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Retrato fiel

Atriz Beth Goulart como Clarice Lispector

Atriz Beth Goulart como Clarice Lispector

Quando publicou o romance Perto do Coração Selvagem, em 1943, Clarice Lispector (1920-1977) provocou um choque no meio literário. A partir daí, a ucraniana crescida no Brasil produziu muitos abalos sísmicos. E que bom que isso tenha acontecido e continue a arrebatar novos e velhos leitores.

A atriz Beth Goulart tomou para si o desafio de interpretar a escritora no palco, no espetáculo Simplesmente Eu – Clarice Lispector, que faz única apresentação no Recife, neste domingo, às 20h, no Teatro da UFPE. A peça estreou em julho de 2009 e ao longo de quase cinco anos de temporada já foi vista por mais de 700 mil pessoas. Passou inclusive pelo Recife, onde se apresentou no Teatro de Santa Isabel, na abertura do Festival Recife do Teatro Nacional em 2010. (A crítica da peça foi o primeiro post do Yolanda!)

É uma hora de mergulho na obra e no universo clariciano. São quatro personagens que saem dos livros e ocupam a cena. Eles surgem de momentos de suspensão para carregar de epifanias a vida que irrompe em instantes – plena em sua beleza, misteriosa e arriscada. Em estado de graça.

Mas a descoberta do mundo traz seus horrores. E seus inversos. E lá estão Joana, de Perto do Coração Selvagem, a mulher inquieta e de impulso criativo selvagem, Ana, do conto Amor, uma dona de casa que tem sua rotina quebrada pela magia que brota do olhar. A obra de Clarice é povoada de gente que busca o amor. E Lóri, de Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres é uma delas. A quarta personagem dessa galeria é uma figura sem nome, do conto Perdoando Deus, que experencia a liberdade durante um passeio por Copacabana.

Por Simplesmente Eu, Clarice Lispector Beth Goulart levou quatro Prêmios de melhor atriz: Shell 2009, APTR, Revista Contigo e Qualidade Brasil, que premiou também como melhor espetáculo. O espetáculo ainda foi indicado ao Prêmio Shell 2009 de melhor iluminação (criada por Maneco Quinderé) e melhor produção pelo Prêmio APTR.

Única apresentação no domingo

Única apresentação no domingo

Serviço
Simplesmente eu, Clarice
Quando: 21 de abril (domingo), às 20h
Onde: Teatro da UFPE (Centro de Convenções da UFPE – Campus Universitário)
Quanto: Plateia inferior R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia-entrada).  Balcão 2º Piso: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada)
Venda de Ingressos: Bilheteria do Teatro, lojas Esposende (Shoppings Recife e Tacaruna) e site www.ingressorapido.com.br  
Duração: 60 minutos

Ficha ténica
Texto: Clarice Lispector
Adaptação, Interpretação e Direção: Beth Goulart
Supervisão: Amir Haddad
Gênero: Espetáculo Poema
Direção de Produção: Pierina Morais
Produção Executiva: Manoela Reis
Iluminadora/Operador de Luz: Diana Cruz
Operador de Som/Vídeo: Paulo Alves Mendes
Direção de Cena: Guaraci Ribeiro
Camareira: Eliane Silva

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Paulistas do Prêmio Shell

A repercussão do prêmio Shell ficou amortecida com a polêmica gerada nas redes sociais acerca do projeto de blog de Maria Bethânia. A Folha de S.Paulo publicou que a cantora estava autorizada pelo Ministério da Cultura a captar exatos R$ 1.356.858. As redes entraram em polvorosa e cada um que desse o seu pitaco. Muitas bobagens entre algumas críticas interessantes.

Classificado como audivisual, o blog é um projeto da Quitanda e prevê a postagem de 365 vídeos nos quais Bethânia declamará poemas e tambémversará sobre temas ligados à literatura. Com direção de Andrucha Waddington, da Conspiração Filmes, e coordenação do sociólogo Hermano Vianna, idealizador do site colaborativo Overmundo.

Mas vamos falar do Shell. A cerimônia de entrega do 23º Prêmio Shell de Teatro de São Paulo foi realizada no Espaço Araguari, na capital paulista, na noite de terça-feira.

Maria Alice Vergueiro, atriz homenageada pelo 23o Prêmio Shell de Teatro de São Paulo. Fotos: Marcos Issa/Argosfoto

A atriz Maria Alice Vergueiro, uma das fundadoras do grupo de Teatro Ornitorrinco, foi a homenageada especial desta edição. Merecedíssima homenagem. “Ganhar esse Prêmio é uma honra. Já recebi um Shell anteriormente, mas agora o significado é maior, ainda mais por ter um júri tão forte como esse. Momentos assim nos fazem parar e fazer uma retrospectiva do que fizemos em nossas vidas e avaliar se valeu a pena. E receber esse reconhecimento da categoria confirma a escolha que fiz”, declarou a atriz.

A festa foi apresentada por Beth Goulart – eleita melhor atriz carioca em 2009.

O espetáculo Escuro, concorreu em cinco categorias e levou três prêmios: para o autor Leonardo Moreira, para o figurino de Theodoro Cochrane e para a cenografia de Marisa Bentivegna e Lenardo Moreira. A peça também dirigida por Leonardo Moreira, explora a vivência de deficientes visuais e auditivos.

Bete Dorgam, de Casting, foi eleita a melhor atriz e Luciano Chirolli, por As Três Velhas, melhor ator. Rodolfo García Vásquez, do grupo Satyros, ganhou como diretor pela montagem de Roberto Zucco, última obra do dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès.

Os vencedores de cada categoria receberam uma escultura em metal do artista plástico Domenico Calabroni, inspirada no logotipo da Shell, e uma premiação individual de R$ 8 mil.

O júri do 23º Prêmio Shell de Teatro de São Paulo foi formado por Alexandre Mate (professor e pesquisador teatral), Marici Salomão (autora teatral e jornalista), Mario Bolognesi (professor e pesquisador de teatro), Noemi Marinho (atriz, dramaturga e diretora) e Valmir Santos (jornalista e curador do Festival Recife do Teatro Nacional).

Parecia mais uma entrega de prêmio, com as alegrias dos vitoriosos e os cumprimentos de seus pares.

Mas algo não estava no script.

Na categoria especial concorriam a Cia. Elevador Panorâmico de Teatro pela pesquisa e criação do espetáculo Do jeito que você gosta; a Companhia Club Noir pela pesquisa e criação de Tríptico [Richard Maxwell] – Burger King, Casa e O fim da realidade; o Grupo Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes pela pesquisa e criação de A saga do menino diamante – uma ópera periférica; a atriz e viúva de Paulo Autran, Karin Rodrigues pelo encaminhamento e socialização do acervo pessoal de Paulo Autran a instituições culturais; e Luiz Päetow pela concepção e pesquisa do espetáculo Abracadabra.

Venceu o Grupo Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes. Recebeu o prêmio e protestou. A atriz Nica Maria jogou óleo queimado, simulando petróleo, no ator Tita Reis, que segurava o prêmio durante o discurso, que ironizava sobre a Shell, patrocinadora do evento.

Atriz Nica Maria jogou óleo queimado, simulando petróleo, no ator Tita Reis

O texto lido ontem: “Para nós do coletivo artístico Dolores é uma honra participar deste evento e ainda ser agraciado com uma premiação. Nosso corpo de artista explode numa proporção maior do que qualquer bomba jogada em crianças iraquianas. Nosso coração artista palpita com mais força do que qualquer golpe de estado patrocinado por empresas petroleiras. Nossa alegria é tão nossa que nenhum cartel será capaz de monopolizar. É muito bom saber que a arte, a poesia e a beleza são patrocinadas por empresas tão bacanas, ecológicas e pacíficas. Obrigado gente, por essa oportunidade de falar com vocês. Até o próximo bombardeio… quer dizer, até a próxima premiação!!!”

A atriz Bel Kowarick com o marido, o o jornalista Marcelo Tass

No site do Terra, o apresentador Marcelo Tas, casado com a atriz Bel Kowarick, indicada ao prêmio por Dueto para Um disse que “Foi uma atitude de visão pequena da parte deles, são extremistas”. E arrematou: “Eles não conseguiram enxergar a coisa maior de tudo isso e se igualaram a quem só quer aparecer na revista Caras.” Para a atriz Beth Goulart, apresentadora do prêmio, a atitude foi desnecessária. “Receberam um carinho e deram um tapa”. Já o autor premiado da noite, Leonardo Moreira, da peça Escuro disse não se incomodar com o protesto contra a Shell. “Cada um faz seu discurso. Acho legal ter esse espaço.”

Hoje, o grupo soltou uma nota sobre o ocorrido no seu site oficial:

Nota pública do Coletivo Dolores sobre ato na 23ª edição do Prêmio Shell

“É evidente para quem acompanha a trajetória do Coletivo Dolores que somos avessos às premiações como instrumento de eleição dos “melhores”. Este mecanismo, além de naturalizar hierarquias e competições, faz com que determinados grupos detenham o poder de decidir o que é ou não é arte.

Atualmente, em nosso país, o fazer cultural é dominado por grandes empresas privadas que, baseadas em critérios falsamente neutros e na força do dinheiro, ditam qual filme devemos ver, qual música devemos escutar, qual peça teatral devemos assistir. O financiamento privado exclui e, até mesmo, inviabiliza o fazer artístico que não se enquadre em seus critérios, sejam eles estéticos ou mercadológicos.

A liberdade de expressão, tão amplamente defendida, é restringida quando meia dúzia de financiadores domina a produção cultural. Muitas vezes, esses financiadores privados se utilizam de dinheiro público por meio de isenções fiscais e ainda se beneficiam do marketing propiciado. Esta engrenagem é viabilizada pela Lei Rouanet, à qual nós e inúmeros outros coletivos artísticos frontalmente nos opomos.

Também não deixa de ser tristemente irônico que uma das premiações mais conceituadas no meio artístico seja patrocinada por uma empresa que participa ativamente da lógica de produção de ditaduras perenes, guerras e golpes de Estado. Assim sendo, publicamente nos irmanamos a todas as lutas de emancipação de povos que possuem a riqueza do petróleo, mas que não podem usufruir deste recurso devido à ingerência de potências militares em seu território e à presença de empresas petrolíferas nacionais e transnacionais que usurpam essa riqueza.

Aproveitamos para declarar publicamente que aceitamos o prêmio. Em nosso entendimento, esta é uma forma de restituição de uma ínfima parte do dinheiro expropriado da classe trabalhadora. Recebemos o que é nosso (enquanto classe, no sentido marxista) e debateremos um fim público para esta verba”.

Cada um com seu troféu do 23º Prêmio Shell de Teatro de São Paulo

Confira a lista de premiados e comente o que você achou do protesto na entrega do Shell:

Música: Fernanda Maia por Lamartine Babo

Iluminação: Caetano Vilela por Dueto Para Um

Figurino: Theodoro Cochrane por Escuro

Cenografia: Marisa Bentivegna e Lenardo Moreira por Escuro

Categoria Especial: Grupo Dolores Boca Aberta Mecatrônica das Artes pela pesquisa e criação de A Saga do Menino Diamante- uma ópera periférica

Direção: Rodolfo Garcia Vázquez por Roberto Zucco

Autor: Leonardo Moreira por Escuro

Ator: Luciano Chirolli por As Três Velhas

Atriz: Bete Dorgam por Casting

Homenagem: Maria Alice Vergueiro, paladina do teatro experimental brasileiro

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A paixão segundo Beth Goulart

Simplesmente

– Escrevo para mim, para sentir a minha alma.

Sou intuitiva. Sinto mais do que penso. Escrevo para entemder melhor o mundo.

Escrever é um aprendizado, assim como viver.

As frases ditas por Beth Goulart no papel de Clarice Lispector talvez possam ser usadas para a própria atriz. Ela está no palco para descobrir a si mesma, para testar limites, e de forma aparentemente muito mais ampla – não só no que se refere ao seu ofício de atriz. O espetáculo Simplesmente eu, Clarice Lispector nos desafia – nos surpreendemos tentando desvendar o que daquele personagem é Beth e o que é Clarice. E isso não é tão fácil assim…afinal, muitas vezes não conhecemos nem as pessoas com as quais convivemos diariamente!

Entrevistei a atriz dias antes da apresentação da peça, que abriu na última quarta-feira o 13º Festival Recife do Teatro Nacional, e ela disse que encontrou a sua própria emoção para então levar ao palco a verdade da escritora de A hora da estrela. Que essa foi uma sugestão do Armir Haddad, que trabalhou na montagem como supervisor – Beth está no palco, fez o texto e ainda dirige. Bom, a língua presa e o sotaque nordestino (misturado ao paulista da atriz? alguns se perguntaram se não era demais…e parece que ela não consegue levar o sotaque no mesmo ritmo até o fim ) estavam ali, além da expressão facial. O rebolado e a elegância de menina fina parecem pertencer muito mais à atriz. Mas ainda não é isso.

Por ser tão delicada e ao mesmo tempo tão forte, até quando falava de banalidades, a literatura de Clarice é bem difícil de ser levada ao teatro. No palco, em muitos momentos, a impressão que dá é que aqueles textos não tomam a proporção devida – mesmo que a peça seja entremeada por alguns silêncios, o que se mostra fundamental. Será que  dá tempo do público mastigar aquelas palavras? Bom, não parece que elas fiquem maturando na cabeça e isso aconteça depois que o espetáculo é encerrado…

É bem provável que haja alguma discordância sobre esse argumento. Ainda na escada do teatro, vi uma mulher abraçando outra. Dizia estar emocionada, era fã de Clarice. No twitter, uma garota comentou que estava ′passada`. Talvez porque a literatura de Clarice seja assim mesmo. Alcança de pouquinho. Mas…sempre mas… no espetáculo não consegue arrebatar, comover, ainda que a peça tenha muitas qualidades, principalmente técnicas, como direção de movimento, iluminação, cenário e figurino.

Um dos momentos mais belos é quando a escritora judia clama por Deus – numa oração que é seguida pelo Salmo 23, só que cantado (e foi a própria atriz que musicou o Salmo). A interpretação de Beth Goulart também é correta, precisa, madura, certinha, fruto de competência e de um trabalho de imersão na obra de Clarice que durou dois anos. Além da própria Clarice, Beth traz ao palco quatro mulheres da obra da escritora: Joana, de Perto do coração selvagem, que é o impulso, a jovialidade; Ana, do conto Amor, dedicada ao marido e aos filhos; Lóri, da obra Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, que se prepara para viver um encontro amoroso; e uma mulher sem nome, do conto Perdoando Deus, que mostra o humor inteligente de Clarice.

E aí é muito bem solucionada a transição entre esses personagens e Clarice, com trocas de roupa, mudanças na iluminação. E ao, mesmo tempo, como diz o próprio texto. “Joana, como separá-la de mim? Fazê-la diferente do que sou”, diz Clarice referindo-se à personagem. Mesmo que cause algum incômodo – por causa dos brancos quase em excesso, a iluminação de Maneco Quinderé é bem bonita e nos dá a ideia de uma página em branco, de uma tela a serpintada, como explicou Beth Goulart na entrevista.

Bom, o que mais permanece para mim é a análise sobre o ofício da escritura, a necessidade da palavra, o aprendizado da escrita, que, como disse Clarice, é a própria vida.

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