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Uma família setentona

Um sábado em 30, texto de Luiz Marinho, direção de Valdemar de Oliveira

Não é nada fácil um grupo de teatro comemorar 70 anos. Muitos menos um grupo amador. Sem bem que a questão do “amadorismo” aqui não é um ponto crucial – não se relacionamos a palavra amador à ideia de falta de profissionalismo. O Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP) foi responsável por muitos avanços no pensamento estético do teatro pernambucano. É só pensar que o TAP trabalhou com diretores como Ziembinski, Graça Mello e Bibi Ferreira.

Nessa trajetória, uma das peças fundamentais para o grupo é Um sábado em 30, texto de Luiz Marinho, direção de Valdemar de Oliveira. A montagem estreou no dia 8 de julho de 1963 no Teatro de Santa Isabel. E é justamente no palco mais nobre da cidade, com Um sábado, que o TAP celebra suas sete décadas numa minitemporada de hoje a domingo.

E a festa começa de maneira muito especial – com uma homenagem a Geninha da Rosa Borges; ela vai simbolicamente entregar as chaves da casa dessa família nordestina, patriarcal, a Renata Phaelante, que a partir de agora assume o papel de Dona Mocinha. Há ainda outras substituições – como é o caso de Fernando de Oliveira, que por questões de saúde, terá seu papel defendido por Adelson Simões.

Geninha da Rosa Borges recebe homenagem na estreia. Foto: Nando Chiappetta

Reinaldo de Oliveira, filho de Valdemar e responsável por levar adiante o TAP, admite que desta vez não foi fácil erguer a montagem. Foi preciso repassar o texto muitas vezes, as marcações. Mas Reinaldo diz logo que não muda nada na direção. “A direção é a original, a de Valdemar de Oliveira. Ele e Luiz Marinho discutiram como essa peça, foram construindo o resultado no palco juntos”.

Em novembro, Reinaldo lança Os palcos de minha vida, pela editora Bagaço. No livro, o médico e ator vai esmiuçar sua trajetória no TAP. Promete curiosidades, histórias de bastidores e mais um resgate histórico dessa companhia para o nosso teatro.

ENTREVISTA // RENATA PHAELANTE

Quais papeis você já fez na montagem? Entrou com quantos anos? E o quanto isso foi importante na sua formação profissional?
Entrei para o elenco de Um sábado em 30, em 1985, aos 12 anos de idade, no papel de Maria de Jesus, uma das filhas de Dona Mocinha, uma adolescente em fase colegial, papel que já havia sido defendido por minha mãe, Vanda Phaelante, há alguns anos. Mas em Um sábado em 30 acontece uma coisa muito interessante: existe uma personagem na peça, que é a Leninha, um papel que sempre é feito por uma criança; é claro que essa criança cresce muito rápido e, quando menos esperamos, ela não tem mais idade para fazer a criança. Daí geralmente há um remanejamento de papeis: quem faz a pequena, passa pro papel de Maria de Jesus e essa normalmente passa para o papel da filha mais velha, Maria das Mercês. Foi o que aconteceu comigo. Passei pro papel da filha mais velha, Maria das Mercês. Fique nesse papel por algum tempo, creio que uns cinco anos e fui remanejada para o papel de Filó, uma personagem pela qual fui e sou apaixonada. Filó é uma das empregadas da casa, que é iludida pelo filho do patrão. Hoje, estou prestes a defender com muita honra o papel de Dona Mocinha, feito há tantos anos por Geninha. Estou nervosa com o peso da responsabilidade mas, ao mesmo tempo, sinto-me agraciada por essa oportunidade e por mais esse aprendizado. Costumo dizer que Um sábado em 30, me inseriu no universo do naturalismo. É curioso. Às vezes tenho a sensação de que estou realmente em casa… as cenas são construídas de tal forma, que se torna confortável estar em cena. É maravilhoso ver os empregados à mesa, servindo-se de sopa e pão, comendo em cena. Sentir o cheiro da sopa que vem quentinha da casa de Reinaldo de Oliveira e que fica sendo aguardada fora de cena, pelo restante do elenco que está nas coxias… parece que as coxias são parte da casa de Seu Quincas e Dona Mocinha.É um aprendizado constante. Flagro-me rindo muito nos ensaios, com as mesmas tiradas que escuto há 20 anos!

Renata Phaelante como Filó

Que momento marcante você destacaria nessa sua trajetória com Um sábado?
São vários momentos que guardo com carinho! Talvez citasse a nossa viagem à Brasíllia, onde fomos tão bem recebidos e tivemos que dar espetáculos extras; mas sem dúvida o que é mais marcante é o convívio e o aprendizado. Contracenar com Dona Diná de Oliveira, “Sá Nana”, inesquecível “Sá Nana”, que hoje é tão bem representada por Zeza de Paula. Dona Diná era mesmo uma “grande dama”, uma mulher que quando entrava em cena, crescia de uma forma… E Vicentina do Amaral, a nossa “Vivi”, no papel da vitalina Quitéria, maravilhosa. Ela arrancava aplausos em cena aberta, com um simples “Bom dia!”, sua primeira fala no espetáculo. É lembrar e ter os olhos marejados. É uma história linda!

E a responsabilidade de assumir um papel que era de Geninha?!
Meu Deus! Só de pensar me dá aquele friozinho na espinha! Geninha é maravilhosa, de uma naturalidade que me deixa pasma. É uma grande responsabilidade mesmo, mas não tenho a pretensão de ser tão boa quanto Geninha! Apenas quero defender esse papel com muita dignidade e o que eu colher de frutos nisso, já é lucro! Darei o meu melhor! Espero que gostem e espero me divertir, como sempre me diverti atuando nesse espetáculo.

ELENCO atual de Um sábado em 30:
Reinaldo de Oliveira – Chico
Maria Paula – Sá Nana
Ivanildo Silva – Julião
Clenira Bezerra de Melo – Zefa
Rogério Costa – Major Paulino
Ivana Delgado – Quitéria
Éricka Costa – Maria das Mercês
Fabiana Melo – Maria de Jesus
Vanda Phaelante – Sá Luzia
Diná de Oliveira – Pacote
Renata Phaelante – Dona Mocinha
Alderico Costa Neto – Romeu
Hector Costa – Gustavo
Emerson Rodrigues / Thomas André – Vasco
Adelson Simões – Seu Severiano
Renato Phaelante – Seu Quincas
Gabriela Quental – Filó
Brenda Fernanda – Leninha
Maria Mattoso – Joana
Yluska Washington – Ama

Serviço:
Um sábado em 30
Texto: Luiz Marinho
Direção original: Valdemar de Oliveira
Quando: de 13 a 16 de setembro (quinta a sábado, às 20h; e domingo, às 19h)
Onde: Teatro de Santa Isabel (Praça da República, s/n)
Quanto: R$ 10 (preço único promocional)
Informações: (81) 3355-3323

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Paixão de Cristo do Recife

Pelo 35º ano, o ator José Pimentel carrega a cruz de Jesus numa encenação da Paixão de Cristo. E desde que saiu de Nova Jerusalém, ele comanda a Paixão do Recife pelo 16º ano seguido. É uma façanha, a despeito de qualquer crítica de que o ator está velho para o papel. Aprende-se que no teatro o tempo é mais generoso com os intérpretes do que no cinema ou na televisão.  Essa magia é um acordo estabelecido entre palco e plateia. E, se depender do público da Paixão do Recife, Pimentel pode continuar a ser o Cristo por muitos anos: enquanto ele conseguir convencer os seus fãs, ter força e disposição para encarar uma maratona de duas horas de duração, que exige muito do seu elenco.

Jesus encontra Maria

A temporada deste ano da Paixão de Cristo do Recife foi iniciada nessa quarta-feira, no Marco Zero, com cerca de meia hora de atraso. A chuva que caiu durante os primeiros minutos da apresentação fez o batismo deste ano.

Com a saída de alguns atores, pequenas cenas foram cortadas, o que deu um pouco mais de agilidade à encenação. Foram oito substituições no time principal, mas os que assumiram já participavam da peça em papéis menores. Angélica Zenith ficou com o personagem de Maria, Gabriela Quental, o de Madalena, Mário Miranda, Judas Iscariotes e Demônio do Sermão, Michelline Torres (Mulher do Sermão) e Rogério Rangel (Sacerdote Anás). Principalmente as atrizes dão um sopro de renovação ao espetáculo.

Dos veteranos da montagem estão Renato Phaelante (Caifás), Reinaldo de Oliveira (Herodes) e Roberto Emmanuel (João). De última hora, o ator Pedro Francisco de Souza entrou no lugar de Octávio Catanho, como Pilatos.

A participação de Geninha da Rosa Borges é uma alegria. Com quase 90 anos, que completará em 21 de junho, a presença da atriz é quase um metateatro a repassar décadas de atuação e da história do teatro pernambucano em breve cena.

As cenas coletivas, com a participação de figurantes ganham uma força tremenda. Com suas coreografias. Seus desenhos. E como é destacada a crítica que o espetáculo faz da manipulação das massas pelos detentores do poder.

Cena de Pilatos

As três estruturas armadas no Marco Zero se transformam em nove palcos com diferentes cenários, idealizados por Octávio Catanho.

José Pimentel é o líder que reclama, que briga para manter seu espetáculo, que agrega em torno de si um elenco de 100 atores e 300 figurantes. É dele também a direção e a adaptação do texto.  E ele interpreta um Cristo que se zanga, que desafia os poderosos, que perdoa sem deixar de enxergar os erros humanos.

O texto adaptado guarda elegância sonora e poeticidade. E o grande trunfo da montagem é que ano após ano desperta a emoção do seu público.

Acessibilidade

A produção informa que a apresentação da Paixão de Cristo do Recife desta quinta-feira (05/04) contará pela primeira vez com intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras). A ação é uma parceria entre a Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do Recife com a Faculdade Franssinetti do Recife (FAFIRE).

SERVIÇO

Paixão de Cristo do Recife

Quando: De 4 a   8 de abril, às 20h

Onde: Praça do Marco Zero, Recife Antigo

Quanto: Entrada Franca

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Uma celebração para Cadengue

Noite de autógrafos de Antonio Cadengue

Noite de lua cheia. 10 de novembro de 2011. Na faustosa sede da Academia Pernambucana de Letras uma injustiça histórica era corrigida. Um livro, um estudo fundamental para o conhecimento e o reconhecimento de parte importante das artes cênicas brasileiras era lançado. Vinte anos depois de ter sido escrito.

Seu autor, Antonio Edson Cadengue se disse feliz e comentou que talvez aquele fosse o momento em que a cidade mais o levou a sério.

Reinaldo, Antonio Edson, Geninha e Leda

Cadengue entregou seu livro, em dois tomos, TAP Sua Cena e Sua Sombra (1941-1991) e recebeu o carinho de muitos. Foi exaltado pelo SESC e pela presidente da CEPE, Leda Alves, pelo diretor do Teatro de Amadores de Pernambuco, Reinaldo de Oliveira e pela atriz Geninha da Rosa Borges.

“Recife, cruel cidade”, como canta Carlos Pena Filho também tem sua outra face e de vez em quando afaga os seus talentos. Assim foi.

Foi uma festa bonita, mas havia no ar “esse dito não dito”. Coisas da trajetória da vida que promove seus encontros e desencontros, entendimentos e desentendimentos, bem-querer e desgastes. Faltou mais gente de teatro nesse lançamento. Talvez porque Cadengue tenha se afastado da classe, como comentou alguém.

Mas um estudo “perfeccionista” como comentou Reinaldo de Oliveira, de uma extensão que soma cerca de mil páginas, em dois volumes, é mais que um bom motivo para essa (re)aproximação.

Abaixo, vídeo com trechos das saudações e discurso do autor.

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