Crítica: Tutorial de tudo*

Tutorial de tudo faz última sessão no Teatro Joaquim Cardozo. Foto: Doralice Lopes

Tutorial de tudo faz última sessão no Teatro Joaquim Cardozo. Foto: Doralice Lopes

*Crítica escrita por Durval Cristóvão

O que nos ensina esse Tutorial de tudo?

No coração do bom selvagem todas as virtudes do mundo estão gravadas. O mito do bom selvagem foi criado por Rousseau para denunciar a exploração do homem pelo próprio homem, mas acabou reduzido a uma imagem poética romantizada que, de certo modo, contribuiu para formar a nossa ideia de criança. Se o homem é bom por natureza, as crianças, por estarem mais próximo dela, e ainda não tendo se apropriado da maldade, seriam, portanto, necessariamente boas. Acreditar no bem como princípio norteador é a condição de qualquer sistema ético. Para Rousseau, esse processo de naturalização do homem o aproximaria do bem e da moral.

Para outros franceses admiráveis, como Antonin Artaud ou o Marquês de Sade, a crueldade seria o primeiro sentimento que a vida nos imprime. Artaud fala em apetite de vida; Sade, em paixão e intemperança. Apesar de a natureza não ter valores, não conseguimos contemplá-la sem atribuir a ela características humanas, não há nada de errado nisso. Mas se olharmos para o mar, para o céu, para a montanha ou mesmo para dentro de nós, a crença nesta natureza amorosa e pacífica pode não se sustentar. O Marques de Sade disse: “A crueldade é o primeiro sentimento que a vida nos imprime. A criança destrói seu brinquedo, morde a teta de sua ama-de-leite, estrangula seu passarinho, muito antes de atingir a idade da razão(…) logo, seria um absurdo estabelecer que é consequência da depravação.”

Quem acha que criança não tem sexualidade, que criança não é perversa, que criança não é humana – é um anjinho –, provavelmente nunca conviveu com uma.

Começo, desse modo, esta breve reflexão logo dizendo que senti falta de alguma crueldade na peça Tutorial de tudo, criação coletiva dos alunos do quarto período do curso de Teatro, da UFPE, dirigida por Luís Reis. Sim, eu sei que a palavra “não” é cheia de crueldade, mas é crueldade adulta. Não precisa abrir uma lagartixa, não precisa matar um passarinho, não precisa morder o coleguinha, mas queria sentir aquele friozinho do medo. O medo nos aproxima da infância.

Mas, o que fazer com as crianças? Eis uma preocupação tão antiga quanto a história do pensamento no Ocidente. Apesar disso, a criança viveu na sombra do pensamento filosófico por muitos séculos. Ao que me parece, só depois de Nietzsche, a criança passou a interessar verdadeiramente aos pensadores e aos filósofos.

Todos nós fomos criança um dia, quem envelheceu não pode duvidar disso. Mas a nossa memória não acessa plenamente esse estágio do nosso desenvolvimento. O motivo me parece óbvio: a memória depende do desenvolvimento da linguagem, e a linguagem tem como principal meio de expressão a fala. Infância quer dizer in-fale, sem fala. Se quisermos falar para todos, o silêncio talvez seja um bom começo. A peça começa assim, e é cheia de silêncio e de poesia. Gosto de ir ao teatro para encontrar o contrário da casa, quero dizer: o contrário das nossas vidas. Isso me faz muito bem. Não quero pagar para apanhar, já estou dilacerado. A vida arranha, a vida maltrata. Tenho evitado protestos que não sejam tímidos. Esses mexem mais comigo, parecem mais belos, mais profundos, mais mobilizadores do que certos gritos. Tutorial de tudo é um protesto tímido.

O espetáculo é uma obra para todas as idades. Cheio de belas surpresas e de invencionices. Uma única palavra é utilizada em cena: “não!”, a palavra que mais ouvimos em nossa vida. Desconfio que qualquer pessoa no mundo é capaz que entender esse som, em qualquer língua. Nós, artistas de teatro, cortejamos os universais e eles nos rondam como leões famintos. A peça tem essa pretensão. Acho que até a maior banalidade, quando está posta como obra, ambiciona ser ou participar de algum universal.

Eu não aprendi nada com Tutorial de tudo, o espetáculo não quer ensinar nada. A arte não deveria ensinar nada além da dúvida, da contradição e do equívoco. O teatro é uma máquina de moer tudo. Ele mói até essa gente chata que faz um discurso asséptico para tudo. Eu só me interesso por mãos sujas ou por quem tem coragem de sujá-las.

Na dança coletiva do acontecimento teatral, fui arrastado para uma zona de não-conhecimento, fui levado a um lugar chamado infância. Senti vontade de falar como as crianças que estavam na plateia. E olhe que ninguém jogou açúcar nelas.

O espetáculo é anárquico, subversivo. Saí do teatro Joaquim Cardozo, naquele domingo, 22 de abril de 2018, com vontade de lutar contra as “adultices”. Numa época que cobra sempre alguma bandeira, Tutorial de tudo também ergue a sua. Os “nãos” da cena não são ditos para as crianças, têm os adultos como alvo.

O que costura todas as cenas é um elemento simples e insólito, um banal instrumento de trabalho de operários. Uma ferramenta de trabalho transfigurada, capaz de fazer um barulhinho instigante, um tic-tac, que marca o tempo, que cria toda uma ambiência, e que atiça a nossa curiosidade. Uma ferramenta que faz música. A peça é musical, pulsante. Não consegui contar quantos sins foram dados à criação, à invenção, à arte. Tutorial de tudo não subestima a inteligência dos pequeninos, e procura respeitar o conselho do mestre russo, Stanislavski, aos atores que se dedicam à desafiadora missão de representar para as crianças: “faz como se também fosse para os adultos, só que melhor!“

Apenas uma palavra é dita no espetáculo. Foto: Doralice Lopes

Apenas uma palavra é dita no espetáculo. Foto: Doralice Lopes

Ficha técnica:
Elenco: Aline de Lima, Andresa Sedrez, Cynthya Dias, Danilo Ribeiro, Dênis Lima, Juliana Chaves, Gabriel de Lisboa, Hadassa Melo, Larissa Leão, Paixão Félix, Rafael Dayon, Raphael Bernardo, Raquel Franco, Rômulo Ramos e Júnior de Lima.
Direção geral: Luís Reis
Dramaturgia: Luís Reis e elenco
Núcleo de dramaturgismo: Hadassa Melo (coordenação), Aline de Lima e Gabriel de Lisboa
Núcleo de encenação: Raquel Franco (coordenação), Paixão Félix e Rômulo Ramos
Núcleo de direção de arte: Rafael Dayon (coordenação); Danilo Ribeiro e Dênis Lima (iluminação); Andresa Sedrez (maquiagem); Rafael Dayon e Paixão Félix (figurinos e adereços).
Direção musical: Cynthya Dias
Núcleo de preparação de elenco: Raphael Bernardo (coordenação) e Juliana Chaves (preparação vocal)
Núcleo de produção: Júnior de Lima (coordenação), Andresa Sedrez e Hadassa Melo
Núcleo de mediação: Larissa Leão (coordenação) e Raquel Franco
Design: Rafael Dayon
Fotos: Doralice Lopes

Serviço:
Tutorial de tudo
Quando: Domingo (29 de abril), às 16h
Onde: Teatro Joaquim Cardozo (Rua Benfica, 157, Madalena)
Quanto: Pague Quanto Puder
Indicação especial: Crianças entre 2 e 6 anos
Informações:(81) 2126-7388

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Um minuto para dizer que te amo emociona

Elenco de Um Minuto pra dizer que te amo. Foto: Divulgação

Elenco de Um Minuto pra dizer que te amo: Lucas Ferr, Célia Regina, Carlos Lira e Vanise Souza. Foto: Divulgação

Há muitas formas de abraçar o espetáculo Um minuto para dizer que te amo, produção do pernambucano Matraca Grupo de Teatro, do Sesc Piedade. E analisar. A montagem vem de uma trajetória notável de reconhecimento do público e de seus pares. Carrega no currículo seis prêmios do Janeiro de Grandes Espetáculos deste ano (Melhor Diretor: Rudimar Constâncio; Melhor Atriz: Célia Regina Rodrigues Siqueira; Melhor Atriz Coadjuvante Vanise Souza; Melhor Sonoplastia ou Trilha Sonora: Samuel Lira; Melhor Iluminação: João Guilherme de Paula e Melhor Maquiagem: Vinicius Vieira.

Bem, o Prêmio Apacepe é a principal premiação na área do teatro pernambucano (outro dia me sugeriram que o Yolanda criasse uma premiação) e parece-me ser importante para a classe como instância de distinção. Não vou me ater aos procedimentos específicos de escolhas do Prêmio Apacepe que, talvez, mereçam uma outra reflexão.

A recepção dos pares ao espetáculo Um minuto para dizer que te amo é recheada de adjetivos, que tentarei evitar. A peça tematiza uma doença incurável, o Alzheimer, que atinge 15 milhões de pessoas em todo mundo. Quando ela chega muda a vida. Mas mesmo quem não tem um parente ou amigo que sofra do Mal de Alzheimer pode ser tocado pela encenação, que foi trabalhada na direção de emocionar o público.

Em cenas alternadas acompanhamos a relação de um homem velho com o seu filho e de uma mulher e sua cuidadora, separados pela doença. Amélia tenta resgatar os fios das lembranças da mãe de Lúcio.

A montagem de Rudimar Constâncio chama para camadas do real na interpretação. Mas busca outras expressões para alardear fantasmas e materializar labirintos de seres deslocados de sua memória.

A peça amplifica as fragilidades humanas. E isso é explorado com maestria pela encenação. Os canais de comunicação trazem sentimentalismo caro a todos nós. Ninguém é pleno de sua existência. Até os mais poderosos não podem prever com certeza o que irá ocorrer com seu corpo ou seu futuro.

Esse sentimento, meio esquecido, de finitude, é convocado na construção da peça e isso causa efeitos na plateia. Ver o declínio das funções cognitivas dos personagens e o impacto disso na cena pode atinge os nervos da plateia.

Um minuto para dizer que te amo merece uma análise mais detalhada – e espero que a encenação tenha uma vida longa – mas por ora digo algumas palavras sobre o elenco.

A composição de Célia Regina Siqueira para a personagem da velha é convincente e comovente. Nos gestos e andar, na fala, nos gritos, nas atitudes pueris ou nas vontades cheias de si. É uma interpretação para se aplaudir de pé. Existe possibilidade de identificação do espectador com aquela figura.

Carlos Lira também se supera no personagem do pai deslocado de sua própria história de vida. É um grande ator pernambucano e tem uma atuação tocante, com nuances de leveza e olhares perdidos. Seus deslocamentos falam com todos os sentidos da ameaçadora solidão. Vanise Souza faz uma cuidadora entre amorosa e enérgica. Também estão na peça Edes di Oliveira, Douglas Duan e Lucas Ferr.

O texto de Luiz Navarro e dramaturgismo de Moisés Monteiro de Melo Neto compõem esse mosaico afetivo. Mas tem falas que atritam o ouvido (ou a minha sensibilidade) quando fazem uso de frases feitas depois da exibição de uma potente malha poética. A música ao vivo é executada e cantada pelos atores. O cenário de Séphora Silva trabalha com uma simbologia de esconder e descortinar, que dá margem para uma viagem lúdica pelo tempo da memória. A maquiagem/ caracterização de Vinicius Vieira ganha uma importância grande nessa peça, já que se torna pele e alma dos atores.

O que se deve esquecer? Ali no palco, recordações perdidas se embaralham com memórias impossíveis de se deslembrar e também com lembranças inventadas. É uma visão da vida no seu ocaso, das perdas de si mesmo e da certeza que o ser humano – apesar de toda arrogância – é muito pequeno diante do Universo.

Ficha Técnica:
Texto: Luiz de Lima Navarro
Encenação: Rudimar Constâncio
Elenco: Carlos Lira, Célia Regina Rodrigues Siqueira, Vanise Souza, Edes di Oliveira, Douglas Duan e Lucas Ferr
Dramaturgia e cenas adicionais: Moisés Monteiro de Melo Neto
Assistente de direção e partitura do ator: Sandra Possani
Partitura do corpo: Paulo Henrique Ferreira
Partitura da voz do ator: Leila Freitas
Direção musical, músicas originais e arranjos: Samuel Lira
Cenografia, figurinos e adereços: Séphora Silva
Maquiagem e visagismo: Vinicius Vieira
Projeto de luz e execução: João Guilherme de Paula
Programação visual: Claudio Lira
Orientação da pesquisa e organização do programa: Rudimar Constâncio
Revisão dos textos: Acrimôri Araújo
Cenotécnico e contrarregra: Elias Vilar
Execução de cenário, adereços e figurinos: Manuel Carlos
Pintura da malha do espectro: Altino Francisco
Costureiras: Helena Beltrão, Irani Galdino e Ana Paula Tavares
Serralheiro: Israel Galdino
Direção de produção: Ana Júlia
Direção geral: Rudimar Constâncio
Realização: Grupo Matraca de Teatro/Sesc Piedade

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Doutores da Alegria selecionam novos palhaços

Dra. Svenza (Luciana Pontual), Dra. Baju (Juliana de Almeida) e Dr. Micolino (Marcelino Dias). Foto: Lana Pinho

Dra. Svenza (Luciana Pontual), Dra. Baju (Juliana de Almeida) e Dr. Micolino (Marcelino Dias). Foto: Lana Pinho

Os Doutores da Alegra completam 15 anos de atividades no Recife com uma boa notícia para os artistas cênicos da cidade: a associação está com processo de seleção aberto para quatro novos integrantes até a próxima segunda-feira, dia 30 de abril. Para participar, é preciso ter mais de 18 anos e ser profissional de artes cênicas, com DRT de ator ou palhaço e, de preferência, experiência nesta última função. A experiência artística e a compatibilidade com o trabalho no hospital são alguns dos critérios a serem levados em conta.

Os candidatos devem entregar uma ficha de inscrição com declaração preenchida, assinada e escaneada junto com currículo, carta de intenção, uma foto de artista e outra de palhaço e links de vídeos de boa qualidade em teatros ou espaços públicos. Todo esse material deve ser enviado para o e-mail editalrecife@doutoresdaalegria.org.br. O edital com todas as informações e a ficha de inscrição estão disponíveis no site www.doutoresdaalegria.org.br, onde o resultado será divulgado no dia 11 de junho. As etapas da seleção incluem análise curricular, oficina de seleção, teste prático no hospital e entrevista.

A última vez em que houve seleção de elenco na capital pernambucana foi em 2010. Atualmente, a unidade Recife dos Doutores da Alegria conta com nove artistas. Eles se dividem em duplas que atuam duas vezes por semana em quatro hospitais: Hospital Barão de Lucena (HBL), Hospital da Restauração (HR), Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC)/Procape e Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP). Às sextas-feiras, os palhaços realizam treinamentos em conjunto. Os Doutores da Alegria não trabalham como voluntários. Todos os profissionais são remunerados.

“A criança é uma espectadora ativa, que influencia e determina junto com os palhaços o que acontece. Todo o hospital é palco e nós, palhaços e crianças, atores desse espetáculo”, explica Arilson Lopes, coordenador artístico da unidade Recife dos Doutores da Alegria, conhecido nos hospitais como Dr. Ado.

Em paralelo ao Recife, a unidade de São Paulo (SP) também realizará um processo seletivo nos mesmos parâmetros, que resultará na contratação de seis artistas para o elenco local. Os participantes precisam escolher em qual cidade desejam atuar, sendo vetada a inscrição nas duas seleções.

Arilson Lopes, ao centro, como Dr. Ado, no Hospital da Restauração. Foto: Lana Pinho

Arilson Lopes, ao centro, como Dr. Ado, no Hospital da Restauração. Foto: Lana Pinho

ENTREVISTA // Arilson Lopes (Dr. Ado), coordenador artístico dos Doutores da Alegria

O ator geralmente está acostumado a apresentar seu trabalho diante de uma plateia. No hospital, embora a interação seja direta, os palhaços jogam com poucos espectadores por vez. Qual a diferença para o ator?
A base do nosso trabalho é a improvisação. Deixar-se impactar pelo encontro com a criança e, a partir disso, construir uma relação de jogo com ela é fundamental. Erguemos esse momento juntos. A criança é uma espectadora ativa, que influencia e determina junto com os palhaços o que acontece. Todo o hospital é palco e nós, palhaços e crianças, atores desse espetáculo.

Além dos pré-requisitos já divulgados no edital, quais as habilidades que um palhaço precisa ter para se tornar um dos integrantes do Doutores da Alegria?
É bem-vindo o artista que toque bem algum instrumento musical, cante, faça mágica, manipule bonecos e/ou objetos e tenha disponibilidade para o jogo e a improvisação. Tão importante quanto ter alguma habilidade específica, procuramos artistas com tempo para se dedicar ao trabalho, que gostem de conhecer pessoas e de se relacionar com elas. Sobretudo, é importante entender que somos uma associação do terceiro setor, que propõe a arte como mínimo social para crianças e adolescentes em vulnerabilidade e risco social, na rede pública de saúde. A realidade hospitalar é o cenário no qual o artista irá atuar.

O elenco pernambucano é formado por atores de diversos grupos e formações. Como se dá essa interação entre vocês e de que forma o trabalho no hospital é beneficiado por ela?
Todo conhecimento individual enriquece o aprendizado e a construção do coletivo. Buscamos identificar em cada um a sua potência nas sextas-feiras de treinamento do elenco e essas descobertas reverberam e são ressignificadas no dia a dia dos artistas, nos hospitais ou nas diversas ações que realizamos fora deles, sejam nos espetáculos teatrais, nas “palhestras” ou nas ações de captação e mobilização de recursos que fazemos em empresas.

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Ao desobedecer, Antígona ensina sobre a liberdade

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Antígona desafia o poder injusto do Estado. Fotos: Matheus José Maria / Divulgação

Os garotos que estavam sentados na fileira da frente saíram eufóricos. O casal mais intelectual reclamou do procedimento que entendeu como didático da encenação de Antígona, com Andrea Beltrão e direção de Amir Haddad. Fiapos de conversas, trechos de comentários davam conta do talento e da versatilidade da atriz, da simplicidade dos dispositivos cênicos, da facilidade de entender o emaranhado de maldições, desditas entre deuses e homens. O meu amigo reclama porque a tragédia Antígona está esburacada e outros mitos entram no mote. É mesmo, para injetar gás nessa saga temporal da heroína, Haddad /Beltrão também foram buscar ingredientes em As Bacantes, de Eurípedes, nas peças da Trilogia Tebana de Sófocles – Édipo Rei e Édipo em Colono, além da tradução que dá título ao espetáculo, feita por Millôr Fernandes (1923–2012).

Andando pelo Paulista para pegar o metrô fui recolhendo esses vestígios de recepção. Todos têm razão. A razão de cada um. A interpretação de cada um. A curta temporada gratuita da tragédia de Sófocles, na sede do Itaú Cultural dava o que o falar para um público diversificado, mas já versado no exercício da cidadania cultural.

Antígona é uma das belas a atuais tragédias gregas. Escrita há 2.500 é aberta a leituras contemporâneas. Qualquer calouro de Direito é convidado a se inteirar da peça para refletir sobre o embate entre direito natural e direito positivo, entre o que é moral e legal, a legitimidade do poder soberano, o decreto tirânico de Creonte.

Esse rei dá a ordem de que ninguém pode sepultar Polinices, na visão régia, o traidor da pátria. Ocorre que Antígona, filha do incesto de Édipo e Jocasta, é irmã de Polinices e Etéocles, que se mataram na briga pelo trono de Tebas. Antígona se posiciona contra a leis injustas do estado. A personagem é inspiração feminista por combater o patriarcado. Essa obra clássica e aberta a múltiplas interpretações aponta desde sempre para o futuro.

Haddad mago do teatro popular, envolvido há quase 30 anos com o grupo Tá na Rua, sintonizou suas antenas de comunicação direta com plateias diversas para o espírito da peça, que chega despojada e repleta de uma língua prosaica do mundo contemporâneo.

Andrea Beltrão

Andrea Beltrão interpreta Antígona e todos os personagens do espetáculo.

Um varal genealógico dá conta da linhagem de deuses e mortais, seus destinos trágicos, pelejas, martírios, tiranias, vícios e virtudes. Essa quadro materializa os recuos e avanços temporais das relações da personagem-título até Zeus, e expõe a ascensão e queda da cidade de Tebas.

Nessa saga interpretativa, Andrea salta de um a outro personagem, assume a voz do coro e encarna Édipo, Ismênia, Jocasta, Creonte, e os outros… A partir de poucos acessórios – echarpe, sapatos, cadeira e microfone – e recursos poderosos de corpo e voz a atriz constrói todas as figuras dessa tragédia, bem como comenta.

Nesse percurso e alternância de figuras a carga trágica do texto primeiro se dilui, mas é abastecido pela pulsação desse mundo contemporâneo que nos chega vorazmente em telinhas e telões. De violências, tensões e guerras, intolerâncias de todas as ordens, machismo e todas as políticas com os seus podres poderes.

Não esqueçamos dos avisos de Sófocles: “Apenas o governante que respeita as leis de sua gente e a divina justiça dos costumes mantém a sua força, porque mantém a sua medida humana”. Remédio para aplicar direto na ferida.

Se esbarrarem com Antígona por aí não hesitem em abraçá-la. Ela pode estimular sua coragem adormecida.

Ficha Técnica

Autoria: Sófocles
Tradução: Millôr Fernandes
Dramaturgia: Amir Haddad e Andrea Beltrão
Direção: Amir Haddad
Com: Andrea Beltrão
Iluminação: Aurélio De Simoni
Figurino: Antônio Medeiros
Direção de Movimento: Marina Salomon
Cenário e Projeto Gráfico: Fabio Arruda e Rodrigo Bleque
Desenho de Som: Raul Teixeira
Operação de luz: Diego Diener
Camareira: Conceição Telles
Administração: Laura Gonsalves
Mídias Sociais: Nicolle Meirelles
Produção Executiva: Ricardo Rodrigues
Direção de Produção: Carmen Mello
Produção: Boa Vida Produções
Realização Turnê: Trigonos Produções Culturais

SERVIÇO
Antígona
Com Andréa Beltrão
1º de abril (domingo), às 19h. Último dia da temporada que começou em 23 de março
Duração: 60 minutos
Classificação Indicativa: 16 anos 
Sala Itaú Cultural (224 lugares)

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Paixão obstinada

Cena da Crucificação. Foto Ivana Moura

Montagem dirigida por José Pimentel sai na marra em 2018. Cena da Crucificação. Fotos: Ivana Moura

Apóstolos

O ator Hemerson Moura estreia como Jesus no lugar de Pimentel. Cena com os Apóstolos

Após a primeira sessão da Paixão de Cristo do Recife, na sexta-feira 30/03, o elenco e a produção comemoraram a realização do evento, bradando como o espetáculo da resistência, da bravura, da determinação. Foram muitos problemas superados. Eles têm o que festejar. Fazer acontecer. E isso vai para a conta da tenacidade do ator, diretor e produtor José Pimentel, seu carisma junto ao público, sua liderança junto aos artistas. Afinal, são mais de quatro décadas envolvido nessa via-crúcis.

Na temporada 2018 da Paixão de Cristo do Recife, Pimentel não está no palco, mas sua obstinação ocupa mais espaço no Marco Zero, região central da capital pernambucana.

Mais duas sessões ocorrem hoje, 31 de março e amanhã, domingo, 1° de abril, sempre às 20h.

Em dezembro ator potiguar Hemerson Moura, de 39 anos, nascido em Caicó e com 21 anos de carreira, conquistou o papel de Cristo, após disputar a substituição do posto de Pimentel com mais outros 27 atores.

No início de março foi anunciado pelos produtores associados (Pimentel, Paulo de Castro e Antônio Pires) o cancelamento da encenação por falta de verba, captação insuficiente de recursos, tempo escasso para os ajustes técnicos (cenários, figurinos, gravação de áudio, estrutura do palco). 

Mas houve uma marcha-ré. A divergência entre os produtores associados sobre não fazer ou levantar a encenação de todo o jeito falou mais alto e fraturou a equipe. Alguns integrantes caíram fora do barco, mas outros participam pela primeira vez, como são os casos de Augusta Ferraz e Jomeri Pontes.

Pimentel garante que o que o convenceu a manter a peça foi a mobilização popular (do elenco, inclusive) após o aviso de suspensão do programa, no início deste mês de março. Foi um bombardeio pedindo a realização da Paixão do Recife nas redes sociais. Pelo menos foi esse o entendimento do diretor, que também sofreu críticas por desfazer o cancelamento. Isso tudo mexeu com os brios desse leonino obstinado. Ele ainda não sabe se foi a melhor decisão, mas ontem estava contente.

Paixão recife

Paixão Recife chega à 22ª edição

O evento cultural, que tem também um apelo religioso, já chegou a juntar um público de 30 mil pessoas a cada sessão. Na estreia dessa temporada não chegou a tanto, mas tinha muita gente na Praça do Marco Zero, no Bairro do Recife. O elenco de 100 atores e 300 figurantes habituais também me pareceu um pouco mais reduzido.

A produção ficou nas mãos do próprio diretor, sua filha, Lilian Pimentel, Mísia Coutinho e da empresa Refletores Produções. Os recursos, segundo eles, são os mesmos de quando foi anunciado o cancelamento: R$ 400 mil (de um orçamento de R$ 700 mil), verbas da Prefeitura e do Governo do Estado de Pernambuco.

Houve mudança considerável do elenco. Atores saíram por discordâncias com a produtora Lilian, filha de Pimentel. Alguns intérpretes, inclusive, não autorizaram a utilização de suas vozes, já que o áudio é o mesmo de anos anteriores e a equipe da peça teve que fazer alguns malabarismos.

Foto Ivana Moura

Garra do elenco e da equipe técnica foi fundamental para a realização do espetáculo

A Paixão de Cristo do Recife é importante por suas qualidades e também por seus defeitos. José Pimentel que acompanhou na beira do palco toda a encenação sabe melhor do que qualquer crítico das falhas técnicas e humanas da estreia. Atrasou meia hora por problemas de iluminação, que também falhou em outros momentos. Alguns efeitos especiais não funcionaram.

Pimentel também tem convicção que a estrutura não é ideal, que o cenário está corroído por cupins e que os figurinos já passaram da hora de serem renovados. Mas garantiu que contou com a boa-vontade de alguns fornecedores.

Ao final da apresentação ele lembrou do sacrifício feito por toda equipe para erguer a montagem neste ano. “Teve todo tipo de problema”, desabafou, mas preferiu destacar o espírito aguerrido da equipe. “Vocês não imaginam o sacrifício que a gente impôs a gente mesmo, de passar a noite sem dormir, para que esse espetáculo ficasse pronto”, contabilizou Pimentel.

Mas nada disso é o mais importante. A cumplicidade com o público, a liga emocional que se estabelece com a plateia, o clamor popular pesam mais. Pimentel é um artista pernambucano que sabe dialogar bem com plateias populares, acionar os afetos até às lagrimas. Mesmo que o figurino não tenha sido trocado, o cenário reformado, os cachês ajustados, vale mais a fé no jogo, dos integrantes e do público.

E se entra na trilha sonora música de Roberto Caros ou padres cantores e isso parece destoar do que se pensa de via-crúcis, isso pouco importa. É estabelecida uma sintonia e isso faz circular uma energia do poder do teatro. No final da estreia, uma rápida chuvarada para purificar. 

Paixão do Recife

Paixão do Recife

O desempenho de Hemerson Moura deu mais agilidade e leveza às cenas. Ele imprimiu  suavidade aos gestos do personagem e outra disposição nos movimentos. E também se adequou a voz de Pimentel como Jesus. Nos últimos anos a atuação de Pimentel despertava uma tensão, devido à sua condição física de saúde. Então, HM evolui com segurança nas plataformas do cenário.

Além da chegada do protagonista, que pode dar um novo fôlego ao espetáculo, os destaques foram as cenas do Diabo (Roberto Vasconcelos), da morte Judas (Ivo Barreto), em que o público gritava traidor; a Santa Ceia, a festança de Herodes (Luciano Lucas), com a participação de Augusta Ferraz. No elenco também estão Renato Phaelante, Angelica Zenith (Maria) e Gabriela Quental (Madalena).

Augusta Ferraz

Augusta Ferraz atua na festa de Herodes

A Paixão de Cristo do Recife foi criada em 1997, como reação à saída de José Pimentel do papel principal e direção da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. Nos primeiros anos ficou conhecida como “A Paixão de Todos”. Foi encenada no estádio do Arruda durante cinco anos. Migrou para o Marco Zero, com apresentações entre 2002 e 2005. Com as reforças no espaço em 2006, o espetáculo foi apresentado em frente ao Forte do Brum. Desde 2007 ocupa o Marco Zero nesta época do ano.

Desde o primeiro ano é luta. No início foi uma questão de honra para Pimentel e muitos artistas pernambucanos que se engajaram à ideia de garantir a reserva de mercado para os profissionais do estado, numa clara oposição às decisões da Paixão de Nova Jerusalém de contar com elenco televisivo.

SERVIÇO
Paixão de Cristo do Recife
Quando: Sábado, 31/03 e domingo, 1º/04, as 20h
Onde: Marco Zero
Quanto: Gratuito

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