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Poesia contra preconceitos

Solo da atriz Soraya Silva é inspirado na obra de Carolina Maria de Jesus e Elisa Lucinda

Solo da atriz Soraya Silva é inspirado nas obras de Carolina Maria de Jesus e Elisa Lucinda

Olhos de Café Quente embala histórias de meninas, mães, madrinhas e mulheres. Episódios belos, tristes, de denúncia. É um espetáculo que acende a memória de feridas provocadas por preconceitos (in)disfarçáveis. No solo, a atriz Soraya Silva debate cenicamente a questão de raça e realiza um mergulho profundo no universo feminino. A peça ergue uma heroína do povo a partir das obras de Carolina Maria de Jesus e Elisa Lucinda. Olhos de Café Quente, com direção de Quiercles Santana, estreia nesta sexta-feira, 1º de maio, Dia do Trabalhador, no Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife.

O encenador diz que a montagem é uma aposta no teatro, na delicadeza dos pequenos movimentos, nas ações silenciosas, nas palavras, na poesia. Olhos de Café Quente faz vibrar quando aponta para as dores e as alegrias de existir. A atriz elabora no corpo, nos gestos, movimentos e sentimentos, as recordações e desejos de uma mulher, que são muitas numa só: a menininha abelhuda, a mocinha encantadora, a mulher enérgica, a anciã.

Quiercles Santana nos dá mais algumas pistas. A encenação “é sobre as diversas fomes e sedes que nos consomem… É sobre a solidão da escrita e a paixão por palavras instauradoras de mundos, imagens, sombras, reflexões”.

O processo de criação do espetáculo começou em 2013, a partir da obra de Carolina Maria de Jesus, mulher negra, pobre, catadora de lixo, mãe solteira, semianalfabeta, que morou na favela do Canindé, em São Paulo, e surpreendeu o mundo com uma escrita autobiográfica; memorialista; poética, em formato de contos, provérbios e romances. O contraponto para essa dramaturgia “de grande relevância política, estética e social” é a obra de Elisa Lucinda “negra de olhos verdes”, respeitada atriz, cantora, poetisa e jornalista com sua poesia do cotidiano.

No livro Quarto de despejo: diário de uma favelada, publicado em 1960, Carolina Maria de Jesus (1914-1977) faz um desabafo por todos os excluídos desse Brasil, os abandonados à própria sorte, enfrentando a miséria absoluta, fome e violência. A escritora ainda publicou, no Brasil, os livros Casa de alvenaria (1961), Provérbios (1963), Pedaços da fome (1963) e Diário de Bitita (publicação póstuma, 1982).

Atriz interpreta várias mulheres numa só

Atriz interpreta várias mulheres numa só

“Num balanço se balança, sem pressa, uma jovem mulher, de branco vestida.
É negra ela… Como negra é a tinta com que escreve, na brancura do papel, seus poemas e lembranças.
Suas histórias deslizam com pés de anjo, passos leves, no espaço, como se o tempo fosse outro, como se a vida não urgisse.
Ouvimos quando canta, voz grave, canções antigas.
Vemos quando acende velas multicores.
Sentimos o rescindir de perfumes.
Rodeada de livros e escritos, ela conta, tranquila-tranquila, sonhos de infância, de como entende a vida, de seus desejos de mulher, de suas perdas e danos, das dores e alegrias de ser mulher negra.
Às vezes a sentimos endurecer, guerreira, solicitando mais respeito, mais amor, alguma dignidade. Aí sua voz ganha força, peso, ressoa alto, penetrante, na plateia. Ela nos toca, provoca, afeta, faz pensar.
Ouvimos outras vozes nas suas palavras. E calamos ante sua força e fé. Pois que a dor que lhe grita por dentro não é sua somente. É nossa também. É de todo mundo que já se viu, em algum momento, apequeninado pelo preconceito racial.
A mulher de branco vestida é, ela mesma, um poema feito de carne, músculos e respirações. É puro movimento interno e externo. É um convite para se ver, de outro ângulo, o mundo tal qual o conhecemos.”

A peça é sobre ser negro e pobre, ter de se virar e  manter a altivez

A peça é sobre ser negro e pobre, ter de se virar e manter a altivez

Serviço
Olhos de café quente
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife)
Quando: Sextas, sábados e domingos, de 1º a 10 de maio, às 20 horas
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)

ENTREVISTA // QUIERCLES SANTANA

Quiercles Santana, diretor do espetáculo. Foto: Andréa Neres

Quiercles Santana, diretor do espetáculo. Foto: Andréa Neres

Como vocês compuseram a dramaturgia?
A dramaturgia foi sendo erguida por tentativa e erro na lida diária dos ensaios. A gente testava, como um bricoleur, os fragmentos, casando as vozes, fazendo a alquimia de duas escritoras (Carolina Maria de Jesus e Elisa Lucinda), que têm escritas completamente distintas. Como dar coesão de modo que fossem salvaguardadas as diferenças, fazendo ressaltar as semelhanças a ponto de que a performance da atriz tivesse coerência dramática.

Como foi dirigir poesia?
A poesia está na prosa das escritoras. É uma poesia em potencial, não se trata de poemas, fique claro. É antes uma contundente exposição de argumentos, de relatos sobre o que se vê, o que se vive no dia a dia, nas esperanças e solidões dessas mulheres. É uma poesia garimpada no prosaico da realidade.
Isso se falamos de poesia enquanto dizer, enquanto palavra. Mas o espetáculo guarda outra poesia, super importante para nós, que é a poesia feita com o espaço e o tempo. Porque não são apenas as palavras que falam em Olhos de café quente. É também o silêncio, é o tempo, que diz quando a palavra não pode mais dizer. É a dor entalada no peito, o nó na garganta, a espera, os sonhos não realizados, os nossos mortos que carregamos, as pequenas percepções da vida e do mundo que de repente nos faz silenciar e ouvir este fundo sem fundo que é o tempo passando (ou nós passando por ele).

Por que essa escolha?
Essa escolha, a princípio, foi feita pelas atrizes Márcia Cruz e Soraya Silva. Elas que me convidaram. Com o tempo fui me apaixonando também pela proposta inicial delas.

Quais suas influências para criar a cena?
Sabe, não pensei nisso, em influências. Mas em fluências, sim. Em deixar a “música” soar. Como criar dinamismos, mudanças de atmosferas, instaurar sensações com o corpo, como afetar e deixar ser afetado. Uma leitura que me tem feito pensar muito e que devorei no processo de realização desse sonho foi Ideograma: Lógica, Poesia, Linguagem, do Haroldo de Campos.

Qual o tratamento interpretativo para falar sobre “ser mulher, ser negra e ser pobre no Brasil”?
Talvez alguns estudiosos das obras das autoras reclamem por não vê-las ali representadas. Não queremos representar ninguém, mas apresentar, ou seja, tornar presente uma força que se move, que dança, que se imobiliza, que toca o invisível da linguagem. Não esteve nunca em nosso foco de atenção representar as autoras, mas recriar as suas obras. Não é uma biografia histórica delas. É uma reinvenção das suas vivências. Isso sem panfletos, por que também não é muito a nossa levantar bandeiras, mas provocar, sacudir, pensar sobre as situações. Há momentos do espetáculo que são completamente criticáveis, até politicamente incorretos, que interessam pelo poder crítico que carregam. Não quer dizer que concordamos, mas quer dizer que são importantes como alavancas de reflexão.

Como é a direção de arte e técnica?
Uma opção estética foi pelo mínimo. Até mesmo porque não temos dinheiro e não fomos agraciados por nenhum edital público de fomento. Então apostamos no mínimo. Nenhum grande cenário. Luz e palco quase nu. E olha como é difícil porque não é simples mesmo chegar no simples. É bem complexo. Mas acredito que conseguimos coisas muito importantes aqui, inclusive porque não desistimos de criar este mundo, mesmo sem grana. É uma aposta alta no poder evocativo da palavra e no corpo movente.

O que você espera do público ao abordar episódios complexos e diria até, violentos?
O que espero é que possamos afetar as pessoas de alguma maneira, emocioná-las ao mostrar uma mulher sozinha em cena a conjecturar sobre o valor da arte e da vida, com os seus fantasmas. Que o espetáculo possa ser um espelho e olhando para a Soraya possamos nos enxergar um tantinho melhor. É bem pretensioso, mas sem pretensões como fazer teatro hoje?

Por que vocês vão ficar tão pouco tempo em temporada?
Uma questão é que muitos grupos disputam os espaços hoje no Recife. Outra questão é que a atriz deve voltar à Itália no fim do mês e não temos como segurá-la aqui, a não ser que o espetáculo seja convocado para muitas outras apresentações, mesmo que em espaços alternativos (o que é possível porque tudo cabe dentro de uma mala). Não precisamos de muito para ir adiante. E ainda temos de pagar muita gente que topou esta poesia junto conosco.

FICHA TÉCNICA
Direção e preparação corporal: Quiercles Santana
Assistência de direção: Asaias Lira
Atriz pesquisadora: Soraya Silva
Texto: Carolina Maria de Jesus e Elisa Lucinda
Organização e Seleção de Textos: Quiercles Santana e Soraya Silva
Cenografia e Figurino: Quiercles Santana
Iluminação: Natalie Revorêdo
Vídeo e montagem: D’Angelo Roberto
Fotografia: D’Angelo Fabiano
Programador Visual: José Barbosa e Luca Principi
Consultoria: Raffaella Fernandez – Dra. pesquisadora das obras de Carolina Maria de Jesus
Produção Executiva: Aracelly Silva
Produção Geral: Renata Phaelante
Realização: Eu&tu Nútero de Criação Teatral

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