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Renato Borghi exibe Fim de Jogo no Palco Virtual e outras novidades no site do Itaú Cultural

Fim de Jogo, peça de Samuel Beckett. é apresentada em cinco episódios por Élcio Nogueira Seixas e Renato Borghi (foto) com direção de Isabel Teixeira. Foto: Roberto Setton / Divulgação

O mundo virtual anda tão pleno de ofertas – algumas incríveis – que ficamos perdidos, maravilhados ou até sufocados. Mas algumas experiências são incontornáveis, seja qual for o resultado que provoquem. Um dos artistas que buscamos acompanhar os passos é o ator Renato Borghi, um furacão criativo do teatro brasileiro. Ele é a figura central de duas atrações online promovidas pelo Itaú Cultural em seu site (www.itaucultural.org.br).

De 3 a 7 de julho (sexta-feira a terça-feira), reestreia o espetáculo Fim de Jogo, peça de Samuel Beckett sobre uma situação de isolamento, especialmente gravado em vídeo e dividido em cinco episódios, nas sessões noturnas do Palco Virtual. Já no dia 4 (sábado), Borghi é a personalidade entrevistada no primeiro episódio da terceira temporada do programa semanal Camarim em Cena.

Na peça original do dramaturgo irlandês, Hamm, Clov, Nagg e Nell formam o quarteto imerso nas profundezas de suas consciências. Eles estão isolados em um abrigo e Hamm e Clov compõem diálogos herméticos sobre a condição humana. Artista fracassado, Hamm está cego e paralítico. Clov é seu “empregado” e sofre de uma doença que o impede de sentar-se. Nagg e Nell também têm os corpos deteriorados. Atingidos pelo apocalipse emocional, esses personagens espreitam o mundo pela luneta de Clov.

O texto de Samuel Beckett (1906-1989) foi reformulado para o período atual, em que vivemos isolados por causa da pandemia da Covid-19. Com Borghi e Elcio Nogueira Seixas, o espetáculo foi registrado em vídeo para ser exibido sequencialmente em cinco episódios. Sob direção de Isabel Teixeira, Borghi interpreta o cego e paralítico Hamm e Seixas, Clov. Eles dividem o espaço com os mutilados Nagg e Nell, pais de Hamm e simbolicamente representados por fotografias de Adriano e Maria de Castro Borghi, pai e mãe de Renato.

Nessa terra devastada, eles refletem sobre a causa da situação em que se encontram, se seria um vírus, aberrações sociais, a queimada de florestas ou a automação do emprego, entre outras teorias.

Chapeuzinho Vermelho para crianças e adultos. Foto Adriana Marchiori

Édipo Rei representado pelo toy de Simba, personagem do filme Rei Leão. Foto Walmick Campos

Outras novidades –  Mais dois episódios para a série de curtas-metragens do Quarentena Filmes são disponibilizados com os toymovies criados pelo ator Walmick de Holanda a partir de clássicos do teatro – usando bonecos e outros objetos inanimados. Uma adaptação bem-humorada da tragédia Édipo Rei, de Sófocles leva o personagem-título a ser representado pelo toy de Simba, personagem do filme Rei Leão, que contracena com bonecos dos Ursinhos Carinhosos e Power Ranges, entre outros, em busca por respostas sobre sua origem.

A adaptação de Casa de Bonecas, do texto de Henrik Ibsen, encerra a série e utiliza um tabuleiro de jogo como cenário, para expor os conflitos de uma dona de casa presa ao conservadorismo social e à hipocrisia no final do século XIX.

A peça Chapeuzinho Vermelho, do Projeto GOMPA, do Rio Grande do Sul, entra no ar no sábado, às 11h, numa versão contemporânea feita pelo autor francês Joël Pommerat. A história é narrada em paralelo à produção de imagens e sonoridades diante do espectador, focando no fascínio da transição do mundo infantil ao adulto.

Após a data inicial de apresentação, toda a programação do Palco Virtual fica disponível no site do Itaú Cultural até 10 de julho, com exceção da peça Fim de Jogo, que pode ser assistida até o dia 3 de agosto.

Crítico teatral Valmir Santos entrevista Renato Borghi para o programa Camarim Em Cena. Foto Agência Ophélia

Renato Borghi é protagonista do primeiro episódio da terceira temporada da série Camarim em Cena, que entra no ar no site do Itaú Cultural, a partir das 14h do sábado, 4. O ator de 83 anos conta ao crítico teatral Valmir Santos episódios marcantes de sua vida e carreira, desde o final da década de 1950, quando fundou, ao lado de José Celso Martinez Corrêa, o Teatro Oficina. No Teatro Oficina protagonizou o Rei da Vela (1967). Nos anos de 1970, fundou o Teatro Vivo com Esther Góes, e juntos produziram vários espetáculos entre eles O que Mantém um Homem Vivo, de Bertold Brecht. Na década de 1980 se consolidou também como dramaturgo e escreveu sucessos como Lobo de Ray Ban. Em 1993 fundou o Teatro Promíscuo, com o ator Élcio Nogueira Seixas.

Durante o mês de julho prossegue a terceira temporada do Camarim em Cena, iniciada em maio. Ao todo são 16 entrevistas gravadas, entre 2016 e 2019, com personalidades do teatro, da dança, do circo e da música sobre o ofício e suas particularidades.

No dia 11 é a vez da exibição da conversa é entre o bailarino japonês Tadashi Endo, um dos principais nomes do Butoh no mundo, e a jornalista Marcia Abbos. No episódio que entra o ar dia 18, a crítica Beth Néspoli bate um papo com o diretor, professor e ator Antonio Januzelli, Janô, uma das referências da formação teatral em São Paulo.

A entrevista do jornalista Jotabê Medeiros com a cantora Angela RoRo – única convidada do universo da música no programa – encerra essa terceira temporada no dia 25. .

A última temporada online do Camarim em Cena poderá ser vista em agosto. Os convidados são a atriz Laura Cardoso, o ator Fernando Sampaio, da Cia LaMínima de Circo e Teatro, a atriz, diretora e dramaturga Grace Passô. A série fecha com uma edição especial com José Celso Martinez Corrêa, gravada na sede do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, em São Paulo.

PROGRAMAÇÃO PALCO VIRTUAL

3 de julho (sexta-feira), às 21h
Abertura: Édipo Rei
Quarentena Filmes/ Walmick de Holanda
Duração: 5 minutos
Classificação indicativa: 10 anos

Espetáculo: Fim de Jogo (episódio 1)
Com Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas
Duração: 23’17’’
Classificação indicativa: 12 anos

4 de julho (sábado)
Às 11h, espetáculo infantil: Chapeuzinho Vermelho
Com Projeto GOMPA
Duração: 48 minutos
Classificação Indicativa: 10 anos
https://www.itaucultural.org.br/presskit/mostra-rumos-2017-2018/images/resized_libras.jpg?crc=3894348923

Às 21h, abertura: Casa de Bonecas
Quarentena Filmes/ Walmick de Holanda
Duração: 7 minutos
Classificação indicativa: 10 anos

Espetáculo: Fim de Jogo (episódio 2)
Com Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas
Duração: 29’32’’
Classificação indicativa: 12 anos

5 de julho (domingo), às 21h
Espetáculo: Fim de Jogo (episódio 3)
Com Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas
Duração: 20’02’’
Classificação indicativa: 12 anos

6 de julho (segunda-feira), às 21h
Espetáculo: Fim de Jogo (episódio 4)
Com Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas
Duração: 21’43’’
Classificação indicativa: 12 anos

7 de julho (terça-feira), às 21h
Espetáculo: Fim de Jogo (episódio 5)
Com Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas
Duração: 31’10’’
Classificação indicativa: 12 anos

SERVIÇO:
Palco Virtual
De 3 a 7 de julho (sexta-feira a terça-feira)
No site do Itaú Cultural: www.itaucultural.org.br

Camarim em Cena com Renato Borghi
Mediação: Valmir Santos
Dia 4 de julho (sábado), a partir das 14h
No site www.itaucultural.org.br

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Casa Maravilhas exibe “teatro live” Vulvas de Quem?

Cira Ramos, a diretora; Márcia Cruz, a atriz e Ezter Liu, a escritora. Projeto Teatro de Quinta, da Casa Maravilhas apresenta Vulvas de quem?, na página do espaço cultural no Instagram (@casamaravilhas).

O título Vulvas de Quem?, já diz tudo, anota a diretora Cira Ramos. Sim, sim. Sinaliza amplitude e profundidade da temática. Ser mulher é bem complexo, uma força que se expande e multiplica exponencialmente. A atriz Márcia Cruz gradua o feminino numa narrativa urgente, para contar com o fôlego possível as dores de milhares de úteros dentro do seu útero. É dizer o que precisa ser dito. E repetir. “A peça fala de sororidade, de empatia, de dores e dificuldades, da necessidade de estarmos unidas, e de termos visibilidade. É sobre tudo isso” comenta Cira Ramos.

O texto é extraído de dois contos da escritora pernambucana Ezter Liu, Vulvas Brancas e Quem?, do livro Das tripas coração, vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura de 2017.

O “teatro live” integra a temporada do Teatro de Quinta da Casa Maravilhas em tempos de pandemia Covid-19. Os ensaios, leituras e reuniões são tocados há meses de forma remota. São três quintas-feiras, três autores, três atores e três diretores.

Começou na quinta-feira passada, dia 11, com Inflamável, de Alexsandro Souto Maior, com direção de Quiercles Santana e atuação de Paulo de Pontes. A apresentação, com centenas de visualizações, ainda está disponível no Instagram da Casa Maravilhas.

Na próxima semana é a vez de Brabeza Nata, que trata das memórias de um homem que nasceu “na periferia do interior do interior, sua relação com a mãe que o renega desde o parto e com a avó que sempre o acolheu. Alexandre Sampaio investiga como estará esse homem hoje, no que ele se transformou, no trabalho com texto de Luiz Felipe Botelho, dirigido por Cláudio Lira.

A live é livre mas a contribuição espontânea será muito bem-vinda por razões conhecidas por todos. Os depósitos realizados em qualquer data serão rateados entre os envolvidos e a Casa Maravilhas ao final da temporada.

SERVIÇO
VULVAS DE QUEM?
De Ezter Liu.
Direção: Cira Ramos.
Atuação: Márcia Cruz.
Onde: Instagram da Casa Maravilhas (@casamaravilhas).
Quando: 18/junho, 20h 

BRABEZA NATA,
de Luiz Felipe Botelho.
Direção: Cláudio Lira.
Atuação: Alexandre Sampaio.
Onde: Instagram da Casa Maravilhas (@casamaravilhas).
Quando: 25/junho, 20h 

Dados para contribuições:
Banco do Brasil
Agência: 1833-3
Conta corrente: 48.359-1
CNPJ: 16.931.050/0001-22
Márcia Sousa e Cruz

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Grupos que mantêm sedes e atividades de formação sem perspectiva de apoio

Fiandeiros possui Escola há dez anos

Enquanto os trabalhadores da cultura de todo o país aguardam a votação da Lei de Emergência Cultural, os dias vão passando. Para os grupos e coletivos de artes cênicas pernambucanos, as incertezas e inseguranças são potencializadas pela falta de ação também nos âmbitos estadual e municipal. O cenário é de preocupação – com a subsistência desses trabalhadores e com a manutenção dos espaços físicos.

O Poste Soluções Luminosas, grupo de teatro negro, possui um espaço cultural desde 2014, no térreo do prédio na Rua da Aurora, esquina com a rua Princesa Isabel, no bairro da Boa Vista. Neste primeiro semestre, finalizaríamos a segunda fase do projeto Música no Espaço O Poste e começaríamos a terceira edição do projeto Escola O Poste de Antropologia Teatral.  Tivemos que suspender toda a agenda de shows, assim como a continuidade dos processos que envolvem a produção da Escola”, explica Naná Sodré, atriz, diretora e produtora do grupo. “Sim, há risco de fechamento, pois quando ocorre a interrupção dessas atividades que são fundamentais para a manutenção, não temos como prosseguir”, avalia.

A Cênicas Companhia de Repertório inaugurou o Espaço Cênicas em 2010, no segundo andar de um prédio na Rua Vigário Tenório, no Recife Antigo. “Quem possui um espaço cultural sem patrocínio público ou privado neste país convive permanentemente com o risco de fechamento. Agora, com o agravamento desta pandemia, esse risco se torna ainda mais iminente. A nossa receita caiu praticamente mais de 80%. Só temos uma turma de alunos ativa e as despesas mensais continuam. Nossa receita vem dos cursos e atividades artísticas do espaço e a nossa reserva financeira já está no limite”, explica Antônio Rodrigues, diretor do grupo.

Diante da fragilidade das políticas públicas – o que nunca foi novidade para a classe artística, mas se acentuou com a pandemia -, os enredos são bem parecidos. O grupo Fiandeiros se preparava para comemorar os 10 anos da Escola Fiandeiros, que funciona no prédio na Rua da Matriz, na Boa Vista, e serve também como sede e espaço cultural. “Os impactos já são enormes. O Espaço é nossa principal fonte de arrecadação e, ao mesmo tempo, a nossa principal fonte de despesas. Interrompemos abruptamente a arrecadação, mas as despesas continuaram as mesmas mesmo com ele fechado. Nosso sustento enquanto grupo e, principalmente, enquanto Espaço, depende da renda que vem dos cursos, dos espetáculos e das atividades que geramos nele. A outra fonte de receitas, que viria da venda de espetáculos, temporadas, e tudo mais, está completamente parada. Estamos, ao final desses dois meses, tentando administrar um cronograma financeiro com muito esforço, vindo das ações remotas, que possa ao menos permitir a subsistência do Espaço pelo tempo que der”, avalia Daniela Travassos, atriz e diretora do grupo Fiandeiros.

Os Espaços O Poste Soluções Luminosas, Cênicas e Fiandeiros possuem uma característica significativa em comum: os três também são locais para formação e atividades pedagógicas. No caso da Cênicas e da Fiandeiros, algumas turmas prosseguiram no formato online. “A Turma do Curso de Teatro Cênicas Cia 2020 estava praticamente fechada, deveria ter iniciado no final de março, porém com a quarentena instalada, as aulas foram adiadas por tempo indeterminado, juntamente com o Curso Dramaturgia do Ator. Atualmente, estamos com uma única turma de teatro ativa, que já tinha iniciado as aulas em 2019. O Curso de Iniciação Musical para o Teatro está acontecendo com aulas online, duas vezes por semana, com duração de três horas diárias”, conta Rodrigues.

Aula virtual da Cênicas Cia de Repertório

Na Escola Fiandeiros, quatro turmas estão com aulas pela internet. “Adaptamos todos os planejamentos, revimos conteúdos para serem repassados remotamente e estamos, aos poucos, inserindo a corporalidade, o treinamento vocal e o exercício da interpretação experimentado à distância. Estamos nos surpreendendo com o resultado e com o envolvimento dos alunos, embora saibamos que falta o essencial, que é a presença. Mas, talvez, a realidade imposta e a necessidade da troca estejam aquecendo essa relação que acreditamos que fosse ser fria a princípio. Perdas existem. Teatro é coletividade, é troca, é presença. Mas também é reinvenção. É adaptação aos momentos e às tecnologias existentes”, avalia Daniela Travassos.

No Poste, ainda estão abertas as inscrições para a Escola de Antropologia Teatral. As aulas desta terceira turma do programa, que tem como incentivadores Eugenio Barba e Julia Varley, deveriam ter começado no dia 2 de abril. O grupo aderiu às lives para a divulgação da campanha “Apoie o Espaço O Poste, não deixe fechar!”, que está com link no Catarse.

Eugenio Barba e Julia Varley, em visita ao Espaço O Poste

Cênicas e Fiandeiros ainda não fizeram campanhas de arrecadação, mas não excluem a ideia. Afinal, não há nenhuma expectativa para um suporte governamental, seja para artistas, grupos ou espaços. Para Daniela Travassos, “quando não há uma política estruturada para uma classe, fica difícil até atuar em cenários de urgência. Agora, o que tem são alguns artistas aguerridos lutando e falando por uma classe inteira, tentando achar uma maneira de dividir migalhas entre todos, porque o governo até agora acha que manter os editais já é o suficiente. Nós seguimos fazendo o que podemos: contribuindo para as discussões, inscrevendo em todos os editais possíveis, investindo grana pessoal, trabalhando em prol do nosso Espaço, que é da cidade e das pessoas, investindo na formação e tentando manter as ações que podemos”.

Para saber mais sobre as ações dos grupos, siga os espaços e companhias na rede:

@oposteoficial

@fiandeirosdeteatro

@espacocenicas | @cenicascia

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Matéi Visnic é sugado para o Zoom

Pandas, ou era uma vez em Frankfurt, com Mauro Schames e Nicole Cordery com direção de Bruno Kott. Fotos: Divulgação

Trabalho artístico gestado na quarentena.

Pandas, ou era uma vez em Frankfurt é uma experiência artística online, ao vivo, inspirada no texto teatral História do Urso Panda (contada por um saxofonista que tem uma namorada em Frankfurt), do dramaturgo romeno Matéi Visnic. O projeto foi concebido durante a quarentena da Covid-19 com os artistas envolvidos isolados em suas casas. Foi articulado para o Edital do Itaú Cultural; que não foi selecionado. Mas o trabalho já estava aceso. A atriz Nicole Cordery e o ator Mauro Schames seguiram com Pandas e junto com o diretor Bruno Kott trabalharam pelo aplicativo Zoom. O programa fica em temporada de 15 de maio a 6 de junho.

Na dramaturgia do romeno radicado em Paris, Ele pede a Ela nove noites. O pacto se realiza, e um mundo à parte é criado, envolto em enigmas. A leitura da equipe é da relação de um homem com a morte, potencializada nestes tempos de incertezas, de medo e insegurança.
Nessa versão, o texto de Viniec dura 40 minutos e Kott carrega a cena com um trecho do filme O bandido da luz vermelha, de Rogerio Sganzerla, de 1968, em que indica que terceiro mundo vai explodir!

A direção segue as indicações de humor, que considerada um caminho afetuoso para reflexão de temas existenciais. “Optamos por imagens nonsense, que quebrassem o código do realismo, que servissem como gatilho para um entendimento menos racional, e mesmo com atores atuando num fundo infinito para a câmera do notebook, não trouxessem uma atmosfera cinematográfica, mas sim, teatral”, adianta o diretor. “O que me guiou para essa narrativa tanto dramatúrgica quanto estética, foi a teoria do multiverso, que explora realidades paralelas como uma opção de existência”, entrega Bruno Kott, que lembra que o online já é uma realidade paralela.

Tudo se torna muito intenso nesses tempos de confinamento. E estranhos. Ensaios exaustivos diários, repetições estudo de texto, pesquisa de linguagem, crises dos atores, receios de se adequar a tantas mudanças. Distâncias são subvertidas. Nicole falou com o autor Matéi Visniec, por e-mail, que respondeu prontamente, autorizando seu texto para a experiência. Por outro lado, a atriz não conhece pessoalmente o encenador Bruno Kott.

“Como manter a teatralidade inerente ao texto estando a um palmo de uma câmera?”, questiona Nicole, expondo suas tormentas durante processo. A equipe de criação prefere não chamar o trabalho de teatro.

A experiência acontece no esquema Pague Quanto Puder e toda a renda será revertida para o Fundo Marlene Colé. Os microfones do público vão ficar ligados durante a apresentação – assim será possível acompanhar a reação da plateia. Merde!

Ficha técnica:
Texto: Matéi Visniec
Direção e dramaturgismo: Bruno Kott
Elenco: Mauro Schames e Nicole Cordery

Serviço:
Temporada: De 15 de maio a 6 de junho de 2020, Sextas e sábados às 20h
Onde: Na Plataforma Zoom
Ingressos: Pague Quanto Puder (a renda será destinada ao Fundo Marlene Colé)
Via Sympla
Duração: 40 minutos
Classificação indicativa: 14 anos

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Edital de emergência confere ânimo para artistas

Alguns selecionados do edital Arte como respiro: múltiplos editais de emergência: Herminia Mendes, PE (foto: Rogério Alves); Jéssica Teixeira, CE (Reprodução do FB); Núcleo Bartolomeu de Depoimento, SP (foto: Divulgação); Clowns de Shakespeare, RN (foto: Bruno Soares): Maikon K, PR (foto: reprodução do FB)

O número de inscritos no edital Arte como Respiro: múltiplos editais de emergência – Artes Cênicas, do Itaú Cultural, nos oferece uma dimensão da crise no setor cultural diante da paralisação das atividades relacionadas à área. Entre os dias 6 e 10 de abril, na busca por sobrevivência, mais de 7.200 propostas foram recebidas.

Dessas, o instituto escolheu 200, 80 a mais do que estava previsto. A grande maioria dos projetos – 158 – já foram ou serão produzidos neste período de quarentena; outros 42 são gravações prévias ao isolamento.

No Nordeste, 37 propostas foram selecionadas, sendo dez de Pernambuco. Uma delas é da atriz e diretora Hermínia Mendes, que escrutina os sintomas dessa época através de janelas possíveis, inclusive dos aplicativos da Internet. Poesia Performática – Pedaços questiona perspectivas de olhares e cria paralelos dos retalhos de gentes e coisas, deixando rastros, as mortalidades pelos cantos, cabelos pela casa, unhas cortadas, os lençóis amarfanhados, escritos na parede, o reflexo no espelho. 

Onde está todo mundo? é a proposta de montagem de um “espetáculo virtual” do Coletivo Angu de Teatro, do Recife, com texto inédito de Marcelino Freire. A encenação será dirigida virtualmente por Marcondes Lima, que está morando em Portugal. Os atores André Brasileiro, Gheuza Sena, Ivo Barreto, Luis Cao, Lilli Rocha e o próprio Marcondes atuam de suas casas, utilizando como cenografia, figurino e maquiagem o material de que dispõem neste momento. O trabalho dos atores vai ser gravado e depois editado por Tadeu Gondim.

A proposta é exibir uma “Live farsesca”, que não ocorre, porque ninguém chega para o programa, nem o autor Marcelino Freire, nem seus personagens. O trabalho brinda uma parceria exitosa entre autor e grupo no ano em que o livro Angu de Sangue completa 20 anos de lançamento – sendo Angu de Sangue o primeiro espetáculo do Coletivo Angu e que deu nome ao bando.

Opá, Uma Missão, é um monólogo da atriz e diretora Lívia Falcão, que convocou para essa investigação artística sua Palhaça Zanoia, uma benzedeira, descendente direta da xamã mais velha, de terras distantes, que já foi lugar de abundâncias e milagres. Para encontrar a dádiva-diamante escondida em seu corpo, Zanoia carrega por missão das antepassadas a de rir de si mesma nas ‘sete direções’: Leste, Oeste, Norte, Sul, Acima, Abaixo e Dentro. É uma criação coletiva, de Lívia, de Silvia Góes e Andrea Macera, que agora aceita o desafio de seguir virtualmente durante o isolamento.

No Ceará, um dos projetos escolhidos é da atriz, produtora e diretora cearense Jéssica Teixeira, que traz para o debate o seguinte questionamento: “Ser artista solo mulher e com deficiência no Brasil antes e durante o isolamento. E depois?”.  Sua investigação pessoal atua no seu próprio corpo estranho, numa pesquisa sobre “Corpo Impossível”, mola propulsora para a criação do seu primeiro solo “E.L.A”. Nesse trabalho, que fez temporada no Sesc Pompeia, em São Paulo, no ano passado, e agora vai estar disponível online, a artista desestabiliza e potencializa outros corpos e olhares. A peça investe em questões como beleza, saúde, política, feminilidade e acessibilidade, utilizando vídeo, artes plásticas e dramaturgia através de colagens e textos autobiográficos que refletem acerca da aceitação e do nosso lugar no mundo.

Confira a crítica do espetáculo “E.L.A”

Um dos projetos aprovados no Rio Grande do Norte é do grupo Clowns de Shakespeare. A atual circunstância de confinamento social imposta pela pandemia do COVID-19 confere à ficção fantástica Abrazo uma curiosa concretude. Imagine um lugar onde estão proibidos os abraços? Há três meses essa ideia só poderia ser encarada como ditatorial. A proposta da montagem era justamente essa: uma obra sem palavra, várias reflexões sobre repressões e cerceamento de liberdade. O espetáculo infanto-juvenil Abrazos – inspirado em O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano – foi censurado na temporada na Caixa Cultural em Pernambuco, em 2019.

O vídeo da encenação será disponibilizado online na íntegra, acompanhado de uma ação de desdobramento a partir de três pontos de vista: do grupo, do público e de convidados. Essas repercussões podem chegar no formato de textos (dramático, poético ou em prosa), vídeo ou canções, propondo uma atualização da provocação de Abrazo. O grupo também vai instigar o público a enviar material para os Clowns. Alguns parceiros, como Eduardo Moreira (Grupo Galpão/MG), Maurice Durozier (Théâtre du Soleil/França), Ana Correa (Yuyachkani/Peru), e outros, participam da ação.

No Sul, 19 projetos serão apoiados. Um deles é do artista da performance, Maikon K, que vive em Curitiba, e pesquisa formas de expansão da consciência, tendo o corpo e sua capacidade de alterar percepções como centro. O trabalho Proteja-se (Meditação) é o um registro de uma performance curta, feita com o celular, com cerca de 4’30’. Maikon K propõe uma ação de limite e resistência, ao vestir um preservativo na sua cabeça, respirando até que o látex se rompa. Com o trabalho, o artista fricciona tempo atual em meio à solidão, necessidade de proteger-se do mundo exterior e do contato com outrxs, a angústia, o sufocamento, a persistência, a busca por sobrevivência e fôlego.

Da região Sudeste, 126 projetos foram aprovados, sendo 82 de São Paulo, estado com o maior número de selecionados no país. Um deles é do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, que avança nas proposições do espetáculo Terror e Miséria no Terceiro Milênio – Improvisando Utopias. Na peça, nove atores e dois DJs ensaiam confinados em um teatro. O debate deriva da dramaturgia de Bertolt Brecht para aventar a falência contemporânea. Novas questões foram colocadas com o advento da pandemia. Inspirada nas ideias do filósofo camaronês Achille Mbembe, o grupo desafia o neoliberalismo/ necroliberalismo como sistema que sempre operou com um aparato de cálculo, e agora expõe outra face ainda mais terrível: o que é mais importante a economia ou a vida? A necropolítica segue operando de maneira global para decidir quem tem direito à vida. 

Confira matéria sobre Terror e Miséria no Terceiro Milênio – Improvisando Utopias.

Galiana Brasil. foto André Seiti / Divulgação

ENTREVISTA // GALIANA BRASIL, gestora de Artes Cênicas do Itaú Cultural

Primeiramente acredito que os artistas reconhecem o esforço do Arte como respiro: múltiplos editais de emergência, mas de que forma o instituto pretende avançar no apoio aos artistas durante o período de pandemia da Covid-19?
Penso que as ações de apoio começaram ainda antes do edital, com a decisão de manter pagamentos de cachês de todos os grupos e artistas que tinham agenda confirmada para apresentação neste semestre, para que pudessem contar com esse respiro financeiro com compromisso de mais adiante, a partir do segundo semestre, acomodarmos nova agenda de programação. Passado o edital – ou em paralelo à execução dos trabalhos selecionados, ainda faremos curadorias, convites e manteremos programação no site e plataformas parceiras.

Foram mais de 7,2 mil inscrições de todo o país, sendo selecionados 200 trabalhos de 25 estados. Que análise é possível fazer desses números? Sobre políticas culturais no Brasil? Sobre a atuação do Itaú Cultural? 
Olha, eu penso que já havia uma crise instaurada antes, pré-pandemia, e esse estado agora  sangrou mais vivamente um setor que já vinha sofrendo com a ausência de políticas públicas, de interrupções e falta de continuidade de projetos, orçamento incerto e precarizado e tantos ataques que maculam a noção de política pública.

Quais os critérios foram adotados para escolher esses selecionados?
O edital foi concebido em dois eixos. No primeiro, que permitia inscrição de trabalhos produzidos antes da pandemia, tínhamos um único requisito de partida que era uma solicitação para que o artista olhasse para essa obra “antiga” e propusesse algo que pudesse refletir no tempo presente, na forma que tivessem melhor condição de fazer – um texto crítico, uma reflexão, um bate-papo com os criadores que poderia ser através de live – achamos importante essa inserção porque subir um vídeo de um trabalho feito lá atrás – registro filmado de espetáculo – é algo bem menos complexo do que conceber e se desafiar a criar algo em situação de isolamento, com os recursos e possibilidades que se tenha, como foi o eixo segundo do edital. Afora esse critério mais objetivo que aplicamos no eixo 1, para ambos os eixos consideramos a relevância da proposta para o momento, a capacidade de comunicação com diferentes públicos, o histórico do grupo/artista e sua relação com aquele segmento.

O que podemos entender como “ampla representatividade” do resultado?
A diversidade de territórios, de segmentos nas linguagens. De termos contemplado trabalhos de performance, teatro de animação, dança e teatro para crianças. O fato de termos artistas com corpos desviantes, LGBTs, em especial trabalhos com protagonismo de artistas trans, artistas com deficiência, proponentes indígenas, trabalhos de cultura popular – mamulengo, maracatu -, trabalhos vindos de favelas, zona rural, agreste, circo tradicional. Os trabalhos de intérpretes e coletivos negros com força de número e conteúdo. Essa tentativa real de interferirmos nas assimetrias que ainda parece tímida nos números finais, mas que sabemos que é uma batalha frente às forças hegemônicas de séculos, basta considerar, apenas no quesito regionalidade, que mais de 64% dos inscritos foram da região Sudeste.

Como vocês estão trabalhando no Itaú Cultural durante esse período de quarentena?
Estamos trabalhando remotamente tanto quanto intensamente, desde uns dias antes do anúncio oficial de isolamento aqui em São Paulo. Estamos também em articulação com grupos, artistas, veiculando e programando diversos projetos no nosso site, que tem sido palco virtual de todas as linguagens artísticas. Apenas alguns exemplos das Artes Cênicas, encerramos recentemente as inscrições para a EAD Dramaturgia Negra – A Palavra Viva, com a professora Dione Carlos e, a partir de sábado (dia 9), estrearemos a série virtual “Camarim em Cena”, sendo este primeiro programa com a atriz Maria Alice Vergueiro.

Já existe uma agenda para a exibição dos projetos selecionados? Serão divididos por blocos? Quais serão as categorizações?
Estamos trabalhando justamente nessa acomodação, nesse momento pós anúncio dos selecionados. Em breve teremos essas informações.

Você consegue vislumbrar ações (articulações, pensamentos), dentro ou fora do instituto, do que fazer para que os artistas, nesta realidade de capitalismo, não fiquem tão vulneráveis economicamente, como a maioria vive agora?
Essa é a pergunta mais difícil de ser respondida, Yolandas. A pessoa que vos fala também nunca viveu algo assim e, porque humana, também se sente vulnerável e sente medo. Desde que começou o isolamento trabalhamos intensamente na busca de formas de apoio e rede de proteção para o setor, que não se encerrará na criação de um edital, até porque a situação parece longe de suavizar. Vamos combinar que, se a ideia é despertar a espécie, vemos que ainda tem muita gente dormindo ou num estado de nem uma coisa nem outra, o que é um tanto pior. Penso que precisaremos rever pensamentos de base (que tem a ver com tua próxima pergunta), e isso vale para toda a cadeia – do artista ao gestor. É nesse ponto que estamos agora, e isso é mais difícil porque não há distanciamento, então a tendência é encarar o momento com os instrumentos do “antes”. Porém, certamente, eles parecerão insuficientes, então precisaremos de novos significados para apoio, aporte, parceria… eu não tenho essas respostas, mas outras tantas dúvidas, eu tenho problemas e eles são motor para quem pesquisa, então vamos juntes criar formas para nos conectarmos com esse devir.

A discussão do momento é se o material que circula online por artista da cena, performance, pode ser considerado teatro. Se realmente existe teatro sem presença, sem o compartilhamento do tempo que arde no calor da hora entre artistas e público. O que você pensa sobre isso?
Acho a discussão pertinente, e não apenas pelo momento, mas, considerando a origem e natureza do teatro que é sim arte do encontro, da presença. Tal tensionamento, inclusive, não tem nada de novo, porém, a chegada desse vírus, forma de contágio e suas consequências trazem um caráter de imposição, de urgência que sim, nos atravessa como algo inaugural. E penso que vai ser interessante – ou condicionante -, deslocar esse desconforto e tentar “encarná-lo” em formas de fazer, porque o horizonte próximo sugere a criação de novos protocolos para convivência. Particularmente não estou pronta para imaginar uma existência sem encontro, mas preciso estar preparada – e mesmo motivada – a ampliar essa noção de encontro, o que talvez seja chave importante para acessar essa nova dimensão de nossa existência.

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