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Edital de emergência confere ânimo para artistas

Alguns selecionados do edital Arte como respiro: múltiplos editais de emergência: Herminia Mendes, PE (foto: Rogério Alves); Jéssica Teixeira, CE (Reprodução do FB); Núcleo Bartolomeu de Depoimento, SP (foto: Divulgação); Clowns de Shakespeare, RN (foto: Bruno Soares): Maikon K, PR (foto: reprodução do FB)

O número de inscritos no edital Arte como Respiro: múltiplos editais de emergência – Artes Cênicas, do Itaú Cultural, nos oferece uma dimensão da crise no setor cultural diante da paralisação das atividades relacionadas à área. Entre os dias 6 e 10 de abril, na busca por sobrevivência, mais de 7.200 propostas foram recebidas.

Dessas, o instituto escolheu 200, 80 a mais do que estava previsto. A grande maioria dos projetos – 158 – já foram ou serão produzidos neste período de quarentena; outros 42 são gravações prévias ao isolamento.

No Nordeste, 37 propostas foram selecionadas, sendo dez de Pernambuco. Uma delas é da atriz e diretora Hermínia Mendes, que escrutina os sintomas dessa época através de janelas possíveis, inclusive dos aplicativos da Internet. Poesia Performática – Pedaços questiona perspectivas de olhares e cria paralelos dos retalhos de gentes e coisas, deixando rastros, as mortalidades pelos cantos, cabelos pela casa, unhas cortadas, os lençóis amarfanhados, escritos na parede, o reflexo no espelho. 

Onde está todo mundo? é a proposta de montagem de um “espetáculo virtual” do Coletivo Angu de Teatro, do Recife, com texto inédito de Marcelino Freire. A encenação será dirigida virtualmente por Marcondes Lima, que está morando em Portugal. Os atores André Brasileiro, Gheuza Sena, Ivo Barreto, Luis Cao, Lilli Rocha e o próprio Marcondes atuam de suas casas, utilizando como cenografia, figurino e maquiagem o material de que dispõem neste momento. O trabalho dos atores vai ser gravado e depois editado por Tadeu Gondim.

A proposta é exibir uma “Live farsesca”, que não ocorre, porque ninguém chega para o programa, nem o autor Marcelino Freire, nem seus personagens. O trabalho brinda uma parceria exitosa entre autor e grupo no ano em que o livro Angu de Sangue completa 20 anos de lançamento – sendo Angu de Sangue o primeiro espetáculo do Coletivo Angu e que deu nome ao bando.

Opá, Uma Missão, é um monólogo da atriz e diretora Lívia Falcão, que convocou para essa investigação artística sua Palhaça Zanoia, uma benzedeira, descendente direta da xamã mais velha, de terras distantes, que já foi lugar de abundâncias e milagres. Para encontrar a dádiva-diamante escondida em seu corpo, Zanoia carrega por missão das antepassadas a de rir de si mesma nas ‘sete direções’: Leste, Oeste, Norte, Sul, Acima, Abaixo e Dentro. É uma criação coletiva, de Lívia, de Silvia Góes e Andrea Macera, que agora aceita o desafio de seguir virtualmente durante o isolamento.

No Ceará, um dos projetos escolhidos é da atriz, produtora e diretora cearense Jéssica Teixeira, que traz para o debate o seguinte questionamento: “Ser artista solo mulher e com deficiência no Brasil antes e durante o isolamento. E depois?”.  Sua investigação pessoal atua no seu próprio corpo estranho, numa pesquisa sobre “Corpo Impossível”, mola propulsora para a criação do seu primeiro solo “E.L.A”. Nesse trabalho, que fez temporada no Sesc Pompeia, em São Paulo, no ano passado, e agora vai estar disponível online, a artista desestabiliza e potencializa outros corpos e olhares. A peça investe em questões como beleza, saúde, política, feminilidade e acessibilidade, utilizando vídeo, artes plásticas e dramaturgia através de colagens e textos autobiográficos que refletem acerca da aceitação e do nosso lugar no mundo.

Confira a crítica do espetáculo “E.L.A”

Um dos projetos aprovados no Rio Grande do Norte é do grupo Clowns de Shakespeare. A atual circunstância de confinamento social imposta pela pandemia do COVID-19 confere à ficção fantástica Abrazo uma curiosa concretude. Imagine um lugar onde estão proibidos os abraços? Há três meses essa ideia só poderia ser encarada como ditatorial. A proposta da montagem era justamente essa: uma obra sem palavra, várias reflexões sobre repressões e cerceamento de liberdade. O espetáculo infanto-juvenil Abrazos – inspirado em O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano – foi censurado na temporada na Caixa Cultural em Pernambuco, em 2019.

O vídeo da encenação será disponibilizado online na íntegra, acompanhado de uma ação de desdobramento a partir de três pontos de vista: do grupo, do público e de convidados. Essas repercussões podem chegar no formato de textos (dramático, poético ou em prosa), vídeo ou canções, propondo uma atualização da provocação de Abrazo. O grupo também vai instigar o público a enviar material para os Clowns. Alguns parceiros, como Eduardo Moreira (Grupo Galpão/MG), Maurice Durozier (Théâtre du Soleil/França), Ana Correa (Yuyachkani/Peru), e outros, participam da ação.

No Sul, 19 projetos serão apoiados. Um deles é do artista da performance, Maikon K, que vive em Curitiba, e pesquisa formas de expansão da consciência, tendo o corpo e sua capacidade de alterar percepções como centro. O trabalho Proteja-se (Meditação) é o um registro de uma performance curta, feita com o celular, com cerca de 4’30’. Maikon K propõe uma ação de limite e resistência, ao vestir um preservativo na sua cabeça, respirando até que o látex se rompa. Com o trabalho, o artista fricciona tempo atual em meio à solidão, necessidade de proteger-se do mundo exterior e do contato com outrxs, a angústia, o sufocamento, a persistência, a busca por sobrevivência e fôlego.

Da região Sudeste, 126 projetos foram aprovados, sendo 82 de São Paulo, estado com o maior número de selecionados no país. Um deles é do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, que avança nas proposições do espetáculo Terror e Miséria no Terceiro Milênio – Improvisando Utopias. Na peça, nove atores e dois DJs ensaiam confinados em um teatro. O debate deriva da dramaturgia de Bertolt Brecht para aventar a falência contemporânea. Novas questões foram colocadas com o advento da pandemia. Inspirada nas ideias do filósofo camaronês Achille Mbembe, o grupo desafia o neoliberalismo/ necroliberalismo como sistema que sempre operou com um aparato de cálculo, e agora expõe outra face ainda mais terrível: o que é mais importante a economia ou a vida? A necropolítica segue operando de maneira global para decidir quem tem direito à vida. 

Confira matéria sobre Terror e Miséria no Terceiro Milênio – Improvisando Utopias.

Galiana Brasil. foto André Seiti / Divulgação

ENTREVISTA // GALIANA BRASIL, gestora de Artes Cênicas do Itaú Cultural

Primeiramente acredito que os artistas reconhecem o esforço do Arte como respiro: múltiplos editais de emergência, mas de que forma o instituto pretende avançar no apoio aos artistas durante o período de pandemia da Covid-19?
Penso que as ações de apoio começaram ainda antes do edital, com a decisão de manter pagamentos de cachês de todos os grupos e artistas que tinham agenda confirmada para apresentação neste semestre, para que pudessem contar com esse respiro financeiro com compromisso de mais adiante, a partir do segundo semestre, acomodarmos nova agenda de programação. Passado o edital – ou em paralelo à execução dos trabalhos selecionados, ainda faremos curadorias, convites e manteremos programação no site e plataformas parceiras.

Foram mais de 7,2 mil inscrições de todo o país, sendo selecionados 200 trabalhos de 25 estados. Que análise é possível fazer desses números? Sobre políticas culturais no Brasil? Sobre a atuação do Itaú Cultural? 
Olha, eu penso que já havia uma crise instaurada antes, pré-pandemia, e esse estado agora  sangrou mais vivamente um setor que já vinha sofrendo com a ausência de políticas públicas, de interrupções e falta de continuidade de projetos, orçamento incerto e precarizado e tantos ataques que maculam a noção de política pública.

Quais os critérios foram adotados para escolher esses selecionados?
O edital foi concebido em dois eixos. No primeiro, que permitia inscrição de trabalhos produzidos antes da pandemia, tínhamos um único requisito de partida que era uma solicitação para que o artista olhasse para essa obra “antiga” e propusesse algo que pudesse refletir no tempo presente, na forma que tivessem melhor condição de fazer – um texto crítico, uma reflexão, um bate-papo com os criadores que poderia ser através de live – achamos importante essa inserção porque subir um vídeo de um trabalho feito lá atrás – registro filmado de espetáculo – é algo bem menos complexo do que conceber e se desafiar a criar algo em situação de isolamento, com os recursos e possibilidades que se tenha, como foi o eixo segundo do edital. Afora esse critério mais objetivo que aplicamos no eixo 1, para ambos os eixos consideramos a relevância da proposta para o momento, a capacidade de comunicação com diferentes públicos, o histórico do grupo/artista e sua relação com aquele segmento.

O que podemos entender como “ampla representatividade” do resultado?
A diversidade de territórios, de segmentos nas linguagens. De termos contemplado trabalhos de performance, teatro de animação, dança e teatro para crianças. O fato de termos artistas com corpos desviantes, LGBTs, em especial trabalhos com protagonismo de artistas trans, artistas com deficiência, proponentes indígenas, trabalhos de cultura popular – mamulengo, maracatu -, trabalhos vindos de favelas, zona rural, agreste, circo tradicional. Os trabalhos de intérpretes e coletivos negros com força de número e conteúdo. Essa tentativa real de interferirmos nas assimetrias que ainda parece tímida nos números finais, mas que sabemos que é uma batalha frente às forças hegemônicas de séculos, basta considerar, apenas no quesito regionalidade, que mais de 64% dos inscritos foram da região Sudeste.

Como vocês estão trabalhando no Itaú Cultural durante esse período de quarentena?
Estamos trabalhando remotamente tanto quanto intensamente, desde uns dias antes do anúncio oficial de isolamento aqui em São Paulo. Estamos também em articulação com grupos, artistas, veiculando e programando diversos projetos no nosso site, que tem sido palco virtual de todas as linguagens artísticas. Apenas alguns exemplos das Artes Cênicas, encerramos recentemente as inscrições para a EAD Dramaturgia Negra – A Palavra Viva, com a professora Dione Carlos e, a partir de sábado (dia 9), estrearemos a série virtual “Camarim em Cena”, sendo este primeiro programa com a atriz Maria Alice Vergueiro.

Já existe uma agenda para a exibição dos projetos selecionados? Serão divididos por blocos? Quais serão as categorizações?
Estamos trabalhando justamente nessa acomodação, nesse momento pós anúncio dos selecionados. Em breve teremos essas informações.

Você consegue vislumbrar ações (articulações, pensamentos), dentro ou fora do instituto, do que fazer para que os artistas, nesta realidade de capitalismo, não fiquem tão vulneráveis economicamente, como a maioria vive agora?
Essa é a pergunta mais difícil de ser respondida, Yolandas. A pessoa que vos fala também nunca viveu algo assim e, porque humana, também se sente vulnerável e sente medo. Desde que começou o isolamento trabalhamos intensamente na busca de formas de apoio e rede de proteção para o setor, que não se encerrará na criação de um edital, até porque a situação parece longe de suavizar. Vamos combinar que, se a ideia é despertar a espécie, vemos que ainda tem muita gente dormindo ou num estado de nem uma coisa nem outra, o que é um tanto pior. Penso que precisaremos rever pensamentos de base (que tem a ver com tua próxima pergunta), e isso vale para toda a cadeia – do artista ao gestor. É nesse ponto que estamos agora, e isso é mais difícil porque não há distanciamento, então a tendência é encarar o momento com os instrumentos do “antes”. Porém, certamente, eles parecerão insuficientes, então precisaremos de novos significados para apoio, aporte, parceria… eu não tenho essas respostas, mas outras tantas dúvidas, eu tenho problemas e eles são motor para quem pesquisa, então vamos juntes criar formas para nos conectarmos com esse devir.

A discussão do momento é se o material que circula online por artista da cena, performance, pode ser considerado teatro. Se realmente existe teatro sem presença, sem o compartilhamento do tempo que arde no calor da hora entre artistas e público. O que você pensa sobre isso?
Acho a discussão pertinente, e não apenas pelo momento, mas, considerando a origem e natureza do teatro que é sim arte do encontro, da presença. Tal tensionamento, inclusive, não tem nada de novo, porém, a chegada desse vírus, forma de contágio e suas consequências trazem um caráter de imposição, de urgência que sim, nos atravessa como algo inaugural. E penso que vai ser interessante – ou condicionante -, deslocar esse desconforto e tentar “encarná-lo” em formas de fazer, porque o horizonte próximo sugere a criação de novos protocolos para convivência. Particularmente não estou pronta para imaginar uma existência sem encontro, mas preciso estar preparada – e mesmo motivada – a ampliar essa noção de encontro, o que talvez seja chave importante para acessar essa nova dimensão de nossa existência.

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Vagas para os cursos Dramaturgia e Cultura no Itaú

A dramaturga Dione Carlos ministra curso Dramaturgia Negra. Foto: Athos Souza.

A segunda turma do curso Dramaturgia Negra: a Palavra Viva vai funcionar de 11 de maio a 23 de junho de 2020, oferecida em plataforma on-line para interessados de todo o país. É uma prática do Núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural em parceria com o Observatório Itaú Cultural. As aulas serão ministradas pela dramaturga Dione Carlos, autora de 15 textos encenados. As inscrições ficam abertas por apenas dois dias, terça, 28, e quarta-feira, 29 de abril, até às 23h59 – horário de Brasília. A submissão deve ser feita exclusivamente pela internet, mediante preenchimento de formulário, disponível no site itaucultural.org.br, e carta de interesse.

São disponibilizadas 40 vagas dirigidas a artistas, dramaturgos, pesquisadores e estudantes em geral, com experiência profissional ou amadora nas artes cênicas. A lista dos selecionados será divulgada, também no site do Itaú Cultural, no dia 8 de maio de 2020.

O programa gratuito propõe encontros e exercícios para pensar a dramaturgia negra numa configuração ampla, multicultural, articulando influências do teatro egípcio à dramaturgia negra contemporânea, além das heranças indígenas-afro-brasileiras. Além do panorama histórico do teatro negro no Brasil, o curso mergulha na obra de três dramaturgas contemporâneas: Fernanda Júlia Onisajé, da Bahia; Viviane Juguero, do Rio Grande do Sul; e Cristiane Sobral, do Distrito Federal.

Do conteúdo temático constam As Matrizes Negras da Dramaturgia, Entre Teatros e Dramas: Universos Cênicos, Teatro Brasileiro: Indígenas e Negros como os Primeiros Atores e Dramaturgias e Escrevivências.

Cultura e Desenvolvimento

Com o intuito de analisar maneiras de incluir a cultura na agenda política de desenvolvimento e dirigido a produtores, agentes culturais, artistas, pesquisadores e professores com experiência profissional na área cultural, o programa Cultura e Desenvolvimento cultiva o debate inesgotável da relação entre os dois conceitos que qualificam o curso. Professores de diferentes segmentos e formações na área cultural vão conduzir os trabalhos: Adriana Barbosa, gestora de eventos e idealizadora da plataforma Feira Preta, Alfons Martinell, professor emérito da Universidade de Girona, o sociólogo mexicano Enrique Glockner, a jornalista e ativista cultural Marta Porto, e Paula Moreno, ex-ministra da Cultura da Colômbia.

As inscrições podem ser feitas pelo site www.itaucultural.org.br , a partir de quarta-feira (29 de abril), às 10h, até se esgotarem as vagas. As aulas de Cultura e Desenvolvimento serão realizadas nos dias 12, 19 e 26 de maio e 2 e 9 de junho (terças-feiras). No dia 12 de maio será também lançada a edição 27 da Revista Observatório Itaú Cultural, que traz reflexões sobre como a cultura pode ser capaz de influenciar de forma relevante a Agenda 2030 – conjunto de objetivos e metas criado em 2015, em encontro na sede da ONU, e que integram um plano de ação para erradicar a pobreza e proteger o planeta.

SERVIÇO
Curso Dramaturgia Negra: A Palavra Viva
Inscrições: Dias 28 e 29 de abril (terça-feira e quarta-feira)
Pelo site www.itaucultural.org.br
Número de vagas: 40
Anúncio dos selecionados: 8 de maio
Curso: De 11 de maio a 23 de junho

Curso Cultura e Desenvolvimento
Inscrições: A partir de 29 de abril (quarta-feira), às 10h, até se esgotarem as vagas
Pelo site www.itaucultural.org.br
Número de vagas: 350
Anúncio dos selecionados: 6 de maio
Curso: Dias 12, 19 e 26 de maio e 2 e 9 de junho (terças-feiras)

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Itaú Cultural lança edital de emergência para cênicas

          O primeiro edital do Itaú Cultural dessa leva “Arte como respiro” é direcionado aos trabalhadores das artes cênicas (circo, dança e teatro) e está com inscrições abertas desta segunda-feira (06/04) até sexta-feira (10/04).            Na foto, o ator Paulo de Pontes, da Casa Maravilhas no Recife, apresenta programa, sem remuneração, para crianças  no Youtube durante a quarentena. Foto: Reprodução

Cerca de cinco milhões de pessoas atuam no setor cultural no Brasil, segundo dados apresentados pelo IBGE em 2018. Todas foram atingidas pela pandemia do novo coronavírus, de uma forma ou de outra. Acontece que neste país tropical de imensas desigualdades sociais e econômicas, e mais, há trabalhadores da cultura que se garantem por dois, três meses de quarentena, e aqueles que foram nocauteados com essa nova realidade brasileira e mundial. Alguns artistas estão na cota dos mais vulneráveis com essa avalanche que atinge toda a cadeia de produção.

Os artistas independentes, autônomos, que vivem de bilheteria ou de projetos foram surpreendidos. Com conta bancária no vermelho, boletos pra pagar e tarefa de garantir a alimentação da temporada. Situação complexa. Diante da crise, a cultura pede socorro. De que forma os governos federal, estaduais e municipais estão colaborando com a cultura? Assunto para alimentar muitos debates nas redes sociais e grupos de zap.

Muitos artistas expõem seus trabalhos nas redes e plataformas, sem remuneração, nessa temporada de isolamento social. O ator Paulo de Pontes, da Casa Maravilhas, do Recife, é um deles. Todo os dias, Paulinho lê um livro infantil, da Biblioteca Moura Torta, para os miúdos. O ator não está sendo remunerado por essa ação, paralisou as produções e precisa pagar as contas. São milhares na mesma situação.

O desempenho de criação online do meio artístico chamou a atenção dos dirigentes do Itaú Cultural, que resolveram criar e lançar com presteza o Arte como respiro: múltiplos editais de emergência. As inscrições estão abertas no site do instituto, desta segunda-feira, 6 de abril, até sexta-feira, 10 de abril. Interessados devem se apressar.

Com essa iniciativa, o Itaú Cultural vai apoiar os artistas que foram compelidos a atuar isoladamente e sem remuneração, devido ao isolamento social solicitado pelos organismo de saúde devido à pandemia da COVID-19. No intuito de gerar recursos na economia criativa, essa primeira etapa irá selecionar os projetos de artes cênicas – circo, dança e teatro –, em dois eixos.

O primeiro vai considerar os materiais elaborados no período da quarentena – proposta de apresentação em tempo real ou envio de programa já gravado em vídeo, com a exigência de que seja produzido nesta condição de recolhimento. O outro é direcionado a espetáculo cênico completo gravado anteriormente, mas com algum ajuste ao momento de recolhimento, “com uma intervenção gerada no momento de suspensão social”.

As inscrições devem ser realizadas pelo link https://itaucultural.formstack.com/forms/artecomorespiro .

120 projetos – até 90 no eixo “trabalhos produzidos na quarentena” e até 30 no eixo “espetáculo cênico completo já gravado” – serão selecionados pela equipe de programadores do Núcleo de Artes Cênicas da organização. O grupo avisa que serão levados em consideração critérios poéticos, apuro técnico, capacidade de realização e maior possibilidade de recepção de públicos.

A remuneração financeira será de até R$ 10 mil para todos os selecionados, como pagamento pelo licenciamento dos direitos autorais do trabalho.

Os contemplados serão informados por e-mail no dia 25 de abril. O material selecionado será exibido ao público de acordo com a agenda organizada pela equipe de artes cênicas dentro do prazo de até dois meses, com possibilidade de alteração diante do quadro social da pandemia ou de adequação do Itaú Cultural.

“Acreditamos que as instituições que têm condições semelhantes a nós, possam desenvolver programas e ações para oferecer mais imaginação, criatividade e oxigênio afetivo, em circunstâncias tão difíceis para a população, e, ao mesmo tempo, garantir algum apoio para a economia da cultura”, incentiva Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.

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Críticas da colonização na América Latina

Há Mais Futuro que Passado, do Complexo Duplo. Foto: Nityama Macrini

As Veias Abertas da América Latina: Cinco Séculos de Pilhagem de um Continente, de Eduardo Galeano (mesmo autor de O livro dos abraços, que inspirou a peça Abrazos, do Clowns de Shakesperare, cancelada na Caixa Cultural Recife), norteou a programação da terceira edição do Crítica em Movimento, realizado pelo Itaú Cultural. O evento, que tem curadoria assinada pelo jornalista e crítico Valmir Santos em parceria com o instituto desde o primeiro ano, começa nesta terça-feira (10) e segue até 15 de setembro.

Comentando a escolha pela obra de Galeano, Valmir Santos chama a atenção para a sua atualidade negativa. “Em 2010, quando a obra de 1971 ganhou uma nova tradução e edição brasileiras, o autor uruguaio declarou: ‘A história não quer se repetir – o amanhã não quer ser outro nome do hoje –, mas a obrigamos a se converter em destino fatal quando nos negamos a aprender as lições que ela, senhora de muita paciência, nos ensina dia após dia’.

A programação inclui cinco debates, cinco espetáculos e uma oficina. A abertura será com a discussão “O Brasil pertence à América Latina?”, com a participação de Julián Fuks, escritor, Denise Mota, jornalista, e Mateo Piracés-Ugarte, produtor e multi-instrumentista, integrante da banda Francisco, el Hombre. A mediação é do gestor cultural, dramaturgo e diretor Pedro Granato.

Os espetáculos, por diferentes perspectivas, repercutem a colonização na América Latina. A programação abre com Pundonor, da companhia argentina El Patrón Vázquez, que tem como personagem central uma professora de sociologia. O diretor e dramaturgo do grupo, Rafael Sprégelburd, participa de um debate na sexta-feira (13).  “Ele atua há 25 anos em Buenos Aires e é fundador do grupo El Patrón Vázquez. Também transita muito pelo cinema, como no filme O Crítico (2013), de Hernán Guerschuny, no qual interpreta resenhista que se vê preso ao enredo de um tipo de filme que despreza, a comédia romântica”, pontua Valmir Santos.

Na sexta-feira (13), é a vez de Há Mais Futuro que Passado – Um Documentário de Ficção, do Complexo Duplo, com direção de Daniele Avila Small, espetáculo cuja equipe é toda formada por mulheres, discutindo o lugar da mulher na história da arte na América Latina.

Cartas de Niños. Foto: Divulgação

Cartas de Niños, com direção de María Sepúlveda, é inspirada em cartas e desenhos escritos por filhos de presos políticos, que viveram a infância na época da ditadura no Chile. A apresentação é no sábado (14), às 18h. “Num sincronismo involuntário da agenda dos artistas, mas de relevância poética e inclusive civilizatória, já que nesta semana é lembrado o golpe que instaurou a ditadura militar no Chile, em 11 de setembro de 1973, vamos receber na cidade um espetáculo para crianças narrado a partir da ótica de um garoto que teve o pai sequestrado naquele período”, destaca Santos.

Já às 22h, também no sábado, o grupo argentino La Mucca Teatro encena Nadie Murió de Amor Excepto Alguien Alguna Vez, com direção de Guilherme Baldo, que leva ao palco mecanismos violentos de sobrevivência.

A programação termina no domingo com a participação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que traz Violeta Parra – Uma atuadora!, performance cênico-musical que tem como foco central a cantora e violonista chilena.

O Crítica em Movimento terá ainda uma oficina intitulada Dramaturgia em Movim(i)ento, com a atriz, diretora e professora Malu Bazán, entre os dias 11 e 14 de setembro.
Serviço:

Crítica em Movimento

10/09 (terça-feira)
20h: Debate – O Brasil pertence à América Latina?
Com Julián Fuks, Denise Mota e Mateo Piracés-Ugarte. Mediação: Pedro Granato

11/09 (quarta-feira)
19h: Debate – Adiós Paraguay, uma pesquisa de campo por ideias e rituais
Com Teresa González Meyer, Cleiton Pereira e Daniele Santana. Mediação: Valmir Santos

12/09 (quinta-feira)
20h: Pundonor

13/09 (sexta-feira)
16h: Debate – Dramaturgias e fricções de recepção crítica
Com Rafael Spregelburd e Guillermo Baldo. Mediação: Marcia Nemer Jentzsch
20h: Há Mais Futuro que Passado – Um Documentário de Ficção

14/09 (sábado)
16h: Debate – A expansão de formas e ideias no teatro para crianças e adolescentes
Com María Sepúlveda, Amauri Falsetti e Luvel García Leyva. Mediação: Brenda Campos
18h: Cartas de Niños
22h: Nunca Nadie Murió de Amor Excepto Alguien Alguna Vez

Violeta Parra – Uma Atuadora!. Foto: Divulgação

15/09 (domingo)
16h: Debate – A relevância das trocas artísticas e culturais entre países latinos
Com Luis Alonso-Aude, Felipe Vidal e Cris Diniz. Mediação: Alexandre Roit
19h: Violeta Parra – Uma Atuadora!

Quanto: Gratuito
Onde: Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149, São Paulo)

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Femininos encerram Dança de agosto no Itaú

Antílope, de Flávia Pinheiro; Eu, Elas de Juliana Moraes e Entrelinhas de Jaqueline Elesbão

O tom político e as questões femininas marcam as produções do Dança no Itaú que ocorre no fim de semana – de 30 de agosto a 1º de setembro, encerrando a programação de agosto. A artista pernambucana Flavia Pinheiro vem com sua investigação do corpo em Antílope; a paulista Juliana Moraes questiona os comportamentos aceitos socialmente como femininos em Eu, Elas; e a baiana Jaqueline Elesbão investe em esquadrinhar a violência de gênero e raça em Entrelinhas.

O circuito começou em 15 de agosto, e abriu espaço para coreografias nascidas a partir de movimentos políticos, estéticos e poéticos que fogem do convencional – a exemplo da dança de rua, funk, popular e de origem africana. Ao todo somam-se 10 montagens com artistas vindos de diferentes influências e lugares do país: de São Paulo, Juliana Moraes e o Grupo Fragmento Urbano; da Bahia, Kety Kim Farafina e Jaqueline Elesbão; do Rio Grande do Norte, Alexandre Américo e a companhia Gira Dança; de Pernambuco, Angelo Madureira, Flávia Pinheiro e Pedro Lacerda e, do Ceará, Katiana Pena e Wellington Gadelha.

Flavia Pinheiro em Antílope. Foto: Amanda Pietra

Antílope é a designação vasta para o mamífero bovídeo, e que engloba subfamílias, que guarda parentesco com vacas ou cabras. É o nome do espetáculo que Flavia Pinheiro leva ao palco às 21h desta sexta-feira. O animal tem musculatura poderosa nos quartos traseiros, o que dá agilidade para fugir dos predadores e correr até 100 km/h.  Alguns ostentam cornos ocos.

Flavia Pinheiro desenvolve trabalhos numa conjunção de arte, ciência e tecnologia e utiliza sensores biométricos e ópticos para transformar seus movimentos em ruídos. Em Antílope, performer traça um paralelo da desventura humana, que foge para poder sobreviver. Mas o antílope é considerado um animal com grande capacidade de superar episódios traumáticos e sair de um estado de inconsciência caso sobreviva à caçada.

Às 19h30, na área externa do Itaú Cultural, a companhia Fragmento Urbano expõe a intervenção Breaking de Repente. Explora com sua dança de rua vários aspectos do cotidiano de grandes centros urbanos. Nesta performance, a companhia, criada em 2009, reproduz gestos e familiaridades da rotina social nos grandes centros – como caminhar, procurar objetos e pegar ônibus –, por meio de danças urbanas como popping e locking. 

30/08/2019 SEXTA-FEIRA – 21h às 21h35
Antílope
Flavia Pinheiro(PE)
[duração aproximada: 35 minutos]
Sala Multiuso (piso 2) – 70 lugares
[livre para todos os públicos]

Eu, elas, solo de Juliana Moraes. foto: Cris Lyra /divulgação

O que é um comportamento feminino? A bailarina e coreógrafa paulista Juliana Moraes problematiza a pergunta na apresenta desse sábado, 21h, Eu, Elas. Nesse solo contemporâneo, Juliana usa gestos e posturas socialmente aceitos como femininos no ocidente – especialmente a partir dos anos 1950 – para desconstruir e questionar essas atitudes aprendidos.

Sentada durante 30 minutos, mas movimentando-se freneticamente, a artista elabora uma coreografia fincada na acumulação de gestos em diferentes partes do corpo, criando apuradas combinações. Focada na identidade de gênero, a peça descortina complexos processos de submissão e resistência, numa alternância entre imposições sociais e descobertas libertadoras.

31/08/2019 SÁBADO – 21h às 21h30
Eu, Elas
Juliana Moraes (SP)
[duração aproximada: 30 minutos]
Sala Multiuso (piso 2) – 70 lugares
[classificação indicativa: 12 anos]

Entrelinha, mergulha nas feridas e cicatrizes desse sistema opressor, que mutila milhões de mulheres 

A baiana Jaqueline Elesbão apresenta Entrelinhas no domingo, às 20h, fechando a série de dança no Itaú Cultural em agosto. Diretora, coreógrafa, intérprete e ativista de questões femininas, étnicas e causas LGBT, ela aborda a temática da violência psicológica, emocional e sexual contra a mulher, articulando um diálogo entre o passado e o presente. Entrelinhas vasculha a mentalidade escravocrata e o comportamento machista dominador, que silencia a voz feminina com força física ou metafisica.

01/09/2019 DOMINGO – 20h às 20h35
Entrelinhas
Jaque Elesbão (BA)
[duração aproximada: 35 minutos]
Sala Multiuso (piso 2) – 40 lugares
[classificação indicativa: 18 anos]
[com interpretação em Libras]

SERVIÇO

Dança em agosto no Itaú Cultural
Itaú Cultural
Av. Paulista, 149 – Estação Brigadeiro do Metrô
Tel.: 2168-1776/1777
Entrada gratuita
Distribuição de ingressos:
Público preferencial: 1 hora antes do espetáculo (com direito a um acompanhante)
Público não preferencial: 1 hora antes do espetáculo (um ingresso por pessoa)

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