Soledad faz passagem relâmpago por São Paulo

 

Hilda Torres no espetáculo Soledad

Hilda Torres no espetáculo Soledad, a Vida é Fogo Sob os Nossos Pés. Foto: Rick de Eça / Divulgação

Dignidade e coragem são palavras preciosas para à militante política paraguaia Soledad Barrett Viedma (1945-1973). Ela teve uma passagem luminosa pelo planeta Terra. Percurso de luta. Foi assassinada à traição pela ditadura militar brasileira, por emboscada do pai da criança que ela carregava no ventre.

Muito da vida dessa mulher, mãe, guerrilheira estão no monólogo Soledad – A Terra É Fogo Sob Nossos Pés. O espetáculo faz duas apresentações especiais, nestes 13 e 14 de fevereiro, como parte da Circulação Nacional – Etapa São Paulo, no Galpão do Folias, às 20h. Na quarta-feira (13/02) , a militante Damaris Oliveira Lucena é homenageada pela produção do espetáculo. E também está agendado um breve debate.

Conhecer Soledad, reencontrar Soledad é um bálsamo, um estímulo de bravura para esses tempos tão covardes. Ela morreu pela liberdade. Muitos morreram. Sua vida foi confiscada pela ditadura militar do Brasil (1964-1985).

“O projeto contou, desde o início, com a ajuda de muitas pessoas, como ex-prisioneiros políticos, militantes da época que tiveram contato com Soledad, ou não, além de parentes e compatriotas paraguaios. Também recebeu o apoio de militantes contemporâneos, que entenderam a relevância do projeto como contribuição importante para diversas lutas sociais, como as de gênero, direitos humanos e a do entendimento da arte como instrumento de formação e empoderamento sociopolítico e cultural”,

Malú Bazán, encenadora

Foto: Flávia Gomes / Divulgação

A direção é assinada por Malú Bazán. Foto: Flávia Gomes / Divulgação

Em 2015, a atriz pernambucana Hilda Torres, a diretora argentina Malú Bazán e a própria filha da militante, Ñasaindy Barrett, se juntaram para montar o espetáculo Soledad – A terra é fogo sob nossos pés.

Desde 2015 viemos resistentes, expandindo os horizontes do amor, da luta e da entrega; ampliando o alcance do conhecimento do que foi o período das ditaduras em nossa América nas décadas de 1950, 1960, 1970,1980…Ao contar a história de uma mulher como Soledad Barrett Viedma, militante internacionalista, mulher, poetisa, companheira, mãe, filha; contamos também a história de muitos outros e muitas outras. Pessoas que se entregaram plenamente ao destino de serem símbolo de transformação do mundo pelo exemplo de vida. movidos pelo amor e pela esperança em uma sociedade mais justa e igualitária.

Malú Bazán – dramaturgista e diretora

Soledad viveu na Argentina, no Uruguai, em Cuba e no Brasil, fugindo das repressões. Ao ser sequestrada por um bando de neonazistas em Montevidéu, ela adotou a guerrilha. Ao se recusar dizer a frase “viva Hitler!”, ela foi marcada nas coxas com a suástica nazista. Em Cuba, onde aprendeu a luta armada, conheceu Zé Maria, pai de sua filha Ñasaindy. No Brasil se apaixonou por José Anselmo dos Santos.

Soledad – A Terra É Fogo Sob Nossos Pés é a primeira encenação da vida da guerrilheira paraguaia  para palcos brasileiros. Ela foi caluniada como terrorista e ficou conhecida como a mulher do Cabo Anselmo, o policial infiltrado na guerrilha que entregou Soledad e mais cinco militantes contra à ditadura ao delegado Sérgio Fleury, em 1973. Eles foram executados no chamado “O massacre da granja São Bento”, em Abreu e Lima, Pernambuco. 

Nasceu com sua mãe e ela apenas, por isso Soledad – Solidão; criança que cresceu entre sons de bombas e brincadeiras, levando recados codificados em suas saias para dirigentes comunistas, indo visitar seu pai na cadeia, quando não, ele estava clandestino, presente pelos ideais, mas ausente na lida diária. Exilada com sua família com menos de 1 ano de idade. Com 16 anos, no Uruguai, no seu segundo exílio, começa a realizar apresentações de danças folclóricas em eventos solidários ao Paraguai. Sequestrada aos 17 por um grupo neonazista que marca com uma navalha o símbolo do nazismo. Vai pra URSS estudar teorias comunistas, em seguida vai para alguns países da América Latina na tentativa de invadir o Paraguai. Em 1967, vai para Cuba treinar para luta armada, casa-se e tem uma filha: Ñasaindy Barrett de Araújo, fruto do seu relacionamento com José Maria de Ferreira de Araújo. Em 1970, vem para o Brasil numa missão pela VPR; Mas aqui é entregue pelo “Cabo Anselmo”, até então o seu companheiro de quem estava grávida. Mulher, jovem, sonhadora, leal aos ideais, mãe, filha, companheira, dançarina, poetisa, militante aguerrida, dócil, serena, dedicada, destemida, empoderada… Soledad Barrett Viedma.

Hilda Torres – atriz

Soledad

Uma interpretação de fôlego da atriz Hilda Torres.

Soledad no Recife, livro do escritor pernambucano Urariano Mota, foi o ponto de partida do processo de encenação, em janeiro de 2015. A peça alumia pontos nebulosos da história do Brasil e acompanha Soledad Barret Viedma, desde seu nascimento, passando por vários países, até sua morte. O discurso é veemente.

Sozinha em cena, Hilda Torres acende o espírito da guerrilheira da Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR. O monólogo faz referências à uma série de entrevistas e pesquisa documental realizadas pela atriz e pela diretora, à publicação 68, a geração que queria mudar o mundo, compilação de relatos de uma centena de ex-militantes políticos, organizados e sistematizados por Eliete Ferrer, do grupo Os Amigos de 68. Além de consultas ao tijolaço da Comissão da Verdade e registros do Tortura Nunca Mais. E poemas de Marco Albertim e da artista plástica Ñasaindy de Araújo Barrett, filha de Soledad, que assina composições e empresta sua voz de cantora ao espetáculo.

A razão por que mando um sorriso e não corro, é que andei levando a vida quase morto. Quero fechar a ferida, quero estancar o sangue, e sepultar bem longe o que restou da camisa colorida que cobria minha dor. Meu amor, eu não esqueço, não se esqueça, por favor, que voltarei depressa, tão logo acabe a noite, tão logo este tempo passe, para beijar você’ “.

Para um amor no Recife, de Paulinho da Viola, que cantava na cadeia.

CONTRA À COVARDIA

A montagem se expressa generosa e caudalosa para recuperar a vida e a luta de uma mulher entregue à repressão pelo marido, numa farsa encenada pelo Estado de terror e traição no Recife da ditadura militar. A peça manifesta o poder da arte, de promover a reparação – pelo menos da imagem púbica – das violações a direitos fundamentais. Para reescrever a História e subverter a ordem do esquecimento.

O monólogo poético, que também faz alusões ao período atual da política brasileira, traça os conflitos como mulher, mãe, filha, militante perseguida. E recupera as facetas dessa musa política das esquerdas da América Latina.

Os episódios de dor são exibidos, num cenário de poucos elementos, com uma luz que convida para a intimidade dessa existência e na alternância da representação do trajeto de Soledad e a exploração do metateatro desvelado em seu processo de criação.

Soledad Barrett Viedma é um dos casos mais eloquentes da guerra suja da ditadura no Brasil. A peça é uma vitória pelo resgate da memória, da verdade e da justiça.

Urariano Mota, escritor

A encenação exalta os mitos e ritos ancestrais e evoca os povos originários. E incorpora esses dados na passagem do banho na água com os seios à mostra; na celebração de orixás como Nanã, do candomblé. E cenas fortes como das cruzes gamadas, as suásticas, riscadas a aço em suas pernas pelos militantes neonazistas.

Cabo Anselmo é apontado como um dos líderes do protesto dos marinheiros em 1964. Integrou o movimento de resistência à ditadura nos anos 1960 e, na década de 1970, atuou como colaborador do regime militar. A suspeita é que em todos os episódios ele atuava como um agente policial infiltrado.

Foi Anselmo quem entregou o esconderijo dos membros do VPR em Pernambuco, uma chácara no loteamento São Bento, no município de Paulista. Junto com outros companheiros, Eudaldo Gomes da Silva, Pauline Reichstul, Evaldo Luís Ferreira de Souza, Jarbas Pereira Marques e José Manoel da Silva, estava Soledad.

Segundo a versão oficial, os militantes foram mortos numa troca de tiros na chácara. O jornalista Elio Gaspari, em A ditadura escancarada, classifica o episódio como “uma das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura”.

Uma coisa aprendi junto a Soledad: que deve-se empunhar o pranto, deixá-lo cantar. Outra coisa aprendi com Soledad: que a pátria não é um só lugar. Uma terceira coisa nos ensinou: que o que um não consiga, o farão dois”,

Da música Soledad Barret, do cantor, compositor e instrumentista uruguaio Daniel Viglietti.

Ficha técnica

Atriz e idealizadora: Hilda Torres
Direção: Malú Bazán
Dramaturgia: Hilda Torres e Malú Bazán
Pesquisa histórica: Hilda Torres, Márcio Santos e Malú Bazán
Pesquisa cênica: 
Hilda Torres e Malú Bazán
Concepção de cenário e figurino: 
Malú Bázan
Execução de cenário e figurino: 
Felipe Lopes e Maria José Lopes
Luz: 
Eron Villar
Operação de Luz: 
Eron Villar e Gabriel Félix
Direção musical: 
Lucas Notaro
Arte visual: 
Ñasaindy Lua
Produção: 
Hilda Torres, Márcio Santos e Malú Bazán
Produção executiva: 
Renato Barros
Produção geral: Márcio Santos
Realização: Cria do Palco
Fotografias: Rick de Eça

SERVIÇO

Soledad – A Terra É Fogo Sob Nossos Pés – Circulação Nacional – Etapa São Paulo
Onde: teatro Galpão do Folias (Rua Ana Cintra (ao lado do metrô Santa Cecília)
Quando: 13 E 14 de fevereiro às 20h
Ingressos: Preços: R$ 30,00 (inteira);  R$ 15,00 (meia); R$ 10 (moradores da Santa Cecília com comprovante)
Informações e Reservas – Galpão do Folias: (11) 3361-2223
site de venda: https://www.eventbrite.com.br/e/soledad-a-terra-e-fogo-sob-…
Duração: 1h10
Classificação: 14 anos

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Não nos matem! Não nos maltratem!

Cicatriz (Toni Rodrigues - Divulgação) (17)

Peça Cicatriz apresenta histórias recheadas por traumas, opressões, abusos e discriminações contra pessoas da comunidade LGBT. Elenco é formado por Barbara Brendel, Fábio Queiroz, Flávio Moraes, Igor Cavalcanti Moura, Jandson Miranda, Milton Raulino, Nilo Pedrosa, Ricardo Andrade, Rodrigo Porto, Sophia William e Waggner Lima. Foto: Toni Rodrigues/ Divulgação

Cicatriz

Produção recifense faz duas únicas apresentações no Teatro Barreto Junior. Foto: Toni Rodrigues/ Divulgação

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Cicatriz expõe feridas da comunidade LGBT e clama por respeito. Foto: Tony Rodrigues /Divulgação

A travesti Quelly da Silva, 35 anos, foi morta e teve o coração arrancado em Jardim Marisa, na região do Campo Belo, em Campinas (SP). A transexual Myrella, 29 anos, enforcada e encontrada morta num terreno baldio no Centro de Balneário Camboriú, no Litoral Norte catarinense. A travesti ‘Fernanda da biz’, esfaqueada por 80 vezes antes de ter a cabeça esmagada, na cidade de Rio Brilhante, a 158 quilômetros de Campo Grande. O transexual Tadeu Nascimento, 24 anos, espancado, recebeu tiro fatal na cabeça no bairro de São Cristóvão, em Salvador. O cabeleireiro Plínio Henrique de Almeida Lima, 30 anos, sofreu uma facada mortal na avenida Paulista, em São Paulo. José Ribamar Alves Frazão foi morto à paulada e teve o corpo incendiado quando ainda estava vivo, na cidade de Cachoeira Grande, na região maranhense do Munim.  Esses assassinatos violentos compõe uma estatística aterrorizante para a população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis) no Brasil. São algumas vítimas da homotransfobia no país.

As violências vivenciadas por personagens reais e inventados são elaboradas e expostas no espetáculo Cicatriz, produção recifense que faz sessões sábado (09/02) e domingo (10/02), no Teatro Barreto Júnior, no Recife. São histórias emblemáticas , que trazem à tona a crueldade do machismo, do patriarcado, do capitalismo, da arrogância.

De acordo com a ONG Grupo Gay da Bahia (GGB), uma pessoa LGBT foi morta a cada 20 horas no Brasil em 2018. 

Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), entre 2013 e 2014 foram registrados pelo menos 770 casos de violência contra pessoas LGBT na América Latina, sendo que 594 pessoas foram assassinadas.

Dois exemplos representativos: em 2012, uma lésbica afrodescendente começou a chamar a atenção de um líder paramilitar na região de Antioquia (Colômbia). Ela o rejeitou e, em consequência, foi abusada sexualmente em duas ocasiões pelo líder e por um grupo de acompanhantes do mesmo, em função de sua orientação sexual. Além disso, foi perseguida e hostilizada ao tentar fazer uma denúncia formal sobre o ocorrido. Outro caso emblemático foi o assassinato de Daniel Zamudio, um jovem chileno morto em 2012 ao sair de um bar em um parque de Santiago. Quatro jovens o atacaram e o torturaram durante horas com alto grau de crueldade, em função de sua orientação sexual, deixando nele marcas de suásticas na pele, pernas quebradas e queimaduras. Zamudio faleceu depois no hospital.
VIOLÊNCIA CONTRA PESSOAS LGBT – Goethe-Institut – Brasilient

Ser LGBT é um fator de risco à própria vida numa sociedade em que grupos políticos e religiosos querem controlar socialmente como os outros exercem sua sexualidade ou constroem suas identidades. Pertencer a essa comunidade é ser potencialmente alvo de hostilizações e violência nas ruas, mutilação de membros, prática das “violações corretivas” e outras crueldades.

“Crime de ódio” ou, “crime por preconceito” em variados níveis de maltrato são praticados por bandos “fora da lei”, autoridades estatais e indivíduos ou grupos sociais que se posicionam contra a diversidade sexual e de gênero.

A população LGBT é afetada diretamente pela violência e ódio na política.

85 denúncias de assassinatos de LGBT em 2018, somente até julho, foram contabilizadas pelo governo, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos (agora Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos). Esses números oficiais alarmantes não impediram que o governo de Jair Bolsonaro (PSL) retirasse a população LGBT das diretrizes de políticas públicas do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, como constava anteriormente. A Medida Provisória 870 foi assinada em 1º de janeiro, dia da posse presidencial, .

Para viver e sobreviver LGBTs devem lutar até mesmo contra o governo, já que Bolsonaro pai alardeou em entrevistas que é “homofóbico, com muito orgulho” e que preferiria ter um filho morto a um filho homossexual.

É assustador!!!

O espetáculo Cicatriz adota um discurso de luta cotidiana e resistência pelo direito à vida. Encenado pelo ator e diretor Antônio Rodrigues, da Cênicas Cia. De Repertório, a peça traça um painel de histórias de ofensa, traumas, opressões, abusos e discriminações contra a comunidade LGBT em diferentes épocas, contextos e esferas sociais. Cicratiz junta fatos reais, vivências pessoais do elenco de 11 atores e livre inspiração em recortes da obra do escritor e dramaturgo Caio Fernando Abreu.

“Em pleno século 21, ainda há pessoas que acham que LGBTfobia não existe, quando há gays, lésbicas e transexuais sendo agredidos física e psicologicamente apenas por serem quem são”, argumenta Antônio. Ele defende que a montagem é um grito de protesto e empoderamento, uma intervenção através da arte para sensibilizar o público e gerar reflexões sobre o lugar do LGBT na sociedade atual.

“Queremos que as pessoas se coloquem no lugar deles e se perguntem – Como eu me sentiria estando naquela pele? Eu saberia enfrentar essas dores?”, convoca o diretor para a empatia, solidariedade e reconhecimento desses corpos, que vibram de desejos e não suportam mais tanta violência .

SERVIÇO:
Espetáculo Cicatriz
Quando: sábado e domingo, 9 e 10 de fevereiro de 2019
Onde: Teatro Barreto Júnior (Rua Estudante Jeremias Bastos, S/N, Pina – Recife/PE)
Horário: sábado, às 20h; domingo, às 19h
Ingressos: R$ 40 (inteira) /R$ 20 (meia). À venda na bilheteria do teatro, 2 horas antes do espetáculo.

FICHA TÉCNICA:
Direção geral: Antônio Rodrigues
Assistência de direção: Sônia Carvalho
Direção musical:
Douglas Duan
Desenho de luz e operação:
Rogério Wanderley
Figurinos e adereços:
Álcio Lins
Texto:
criação coletiva
Elenco:
Barbara Brendel, Fábio Queiroz, Flávio Moraes, Igor Cavalcanti Moura, Jandson Miranda, Milton Raulino, Nilo Pedrosa, Ricardo Andrade, Rodrigo Porto, Sophia William e Waggner Lima.
Apoio:
Cênicas Cia. De Repertório
Realização:
Antônio Rodrigues Produções

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Qualquer desatenção… Pode ser a gota d’água

Gota D’Água {PRETA} atualiza peça de Chico Buarque e Paulo Pontes para falar das complexidades do Brasil atual. Com Jussara Marçal no papel de Joana e Jé Oliveira (ao fundo), como Jasão. De graça, no Itaú Cultural. Foto: Evandro Macedo / Divulgação

Gota D’Água {PRETA} atualiza peça de Chico Buarque e Paulo Pontes para falar das complexidades do Brasil atual. Com Jussara Marçal no papel de Joana e Jé Oliveira (ao fundo), como Jasão.
De graça, no Itaú Cultural. Foto: Evandro Macedo / Divulgação

Jasão, personagem de Eurípides, trai a palavra dada a uma divindade de que seria leal a quem garantiu suas conquistas. Cansou de Medeia e encheu-se de ambição por mais poder. A tragédia grega termina em vingança da mulher abandonada e atingida por uma dor que não suporta. A peça Gota d’Água (1975), de Chico Buarque e Paulo Pontes foi baseada na Medeia de Eurípides e no Caso Especial para TV Medeia: uma tragédia brasileira, de Oduvaldo Vianna Filho. A protagonista não é mais a feiticeira que usa de poderes sobrenaturais e tem parentesco com deuses do Olimpo. Joana é uma mulher do povo; trabalhadora, sofrida e que ama com devoção o sambista mais jovem, boêmio e pais de seus filhos.

A atriz Bibi Ferreira compôs uma Joana arrebatadora na montagem de 1975, numa interpretação marcante que ainda hoje ocupa o imaginário da gente de teatro e seus fãs. (É possível encontrar trechos de áudio e vídeo da atuação de Bibi na internet; é de tirar o fôlego).

Gota d’Água {Preta} – em cartaz de 8 e 17 de fevereiro, no Itaú Cultural – carrega a trama para a atualidade brasileira, reforçando aspectos políticos de que a traição de Jasão também foi de raça e classe. A cantora Juçara Marçal, vocalista da banda Metá Metá (que faz sua estreia como atriz), assume o papel da protagonista Joana, ameaçada de despejo do conjunto habitacional em que mora com os dois filhos.

A situação fica mais difícil para o lado de Joana quando o “seu” homem, Jasão resolve abandoná-la para casar-se com a filha justamente do influente proprietário da vila. O sambista rompe não só com a mãe de seus filhos, mas também com suas raízes, encantado com a perspectiva de ascensão social.

Creonte (Rodrigo Mercadante), pai da noiva Alma, é dessas figuras de espírito torpe (que aparecem cada vez mais nos postos de comando do Brasil desses tempos), poderoso e corruptor que explora, não só economicamente, as casas da Vila do Meio-dia e os desejos de seus moradores.

A direção de Jé Oliveira, que também faz o papel do sambista Jasão, leva ao palco a pulsação cotidiana das periferias e investe na sonoridade do rap e da MPB. Jasão é autor do samba que dá título ao espetáculo e ganha popularidade. A peça trabalha os elementos musicais das religiões de matriz africana – do candomblé e da umbanda. além de danças como o jongo.

Jé Oliveira, um dos fundadores do Coletivo Negro, encenou anteriormente Farinha com Açúcar, tendo por base a música dos Racionais.

Com elenco predominantemente negro, a encenação de Gota D’Água {PRETA} faz da atualização uma restituição racial. E das tranças da opressão investiga as complexas camadas do Brasil atual.

SERVIÇO

Gota D’Água {PRETA}
Estreia: 8 de fevereiro (sexta-feira), às 20h
Temporada: de 9 a 10 (sábado e domingo) e de 14 a 17 de fevereiro
De quinta-feira a sábado, às 20h; domingo às 19h
Onde: Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô)
Sala Itaú Cultural (piso térreo) – 224 lugares
Acesso para pessoas com deficiência e interpretação em libras
Entrada gratuita
Mais informações:www.itaucultural.org.br
Duração aproximada: 160 minutos, com intervalo]
distribuição de ingressos
público preferencial: uma hora antes do espetáculo (com direito a um acompanhante) – ingressos liberados apenas na presença do preferencial e do acompanhante
público não preferencial: uma hora antes do espetáculo (um ingresso por pessoa)
Classificação indicativa: 14 anos

FICHA TÉCNICA

Direção geral, concepção e idealização do projetoJé Oliveira
Elenco Aysha Nascimento, Dani Nega, Ícaro Rodrigues, Jé Oliveira, Juçara Marçal, Marina Esteves, Mateus Sousa, Rodrigo Mercadante e Salloma Salomão
Assistência de direção e figurinos Eder Lopes
Direção musical Jé Oliveira e William Guedes
Concepção de dramaturgia musical Jé Oliveira
Texto Chico Buarque e Paulo Pontes
Banda Dj Tano (pick-ups e bases), Fernando Alabê (percussão), Gabriel Longhitano (guitarra, violão, cavaco e voz), Jé Oliveira (cavaco), Salloma Salomão (flauta transversal) e Suka Figueiredo (sax)
Canção original “Paó”, letra de Chico Buarque e Paulo Pontes, musicada por Juçara Marçal
Design e operação de luz Camilo Bonfanti
Design e operação de som Eder Eduardo e Keko Mota
Cenografia Júlio Dojcsar
Coordenação dos estudos teóricos Jé Oliveira, Juçara Marçal, Salloma Salomão e Walter Garcia
Design gráfico Murilo Thaveira
Assessoria de imprensa Elcio Silva
Fotos Evandro Macedo
Produção executiva Janaína Grasso
Realização Itaú Cultural
Produção geral Jé Oliveira

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Espetáculo Domínio Público avança no debate sobre liberdade de expressão, censura e limites na arte

Maikon K, Elisabete Finger, Wagner Schwartaz e Renata Carvalho em Domínio Público. Foto: Annelize Tozetto_Divulgação / FTC.

Maikon K, Elisabete Finger, Wagner Schwartaz e Renata Carvalho em Domínio Público. Foto: Annelize Tozetto / Divulgação 

Desde 2017 que casos de perseguição a artistas recrudesceram, descortinando facetas de um Brasil sombrio e cada vez mais covarde. Para exercer as práticas do proibir, tropas hi-tech e presenciais agem como abutres confiscadores da liberdade de pensamento e expressão. Triste realidade com perspectivas de mais repressão no horizonte.

Mas a arte prefere os que têm coragem. A vida também, como já nos ensinou “seu” Rosa.

Quatro artistas que foram alvos de ódio, censuras e proibições nos últimos tempos estão juntos no espetáculo Domínio Público, que tem apresentação única no Galpão Casa 1 nesta quarta-feira (06/02), como parte da programação da 2ª Semana de Visibilidade Trans da Casa 1. Maikon K foi detido em Brasília durante a performance DNA de DAN; Wagner Schwartz foi agredido psicológica e virtualmente após a performance La Bête, no MAM São Paulo; Elisabete Finger estava com a filha na performance de Schwartz e Renata Carvalho atriz censurada várias vezes por protagonizar o espetáculo O Evangelho Segundo Jesus Rainha do Céu. A partir desses linchamentos públicos eles dão uma aula de história da arte, tendo por base o famoso quadro de Leonardo Da Vinci, Monalisa.

Se esses tempos destaparam uma porção de Brasil com sentimentos saídos das ruínas da alma, para aniquilar o diferente, também reforçou a necessidade de resistir, reinventar, re-existir. Foram muitos episódios de pusilanimidade para amordaçar a arte. Enxurrada de palavras e atos para metralhar criações.

Um rápido retrospecto dos três que tiveram maior repercussão: O coreógrafo Wagner Schwartz foi acusado de pedofilia pela performance em que podia ter seu corpo nu tocado e manipulado pelo público, no trabalho La Bête,inspirado nas esculturas Bichos, de Lygia Clark. Numa sessão no Museu de Arte Moderna de São Paulo, Wagner foi tocado nos pés por uma criança, que estava acompanhada por sua mãe. Um vídeo editado desse episódio foi usado por grupos conservadores na rede social causando uma histeria coletiva. A mãe da criança que tocou Schwartz na performance, a coreógrafa Elisabete Finger foi vítima de acusações e ameaças, inquéritos policiais e interrogatórios políticos.

Numa apresentação em frente ao Museu Nacional da República, em Brasília, Maikon K foi detido teve seu cenário violado pela polícia militar. Foi tachado de cometer ato obsceno, por ficar nu e imóvel dentro de uma bolha transparente, na performance DNA de DAN.

Renata Carvalho foi censurada várias vezes e proibida de interpretar Cristo na peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, apontada de “vilipendiar artigos religiosos”.

Foto: Humberto Araújo / Divulgação

Foto: Humberto Araújo / Divulgação

A peça Domínio Público foi feita sob “encomenda” pelos curadores do Festival de Teatro de Curitiba, Guilherme Weber e Marcio Abreu, em 2018, para meditar sobre a intolerância e manifestações de ódio desses tempos.

Cada um faz sua interpretação do quadro da Mona Lisa, de Da Vinci. Cada qual com sua “peça-palestra”. E falam de polêmicas que cercaram o famoso quadro. De que a obra só ganhou reconhecimento depois que foi roubada do Museu do Louvre, por um italiano. Ou de teorias de que a Mona Lisa poderia ter sido um homem (ou uma trans), ou que a modelo estaria grávida.

O título Domínio Público diz do processo massacrante que os artistas passaram. Mas a encenação não leva à cena esses acontecimentos. Não respondem diretamente às violências sofridas. De terem suas obras editadas e divulgadas na internet sem a chancela dos autores.

Na definição de domínio público não existe restrição de uso de uma obra, por qualquer um e em qualquer situação. Isso foi feito com as performances em que pessoas que não viram, não conhecem, inventam o que querem, interpretam e deformam criando outras peças, por mais absurdo que isso possa parecer.

Com espetáculo Domínio Público, o quarteto busca avançar no debate em torno da liberdade de expressão, censura e limites na arte. Conversar por meio de corpos (todos bem-vestidos) com pessoas reais, numa espaço real.

DOMÍNIO PÚBLICO
Criação, texto e performance: Elisabete Finger, Maikon K, Renata Carvalho,Wagner Schwartz
Colaboração artística: Ana Teixeira
Figurino: Karlla Girotto
Produção: Corpo Rastreado / Gabi Gonçalves

Classificação indicativa: Livre
Duração: 50 min
Onde: Galpão Casa 1 (Rua Adoniran Barbosa, 151, Bela Vista,São Paulo, SP)
Quando: Quarta-feira (06/02), às 20h
Entrada: Grátis

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O Evangelho faz sessão no Teatro Oficina

Renata Carvalho em O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu. Foto: Reprodução do Facebook

Renata Carvalho em O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu. Foto: Reprodução do Facebook

Por quê os conservadores têm tanto medo da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu? Será o exercício de liberdade? Porque o espetáculo com a atriz trans Renata Carvalho fala do amor cristão, que muitos deturpam como escudo para rejeitar ou excluir o espetáculo.

Em Pernambuco, a montagem foi censurada duas vezes: no Festival de Inverno de Garanhuns em 2018 e no Janeiro de Grandes Espetáculos deste ano. São violências que atingem o corpo da atriz e toca nos nervos de quem luta e se posiciona por um mundo mais digno para todos. No Janeiro, cerca de 20 encenações abandonaram o festival em solidariedade à produção da Rainha do Céu.

Nesta terça-feira a peça-potência faz uma apresentação histórica na fortaleza do Teatro Oficina Uzyna Uzona, um espaço de re-existência por dignidade, de Zé Celso e sua trupe.

Com texto da escocesa Jo Clifford, com direção, tradução e adaptação de Natalia Mallo, a atriz Renata Carvalho dá vida a Jesus reencarnado nos dias atuais, no corpo de uma travesti.

A sessão faz parte da segunda semana da visibilidade trans da Casa 1.

Os ingressos online estão esgotados, mas haverá cota disponível na bilheteria do teatro 1h antes da apresentação.

SERVIÇO

Quando: 05/02 às 20h
Onde: Teatro Oficina Uzyna Uzona, São Paulo 
Quanto: R$10 a R$20 (venda de ingresso 1h antes do espetáculo na bilheteria do teatro)

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