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Magiluth no reino feliz da Dinamarca

Magiluth estreia Dinamarca, 9º espetáculo do grupo. Foto: Bruna Valença

Magiluth estreia Dinamarca, 9º espetáculo do grupo. Foto: Bruna Valença

Não é de hoje que o Magiluth pensava em enveredar por uma dramaturgia clássica. Lembro que, quando o grupo estava prestes a comemorar dez anos, o ator e dramaturgo Giordano Castro falava com entusiasmo em Otelo. A vida foi levando para outros caminhos, mas no processo de criação do espetáculo anterior, O ano em que sonhamos perigosamente (2015), eles chegaram a cogitar utilizar trechos de Shakespeare em meio ao caos fragmentado que se tornou a encenação; na ocasião, Tchékov se impôs, cabia perfeitamente, e ocupou quaisquer possíveis espaços. Ao decidirem continuar investigando o tempo presente, nas palavras do ator e diretor Pedro Wagner, “um terreno fértil para golpes, para uma direita extremamente conservadora que está tomando conta de todo os lugares do mundo”, chegaram a Hamlet.

Dinamarca, no entanto, que estreia nesta quarta-feira (2), no Teatro Marco Camarotti, no Sesc Santo Amaro, no Recife, não se trata de uma adaptação ou versão do bardo inglês. Shakespeare foi ponto de partida, mas pelas palavras dos integrantes do grupo, talvez funcione mais como esteio ou trampolim. Trechos, frases e sentidos de Shakespeare estão lá, mas não a linearidade, ou mesmo todos os personagens. “Dinamarca só existe porque existiu O ano. Entendemos que a maneira como a gente estava dialogando com o texto vinha da atmosfera e das coisas que tínhamos discutido enquanto dramaturgia ou exercício de cena para a criação do Ano“, explica Pedro Wagner, que assume a direção e, desta vez, não integra o elenco. “Não foi uma escolha inicial de ter um olhar de fora para dirigir. O que aconteceu foi que passei muito tempo durante os ensaios fazendo outros trabalhos, no audiovisual, no teatro com Felipe Hirsch e, quando voltei, o jogo entre os meninos já estava muito estabelecido. Era difícil conseguir me inserir. Foi incompetência minha mesmo”, brinca. Estão no elenco Giordano Castro, que também assina a dramaturgia, Erivaldo Oliveira, Lucas Torres, Mário Sérgio Cabral e o estreante Bruno Parmera (que já estava em cena substituindo Pedro Wagner em apresentações de Luiz Lua Gonzaga, mas ainda não tinha participado efetivamente de um processo de criação com o grupo).

O personagem disparador para as discussões que o grupo pretende levar à cena foi Claudius, tio de Hamlet, que casa com a cunhada um mês depois da morte do rei, pai de Hamlet. “Ele fala pro Hamlet que está tudo bem, que ele é como um filho, que Hamlet não pode ficar chorando pra sempre. Isso nos interessava, esse estado de saber que não está tudo bem, mas olhar no olho e fazer o outro acreditar nisso”, diz Wagner. No espetáculo, um grupo de pessoas participa de uma festa de casamento. Dizem beber, mesmo que não haja nenhuma bebida. Evitam conflitos. Querem viver momentos agradáveis. “No Ano, aquele grupo estava no epicentro de um furacão. Agora, estamos na periferia, e pensamos que esse furacão não nos afeta. Vivemos em bolhas. Você só vê o que quer ver, só lê o que quer, e aí desperdiçamos a possibilidade de diálogo, de crescimento, de perceber que existem pontos revelantes do outro lado. Essas bolhas não são privilégio da esquerda ou da direita”, defende Giordano Castro.

Há também uma tentativa de problematizar nossa identidade em relação ao que nos parece um modelo a ser seguido. “Elsinore não cabe na Dinamarca contemporânea, o povo mais feliz do mundo, que está em todas as listas de melhor distribuição de renda, qualidade de vida. O que seria tentar ser esse dinamarquês aqui? Vestir essa camisa que não me cabe, mas que eu tento vestir mesmo assim?”, questiona o diretor. O que pode significar, por exemplo, Erivaldo Oliveira dizer que é dinamarquês, tem olhos azuis e cabelos ruivos? Mesmo sendo óbvio que não? A felicidade a todo custo, que se instaura teoricamente pela ausência de conflitos, é uma das questões em Dinamarca.

Ainda que seja uma decorrência do O ano em que sonhamos perigosamente ( e não há a decisão sobre uma possível trilogia) a relação que o grupo vai tentar construir com o espectador é outra. Digamos…mais palatável. Talvez pela dramaturgia menos entrecortada, menos cheia de referências, por uma construção mais fluida de pensamento. Ainda assim, avisa Giordano Castro, “pedimos que as pessoas cheguem mais perto, mas não tão perto assim”, ri. De qualquer forma, as influências, seja do pop, do brega, de fácil identificação e adesão, presentes em muitos trabalhos do Magiluth, em certa medida estão de volta. Pode aguardar David Guetta ou Leonardo Sullivan, por exemplo. “Quando o amanhã chegar, vou te esperar sorrindo”, assumem em algum momento. Será mesmo?

Espetáculo é uma consequência da montagem anterior, O ano em que sonhamos perigosamente

Espetáculo é consequência da montagem anterior, O ano em que sonhamos perigosamente

Um dos destaques no trabalho deve ser a trilha sonora executada ao vivo pelo duo Pachka, formado pelos músicos Miguel Mendes e Tomás Brandão (os mesmos que trabalharam com a Remo Produções em Rei Lear). Eles fazem música não só com instrumentos, mas com dispositivos eletrônicos, e participaram de todo o processo de criação do espetáculo ao lado do Magiluth. O grupo também contou com a colaboração de Giovana Soar e Nadja Naira, da Companhia Brasileira de Teatro, como provocadoras, e voltaram a trabalhar na direção de arte com Guilherme Luigi.

Depois das poucas apresentações no Teatro Marco Camarotti (dias 2, 3, 5 e 6, às 20h), o Magiluth segue para o Barreto Júnior, no Pina. Provavelmente, no mês de setembro, o grupo faz uma temporada em São Paulo.

Ficha técnica
Direção: Pedro Wagner
Dramaturgia: Giordano Castro
Elenco: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sergio Cabral e Lucas Torres
Desenho de Som: Miguel Mendes e Tomás Brandão (PACHKA)
Desenho de Luz: Grupo Magiluth
Direção de Arte: Guilherme Luigi
Fotografia: Bruna Valença
Design Gráfico: Guilherme Luigi
Técnico: Lucas Torres
Realização: Grupo Magiluth

Serviço:
Dinamarca
Quando: Quarta (2), quinta (3), sábado (5) e domingo (6), às 20h
Onde: Teatro Marco Camarotti, Sesc Santo Amaro
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Duração: 1h20min
Classificação : 16 anos

 

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Julgamento de Hamlet, Cabaré e A Visita

Espetáculo Por favor, Continue (Hamlet) conta com a participação de não atores. Foto: Divulgação

Espetáculo Por favor, Continue (Hamlet) conta com a participação de não atores. Foto: Divulgação

janeiro-de-grandes-espetáculos-SSSS Hamlet, de William Shakespeare é uma mina inesgotável de enigmas sobre o homem e a justiça. Ao fingir-se de louco e refletir profundamento sobre o pedido de vingança pelo espectro do pai, Hamlet avança num labirinto complexo e surpreendente. Os encenadores Roger Bernat e Yan Duvyendak recorrem ao personagem mais famoso do bardo inglês em Por favor, Continue (Hamlet). Na montagem espanhola, a irrepetibilidade do teatro ganha força. Um experimento que reúne atores e profissionais da justiça, do local em que é encenado. A advogada e professora Liana Cirne Lins é uma das pessoas que vai fazer parte do júri, entre outros profissionais da área jurídica. A apresentação ocorre hoje e amanhã, no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Recife. Liana será a advogada de Hamlet na apresentação de amanhã. A entrada é gratuita, os ingressos serão distribuídos com uma hora de antecedência, e a peça tem duração prevista de duas horas e meia.

Fazer a realidade julgar a ficção, utilizando o procedimento criminal em vigor no país da exibição é um procedimento contundente. A fábula expõe um jovem que mata o pai de sua namorada, durante uma festa de casamento em um subúrbio. A única testemunha do ato é a mãe do jovem. Os nomes reais foram substituídos por nomes de ficção: o acusado é Hamlet; Polônio a vítima; a ex-namorada do acusado, Ofélia é a autora da denúncia; a mãe, Gertrudes. Hamlet assegura que o homicídio foi um acidente. Ofélia quer a pena máxima para o assassino de seu pai.

Se Hamlet é culpado; se foi premeditado é o que o júri vai decidir. Ao recrutar esses espectadores emancipados Roger Bernat e Yan Duyvendak transformam esse espaço cênico em ágora, em que os habitantes de uma cidade podem dar sentido a polis, aos destinos da polis. Por outro lado, a dupla de encenadores também reforça que, mesmo diante de regras previamente estabelecidas, o resultado de um julgamento também é uma combinação de subjetividades, pois as leis se abrem a variadas interpretações. Os excessos e absurdos do sistema capitalista estão na mira da dupla. E eles questionam como os valores de algumas subjetividades, a partir de quem tem o poder de julgar – e condenar – impõe suas decisões ao coletivo em detrimento da pluralidade.

Please,  Continue  (Hamlet)  /  Por  Favor,  Continue  (Hamlet)  (Roger  Bernat  –  Espanha)Quando: Dias  12  e  13  de  janeiro  de  2016  (terça  e  quarta),  19h30,
Onde: Salão Nobre da Faculdade de Direito do Recife
Quanto: gratuito  (distribuição  de  senhas a partir de 1h antes)
Duração: 2h30
Classificação etária: a partir de 14 anos

 Autoria e direção cênica: Roger Bernat e Yan Duvyendak
Direção técnica: Txalo Toloza
Produção executiva: Helena Febrés Fraylich

Cabaré Diversiones. Foto: Sulamita Ferreira.

Cabaré Diversiones. Foto: Sulamita Ferreira.

O Vivencial foi um grupo de subversão e desbunde dos anos 1970. Na época, Henrique Celibi era o caçula do grupo. Ele resgata esse clima irreverente e debochado, desbocado, malicioso e sensual na montagem.  Personagens e números musicais do passado combinam com novos textos, numa grande colagem. Um exercício de liberdade.

Cabaré Diversiones (Produção: Henrique Celibi – Olinda/PE)
Quando: Dia 12 de janeiro de 2016 (terça), 20h,
Onde: Teatro Apolo
Quanto: R$ 20 e R$ 10
Duração: 1h40
Classificação etária: a partir de 16 anos

Textos: Carlos Eduardo Novaes, Glauco Matoso, Fernando Pessoa, Luiz Fernando Veríssimo, Guilherme Coelho e Henrique Celibi
Cenário, coreografia, figurino, roteiro, trilha sonora e direção: Henrique Celibi
Iluminação: Beto Trindade
Preparação vocal: Cindy Fragoso
Operação de som e luz: Renato Parentes
Elenco: Carlos Mallcom, Cindy Fragoso, Filipe Enndrio, Flávio Andrade, Henrique Celibi, Ítalo Lima, Robério Lucado, Sharlene Esse e Valeska Nascimento, com participação especial de Ághata Simões

A Visita, com o ator Severino Florêncio (PE). Foto: Marcos Nascimento

A Visita, com o ator Severino Florêncio (PE). Foto: Marcos Nascimento

Antônio retorna ao lugar da sua infância e encontra tudo mudado. Um deserto de pessoa e de animal. Os homens viraram uma mistura de gente, barro e bicho. O personagem busca na memória o sentido da vida para povoar de afetos o vazio do lugar e do seu coração.

A Visita (Grupo de Teatro Arte­Em­Cena – Caruaru/PE)
Quando: Dias 12 e 13 de janeiro de 2016 (terça e quarta), 20h
Onde: Teatro Capiba (SESC Casa Amarela)
Quanto: R$ 20 e R$ 10
Duração: 1h
Classificação etária: a partir de 12 anos

Texto: Moncho Rodriguez
Direção, figurino, adereços e maquiagem: Nildo Garbo
Iluminação: Edu de Oliveira
Execução de adereços: Naldo Fernandes
Execução de figurino: Iva Araújo
Cenotécnico: Arnaldo Honorato
Produção e atuação: Severino Florêncio

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Críticas: Hamlet

Hamlet, da companhia lituana OKT, principia com uma pergunta: “Quem é você?”. Foto: Lígia Jardim

Hamlet, da companhia lituana OKT, principia com uma pergunta: “Quem é você?”. Foto: Lígia Jardim

Tragédia da imaginação
Por Ivana Moura – Satisfeita, Yolanda?

Hamlet, da companhia lituana OKT, principia com uma pergunta: “Quem é você?”, variação do encenador Oskaras Koršunovas para a frase da peça de William Shakespeare “Who’s there?”. O questionamento é feito pelos nove atores da trupe que, de costas para a plateia, se miram no espelho. Vão do sussurro ao grito, num crescendo. O público também está refletido. O cenário é um camarim com bancadas móveis que se transfigura no reino da Dinamarca. O sistema de espelhos compõe ângulos reveladores, como o do pai de Hamlet fantasma (Dainius Gavenonis) que se olha e vê Claudius (que ele matou) dentro de si, numa alusão ao fratricídio Caim e Abel.

O diretor não inventa Elsinore no palco. Desvia do espaço vazio e compõe um local onde são sobrepostas as máscaras (ou maquiagem) como tradução do presente. Nesse metateatro, Elsinore é criado na imaginação do espectador. Hamlet traça esse enfrentamento com os meios teatrais a partir de sua consciência. Nesse jogo, busca se apossar da consciência do rei, o fantasma, o Old Hamlet, para fazer justiça e do tio Claudio para executar sua vingança. Mas como manter-se humano neste mundo desumano de Elsinore? Essa pergunta ecoa nos jogos de palavras e nas redes de intrigas.

Hamlet de Koršunovas é uma tragédia da imaginação. Isso é reforçado pela expressão Mind’s eye utilizada por Hamlet, quando diz que parece que está vendo seu pai e acrescenta: “com os olhos da alma, Horácio” (in my mind’s eye, Horatio). O protagonista opera uma memória visual ou imaginação. O encenador seduz o público para a “ratoeira” da imaginação de Hamlet, imprimindo camadas ou apagando fronteiras do teatro, o espaço da ação, atores e papéis. A música de Antanas Jasenka tem um desempenho fundamental.

Há algo de podre no Reino da Dinamarca e um enorme rato branco que mostra a cabeça e pousa a cauda nas mesas de maquiagem. O roedor volta a aparecer em vários momentos da montagem. O mundo é um teatro em que se finge e mente e essa encenação de Koršunovas não chega a iluminar possíveis lugares ainda obscuros de Hamlet. Mas traz em si acertos de conta com o passado e muitas dúvidas com relação ao futuro. Tem as referências da cultura pop e as potentes interpretações dos atores. E chama para um debate sobre camadas de representação em fogo brando.

O famoso “Ser ou não ser” é dito duas vezes pelo ator Darius Meškauskas. Na primeira vez ele joga e mente como “ser” melancólico. Na segunda vez, furioso, diante do “não ser”. Oskaras Koršunovas insiste com seus conjuntos de imagens sobre o tema do artifício que a realidade não existe mais. Apenas fragmentos dela estão espalhados e refletidos em vários espelhos.

Montagem tem visualidade bastante interessante

Montagem tem visualidade bastante interessante

Casa de espelhos
Por Maria Eugênia de Menezes – Teatrojornal

Dramas e tragédias contemporâneos têm atravessado a programação da MITsp. As problemáticas de nosso tempo contaminam as obras. A tal ponto que, mesmo ao lidar com textos que acreditávamos suspensos na história – atemporais -, os criadores são capazes de reposicioná-los, contaminando-os de presente e abrindo a possibilidade de insuspeitas leituras. Nas mãos do lituano Oskaras Koršunovas, Hamlet permanece a repercutir a angústia do príncipe da Dinamarca, dividido entre os deveres de herdeiro real e as vontades do indivíduo. Mas adquire também os contornos de uma crise que ainda não soubemos nomear, um mal-estar difuso que vemos tomar as ruas e acorrer aos consultórios médicos em busca de alívio.

A recusa em lidar com o imponderável embasa o comportamento do homem que se sabe só no mundo. Apartado dos deuses, ele tem apenas a si mesmo como alicerce. A lógica da mercadoria, que incita a ‘minimizar’ riscos e buscar ‘investimentos’ seguros, espraiou-se para a prática do sujeito. Mecanismos da publicidade e da propaganda guiam condutas: precisamos nos diferenciar dos ‘concorrentes’, estar constantemente expostos nas vitrines.

Na montagem da OKT – Oskaras Koršunovas Theater – a ficção de Shakespeare torna-se também o relato da quebra da passividade. Hamlet é aquele que ousa contradizer. Em seu infortúnio, não renega o medo. Abraça-o. Veste-se dos próprios terrores e parte para o enfrentamento. O que aparta o personagem-título daqueles que o cercam é sua desconfiança. Ofélia quer crer no amor que ele diz devotar-lhe. Gertrudes prefere a ignorância a ter o coração partido em dois. Laertes precisa seguir convicto de que sua família foi aniquilada por um sanguinário e cruel Hamlet e não pela própria imprudência. Nenhum deles levanta suspeitas. Todos permanecem imobilizados em sua fé cega.

O encenador revela essas contradições sem recorrer a transposições temporais ou preocupar-se com efeitos de realismo. Na sua montagem, tudo soa artificial. O teatro não é um retrato da vida. Será antes sua imagem invertida, deformada, aumentada. Na cenografia proposta, o espectador é remetido imediatamente ao ambiente das coxias. Como se observasse atores na intimidade de seus camarins.

Belas soluções cênicas resultam dessa opção. Em sua predileção pela artesania (e a consequente recusa aos recursos tecnológicos), a peça nos faz compactuar com verdades que não existem fora de seus limites: só ali, um ator vestido de rato é capaz de evocar o ambiente pútrido da política, uma caveira pode ser tanto o cadáver de Yorick, o bobo da corte, quanto a taça de onde a rainha sorverá o veneno mortal.

Antes de o conhecido enredo começar, os intérpretes miram-se detidamente no espelho e questionam em voz cada vez mais alta: ‘quem é você?’. Nos últimos cem anos, as teorias de Sigmund Freud iluminaram a hesitação de Hamlet. Talvez, porém, as teorias de Lacan nos tragam ferramentas mais consistentes para mirar Shakespeare a partir da perspectiva do século 21. A descrição lacaniana da fase do espelho – que ocorre entre os seis e os 18 meses de vida do bebê – pode soar oportuna. Quando assume uma imagem, o sujeito se transforma. É nesse reflexo que aprenderá a distinguir-se como indivíduo. Mas não só. A miragem de si próprio é ainda a chave para enxergar o outro. Entendê-lo como diferente. Reconhecê-lo como semelhante. Em seu jogo de espelhamentos, Koršunovas dá um mesmo rosto ao rei e a seu algoz. Banha no mesmo sangue, Hamlet e Claudio.

Várias bancadas de camarim servem como cenário

Várias bancadas de camarim servem como cenário

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Hamlet para adultos espertos e crianças

Davi Taiu e Erickson Almeida em O Príncipe da Dinamarca. Foto: João Caldas

Davi Taiu e Erickson Almeida em O Príncipe da Dinamarca. Foto: João Caldas

O perturbado personagem Hamlet, do dramaturgo inglês William Shakespeare é tão rico e complexo que muitas vezes as encenações destacam um aspecto dessa personalidade. Para aproximar essa figura das crianças, a Cia. VagalumTum Tum, de São Paulo, privilegiou o humor no espetáculo O Príncipe da Dinamarca.

Nesta versão, todos os personagens são palhaços e caveiras que circulam por um cemitério, brincando com a máxima de que “há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”. Sem medo de tratar de assassinatos, suicídios e vinganças violentas para os pequenos.

A direção é de Angelo Brandini, e no elenco estão os atores Davi Taiú, Anderson Spada, Christiane Galvan, Erickson Almeida, Teresa Gontijo e Val Pires – todos eles também nos Doutores da Alegria, em São Paulo.

O grupo faz a última de uma série de apresentações neste sábado (12), às 16h, no Teatro Marco Camarotti, no Sesc de Santo Amaro. Os ingressos são distribuídos gratuitamente uma hora antes do espetáculo.

 

Erickson Almeida, Anderson Spada e Tereza Gontijo estão nesta versão de Hamlet Erickson Almeida, Anderson Spada e Tereza Gontijo estão nesta versão de Hamlet

Serviço:

O Príncipe da Dinamarca

Onde: Teatro Marco Camarotti  – SESC de Santo Amaro, Rua Treze de Maio, 455, Santo Amaro.

QuandoQuinta-feira (10), às 10h e às 15h – exclusivamente para escolas públicas; sexta-feira (11), às 10h, e no sábado (12), às 16h.

Quanto: Entrada gratuita, com ingressos distribuídos uma hora antes.

Informações: (81) 3216 1728

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Hamlet desperta opiniões divergentes

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Trupe Clowns de Shakespeare fez duas sessões em Curitiba. No fim de semana vai a João Pessoa. Fotos: Emi Hoshi

Não fui assistir a versão de Hamlet, da trupe Clowns de Shakespeare aqui no Festival de Curitiba. Quero rever em alguma outra situação por considerar o grupo um exemplo de organização e pesquisa, por sua trajetória e seriedade. E principalmente porque vi na estreia, no Janeiro de Grandes Espetáculos, no Recife, e fiz muitas restrições. Como são muitos espetáculos, melhor aproveitar a oportunidade para acompanhar coisas que ainda não vi.

Na Mostra 2013 são 32 espetáculos, sendo oito estreias – mas não dá para ver nem 15, isso se você ficar o festival inteiro, porque os horários batem. Além dos 374 espetáculos no Fringe (mas houve desistências).

Depois de Curitiba, Hamlet vai a João Pessoa (PB) neste fim de semana (Teatro do SESI, sábado (05), às 20h, e domingo (06), às 19h). E a montagem já passou por Fortaleza, numa circulação patrocinada pelo Ministério da Cultura, Petrobras, Chesf e Banco do Nordeste/BNDES, e foi apresentada também em Natal.

Mas é muito interessante ouvir a opinião dos colegas jornalistas sobre esse Hamlet. Um me falou que apreciava mais Hamlet do que Sua Incelença, Ricardo III pelo rigor na pesquisa e pela participação do encenador Marcio Aurélio – esse crítico prevê outras boas consequências para o grupo.

Hamlet não conseguiu uma unidade de opinião. Mas nenhum outro espetáculo conseguiu. O jornal Gazeta do Povo, de Curitiba deu como título “Um Hamlet arrebatador”.

E prossegue: “Este Hamlet …é um espetáculo imperdível. Isto dito por mim, que escrevi uma frase como esta acima, apenas umas duas vezes na vida. Confesso que quando vi o programa do Festival pensei, mais um Hamlet? O que entre o céu e a terra ainda não foi feito com este texto? A montagem intensa e elegante deste Hamlet, afinal um dos grandes textos dramáticos da era cristã, me surpreendeu, entretanto.

Primeiro pela cenografia que obedeceu a lógica do “menos é mais”… As soluções dadas por Marcio Aurélio, Lígia Pereira e Fernando Yamamoto (o trio de diretores, com o primeiro a frente) desprezou o menos, para valorizar o mais: o texto e a atuação arrebatadora do grupo de atores…

A atuação do elenco é uniformemente competente, mas Dudu Galvão (o texto diz Dudu Falcão, mas quem faz Hamlet é Joel Monteiro!) faz um Hamlet ao mesmo tempo demasiadamente humano e animalesco que vai direto para a antologia. Arlindo Bezerra e Marco França (em vários papéis) quase roubam a cena. Titina Medeiros emociona a plateia com a enlouquecida Ofélia”.

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Há quem ame e quem odeie a montagem de Hamlet

Na outra ponta da opinião sobre o espetáculo está a crítica do blog Atores e bastidores, do R7. O título já diz o tudo do conteúdo: “Shakespeare derrapa em Hamlet”

E desenvolve: “Quem ficou impressionado com a força da penúltima obra do grupo potiguar Clowns de Shakespere, Sua Incelença Ricardo III, sob direção do mineiro Gabriel Villela, mal pôde acreditar que seja o mesmo grupo que encenou Hamlet, neste Festival de Curitiba em 2013 no Teatro Bom Jesus.

É um trabalho que não está à altura do nome que o grupo de Natal (RN) conseguiu construir junto ao público e à crítica.

Os potiguares derraparam feio em sua tentativa de contar a história do príncipe que tenta vingar a morte de seu pai, o rei da Dinamarca, envenenado pelo tio…”

Hamlet, do grupo Clowns, nem de longe unanimidade.

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