Paixão obstinada

Cena da Crucificação. Foto Ivana Moura

Montagem dirigida por José Pimentel sai na marra em 2018. Cena da Crucificação. Fotos: Ivana Moura

Apóstolos

O ator Hemerson Moura estreia como Jesus no lugar de Pimentel. Cena com os Apóstolos

Após a primeira sessão da Paixão de Cristo do Recife, na sexta-feira 30/03, o elenco e a produção comemoraram a realização do evento, bradando como o espetáculo da resistência, da bravura, da determinação. Foram muitos problemas superados. Eles têm o que festejar. Fazer acontecer. E isso vai para a conta da tenacidade do ator, diretor e produtor José Pimentel, seu carisma junto ao público, sua liderança junto aos artistas. Afinal, são mais de quatro décadas envolvido nessa via-crúcis.

Na temporada 2018 da Paixão de Cristo do Recife, Pimentel não está no palco, mas sua obstinação ocupa mais espaço no Marco Zero, região central da capital pernambucana.

Mais duas sessões ocorrem hoje, 31 de março e amanhã, domingo, 1° de abril, sempre às 20h.

Em dezembro ator potiguar Hemerson Moura, de 39 anos, nascido em Caicó e com 21 anos de carreira, conquistou o papel de Cristo, após disputar a substituição do posto de Pimentel com mais outros 27 atores.

No início de março foi anunciado pelos produtores associados (Pimentel, Paulo de Castro e Antônio Pires) o cancelamento da encenação por falta de verba, captação insuficiente de recursos, tempo escasso para os ajustes técnicos (cenários, figurinos, gravação de áudio, estrutura do palco). 

Mas houve uma marcha-ré. A divergência entre os produtores associados sobre não fazer ou levantar a encenação de todo o jeito falou mais alto e fraturou a equipe. Alguns integrantes caíram fora do barco, mas outros participam pela primeira vez, como são os casos de Augusta Ferraz e Jomeri Pontes.

Pimentel garante que o que o convenceu a manter a peça foi a mobilização popular (do elenco, inclusive) após o aviso de suspensão do programa, no início deste mês de março. Foi um bombardeio pedindo a realização da Paixão do Recife nas redes sociais. Pelo menos foi esse o entendimento do diretor, que também sofreu críticas por desfazer o cancelamento. Isso tudo mexeu com os brios desse leonino obstinado. Ele ainda não sabe se foi a melhor decisão, mas ontem estava contente.

Paixão recife

Paixão Recife chega à 22ª edição

O evento cultural, que tem também um apelo religioso, já chegou a juntar um público de 30 mil pessoas a cada sessão. Na estreia dessa temporada não chegou a tanto, mas tinha muita gente na Praça do Marco Zero, no Bairro do Recife. O elenco de 100 atores e 300 figurantes habituais também me pareceu um pouco mais reduzido.

A produção ficou nas mãos do próprio diretor, sua filha, Lilian Pimentel, Mísia Coutinho e da empresa Refletores Produções. Os recursos, segundo eles, são os mesmos de quando foi anunciado o cancelamento: R$ 400 mil (de um orçamento de R$ 700 mil), verbas da Prefeitura e do Governo do Estado de Pernambuco.

Houve mudança considerável do elenco. Atores saíram por discordâncias com a produtora Lilian, filha de Pimentel. Alguns intérpretes, inclusive, não autorizaram a utilização de suas vozes, já que o áudio é o mesmo de anos anteriores e a equipe da peça teve que fazer alguns malabarismos.

Foto Ivana Moura

Garra do elenco e da equipe técnica foi fundamental para a realização do espetáculo

A Paixão de Cristo do Recife é importante por suas qualidades e também por seus defeitos. José Pimentel que acompanhou na beira do palco toda a encenação sabe melhor do que qualquer crítico das falhas técnicas e humanas da estreia. Atrasou meia hora por problemas de iluminação, que também falhou em outros momentos. Alguns efeitos especiais não funcionaram.

Pimentel também tem convicção que a estrutura não é ideal, que o cenário está corroído por cupins e que os figurinos já passaram da hora de serem renovados. Mas garantiu que contou com a boa-vontade de alguns fornecedores.

Ao final da apresentação ele lembrou do sacrifício feito por toda equipe para erguer a montagem neste ano. “Teve todo tipo de problema”, desabafou, mas preferiu destacar o espírito aguerrido da equipe. “Vocês não imaginam o sacrifício que a gente impôs a gente mesmo, de passar a noite sem dormir, para que esse espetáculo ficasse pronto”, contabilizou Pimentel.

Mas nada disso é o mais importante. A cumplicidade com o público, a liga emocional que se estabelece com a plateia, o clamor popular pesam mais. Pimentel é um artista pernambucano que sabe dialogar bem com plateias populares, acionar os afetos até às lagrimas. Mesmo que o figurino não tenha sido trocado, o cenário reformado, os cachês ajustados, vale mais a fé no jogo, dos integrantes e do público.

E se entra na trilha sonora música de Roberto Caros ou padres cantores e isso parece destoar do que se pensa de via-crúcis, isso pouco importa. É estabelecida uma sintonia e isso faz circular uma energia do poder do teatro. No final da estreia, uma rápida chuvarada para purificar. 

Paixão do Recife

Paixão do Recife

O desempenho de Hemerson Moura deu mais agilidade e leveza às cenas. Ele imprimiu  suavidade aos gestos do personagem e outra disposição nos movimentos. E também se adequou a voz de Pimentel como Jesus. Nos últimos anos a atuação de Pimentel despertava uma tensão, devido à sua condição física de saúde. Então, HM evolui com segurança nas plataformas do cenário.

Além da chegada do protagonista, que pode dar um novo fôlego ao espetáculo, os destaques foram as cenas do Diabo (Roberto Vasconcelos), da morte Judas (Ivo Barreto), em que o público gritava traidor; a Santa Ceia, a festança de Herodes (Luciano Lucas), com a participação de Augusta Ferraz. No elenco também estão Renato Phaelante, Angelica Zenith (Maria) e Gabriela Quental (Madalena).

Augusta Ferraz

Augusta Ferraz atua na festa de Herodes

A Paixão de Cristo do Recife foi criada em 1997, como reação à saída de José Pimentel do papel principal e direção da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. Nos primeiros anos ficou conhecida como “A Paixão de Todos”. Foi encenada no estádio do Arruda durante cinco anos. Migrou para o Marco Zero, com apresentações entre 2002 e 2005. Com as reforças no espaço em 2006, o espetáculo foi apresentado em frente ao Forte do Brum. Desde 2007 ocupa o Marco Zero nesta época do ano.

Desde o primeiro ano é luta. No início foi uma questão de honra para Pimentel e muitos artistas pernambucanos que se engajaram à ideia de garantir a reserva de mercado para os profissionais do estado, numa clara oposição às decisões da Paixão de Nova Jerusalém de contar com elenco televisivo.

SERVIÇO
Paixão de Cristo do Recife
Quando: Sábado, 31/03 e domingo, 1º/04, as 20h
Onde: Marco Zero
Quanto: Gratuito

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