Femininos encerram Dança de agosto no Itaú

Antílope, de Flávia Pinheiro; Eu, Elas de Juliana Moraes e Entrelinhas de Jaqueline Elesbão

O tom político e as questões femininas marcam as produções do Dança no Itaú que ocorre no fim de semana – de 30 de agosto a 1º de setembro, encerrando a programação de agosto. A artista pernambucana Flavia Pinheiro vem com sua investigação do corpo em Antílope; a paulista Juliana Moraes questiona os comportamentos aceitos socialmente como femininos em Eu, Elas; e a baiana Jaqueline Elesbão investe em esquadrinhar a violência de gênero e raça em Entrelinhas.

O circuito começou em 15 de agosto, e abriu espaço para coreografias nascidas a partir de movimentos políticos, estéticos e poéticos que fogem do convencional – a exemplo da dança de rua, funk, popular e de origem africana. Ao todo somam-se 10 montagens com artistas vindos de diferentes influências e lugares do país: de São Paulo, Juliana Moraes e o Grupo Fragmento Urbano; da Bahia, Kety Kim Farafina e Jaqueline Elesbão; do Rio Grande do Norte, Alexandre Américo e a companhia Gira Dança; de Pernambuco, Angelo Madureira, Flávia Pinheiro e Pedro Lacerda e, do Ceará, Katiana Pena e Wellington Gadelha.

Flavia Pinheiro em Antílope. Foto: Amanda Pietra

Antílope é a designação vasta para o mamífero bovídeo, e que engloba subfamílias, que guarda parentesco com vacas ou cabras. É o nome do espetáculo que Flavia Pinheiro leva ao palco às 21h desta sexta-feira. O animal tem musculatura poderosa nos quartos traseiros, o que dá agilidade para fugir dos predadores e correr até 100 km/h.  Alguns ostentam cornos ocos.

Flavia Pinheiro desenvolve trabalhos numa conjunção de arte, ciência e tecnologia e utiliza sensores biométricos e ópticos para transformar seus movimentos em ruídos. Em Antílope, performer traça um paralelo da desventura humana, que foge para poder sobreviver. Mas o antílope é considerado um animal com grande capacidade de superar episódios traumáticos e sair de um estado de inconsciência caso sobreviva à caçada.

Às 19h30, na área externa do Itaú Cultural, a companhia Fragmento Urbano expõe a intervenção Breaking de Repente. Explora com sua dança de rua vários aspectos do cotidiano de grandes centros urbanos. Nesta performance, a companhia, criada em 2009, reproduz gestos e familiaridades da rotina social nos grandes centros – como caminhar, procurar objetos e pegar ônibus –, por meio de danças urbanas como popping e locking. 

30/08/2019 SEXTA-FEIRA – 21h às 21h35
Antílope
Flavia Pinheiro(PE)
[duração aproximada: 35 minutos]
Sala Multiuso (piso 2) – 70 lugares
[livre para todos os públicos]

Eu, elas, solo de Juliana Moraes. foto: Cris Lyra /divulgação

O que é um comportamento feminino? A bailarina e coreógrafa paulista Juliana Moraes problematiza a pergunta na apresenta desse sábado, 21h, Eu, Elas. Nesse solo contemporâneo, Juliana usa gestos e posturas socialmente aceitos como femininos no ocidente – especialmente a partir dos anos 1950 – para desconstruir e questionar essas atitudes aprendidos.

Sentada durante 30 minutos, mas movimentando-se freneticamente, a artista elabora uma coreografia fincada na acumulação de gestos em diferentes partes do corpo, criando apuradas combinações. Focada na identidade de gênero, a peça descortina complexos processos de submissão e resistência, numa alternância entre imposições sociais e descobertas libertadoras.

31/08/2019 SÁBADO – 21h às 21h30
Eu, Elas
Juliana Moraes (SP)
[duração aproximada: 30 minutos]
Sala Multiuso (piso 2) – 70 lugares
[classificação indicativa: 12 anos]

Entrelinha, mergulha nas feridas e cicatrizes desse sistema opressor, que mutila milhões de mulheres 

A baiana Jaqueline Elesbão apresenta Entrelinhas no domingo, às 20h, fechando a série de dança no Itaú Cultural em agosto. Diretora, coreógrafa, intérprete e ativista de questões femininas, étnicas e causas LGBT, ela aborda a temática da violência psicológica, emocional e sexual contra a mulher, articulando um diálogo entre o passado e o presente. Entrelinhas vasculha a mentalidade escravocrata e o comportamento machista dominador, que silencia a voz feminina com força física ou metafisica.

01/09/2019 DOMINGO – 20h às 20h35
Entrelinhas
Jaque Elesbão (BA)
[duração aproximada: 35 minutos]
Sala Multiuso (piso 2) – 40 lugares
[classificação indicativa: 18 anos]
[com interpretação em Libras]

SERVIÇO

Dança em agosto no Itaú Cultural
Itaú Cultural
Av. Paulista, 149 – Estação Brigadeiro do Metrô
Tel.: 2168-1776/1777
Entrada gratuita
Distribuição de ingressos:
Público preferencial: 1 hora antes do espetáculo (com direito a um acompanhante)
Público não preferencial: 1 hora antes do espetáculo (um ingresso por pessoa)

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Alice, a grandeza de Gertrudes na vida e na arte

Nicole Cordery em Alice – Retrato da Mulher que cozinha ao Fundo. Foto: Divulgação

A narrativa dominante insiste em traçar assimetrias micropolíticas de parceiros íntimos, principalmente quando trata de duplas, casais homoafetivos. As lésbicas Gertrude Stein (1874-1946) e Alice B. Toklas (1877-1967) são tratadas nesse grande painel triturador como protagonista e coadjuvante.

A casa na 27 Rue de Fleurus, de Stein / Toklas na efervescente Paris dos anos de 1920 e 1930 abrigava em reuniões e festas amigos como Ernest Hemingway, Guillaume Apollinaire, James Joyce, Pablo Picasso, Georges Braque, Henri Matisse, Jean Cocteau, Scott Fitzgerald, ainda jovens e desconhecidos, muitos outros artistas e críticos de arte, figuras que se tornariam a fina flor intelectual europeia do século 20.

Gertrudes escreveu em diversos gêneros literários – romances, contos, peças teatrais, novelas, conferências e ensaios, retratos, poemas, literatura infantil, histórias detetivescas e libretos de ópera. Entre eles The Making of Americans, a conferência Poesia e Gramática, o livro de contos Três Vidas, os dois infantis, The World is Round (O Mundo é Redondo) e To Do: a Book of Alphabets and Birthdays (Para Fazer: um Livro de Alfabetos e Aniversários).

Em A autobiografia de Alice B. Toklas, Stein traça uma engenhosa biografia de si mesma, em que a narradora do livro é Alice. Virou best-seller de lembranças daquela boemia parisiense e foi transformado no filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen.

Já Alice Toklas consta na história literária como a autora de apenas um livro de culinária, The Alice B. Toklas Cookbook.

Mas sua figura foi de máxima importância para a criação artística de sua parceira. Além de cozinhar, às vezes, nas badaladas reuniões, Toklas desempenhou o papel de primeira leitora, secretária, revisora, crítica, editora e organizadora da obra de Stein. Nos 20 anos após a morte da companheira, Alice cuidou da divulgação e preservação do trabalho de Gertrude.

O solo Alice – Retrato de Mulher que Cozinha ao Fundo narra a trajetória de Toklas e a relação das escritoras, enquanto compõe um panorama do século XX e da Segunda Guerra Mundial. Mas pelo olhar de Toklas. No espetáculo, Alice não é eclipsada por sua célebre amada.

Com atuação de Nicole Cordery, a peça tem direção de Malú Bazan e texto assinado por Marina Corazza.

A peça faz três apresentações no Teatro Décio de Almeida Prado nos dias 29, 30 e 31 de agosto. As apresentações fazem parte da programação do Mês da Visibilidade Lésbica, e contará com bate-papo após as sessões.

O monólogo aposta na fronteira entre a realidade e a ficção a partir de um embaralhamento entre as visões de Stein e Alice. Inspirado nos livros The Alice B. Toklias Cookbook e A Autobiografia de Alice B. Toklias, o monólogo traz uma dramaturgia fragmentada, assume diferentes tempos e espaços da vida das duas, através da narração de cartas, poesias e receitas culinárias de Alice.

Alice – Retrato de Mulher que Cozinha ao Fundo já cumpriu cinco temporadas em São Paulo, além de turnês por cidades da Argentina e de Portugal.

Malú, Nicole e Marina. Foto: Divulgação

SERVIÇO

Alice – Retrato de Mulher que Cozinha ao Fundo
Quando: 29, 30 e 31 de Agosto (quinta a sábado), 20h (quinta e sexta); 18h (sábado)
Onde: Teatro Décio de Almeida Prado – Rua Lopes Neto, 206 – Itaim Bibi, São Paulo (SP)
Ingresso: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia)
Duração: 60 minutos

Convidadas para bate-papos pós peça:

29/08
Convidada
Lauren Zeytounlian é antropóloga, marceneira e lésbica. Faz doutorado em Ciências Sociais, na área de Estudos de Gênero, na Unicamp. É membro do Numas – Núcleo de Estudos dos Marcadores Sociais da Diferença, na USP. Desde de 2015 é mediadora do Clube de Leitura Companhia das Letras/Penquin/Numas que se encontra mensalmente
na Livraria Martins Fontes Paulista. Possui muitos interesses de pesquisa, mas, no momento, sobretudo em textos de mulheres em primeira pessoa, escritas feministas, ativismo e trabalho sexual.

30/08
Convidada
Carla Miguelote
é Doutora em Literatura Comparada (UFF) e Professora Adjunta do Departamento de Letras da UNIRIO, com diversos trabalhos publicados em anais de congresso, além de ensaios e artigos em livros e revistas especializadas. É também poeta – autora do livro de poemas Conforme minha médica (Confraria do vento, 2016)
– e documentarista – diretora de quatro curtas feministas: Amiga oculta (2017), qual imagem (2018), como se não víssemos a um palmo do olho a pinça do escorpião (2019) e esguicho (2019).

Mediação
Marina Corazza
é atriz, dramaturga e educadora. Graduada em Artes Cênicas (ECA/USP) e mestranda no Programa de Mudança Social e Participação Política (EACH/USPLeste). Foi co-fundadora e atriz da Companhia Auto-Retrato (2001 a 2015). Em 2015 formou com os atores Lucas George e Diego Gonçalves o Coletivo Concreto com objetivo de investigar a relação entre cantos de tradição e a ação no trabalho do ator. Seus últimos trabalhos como dramaturga são: Alice, retrato de mulher que cozinha ao fundo, Aproximando-se de A Fera na Selva (indicada ao Prêmio APCA de dramaturgia e direção) e Fóssil.

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Segunda edição da Semana Paulista de Dança no Masp

 

O Mandarim Maravilhoso. Foto: Divulgação

Mulheres, do Quasar. Foto: Divulgação

Com curadoria de Anselmo Zolla, o auditório do museu projetado por Lina Bo Bardi é palco da segunda edição Semana Paulista de Dança, mostra que começa nesta quarta-feira (28) e inclui grupos de outros estados, além de São Paulo.

Na abertura, sete dos nove grupos e artistas solos exibem trabalhos: Studio 3, SPCD (São Paulo Companhia de Dança), Quasar, Cia. de Danças de Diadema, Miriam Druwe, Raymundo Costa e Marilena Ansald.

É uma noite  especial, de celebrações. Marilena Ansaldi, 84, traça em um solo sua trajetória como pioneira da dança-teatro no Brasil, na peça Depois de Tudo. A SPCD vem com A Morte do Cisne.  Em Mulheres, a Quasar, mostra o envolvimento das participantes em diferentes emoções, conflitos e dúvidas sobre os relacionamentos. O Studio 3 coreografa O Mandarim Maravilhoso.

Já a diretora da companhia de Diadema, Ana Botosso, interpreta Retrato, um solo da fundadora do grupo, Ivonice Satie. Raymundo Costa celebra Hugo Travers em sua coreografia O Tempo entre o Sopro e o Apagar da Vela. Miriam Druwe volta aos palcos como Sei Solo.

No ano passado, a primeira edição atraiu 1.500 espectadores. Em 2019, a proposta busca expor um feixe da produção contemporânea brasileira em sua variedade de linguagens. Nessa perspectiva, o Balé Folclórico da Bahia faz duas apresentações no encerramento da mostra, no dia 1º de setembro. O Balé Teatro Guaíra, de Curitiba também está na programação.

A SPCD traz peças  de três gerações de coreógrafos: Marcia Haydée, Jomar Mesquita e Cassi Abranches.

A atuação de mulheres na dança é tema de mesa de conversa no domingo.  Com participação de Ana Botosso (Cia. Diadema), Carolina Fagundes (Instituto Satie), Vera Bicalho (Quasar) e Miriam Druwe e mediação de Inês Bogéa, diretora da SPCD.

Serviço:
Semana Paulista de Dança
Quando: 28/8 a 1/9 (de quarta a sábado, às 20h; e no domingo, às 16h e às 19h)
Onde: Auditório Masp-Unilever (Avenida Paulista, 1578)
Quanto: Grátis. Os ingressos devem ser retirados duas horas antes de cada espetáculo
Classificação: Livre

PROGRAMAÇÃO

28.8 | QUARTA | 20h
Studio3 Cia de Dança, O Mandarim Maravilhoso
São Paulo Companhia de Dança, A Morte do Cisne
Miriam Druwe, Sei solo
Quasar Cia de Dança, Mulheres
Companhia de Dança de Diadema, Retrato
Raymundo Costa, O tempo entre o sopro e o apagar da vela
Marilena Ansaldi, Depois de Tudo

29.8 | QUINTA | 20H
Balé Teatro Guaíra, Trânsito
Quasar Cia de Dança, Estou sem silêncio
Companhia de Danças de Diadema, Eu por detrás de mim

30.8 | SEXTA | 20h
Studio3 Cia de Dança, Depois 

31.8 | SÁBADO | 20h
São  Paulo Cia de Dança, Ngali / Fada do Amor / Agora

1.9 | DOMINGO
16h e 19h

Balé Folclórico da Bahia, Herança Sagrada – A corte de Oxalá

17h30
Mesa de mulheres: Ana Botosso, Carolina Fagundes, Miriam Druwe, Vera Bicalho 
Mediação: Inês Bogea 

 

 

 

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Chet Baker, Apenas um Sopro,
faz apresentações em São Paulo

O músico Paulo Miklos estreou no teatro com o espetáculo Chet Baker, Apenas Um Sopro, em 2016. Foto Victor Iemini / Divulgação

Os gênios não são perfeitos. A trajetória do trompetista norte-americano Chet Baker sinaliza para essa conjectura. Do jovem cobiçado por mulheres e homens, comparado em beleza a James Dean, – o ator de Juventude Transviada –, à decrepitude em vida são 58 anos e uma mistura explosiva de jazz, drogas, estrelato, violência. Esse arco começa em 23 de dezembro de 1929, em Yale, Oklahoma, EUA, e encerra com uma “queda” fatal de um quarto de hotel em Amsterdã em 13 de maio de 1988.

Como pessoa, o músico foi se tornando um caco pelo consumo de heroína e por todos os malabarismos feitos para consumir a droga. A partir de uma suposta briga com viciados, Baker perdeu os dentes e a embocadura para atingir notas mais altas no seu trompete ficou prejudicada.

Paulo Miklos, vocalista da Banda Titãs, encarna esse grande do jazz, um branco que pode ser comparado a figuras como Miles e Coltrane, no espetáculo Chet Baker, Apenas Um Sopro. A peça já fez várias temporadas e vem de um novo circuito por Salvador, Vitória, Curitiba e Porto Alegre. Agora, faz apresentações em São Paulo até 25 de agosto, no Teatro da Faap.

Com direção de José Roberto Jardim e dramaturgia de Sérgio Roveri, o espetáculo é livremente inspirado na vida do lendário trompetista norte-americano Chet Henry Baker Jr. (1929-1988) e tem no elenco Anna Toledo, Jonathas Joba, Piero Damiani e Ladislau Kardos.

Apontado como precursor da bossa nova, por seu cantar com voz aveludada e suavidade no tocar, o músico tinha um temperamento difícil. Muitos livros tentam desvendar a personalidade de Baker. No Fundo de um Sonho – A Longa Noite de Chet Baker, de James Gavin, e a novela policial No Rastro de Chet Baker, de Bill Moody, mostram que, irresponsável e encrenqueiro, Chet foi preso várias vezes preso por porte de drogas.

Baker gravou mais de 150 discos. Casado três vezes, teve 4 filhos e muitas amantes. Suas grandes paixões foram a música e a heroína.

Encenação

A droga que tanto maltratou Baker está no centro do episódio em que o artista foi violentamente espancado em uma rua de São Francisco. Há versões que a agressão foi motivada por dívidas com traficantes, briga entre viciados ou até envolvimento da política. O resultado é que com os lábios rachados, e a perda de alguns dentes, Chet Baker interrompeu a carreira.

A trama mostra Chet Baker na primeira sessão de gravação após o acidente. A insegurança paira no ar e é compartilhada pelos outros quatro companheiros de estúdio: um contrabaixista, um baterista, um pianista e uma cantora.

A ações ocorrem em um estúdio de gravação, com cenário do Grupo Academia de Palhaços, figurinos do estilista João Pimenta, iluminação de Aline Santini e direção musical de Piero Damiani.

Ficha Técnica
Dramaturgia: Sergio Roveri
Direção: José Roberto Jardim
Elenco: Paulo Miklos, Anna Toledo, Jonathas Joba, Piero Damiani e Ladislau Kardos
Idealizador: Fábio Santana
Diretora de Produção: Renata Galvão
Produção Geral: Taís Somaio
Produção Executiva: Marina Aleixo
Direção Musical: Piero Damiani
Figurinista: João Pimenta 
Cenografia: ultraVioleta_s
Desenho de Luz: Aline Santini
Desenho e Operação de Som: Rafael Thomazini
Técnico de Palco: Rogério Febraio
Assistente de luz e operação: Michelle Bezerra
Visagista: Fabio Namatame
Assessoria de Imprensa: Pombo Correio

Serviço:
Chet Baker, Apenas Um Sopro
Onde:
Teatro Faap (Rua Alagoas, 903, Higienópolis)
Quando: 22, 23, 24 e 25 de agosto, de quinta a sábado, às 21h, e no domingo, às 18h
Ingressos: R$60 (inteira) e R$30 (meia-entrada)
Classificação: 14 anos
Duração: 1h20
Capacidade: 500 lugares
Informações: (11) 97185-9332

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Correspondência de artista, Brasil de hoje, teatro documental e urgente

Espetáculo Cartas foi montado com o apoio do Aprendiz em Cena. Foto: Coletivo Caverna

Intensos 11 anos, entre 1965 e 1976. O Brasil enfrentava os primeiros tempos de uma ditadura militar, enquanto os escritores, dramaturgos, homens de artes, Hermilo Borba Filho e Osman Lins se relacionaram por meio de cartas. Uma troca que não acontecia de maneira esporádica: às vezes, era só o tempo de chegar uma, que a devida resposta já era prontamente escrita e enviada. Desde que tomou conhecimento da existência dessas cartas, Luiz Manuel, que estreou como diretor justamente com A Rã, espetáculo baseado no conto homônimo de Hermilo Borba Filho, idealizou levá-las ao palco. Cartas estreia neste sábado (27), encerrando a 17ª edição da Semana Hermilo Borba Filho, que este ano também homenageou Osman.

O projeto foi montado com o suporte de “O Aprendiz em Cena”, projeto que oportuniza o trabalho de um diretor iniciante com um elenco já mais experiente. Fabiana Pirro, Paulo de Pontes e Claudio Lira conduzem o espectador por uma dramaturgia construída como se fosse realmente uma carta. Além das conversas entre Hermilo e Osman, a obra Guerra sem Testemunhas, de Osman, também serve como base para o texto; “Lendo a correspondência, eu me fascinei sobre o quanto eles trocavam com relação à vida profissional. Editamos as cartas, escolhemos alguns trechos, mas são as palavras dos dois, além dessa adaptação de Guerra sem Testemunhas, que fala sobre a guerra que é escrever, o quanto ele escreve em guerra com si mesmo, com a sociedade, com o editor”, explica Luiz Manuel.

Osman foi aluno de Hermilo no Recife, mas pela correspondência profícua os dois realmente se tornariam amigos, testemunhas íntimas das trajetórias literárias um do outro. De acordo com Nelson Luís Barbosa, que estudou esses escritos, “(…) as cartas foram exclusivamente um espaço de discussão de questões relacionadas essencialmente aos projetos literários de cada um, seus embates com o mercado editorial e a dificuldade de conseguir editores conscienciosos que efetivamente respeitassem as obras e pagassem justamente por elas”, explica em artigo.

Apesar da centralidade das discussões sobre as próprias obras, há também menções à situação política do país e às vidas pessoais dos dois. Eles falam, por exemplo, sobre suas separações, os  novos casamentos, a relação com os filhos. “Cada carta que lia, eu me emocionava. Quanta intimidade. Eu tinha a sensação de estar invadindo a vida deles. Por mais que nas cartas eles falem muito do trabalho, das angústias, dos editores, o pouco que eles falam da intimidade é muito pesado, muito significativo”, conta Fabiana Pirro.

No elenco, Claudio Lira, Fabiana Pirro e Paulo de Pontes. A direção é de Luiz Manuel

Além disso, mesmo que as correspondências tenham se dado nas décadas de 1960 e 1970, as similaridades com o país de hoje são incontestáveis. “É o Brasil de agora, do fascismo, da censura, a falta de dinheiro, a falta de espaço para os artistas. Caminhamos ou estamos andando para trás? E por serem pessoas políticas no caráter, na forma de vida, de encarar o ofício, eles nos encantam. Eu sou muito apaixonada por Hermilo, já era. Ele diz que enquanto tiver máquina e papel, vai continuar protestando. E Cartas é nosso manifesto político para esse tempo”, complementa a atriz.

A encenação utiliza dispositivos do audiovisual e dialoga com montagens de grupos como Agrupación Señor Serrano (coletivo espanhol que apresentou Uma casa na Ásia no Janeiro de Grandes Espetáculos em 2016), o colombiano Mapa Teatro e o potiguar Carmin. “Na realidade, fui buscar referências do teatro ibero-americano desde os anos 2000. Chegamos a trocar e-mails com os integrantes do Agrupación”, revela Luiz. No espetáculo, os atores se filmam em cena, há projeção de imagens e vídeos pré-gravados. O grupo também enviou uma carta, escrita pelo próprio coletivo para algumas pessoas, e vai ler respostas escolhidas.

Cartas, que tem a assinatura do Coletivo Caverna, faz duas sessões encerrando a Semana Hermilo; e uma curtíssima temporada com mais duas sessões em dois domingos de agosto, 11 e 18.

Ficha técnica
Dramaturgia: Dramaturgia coletiva, a partir das correspondências entre Hermilo Borba Filho e Osman Lins e do livro Guerra sem Testemunhas, de Osman Lins
Direção: Luiz Manuel
Elenco: Fabiana Pirro, Claudio Lira e Paulo de Pontes
Assistente de direção: Gabriel de Godoy
Iluminação: João Guilherme e Alexandre Salomão
Trilha Sonora/Desenho de som: Lara Bione
Figurinos: Giselle Cribari
Assistente de figurino: Fabiana Pirro
Identidade visual: Aurora Jamelo
Assessoria de imprensa: Tatiana Diniz
Direção de Produção: Naruna Freitas

Serviço
Cartas
Quando: 27 e 28 de julho, sábado e domingo, às 20h (encerrando a 17ª edição da Semana Hermilo), e nos dias 11 e 18 de agosto, às 19h
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (Cais do Apolo, 142, Recife)
Quanto: As sessões dos dias 27 e 28 têm ingressos gratuitos; as senhas serão distribuídas com uma hora de antecedência. Para as sessões dos dias 11 e 18 de agosto, os ingressos custam R$ 30 e R$ 15
Informações: (81) 3355-3321

 

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