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A Mulher Monstro no Festival de Curitiba

Foto: Ivana Moura

Peça inspirada em Caio Fernando Abreu critica setores retrógrados da sociedade brasileira. Foto: Ivana Moura

A Mulher Monstro veio debater os panelaços no Festival de Curitiba. O espetáculo erguido entre Natal (RN) e Recife (PE) expõe as características de uma burguesinha intolerante que se enxerga de forma distorcida (para muito melhor). Racista, homofóbica, gordofóbica, elitista, sexista, ela destila veneno e fica cega pelo ódio. A personagem tem essas características, mas a peça faz crítica aos setores mais conservadores e retrógrados da sociedade brasileira, que foram às ruas para pedir o golpe. A peça é baseada no conto Creme de Alface, de Caio Fernando Abreu, e recheada por comentários nas redes sociais que traduzem o preconceito, descriminação, desejo de aniquilamento do outro que pensa diferente do pré-impeachment para cá. O ator José Neto Barbosa (que atua, dirige e assina a dramaturgia da peça) cruzou as opiniões de internautas com o texto de Caio para formar a dramaturgia do espetáculo.

A peça faz apresentações no Fringe, a mostra paralela do Festival de Curitiba – no Teatro Mini Guaíra, de 2 a 5 de abril, sendo, domingo às 15h; segunda, às 18h; terça às 21h; quarta às 12h. O Fringe é uma mostra aberta, sem curadoria, que pode surpreender e que alimenta a esperança dos participantes de serem “descobertos” por algum curador de festival ou receber uma crítica favorável.

Espetáculo com Neto. Foto: Jorge Almeida

Espetáculo com José Neto Barbosa. Foto: Jorge Almeida

A transeunte errante do espaço urbano inventada por Fernando Abreu capta o mundo de forma hostil e responde com violência emotiva. Creme de Alface foi escrito em 1975 e publicado 20 anos depois. José Neto Barbosa, da S.E.M. Cia de Teatro (RN), atuando no Recife, acredita que o conto é exemplar para revelar os abismos da condição humana. Mas Neto Barbosa também ajuíza que essa “mulher monstro” existe dentro de cada um de nós.

O ator leva ao palco resíduos de memória da figura da “Mulher Monga” dos parques e circos nordestinos. “Aquele fenômeno ficou na minha cabeça, pois foi a minha primeira experiência teatral. Após estudar teatro identifiquei naquela pequena encenação algo que passei acreditar: a arte relacional, como explica Nicolas Bourriaud. Aquela estética relacional da Monga, também enraizada de machismo e de exposição do corpo feminino como business, foi a inspiração para transformar não o humano em monstro, mas o monstro em humano”.

O texto de Abreu expõe uma mulher intransigente com as pessoas da sua vida. No trajeto pelas ruas na intenção de pagar alguns crediários a personagem revela sua malevolência com os outros e o mundo e a benevolência consigo mesma. Suas ações salientam principalmente duas questões: a fragilidade dos laços afetivos e o consumismo como válvula de escape. O ator também carrega a dramaturgia com suas histórias pessoais, dos preconceitos e intolerâncias sofridos.

A encenação transcorrer em três movimentos. A performance de título A Mulher Monstro. Cotidiano Contradição, uma avalanche de pensamentos e identificações da personagem. E a terceira que ele chama de Escarro Sobre Si, fincada na sequência do enredo criado pelo Caio Fernando Abreu. E se completa com o diálogo com a plateia.

SERVIÇO
A Mulher Monstro, da S.E.M. Cia de Teatro; dentro do Fringe, do Festival de Curitiba
Quando: De 2 a 5 de abril, sendo, domingo às 15h; segunda, às 18h; terça às 21h; quarta às 12h. 
Onde: Teatro Mini Guaíra, Centro Cultural Teatro Guaíra (Rua XV de Novembro, 971 – Centro)
Ingressos: R$ 20 

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No país da Copa do Mundo e de Gleise Nana*

Concreto armado, espetáculo do Teatro Inominável, estreou no Festival de Curitiba. Foto: Pollyanna Diniz

Concreto armado, espetáculo do Teatro Inominável, estreou no Festival de Curitiba

Curitiba – Quando estamos nos debruçando, 50 anos depois, sobre as consequências e efeitos da ditadura militar no Brasil, percebemos o quanto a nossa sociedade ainda é marcada pelos resquícios da repressão. Isso parece ter ficado ainda mais claro ano passado, talvez porque tenha atingido a classe média, com as manifestações que começaram em junho. Muitas foram as histórias disseminadas pelas redes sociais de sequestros e torturas realizadas pela polícia.

Lembro que, no Recife, circulou pelo Facebook o relato de uma estudante de Direito que teria sido levada pela polícia no bairro da Boa Vista e espancada. As fotos impressionavam pela violência. Os meios de comunicação chegaram a falar sobre o caso – mas não tive notícias do seu desfecho. No Rio de Janeiro, a diretora, atriz e poetisa Gleise Nana, de 33 anos, ativista que participou da manifestações e denunciou ameças recebidas de um policial, morreu depois de ter mais de 30% do corpo queimado durante um estranho incêndio em sua casa. Uma das filhas dela, de nove anos, estava no local. Ela também ficou ferida, mas sobreviveu.

A história de Gleise Nana foi incorporada à dramaturgia do espetáculo Concreto armado, do Teatro Inominável, do Rio de Janeiro, que estreou aqui no Festival de Curitiba. O grupo esteve no Recife pela primeira vez ano passado, durante o Trema!, com Vazio é o que não falta, Miranda. A direção de Concreto armado é assinada por um garoto muito jovem – Diogo Liberano – e a dramaturgia por ele e Keli Freitas.

No espetáculo, alunos de arquitetura estudam preservação e restauração de patrimônio e, depois de vários acontecimentos, são levados a pensar as contradições em torno do Maracanã, desde a sua construção até a reforma mais recente. A principal característica da montagem do Teatro Inominável é a sua atualidade; a força advinda da capacidade de tratar de coisas muito sérias e agudas sem distanciamento temporal ou afetivo, enquanto tudo ainda está pulsando dentro de nós.

Eles estão discutindo Copa do mundo e os nosso investimento de tantos milhões na sua realização; a maneira como somos afetados pela violência que acontece aqui na esquina ou na Síria; as repercussões das ações do governo no Rio de Janeiro; a repressão policial, os tempos de ditadura que ainda não foram embora. Uma montagem que trouxe à cena o ranço coronelista da nossa política.

A dramaturgia tenta dar conta de tudo isso, mas ainda não tem essa potência. Os atores não conseguem sustentar as dualidades de uma encenação que, ao mesmo tempo em que tem textos ditos de maneira muito próxima do público, como uma conversa no Facebook ou uma discussão na sala de aula, também traz silêncios, performances e estranhamentos.

A opção por assumir uma postura política de maneira muito clara também nos deixa com a sensação de que as contradições não são assumidas pela dramaturgia como propulsoras de novas reflexões e possibilidades dialógicas. Isso se alia também às interferências na cena feitas pelo diretor e autor do texto. Ele guia o público como um narrador. Levanta-se no meio da plateia e pode dizer do que trata a montagem ou falar sobre a morte de um personagem. Coloca também no palco os dados da realidade, nos faz enxergar o tempo inteiro os dados de realidade que costuram a ficcionalidade da peça. O elenco traz Adassa Martins, Andrêas Gatto, Caroline Helena, Flávia Naves, Gunnar Borges, Marina Vianna e Natássia Vello.

Talvez seja ainda uma questão de amadurecimento do grupo com a montagem, de ritmo, de encontrar como essas fissuras entre texto e encenação, texto e política, ficção, podem se estabelecer de fato e pulsar de maneira mais efetiva no palco.

*O blog está no Festival de Curitiba a convite da produção do evento

Apresentações foram no Teatro Paiol

Apresentações foram no Teatro Paiol

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Quando teatro era resistência

Paulo José. Foto: Pollyanna Diniz

Paulo José. Foto: Pollyanna Diniz

Foram duas horas de conversa. Não lembro exatamente qual era o teatro em Curitiba, mas ficava afastado do Centro. Fui ver Murro em ponta de faca e pedi uma entrevista. Gentil, ele disse que me atenderia na tarde do dia seguinte, antes da nova sessão do espetáculo.

Paulo José faz parte da história do teatro brasileiro – e, definitivamente, essa não é só uma frase de efeito. Ele, Augusto Boal, Vianinha, José Renato Pécora, Gianfrancesco Guarnieri. Um tempo em que o teatro era, muito mais do que hoje, atividade de resistência. O que o Arena, o Centro Popular de Cultura (CPC) queriam era, além de levar ao palco a realidade dos trabalhadores, da exploração, do capitalismo, discutir sobre os processos históricos que determinavam essa realidade, sem que isso significasse um teatro chato – muito pelo contrário.

Como Murro em ponta de faca, peça que tem direção de Paulo José, faz curta temporada no Centro Cultural da Caixa desta quarta-feira (6) até o próximo sábado, resolvi resgatar essa entrevista com o ator, diretor e dramaturgo, realizada em 2011, no Festival de Curitiba.

Entrevista // Paulo José

Qual a diferença de dirigir Murro em ponta de faca em 1978 e em 2011?
Esta versão agora nos dá a possibilidade de mergulhar no personagem. Naquele momento, tudo tinha acontecido. Era muito mais ebulição do que razão. Hoje a peça intriga, provoca, dá vontade de conhecer mais da época. É saber o princípio, a origem desse mal. Na época, o sucesso dela, o encontro dela com o público, era natural por causa das circunstâncias, da luta pela anistia, da campanha Tortura nunca mais. Não precisava nenhuma teatralidade especial. Poderia ser quase uma leitura. Agora é mais profundo, estamos menos presos à superfície, ao aparente. E são muitas as referências a coisas que aconteceram naquela época, que não necessariamente as pessoas sabem hoje. Há uma referência clara, por exemplo, ao chileno Víctor Jara (professor, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, músico e ativista), que teve as mãos cortadas. É cheio de referências também ao Marighella (Carlos). Apesar de que, no Brasil, a ditadura foi menos dura do que na Argentina e no Chile. Os militares aqui tinham origem de classe média, classe média baixa. Em muitas situações, eles se encontravam tendo que reprimir a própria família. Diferente do exército argentino, que tinham inimigos de raízes. Aqui, os militares se viam às voltas com parentes presos, tendo que resolver “pepinos” familiares.

É a segunda vez que Paulo José dirige texto de Boal

É a segunda vez que Paulo José dirige texto de Boal

Como você enfrentou a ditadura. Mesmo não tendo sido exilado, teve essa sensação aqui mesmo?
Claro! Eu era do Teatro de Arena. E a peça que estava em cartaz na época do golpe era O filho cão. Era do Guarineiri (Gianfrancesco) e eu dirigia e atuava. A polícia foi lá para fechar o teatro. Mas nós escapamos todos. Guarnieiri e o Juca de Oliveira foram para Bolívia. Augusto Boal foi para uma fazenda. Fiquei na casa de Cacilda Becker, que morava numa cobertura, esquina com a Avenida Paulista. Fiquei lá um mês. Depois de 15 dias na Bolívia, o Guarnieri e o Juca decidiram voltar. Disseram que preferiam morrer. Depois disso, o Boal foi preso, torturado. Éramos privados da liberdade de ir e vir, de todos os bens, de qualquer conforto que o dinheiro pudesse dar, dos teus discos, filmes, instrumentos musicais. Esse sentimento não tem idade. E hoje as pessoas, noutra situação, também são desprovidas de tudo. Mas naquela época, essas pessoas iam para a Sérvia, para a Croácia. Ficavam sem dinheiro, precisavam da família no Brasil. Mas mandar dinheiro também não era fácil. Então, às vezes, era fome, necessidade mesmo. Era uma indignação, uma vergonha, a gente ser tutelado por imbecis. Apresentar uma peça para a censura, para que eles dessem o parecer. Pessoas desqualificadas, ignorantes. Às vezes a gente colocava, por exemplo, um palavrão na peça, só para poder negociar. Porque eles iam implicar com aquilo e deixavam outras coisas passar. Os policiais entravam na tua casa. Os livros perigosos ficam no fundo falso do guarda-roupa. Lembro de perguntarem que eram Aristófanes.

O Boal chegou a ver a peça sendo encenada? Qual a importância dele para o nosso teatro?
O Boal escreveu no exílio. E quando voltou em 1983, acho (na realidade, 1986), a peça já tinha sido encenada. O Boal era devotado ao teatro. Enquanto nós éramos “adúlteros”, namorávamos o cinema, a tv, ele era fiel. Quem sustentou o Arena foi o Boal, por mais de dez anos. Nós íamos para o TBC, para o Oficina. Mas o Boal estava no Arena.

Falando nisso, atuar na televisão, cinema ou teatro é a mesma coisa?
São formas diferentes de trabalhar, mas não há dificuldade. Tenho preferência por cinema e teatro. A televisão é redundante, não é muito inovador. A comunicação é horizontal. Se todo mundo tem que entender, o foco é menor. No teatro, se uma pessoa entender, tudo bem. A programação da televisão também tende a ter um discurso homogêneo, desde a manhã ate a hora que acaba. E o meio se transforma na própria mensagem.

A música é importante? Neste trabalho, o senhor está “brincando” no teclado…
Sempre trabalho com música. Gosto muito, por exemplo, do trabalho do Galpão, porque é muito musical, porque todos tocam. Gosto muito do teclado, mas eu não toco mesmo, por causa do Parkinson. Até para escrever no computador é difícil. Quero digitar uma tecla e vou para outra.

Como foi a descoberta de que tinha a doença e lidar com isso?
Foi em 1992. Uma doença degenerativa, progressiva e irreversível. Foi o que me disse o médico. Ele estava lá, receitando o remédio e eu perguntei “por quanto tempo vou tomar?”. “Durante toda a vida”, ele me disse. E aí, olhando para ele, um homem quase careca, perdendo o cabelo, descobri que ele também tinha o Parkinson dele: o envelhecimento. Que é progressivo, irreversível, degenerativo. A diferença é que eu tinha a certeza que ia morrer e ele não. Como se fosse eterno. Você passa a ter limitações, mas você descobre outras coisas, a introspecção, a concentração. Passei a escrever bem. A minha acuidade musical aumentou. Os meus sentidos foram aguçados. Cada um tem o seu Parkinson. E eu tenho 74 anos, já estou fora da garantia. É só manutenção, não troca mais peça nenhuma.

Mas quais são os cuidados?
Remédios. E hoje faço aula de voz, ginástica, hidroginástica.

Você já fazia ginástica?
Não! Ginástica faz mal! (Risos) Queima! Nunca fiz. Fazia exercício, mas tinha que ser prático, com bola, ou andar a cavalo.

Tem medo da morte?
Não tenho medo. Mas você tem que se preparar bem. As pessoas morrem mal porque não se preparam. São surpreendidas. Estou procurando deixar um testemunho pessoal das coisas que fiz. Estou passando a limpos coisas que escrevi para publicar. Cadernos de direção, de cinema. Dei aula de cinema em Cuba, por exemplo. Na Globo, dei aula para diretores e atores.

Nas duas últimas peças em que você esteve envolvido, você trabalhou com as suas filhas (Um navio no espaço ou Ana Cristina César e Histórias de amor líquido). É diferente? E o seu trabalho de direção também tem sido diferente com o tempo?
Acho que não…Cada peça tem suas exigências, necessidades. Mas a diferença que é estou ficando calmo, sossegado, não fico sofrendo. Até porque percebi que é só uma peça de teatro, tem limites previamente estabelecidos. Então fico mais calmo, tranqüilo. O que me interessa no teatro são as relações humanas, é ajudar a desenvolver potencialidades nos outros. E as pessoas me ouvem, me respeitam. Então me aproveito disso. Eu “chupo” o sangue destes atores jovens, a energia deles para mim.

Vamos falar de televisão. Como é o próximo papel?
É nessa novela nova..Morde e assopra. Entro e fico até o fim da novela. Representa o amor na terceira idade. É o Plínio. Ele volta para a cidadezinha onde tinha deixado a namorada. Gosto de trabalhar como ator. Tenho contrato com a Globo desde 1969. Então tenho que fazer algo de vez em quando. Faço a novela..aí passo mais algum tempo fazendo teatro e cinema.

Falando em cinema…o que o senhor acha da produção pernambucana?
Ah…o Cláudio Assis, o Lírio Ferreira, já estão consagrados, sabem fazer. Cláudio Assis é um louco! Aspirinas e urubus é um filme muito bom. Tem baianos também muito bons no cinema. Meu próximo papel é no filme Palhaço, de Selton Mello, que deve ser lançado em maio. É um filme autoral, que o Selton escreveu, produziu. Temos uma safra muito boa.

E deixa eu perguntar…o que o senhor acha da ministra Ana de Hollanda?
A linhagem é boa…é filha de Sérgio Buarque, de uma família que tem respeito pela cultura. Mas está apenas começando…Mesmo o governo da Dilma ainda é muito cedo. Já percebemos que ela tem diferenças de Lula, mas ainda é cedo…

Uma pergunta clássica: algum papel que gostaria de fazer e ainda não teve oportunidade?
Tem personagens da literatura, personagens reais, que a gente gosta. Mas eu não estou sofrendo com isso. Tenho tanta coisa para fazer sempre!

E vai fazer teatro até quando?
Até morrer!

Não existe aposentadoria para o teatro?
Não existe! Até porque, no teatro, tem papel para todo mundo, independentemente da idade. Aos 90, ainda terão papeis que são ideais pra mim.

Montagem faz curta temporada no Recife

Montagem faz curta temporada no Recife

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Uma peça na contramão do esquecimento

Murro em ponta de faca. Foto: Pollyanna Diniz

Murro em ponta de faca. Foto: Pollyanna Diniz

O teatrólogo Augusto Boal escreveu Murro em ponta de faca em 1971, no exílio politico durante a ditadura militar. A peça é sobre um grupo de brasileiros que, como ele, foi expulso do país. Seu amigo Paulo José montou a peça em 1978, no Teatro de Arte Israelita Brasileira, o TAIB, em São Paulo. A encenação da companhia de Othon Bastos reunia no elenco Renato Borghi, Francisco Milani e Marta Overback. A direção musical era assinada por Chico Buarque e
os cenários e figurinos por Gianni Ratto.

Mais de três décadas depois, Paulo José volta dirigir a peça, dessa vez a convite de Nena Inoue, atriz e produtora curitibana do Espaço Cênico. A estreia aconteceu em 2011, no Festival de Curitiba, com elenco formado, além de Nena, pelos atores Abilio Ramos, Erica Migon, Gabriel Gorosito, Laura Haddad e Sidy Correa. Boal não assistiu a nenhuma das duas montagens. Na primeira, ele estava exilado; e morreu antes da estreia desta versão, em 2009.

Murro em Ponta de Faca chega ao Recife, nesta quarta-feira (05), às 20h, na Caixa Cultural no Recife Antigo, onde fica em cartaz até sábado.

O diretor transforma o isolamento de um exilado numa solidão existencial. “A condição do exilado é muito cruel. Ele não tem direito algum, ninguém quer saber, ele não tem moeda de troca, é um pedinte, um fedorento”, já disse Paulo José.

Três casais de classes sociais distintas dividem o mesmo espaço e compartilham dores e esperanças, que carregam em malas e caixas. Estão lá um casal de operários, outro de burgueses e o terceiro de intelectuais, de três gerações. No início elas estão no Chile, passam pela Argentina e terminam na França. Nessa trajetória, lembram que o terror esteve presente em outros países da América Latina.

Boal foi Indicado ao Prêmio Nobel da Paz, em 2008, e em março de 2009, foi nomeado pela UNESCO como Embaixador Mundial do Teatro.

Serviço:
Murro em Ponta de Faca
Quando: De quarta-feira (05) a sábado, às 20h
Onde: Caixa Cultural Recife (Avenida Alfredo Lisboa, 505 , Praça do Marco Zero, Recife Antigo) 

Quanto: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia) 

Informações: (81) 3425 1900

Oficina de Iniciação Teatral: 08/6 (14h às 18h)
Aula de Iluminação – A Luz na Cena: 8/6 (15h às 19h)

Augusto Boal não chegou a ver a peça

Augusto Boal não chegou a ver a peça

Ficha técnica Murro em ponta de faca:

Texto: Augusto Boal
Direção: Paulo José
Elenco: Abilio Ramos, Erica Migon, Gabriel Gorosito, Laura Haddad, Nena Inoue, Sidy Correa.
Iluminação: Beto Bruel
Cenário: Ruy Almeida
Figurino: Rô Nascimento
Direção sonora: Daniel Belquer
Preparação vocal: Célio Rentroya e Babaya
Iluminador assistente: Danielle Regis
Assistente de figurino: Sabrina Magalhães
Ilustração original: Elifas Andreato
Designer Gráfico: Martin de castro
Fotografia: Roberto Reitenbach
Idealização e Diretora de Produção: Nena Inoue
Realização: Espaço Cênico

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Arte de Cida Moreira

Cida Moreira

Atuação de Cida Moreira encantou público. Fotos: Ernesto Vasconcelos

Quem gosta de Cida Moreira, adora. Não há meio termo. E foi para esses fãs calorosos que a diva fez duas apresentações do espetáculo A Música e a Cena, no Gairão, dentro do Festival de Curitiba. Com direção de Gilberto Gawronski, a montagem passeia por canções que fazem parte da história do teatro musical no Brasil.

O diretor compôs um ambiente que liga palco e camarim. Ela começa no fundo do palco, nos bastidores, com uma música à capela: Bastidores, de Chico Buarque, que por sinal é muito bem citado no espetáculo. Nessa encenação, Cida está um tom a menos, com arranjos de Alexandre Brasolim e sem os descomedimentos de outras montagens. O espetáculo oscila entre a delicadeza e a lembrança das canções de combate da época da ditadura.

Cida Moreira foi atriz de espetáculos emblemáticos do teatro nacional, e atuou nas montagens originais de Ópera do malandro, de Chico Buarque, Teatro do Ornitorrinco canta Brecht e Weill, com Cacá Rosset, e Saltimbancos, substituindo Miúcha. Com o espetáculo Summertime (1980), dirigido por José Possi Neto, ela investe na carreira de cantora e lança seu primeiro disco.

Em A Música e a Cena, a artista, acompanhada por uma mini orquestra, desliza com desenvoltura por canções desse tipo de teatro. Vai de O Ébrio, de Vicente Celestino, que teve peça homônima na década de 1930 até Deus lhe pague, música de Chico, gravada na década de 1970 e que pegou emprestado o título de Joracy Camargo, texto que foi montado em 1933.

Foto: FotoErnesto Vasconcelos

A Música e a Cena tem direção de Gilberto Gawronski. Foto: Ernesto Vasconcelos

As projeções no fundo do palco, mesmo que não sejam novidades, funcionam como homenagens às figuras de Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Autran, Paulo Gracindo, Walmor Chagas. Ouvimos um trecho de Paulo Gracindo recitando Cântico negro, do poeta português José Régio, muito conhecido na voz de Maria Bethânia.

Também são executadas canções de um viés mais político, como das montagens Morte e vida Severina, Calabar e Arena conta Zumbi. E há também umas surpresas: interpreta Je ne t’aime pas, de 1934 , de Kurt Weill, parceiro de Brecht; e Back to Black, de Amy Winehouse, ao piano.

As músicas de Chico Buarque (sozinho ou com seus parceiros) marcaram presença. Como Beatriz, Suburbano Coração e Minha Canção.

Cida Moreira

Cantora lê trecho de Liberdade, Liberdade, de Flávio Rangel e Millôr Fernandes

Cida também lê alguns textos. Repleto de humor ácido, um trecho de Liberdade, Liberdade de Flávio Rangel e Millôr Fernandes parecia ainda hoje uma vingança. Como se sabe a estátua da Liberdade foi um presente dos franceses aos norte-americanos. “Quando Bernard Shaw esteve nos Estados Unidos foi convidado a visitar a Liberdade, mas recusou-se afirmando que seu gosto pela ironia não ia tão longe”.

E prossegue: “A confecção da monumental efígie custou à França trezentos mil dólares. Quando a Liberdade chegou aos Estados Unidos, foi-lhe feito um pedestal que, sendo americano, custou muito mais do que o principal: quatrocentos e cinquenta mil dólares. Assim, a liberdade põe em cheque a afirmativa de alguns amigos nossos, que dizem de boca cheia a frase importada, que o “Preço da Liberdade é a Eterna Vigilância”. Não é. Como acabamos de demonstrar, o preço da liberdade é de setecentos e cinquenta mil dólares”.

E deixa a marca de sua interpretação em Geni e o Zepelim . A execução dessa música já valia a noite. Imagine com todo esse repertório. Muito mais de emoção.

*A jornalista Ivana Moura viajou a convite do Festival de Curitiba

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