobre o Brasil na época do AI-5 e depois expõe o grupo, utilizando fotografias e intervenções tecnológicas. A abordagem apaixonada deixa de fora idiossincrasias e questões mais contraditórias do funcionamento interno do grupo, como o episódio do rompimentode Lennie Dale com o restante do bando. E não aprofunda os problemas de relacionamento provocados pelo temperamento intempestivo de alguns. É uma ausência no documentário que buscou enaltercer a trajetória desse grupo solar, que mudou a direção dos ventos na arte brasileira.

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Arte indomável do Dzi Croquettes
Com deboche e criatividade, trupe teatral provocou revolução nos palcos dos anos 1970 e tem sua história recuperada em documentário que tem pré-estreia hoje, no Cinema da Fundação
Ivana Moura
2010/09/07/viver1_

Um bando de 13 homens peludos, barbudos, transbordantes de irreverência, vestidos com roupas e acessórios femininos, usando uma maquiagem pesada, desafiou a rigorosa ditadura militar nos anos 1970. Com ironia e inteligência, o grupo se tornou símbolo da contracultura. Um escracho só! Com performances de dança e esquetes de comédia, criaram um produto único, sem classificação naqueles tempos sombrios, e arrebatavam fãs por onde passavam.

Parte da trajetória dessa trupe extraordinária, chamada Dzi Croquettes, é recuperada pela dupla de cineastas Tatiana Issa e Raphael Alvarez, no filme que leva o nome do grupo, Dzi Croquettes. O documentário tem pré-estreia hoje, no Cinema da Fundação, com a presença do ator Claudio Tovar, ex-integrante do grupo. Os diretores Raphael Alvarez e Tatiana Issa estão em Nova York, onde moram. A sessão começa às 19h50, e, logo após, haverá um debate com o Tovar. Assisti ao Dzi Croquettes no Festival de Cinema de Belo Horizonte do ano passado. E mesmo sem ter conhecido a turma, fiquei com saudades de todo aquele escracho, de toda aquela energia.

A obra mistura docdrama e uma pesquisa exaustiva em arquivos, procedimentos articulados com entrevistas inéditas e uma edição ágil, que dá conta do clima festivo, irreverente e gracioso do grupo. Algumas imagens de arquivo foram encontradas num canal de televisão alemão, que filmou um espetáculo na íntegra, em meados dos anos 1980. O filme também traz depoimentos dos integrantes originais do Dzi Croquettes: Claudio Tovar, Ciro Barcelos, Bayard Tonelli, Rogério de Poly e Benedito Lacerda. Eles recordam a atuação do grupo e defendem a importância da turma para a cultura brasileira daquele período e a repercussão disso até hoje. Há também falas de gente que se relacionou com a trupe, como Marília Pêra, Betty Faria, Jorge Fernando, Miguel Falabella, Maria Zilda, Claudia Raia e Gilberto Gil, entre outros. Espécie de madrinha do grupo, a cantora e atriz norte-americana Liza Minelli dá um dos depoimentos mais emocionantes. Ela foi responsável pelo sucesso dos Dzi em Paris.

O filme abre com um painel do Brasil na época do AI-5 e depois apresenta o grupo, utilizando fotografias e intervenções tecnológicas. Os diretores não aprofundam nas idiossincrasias e contradições, no funcionamento interno do grupo, como o episódio do rompimento de Lennie Dale com o restante do bando. Nem investigam os problemas de relacionamento provocados pelo temperamento intempestivo de alguns. Insinua, é verdade, mas prefere seguir o caminho de enaltecer o percurso desse grupo solar, que marcou profundamente a arte brasileira e estava meio esquecido.

Mas o desbunde era fruto de muito trabalho, de pesquisa, de treinamento, de ensaio. Wagner Ribeiro, a Mammy, era considerado o “cabeça” do grupo (criador dos textos), e Lennie Dale, dançarino norte-americano, era o Pappy, “o corpo” da equipe (coreografias). Participam ainda do bando os bailarinos Cláudio Gaya, Cláudio Tovar, Ciro Barcelos, Reginaldo de Poli, Bayard Tonelli, Rogério de Poli, Paulo Bacellar, Benedictus Lacerda, Carlinhos Machado e Eloy Simões. Esses rapazes faziam homens e mulheres se apaixonarem. Juntos, eram manifestações de criatividade, sensualidade, androginia.

A liberdade era o principal alimento desse bando, que, de tanto cutucar a ditadura, ficou proibido de se apresentar no Brasil. Eles foram passar uma temporada em Paris. O grupo virou mito da cena teatral dos anos 1970. Sua transgressão artística e sexual influenciou outros coletivos, como a banda Secos & Molhados, liderada por Ney Matogrosso. Eles fizeram escola.

Dzi Croquettes na década de 1970

Dzi Croquettes na década de 1970

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Janeiro de Grandes Espetáculos inscreve até o dia 16

A coordenação do Janeiro de Grandes Espetáculos decidiu, como acontece em várias mostras do país, se organizar e adiantar os prazos para os grupos que desejam se inscrever no festival. Na prática, a ideia é que, até o final da primeira quinzena de setembro do ano anterior ao festival, a lista com os espetáculos locais que irão participar da mostra seja divulgada. É uma medida que tem a ver com planejamento e deve repercutir de várias formas, como na divulgação da mostra para o público e, quem sabe, nos próximos anos, na instalação, por exemplo, de uma bilheteria virtual.

Por conta disso, para a edição 2014, só podem se inscrever no festival espetáculos inéditos de teatro e dança de Pernambuco que estrearam este ano até o dia 1 de agosto de 2013. Há a possibilidade de estrear dentro do festival – período que vai de 9 a 25 de janeiro. Nos dois casos, é preciso se inscrever até o dia 16 de agosto.

A ficha de inscrição está disponível no site www.janeirodegrandesespetaculos.com e o material deve ser entregue pessoalmente na Associação de Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe) ou pelos Correios.

Confira aqui o regulamento e a ficha de inscrição para o Janeiro de Grandes Espetáculos.

O festival deve ter ainda na sua programação espetáculos de Pernambuco que já se apresentaram no festival noutras edições e voltam como convidados da coordenação; e montagens de outros estados e países, também a convite da produção do Janeiro.

Dívida – A propósito, a Prefeitura de Olinda ainda não quitou suas dívidas com o Janeiro de Grandes Espetáculos. É uma verba de apenas R$ 35 mil. “É uma pena, porque o festival foi lindamente realizado lá e não temos previsão de quando esse dinheiro será pago. Mas temos fornecedores que dependem desse pagamento”, explica a produtora Paula de Renor.

Entramos em contato com a assessoria de imprensa da Prefeitura de Olinda, que ficou de nos enviar uma nota até amanhã. Assim que chegar, publicamos aqui no blog.

Carla Valença, Paulo de Castro e Paula de Renor, produtores do Janeiro de Grandes Espetáculos. Foto: Pollyanna Diniz

Carla Valença, Paulo de Castro e Paula de Renor, produtores do Janeiro de Grandes Espetáculos

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