Discordâncias teatrais

Ricardo Martins como o fantasma de um ator que interpretou Hamlet. Fotos: Ivana Moura

Os momentos de tensão geralmente são muito mais frequentes numa relação do que aqueles em que a concordância reina. Não que isso seja ruim. Principalmente quando a convivência está prestes a completar 25 anos. Esse é o tempo de atividade do Armazém Companhia de Teatro, que está no Recife até hoje apresentando Antes da coisa toda começar, às 21h, no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu (ingressos: R$ 30 e R$ 15). Por isso não é necessariamente ruim que Ivana Moura tenha saído do teatro entediada, dizendo que não tinha gostado do texto. Pollyanna Diniz, pelo contrário, já via a peça pela segunda vez, disposta a encarar uma terceira. As duas, de maneiras diferentes, se sentiram provocadas. E foram as opiniões divergentes, as defesas calorosas, que geraram essa “análise dupla” da peça de uma companhia que tem uma história pontuada por montagens que surpreendem o público.

A força de estar no limite
Por Pollyanna Diniz

Não queriam delicadeza. Antes da coisa toda começar é uma porrada. Expõe personagens atormentados, esperanças perdidas, futuros interrompidos. Pode parecer contraditório, mas não é, que a peça trate exatamente daqueles momentos em que nos sentimos capazes de tudo. São faces de uma mesma moeda, limites frágeis. A peça também não trata de memória, como a anterior (e essa sim, delicada) Inveja dos anjos, mas é, em certa medida, uma discussão sobre o fazer teatral. Até porque a criação e o palco certamente foram instantes em que os atores do Armazém se sentiram plenos – natural que isso transpareça no texto de Paulo de Moraes (também diretor) e Maurício Arruda Mendonça.

Criadores que desnudaram limites, seja com gritos ou no silêncio de uma relação que não se constrói. É o caso da cantora (Simone Mazzer) que tentou se matar e é visitada pela irmã. A conversa poderia ser diferente, as sombras se sobrepõem, mas não há entendimento. Ricardo Martins, Patrícia Selonk e Thales Coutinho alcançaram a medida na construção desses personagens. Se qualquer uma dessas peças não estivesse bem, as histórias poderiam soar over ou clichê. Clichê? Que seja! Quem nunca? Quem nunca amou desmedidamente? Quem nunca se sentiu perdido? Quem nunca achou que não poderia mais? Mas insistiu. Porque, como para o Armazém, o mais importante é que histórias sejam contadas, construídas.

Talvez seja importante falar da música. Da cenografia, que propõe um ponto de fuga. Que é como uma fotografia acinzentada das paredes de uma casa velha, que podem avançar no palco e ser utilizadas como plataformas. Das projeções. Adendos, quando o mais importante mesmo é ver que “pensar só em coisas sublimes”, como diz a personagem Zoé, seria muito chato.

Música do espetáculo é executada ao vivo pelos próprios atores. Direção musical é de Ricco Viana, que compõe a banda

Decalque de si mesmo
Por Ivana Moura

Da Armazém Companhia de Teatro, assisti a Alice através do espelho, Pessoas invisíveis, Da arte de subir em telhados, Tempestade, Toda nudez será castigada, Inveja dos anjos. Quarta-feira fui ver Antes da coisa toda começar, a 19ª montagem da companhia. E o que encontrei foi um decalque de outras peças do grupo. A dramatugia escorrega em clichês de personagens e situações. E desta vez, para mim, o diretor mostrou que não conseguiu falar do próprio universo de criação.

Referências shakespereanas abundam nas tentativas de criar algo original. Uma derrapagem. Os discursos, os fraseados, as entonações caem em algo enfadonho. A peça parece se arrastar em um turbilhão de palavras que se colam umas às outras mas que não despertam qualquer tipo de emoção.
Um fantasma habita um teatro abandonado. E evoca lembranças, materializa três figuras que deveriam estar no limite. Uma é Zoé, apaixonada pelo irmão. Outra é uma cantora que já tentou várias vezes o suicídio. E o terceiro é Téo, que reflete sobre o sentido da vida e da criação artística.

Os personagens principais da montagem

A trilha sonora roqueira tocada ao vivo não torna o espetáculo mais visceral. Não é nem que a encenação tenha se voltado para o próprio umbigo, criando dificuldade de diálogo com a plateia. Falta comunicação. É como se alguém estivesse nos contando episódios trágicos e não convencesse.

A estrutura de narrativa fragmentada parece que entrou numa forma. O debate psicológico é um jogo de déjà vu e a suposta densidade escorre pelos dedos. As memórias do fantasma recaem em algo previsível. A movimentação cênica interessante acrescenta pouco. As projeções de vídeo e paredes que se movimentam chegam como recursos que se encerram em si mesmos. O espetáculo fica longo porque a cada tentativa de apresentar alguma surpresa, o que há é mais do mesmo.

Companhia faz última sessão hoje à noite, no Teatro Luiz Mendonça

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1 pensou em “Discordâncias teatrais

  1. Jorge de Paula

    Assisti ontem ao espetáculo da Armazém.
    Confesso que já fui muito feliz em assistí-los, porém, ontem foi diferente.
    Concordo com o que Ivana escreveu, mas não achei as marcas interessantes.
    Felicito, com muita satisfação, o canto da Simone Mazzer. Bonito escutá-la.
    O que mais me preocupa são as atuações e a dramaturgia. Todo o resto – por mais que os recursos da encenação lembrem outras encenações do grupo – seria ok.
    Cenário, iluminação, sonoplastia, maquiagem não reverberam um Paulo de Morais e equipe inspirados, mas cumprem uma função.
    Às vezes, parece-me que os atores precisariam visitar outros diretores, outros atores, outros olhares, outros; para que deles pudessem surgir novas camadas. Potencial eles tem. Recife já viu algumas vezes.
    A dramaturgia me parece uma grande tentativa, um grande atleta fora de forma. A não ser por algumas poucas frases que chegam com potência, o restante não seduz; as palavras ajudam a estruturar o todo, mas deixam a imaginação do espectador frouxa o suficiente para não se conectar a obra. Nenhuma das histórias arrebata.
    A encenação repete recursos. As personagens não cativam, são reféns de uma promessa de explosão, de rock que não se concretiza.
    O teatro tem dessas coisas mesmo. Ninguém escapa. O bacana é perceber o momento da reviravolta.

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