Arquivos da categoria: Críticas

Crítica: Hilária provocação de Shakesfood

Thiago Ambrieel e Diógenes D. Lima em Shakesfood. Foto: Ricardo Maciel/ Divulgação

Thiago Ambrieel e Diógenes D. Lima em Shakesfood. Foto: Ricardo Maciel / Divulgação

Shakesfood desconstrói o dramaturgo inglês com graça, picardia, uma tonelada de cinismo, trapalhadas e ironia. Irreverentes, Thiago Ambrieel e Diógenes D. Lima transformam os personagens de William Shakespeare em comida, tampa de panela e outros utensílios de cozinha e servem como uma “comédia teatral gastronômica”. A peça é inteligente, engraçada e beira o absurdo em algumas situações. Chama o pastelão, a farsa, o pós-dramático e dessa mistura inusitada saímos satisfeitos. O espetáculo Shakesfood faz a sexta e última sessão da primeira temporada neste domingo (20/08), no Teatro Apolo, no Recife. Eu recomendo. Insisto: Não perca! 

Por quê? Principalmente porque eles se arriscam. Na construção de linguagem do teatro de objetos, no exercício da criatividade de encontrar as peças e os movimentos para avivar personagens. Pela crítica política, de costumes à indústria cultural,  e pela defesa do teatro. Mas nada disso é dito ou apresentado de forma séria. Eles são iconoclastas.

E instalam um jogo potente que envolve o espectador desde a porta do teatro. A trilha sonora do músico Samuel Nóbrega, com trechos de músicas de filmes famosos, e a iluminação de Jathyles Miranda reforçam o pastiche.

Bem, ninguém espere uma peça bem-acabada, limpa, asséptica sóbria e recatada – estamos numa cozinha, mas ali ninguém é “do lar”, no sentido temerário do termo. Há uma sujeira na cena, tempo estendido entre um quadro e outro, imbróglios que os atores ainda estão a ajustar e toda aquela parafernália de dar vida àqueles objetos inanimados. A cena flui no meio desse “caos”.

O food do título faz alusão ao fast-food que é transformado o espaço do teatro, porque “as pessoas saem de casa para ir a um restaurante, mas não ao teatro”. Eles provocam de forma bem-humorada essa febre dos programas de TV, e avalanche de restaurantes, cafés e cia. no Recife.

O espetáculo está dividido em três quadros. Macbeth infeliz transformado em sanduíche que quer dar o golpe; Hamet no papel de omelete; Romeu e Julieta, aquele tradicional doce. Os ingredientes da cobiça, poder, traição, essas coisas todas que conhecemos das peças de Shakespeare estão lá. Há detalhes deliciosos nas cenas que pagam o ingresso. E algumas surpresas, que não posso contar. 

Shakesfood tem texto e direção de Diógenes D. Lima, que gosta e sabe tirar proveito daquelas piadinhas infames do cotidiano e das charadas ligeiras. Ele atua ao lado de Thiago Ambrieel, e com a participação da contrarregra Kátia Virgínia.

O espetáculo tem possibilidade também de ampliar para um público infanto-juvenil, num horário diferenciado e com pequenos ajustes. As crianças alfabetizadas que conheço iriam adorar se deparar com esses personagens de forma tão irreverente e divertida.

Shakesfood
Temporada até 20 de agosto:Domingo, às 19h.
Teatro Apolo –
Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife.
Classificação:14 anos
Informações: 999822910- 986332717

FICHA TÉCNICA :
Autoria/Direção:Diógenes D. Lima
Atuação:Diógenes D. Lima e Thiago Ambrieel
Assistência De Direção:Thiago Ambrieel
Trilha Sonora Original:Samuel Nóbrega
Direção De Arte:;Diógenes D. Lima
Supervisão Artística:Jorge De Paula
Direção De Produção:Luciana Barbosa
Produção Executiva:Alexandre Sampaio
Light Designer:Jathyles Miranda
Cenotécnia :Eduardo  Autran
Adereços:Altino Francisco
Programação Visual:Sócrates Guedes
Assessoria De Imprensa:Flora Noberto
Foto:Ricardo Maciel
Operação De Luz:Rodrigo Oliveira
Contrarregragem: Kátia Virgínia.

Postado com as tags: , , ,

Quatro visões sobre Dinamarca, do Magiluth

Dinamarca. Grupo Magiluth. Foto: Ivana Moura

Dinamarca. Grupo Magiluth. Foto: Ivana Moura

 

Dinamarca estreou na semana passada com apresentações lotadas e despertando muitas discussões pós-teatro. O novo espetáculo do Magiluth é inspirado em Hamlet, de Shakespeare, mas sua pulsação é o presente, a crise da humanidade e as questões políticas. Eles discutem a ideia de hygge, palavra que contem o segredo da felicidade dinamarquesa, a partir de uma festa de casamento, em que todos bebem espumante, inclusive o público, pelo menos uma tacinha. O coletivo faz uma segunda minitemporada, agora no Teatro Barreto Júnior, no Pina, às sextas-feiras deste mês.

Como novos espaços de crítica são muito bem vindos e as vozes se multiplicam nas mídias sociais, resolvemos reunir e documentar aqui quatro opiniões postadas no facebook: de um escritor, uma atriz, um encenador e um pesquisador.

Ficha técnica
Direção:Pedro Wagner
Dramaturgia:Giordano Castro
Elenco:Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sergio Cabral e Lucas Torres
Desenho de Som:Miguel Mendes e Tomás Brandão (PACHKA)
Desenho de Luz:Grupo Magiluth
Direção de Arte:Guilherme Luigi
Fotografia: Bruna Valença
Design Gráfico: Guilherme Luigi
Técnico: Lucas Torres
Realização: Grupo Magiluth

Serviço:
Dinamarca
Quando: Sextas de agosto, às 20h
Onde: Teatro Barreto Júnior, Pina
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada) na bilheteria ou https://www.sympla.com.br/eventos/recife-pe?s=Dinamarca
Duração: 1h20min
Classificação: 16 anos

Erivaldo e Pamero. Foto: Ivana Moura

Erivaldo e Pamero. Foto: Ivana Moura

SOU OFÉLIA. AQUELA QUE O RIO NÃO CONSERVOU
                                                                                                                         SIDNEY ROCHA 

Edgar Alan Poe diz, n’A Filosofia da Composição, texto-base em nosso Curso Escrita Criativa:[…] “A morte”. “E quando esse assunto, o mais triste de todos, é também o mais poético?”. [….] “Quando ele se alia intimamente com a beleza. Logo a morte de uma bela mulher é, sem dúvida alguma, o tema mais poético do mundo”.
Quando assisto a adaptações inspiradas em Hamlet, me preocupo em enxergar a imagem de Ofélia, não a imagem da ninfa, morta pelos pecados do Outro, mas sobretudo Ofélia, a mulher, que, na maioria das adaptações, vive só porque Hamlet existe, e não vive nem existe para si mesma; a que “o rio não conservou”, lembrada logo no começo do texto pancadão de Dinamarca [Grupo Magiluth, 2017], Ofélia boiando no rio, porque “A água é a pátria das ninfas vivas, é também a pátria das ninfas mortas. É a verdadeira matéria da morte bem feminina”, disse Bachelard. 

Ontem, quando Ofélia se materializou líquida & invisível sob a luz em Dinamarca eu ganhei a noite. Logo após, naquele carrossel fantástico, a Rainha [Giordano Castro] põe todos contra a [quarta-]parede: “O que você sabe sobre mulher? Você sabe o que é uma mulher? Você sabe o que é ser uma mulher? […] Você não conhece porra nenhuma.” Me lembrei das minhas conversas com Cida Pedrosa e& Renata Pimentel:
– Onde se encaixa o conceito “Lugar da Fala” (ou talvez Lugar do Silêncio) de cada um, ou cada uma?

Mas fiquei pensando mesmo foi na beleza e na morte, e em Allan Poe, e na morte de Ofélia como “texto” e nunca como “imagem”, no Teatro.

E dá pra pensar em tudo isso vendo Dinamarca? Dá. E dá pra ver e pensar muito mais. Dá pra sentir o gosto do beijo e do sangue na boca dos personagens, nós, esmagados pelo vapor, sob o impacto da valsa dos nossos desejos.

“Somos felizes, não somos? Somos amigos, ou não somos?”

Está tudo desmoronando em Dinamarca.

E isso não é uma metáfora. Nem uma indireta.

É o fim dos ‘bons modos’. A extravagância, e ela me fez lembrar meu Fernanflor [Iluminuras, romance, 2016] O hipnotismo. O fim da festa. A morte.

O Magiluth me atingiu pela segunda vez. Mas é só a segunda vez que vejo o grupo atuar.
O espetáculo mais sincero que vi nesses últimos meses.

  • Sidney Rocha é escritor
Dinamarca. Foto: Ivana Moura

Dinamarca. Foto: Ivana Moura

NA DINAMARCA SOMOS TODOS UM

                                                                                                   MÁRCIA CRUZ

E no distante reino de pessoas cor-de-olhos-azul-bic, o pulso, ainda pulsa! Ao menos, naquele proposto pelo Grupo de Teatro Magiluth. As portas do teatro se abrem e o jogo é completamente estabelecido, não há como escapar, não tente sequer respirar, não-vai-dar-tem-po! Sugestão: Entregue-se, sem resistências! Eles são feras famintas, estão ávidos para iniciar o jogo e mais, eles estão precisos.
A ofegância das batatas deu espaço para elegância, e aqui não me refiro ao ambiente de festa e sim à precisão de quem se busca, de quem mergulha em si mesmo e aprofunda-se naquilo que investiga. Falo dos atores. Mas afinal o que há de tão extra-ordinário nesta montagem baseada em Hamlet, de Shakespeare? Vou falar apenas sobre Aquilo que meu olhar guardou para você, a estrutura narrativa do espetáculo.
Em Shakespeare a narrativa ímpar é totalmente construída sobre as personagens, no caso um príncipe, uma mãe, um tio, um fantasma e, em meio a tudo isso, Ofélia. Em Dinamarca, essas personagens estão diluídas, e o que é potencializado é o discurso. Ele foi mastigado, deglutido e digerido pelo grupo.
Em Dinamarca, Hamlet está nos poros e na musculatura dos atores. É atual, é local, é universal, só não é do Reino de Deus, não mesmo. E mais, o discurso é o cerne de toda ação e toda a ação está em constante pulsAção. Esse movimento remexe águas profundas, comunica como água, com fluidez, toca, significa e, de quebra, esse novo discurso-movimento-rítmico proposto pelo Magiluth ao Hamlet traz à tona duas personagens que no texto original ficam em segundo plano, mas em Dinamarca ganham luz e força: Gertrudes e Ofélia. A narração ao final do espetáculo dá o arremate entre o tema – poder – e a encenação. Por tudo isso repito, entregue-se, vale muito à pena, até porque na Dinamarca proposta pelo Magiluth, somos todos um. Bravo!

Márcia Cruz é atriz 

Erivaldo . Foto: Ivana Moura

Erivaldo . Foto: Ivana Moura

A MASSA PODRE

                                                                  MARCONDES LIMA

 

A massa, podre e inerte, culpando os poderosos. Ela está assim na nossa e na Dinamarca de outros. Onde a única diferença entre PODRE e PODER está na migração de um R. 
Quando os discursos sofrem de falências múltiplas de sentidos é necessário que busquemos outros tantos. Fique sentido. Faça sentido. Tome um sentido. Encontre um sentido. Sinta-se, esclareça-se, pense-se para chegar a algum que possa chamar de seu. Sentido também pode ser uma expressão de atenção e cuidado. Duas coisas de que precisamos muito hoje em dia. Então vá ver a vociferação cênica dos Magiluth. Vá se irmanar com outros na desconstrução e construção de sentidos. Teatro também serve pra isso.

Agora se você é daquelas pessoas que não conseguem deglutir metáforas e preferem tudo mastigadinho, pastoso ou liquefeito, se agarre com um pratinho raso de papa do tipo televisiva e rala. Mas vou avisando: ficar no seu pequeno e recluso conforto e satisfação não lhe levará a lugar algum. Nem o trará a si mesmo.
Vai lá criatura. Eu fui.

 

Marcondes Lima é encenador

 

O garotinho levando uma lição de sua mãe. Foto: Ivana Moura

O garotinho levando uma lição de sua mãe. Foto: Ivana Moura

EM DINAMARCA, MAGILUTH TE CONVIDA A UMA FESTA, MAS, CUIDADO, UM GOSTO AMARGO PODE PERDURAR!

                                                 LEIDSON FERRAZ

Não se engane. Após toda festa regada a muita bebida – entre outras drogas lícitas e ilícitas servidas a rodo – é bem provável que uma “bad trip” te persiga após a farra dantesca. Pois é mais ou menos isso que o Grupo Magiluth propõe com o seu novo espetáculo, Dinamarca. A obra é farrista, mas, acima de tudo, política, para além do que a palavra possa conter em seu sentido inicial. Em tempos de Golpe declarado, num país completamente desacreditado por conta dos homens e mulheres que o conduzem, com verdadeiras facções apologéticas em confronto permanente, o maior pecado não permitido é ficar, hoje, inerte. “Se não há nada mais a fazer, aproveitemos a festa. Sobe o som…”, grita mais ou menos isto um dos integrantes do grupo em determinado trecho. A proposta é cínica e cai como uma luva em tempos de apatia quase generalizada.

É nesta ferida que os magiluthianos estão colocando o dedo, ou melhor, entram com tudo dentro. E usam a metáfora do país quase perfeito, a Dinamarca, para expor nossos desejos mais recônditos: ser o que não somos realmente. Ao abrir-se a porta do teatro, os atores Giordano Castro, Lucas Torres , Mário Sergio Cabral, Erivaldo Oliveira e Bruno Parmera preparam uma confraternização para os convidados, com direito a champanhe para todos, e reforçam com tanta ênfase o estado de alegria e companheirismo, que de antemão já dá para descobrir que seremos cúmplices de uma mentira reinante. Tudo o que é dito e feito é dúbio, corrosivo, sacana. E rimos da própria podridão que há em cada um de nós, tendo como referência maior aquele país tão soberbamente rico financeiramente e gélido nas relações humanas.

A obra teve como disparadores iniciais algumas personagens da peça Hamlet, de William Shakespeare, minimamente apontada aqui e ali em seu núcleo familiar, pois o que o Grupo Magiluth pretende é expor a imundície ética e de caráter que nos corrói. A brincadeira ácida dissolve o pretenso politicamente correto e, pelo simples desejo da perfeição nórdica, inclusive das características físicas dos seus cidadãos, põe para fora todos os dissabores em sermos o que somos e, a contrapelo, nos faz ver a enorme quantidade de preconceitos, rancores, indecências, ódios, abusos e intolerâncias que carregamos, incluindo questões como supremacia racial, de gênero, de cor e condição social. É uma iniciativa pulverizada de referências do tempo presente, certamente fruto de muitas discussões e experimentações em sala de ensaio.

A ideia é derrubar tudo o que há na bela mesa posta aos convidados, literalmente, e revelar nossos desejos mais sórdidos sobre o próximo. Afinal, dê poder a um ser e ele mostrará quem é na sua essência. Há podridão em todo lugar, claro. E neste bolo de gente de um “reinado de aparências” é que se mostra a faceta mais cruel da humanidade: daqueles que arrotam felicidade suprema e não estão nem aí para os outros. Ou seja, uma festa de “bacanas” nem tão bacanas assim. Para aquele público mais jovem que teima em dialogar com os rapazes do Grupo Magiluth apenas pelo riso frouxo, é uma segunda “porrada” para frustrar expectativas, pois a primeira já foi dada em O Ano Em Que Sonhamos Perigosamente, produção de 2015, também com o encenador Pedro Wagner à frente. Aliás, as duas montagens dialogam profundamente.

Alguns procedimentos estilísticos vistos ali voltam como parte da assinatura de Pedro Wagner, com potência para bem mais. Lá estão a dancinha do conjunto, os beijos engolidores, a nudez sem desembaraço, os fios e microfones maltratados, o liquidificar de clássicos da dramaturgia, os abraços profundos e até a farinha nos rostos. Coincidência ou não, nos remetem a uma possível sequência de opções em recorrência. O fato é que Pedro Wagner se revela um encenador que sabe manejar com referências estilhaçadas e fragmentos. Pode até não agradar em nada aos mais tradicionais, mas consegue induzir seu elenco a composições de escrita – é Giordano Castro quem assina a dramaturgia – e de cena muito interessantes. Tudo é estranho, caótico, imprevisível, e aqui estes termos são como vantagem na sua composição de encenação, porque imprimem um à vontade essencial para o elenco magiluthiano.

Não há grandes momentos individuais dos intérpretes, pois o coletivo se coloca bem em cena, mas é inegável que Giordano Castro conquista em seus arroubos de pretensa agressividade como Gertrudes, a fragilidade inicial que se revela despótica na mulher-mãe, assim como na versão mais mefistofélica de Claudius, o tio de Hamlet, que matou o próprio irmão (é de extrema ironia o uso do “garotinho mimado” em seu discurso ao sobrinho, impossível não se remeter a um corrupto político brasileiro). E podem até me achar careta neste apontamento, mas sinto que o uso da palavra está cada vez melhor no elenco – uma das fragilidades mais visíveis para mim nos trabalhos anteriores, com progressão notável em O Ano Em Que Sonhamos Perigosamente”. Lucas Torres é ainda quem menos parece à vontade com o texto e a projeção e articulação das palavras, principalmente nas falas iniciais quase inaudíveis – ditas após uma vigorosa demonstração de intimidade com a cerveja/clarim imperial, numa ótima sacada. Erivaldo Oliveira, Mário Sérgio Cabral e Bruno Parmera divertem-se em cena, o que é muito bom para a proposta.

A montagem conta com direção de arte de Guilherme Luigi, luz do próprio coletivo e trilha sonora executada ao vivo pelo duo Pachka (a dupla Miguel Mendes e Tomás Brandão) que põe som pop e brega e utiliza dispositivos eletrônicos, principalmente para reverberação das vozes, durante toda a encenação. Estruturalmente, ainda há algo para se resolver na dramaturgia, principalmente nos finais falsos criados – a cena da Ofélia, a jovem namorada de Hamlet que se suicida e teve seu vestido esgarçado no rio, aqui posta como a garota que dança com fitas esvoaçantes, promete uma poeticidade que não acontece, e pode ser condensada. Digo isto porque entre gritos, estouros e rompantes, há sarcasmo em excesso, assim como recorrências de humor que poderiam ser suprimidas por retornarem com muita frequência. O mesmo se dá com frases que parece já terem sido ditas pouco antes, e alongam a montagem mais do que o necessário.

No entanto, há um apelo importante em Dinamarca que é bastante significativo: a peça tem assinatura estética e de discurso muito própria sobre o que e como eles querem dizer. Tanto que ao final sugestivamente apocalíptico, bastante provocador, ao nos lançarem uma pergunta-metáfora em bela cena, “O que fazer se as dinastias cíclicas continuarão?”, impossível não sair mexido. Provoque-se, então. Tente vê-los!

Leidson Ferraz é pesquisador

Postado com as tags: , , , , , , , , , , ,

Zoe mostra a ameaça dos animais racionais

Foto: Breno César

Foto: Breno César / Divulgação

Forte espetáculo de dança contemporânea. Imagem: Breno César / Divulgação

Uma rápida performance no início espetáculo de dança contemporânea Zoe provocou polêmica durante a curta temporada em junho deste ano. Um bailarino nu desenvolvia a ação de puxar uma corda na entrada do Teatro Apolo. A produção do espetáculo disse que a Secretaria de Cultura do Recife censurou a cena. A direção do Centro de Formação e Pesquisa das Artes Cênicas Apolo e Hermilo alegou uma lei que configura que se alguém aparece sem roupa em via pública é atentado ao pudor. Zoe faz uma apresentação hoje dentro da programação da Mostra de Dança e uma circular determinou que expressões artísticas com nudez só dentro da caixa cênica, ou seja no palco.

Essa discussão é séria, sobre os limites da arte e a capacidade de órgãos públicos de determinar até onde pode ir uma experiência, evento ou obra dessa categoria. E o que uma Secretaria de Cultura vem fazendo pelo setor para que mereça ser respeitada. São muitas questões, mas o brasileiro sente seus direitos serem retirados na cara dura, criminosos serem absorvidos e o judiciário aplaudir até os “assassinos” da natureza. Tempos sombrios.

A polêmica de Zoe desviou a atenção para a força estética da peça coreográfica. E a nudez está intrinsecamente ligada à criação, ao tema e aos propósitos do espetáculo. Investiga os limites de humanidade hoje e o contato com os instintos primitivos. A montagem é dirigida por Francini Barros e conta com os intérpretes-criadores Adelmo do Vale, Jorge Kildery, Maria Agrelli, Orun Santana, Rafael FX e Victor Lima.

A moldura da realidade, do mundo civilizatório com atos de barbárie naturalizados e o avanço dos espaços de setores mais conservadores, alimenta a reflexão da cena.

No palco, os bailarinos compõem um arco temporal de uma noite. A escuridão faz aflorar inseguranças. Vão se transformando em animais na selva, que tem códigos de instintos e afetos. O trabalho traz como inspiração teórica o livro Homo sacer, o poder soberano e a vida nua, do filósofo italiano Giorgio Agamben.

Mas o que desejo salientar, por ora, são as figuras que os bailarinos conseguem elaborar, formando quadros de potência e grandeza. É impactante o que os artistas compõem e decompõem com o corpo. Além dos jogos de poder, de medo, de suspense da espreita, dos processos de domesticação que os humanos fazem com os animais.

Os instintos transitam com algo cruel e / ou libertador (ressaltando contradições), materializados em gestos de articulação de sentidos. Os bailarinos desenvolvem imagens impressionantes, se metamorfoseando em animais. E a atuação do elenco, e a Jorge Kildery em especial, tem a capacidade de transportar para outro lugar, onde a arte tem um poder de surpreender e arrebatar. 

Ficha Técnica
Concepção e direção: Francini Barros
Intérpretes criadores: Adelmo do Vale, Jorge Kildery, Maria Agrelli, Orun Santana, Rafael FX, Victor Lima
Produção: Igor Travassos
Iluminação: Eron Villar
Trilha sonora e operação de som: Johann Brehmer
Cenografia e vídeo mapping: André Calado e Petró
Programação visual: Bruno Amorim
Fotografia e vídeo: Breno César

SERVIÇO
14° Mostra Brasileira de Dança
Terça-feira, 8 de agosto de 2017
Cinzas ao Solo
Alexandre Américo – RN
Teatro Hermilo Borba Filho, 19h
Ingressos: R$20 e R$ 10
+
ZOE (PE)
Teatro Apolo, 20h
Ingressos: R$20 e R$10

Postado com as tags: , , , , , , ,

Não se enganem, Dinamarca é pedreira!

Encenação tem direção de Pedro Wagner e dramaturgia de Giordano

Encenação tem direção de Pedro Wagner e dramaturgia de Giordano Castro. Foto: Ivana Moura

Como o país mais feliz do mundo se reveste a Dinamarca. E onde fica essa paragem? O Grupo Magiluth fez desse “lugar” cena e jogo para dilacerar o conceito de felicidade, bolha, predestinados, mentiras e verdades. Borrando fronteiras, subvertendo distâncias e desmascarando injunções. Dinamarca, do coletivo recifense, que estreou na última quarta-feira (2), no Teatro Marco Camarotti, no Recife, é sobre Hamlet, de Shakespeare? Sim e não. O príncipe ali parece ainda mais frágil. Sua Mãe mais cruel. Seu Tio mais perverso e abominável. Sua namorada mais… Mas o verniz é nórdico.

A montagem atravessa muitas questões urgentes, para uns, como tudo na vida. Como a própria existência. Nada é absoluto. Maneja com habilidade os relativismos. Embrenha-se em círculos de invenções sociais. Com a ironia até a tampa, que às vezes transborda em riso (da plateia inclusive), o espetáculo lacera com palavras e com a articulação sutil das dobraduras da ficção, que se aproxima da realidade dolorosa. A trama de Shakespeare entra na cena de Dinamarca como um trampolim para avistar o Brasil e o mundo de um capitalismo acelerado e excruciante. A montagem é armada para tornar palpável sentimentos molestadores que nos assaltam em 2017. Os golpes invadem o jogo de forma violenta em raios de ironia e cinismo dos discursos dos encastelados.

Magiluth. Foto: Ivana Moura

Numa festa de casamento, a risadagem revela a massa podre. Foto: Ivana Moura

A dramaturgia em fragmentos, como um quebra-cabeças, escrita por Giordano Castro, recolhe fios de Hamlet, acentuando os defeitos prosaicos de um príncipe mimado, de uma Mãe egóica e de um Tio déspota. Mas a peça não se atém a um possível psicologismo. Os atores abraçam e trocam de figuras, entram e saem de personagens, como numa corrida de revezamento. E reverbera o contrário do que eles dizem. Uma festa de casamento dá o suporte para exaltar a euforia, alimentada pelo consumo de estimulantes líquidos e sólidos. Enquanto aquele grupo risonho (um bando que se considera superior em todos os aspectos), desliza pelo salão a arrotar merecimentos com incentivo da mão divina, a sensação de sufocamento é acentuada e o sentimento de exílio espreita em meio a tanto estranhamento do humano.

No dia da estreia do espetáculo, no Planalto Central estava engatilhado mais um circo de horrores. Personagens bizarros atuavam em mais uma farsa (por que essas coisas pavorosas remetem aos nomes/ procedimentos do teatro?) para investigar o “gerente” da quadrilha. Esses perfis que transitam com autoridade de herói ou justiceiro se materializam na peça numa realidade paralela. A encenação fala indiretamente disso – da política daqui, desse país do “Bloco de Ensaio”, e de alhures.

Em Dinamarca, o mundo é dividido em três partes: “Blocos Auxiliadores, Blocos Auxiliados, Blocos de Ensaio. Os Blocos de Ensaio são dos países miseráveis que ainda não encontraram um modelo social que os represente, que funcione de fato. E nós, do bloco dos auxiliadores, trabalhamos e ajudamos para que eles enfim saiam dessa situação, certo?”, diz lá o texto. A atuação da fauna política provoca náuseas em qualquer lugar.

Bruno Parmera, em Dinamarca. Foto: Ivana Moura

Bruno Parmera, em Dinamarca. Foto: Ivana Moura

Cinco atores entram e saem de linhas de personagens. Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sergio Cabral e Lucas Torres. Lucas Torres toma três Heinekens, no início, enquanto expressa dúvidas sobre pontos de acesso para estabelecer esse contato com a plateia. Bruno Parmera fala em inglês que é uma adaptação da tragédia mais famosa do dramaturgo inglês mais célebre. E que trata do “drama” de um príncipe que descobre que seu pai foi morto por seu Tio, sujeito que logo depois se casou com a rainha, Mãe do príncipe. Esse fato desperta no herdeiro do trono um desejo de desforra pela morte do pai, o velho rei. Entre vinganças e desejos ocultos, todos os personagens morrem no final.

Dinamarca lembra uma sinfonia, repleta de movimentos e contramovimentos. Os músicos Miguel Mendes e Tomás Brandão, que formam o duo PACHKA, e criaram e executam a música, garantem o andamento, dando ênfase em certas notas e pausas mantendo o ritmo vivo e presente.

O garotinho levando uma lição de sua mãe. Foto: Ivana Moura

O Garotinho levando uma lição de sua Mãe. Foto: Ivana Moura

A certa altura, Giordano Castro tenta explicar o conceito de “hygge”, que não tem uma tradução precisa, mas tem a ver com conforto, bem-estar. “Nada de falar de política, religião, questões raciais, questões de gênero ou questões de superioridade biológica…”, determina. Isso me lembra um ex-amigo que não queria escavar nada ou mergulhar em profundezas que podem causar dor. Mas somos todos amigos, como diz a primeira lâmina do texto.E somos dinamarqueses, que é o segredo da felicidade. Essa felicidade, no entanto, é traidora.

Os atores sorridentes recebem o público com espumante servido em taças de plástico duro. Os artistas produzem uma festa fake, com flores de plástico e bolo falso e reforçam esses dispositivos dos simulacros para tornar mais forte o efeito da pedrada. As armações dos discursos lembram as amizades das redes sociais. E do Facebook rei com sua gente virtual a projetar fantasias de si mesmas em grandiloquência, uma turma que tudo curte e não quer saber de dor, política, problemas. Captou? De figuras que descartam gente que usou e alijou do seu convívio social. Na guerra das entrelinhas, os inventores de narrativas aparentam sempre estar bem. Dá até para identificar figuras distantes, próximas ou não mais.

Depois da montagem de O Ano em que Sonhamos Perigosamente, esse Magiluth mais maduro e intenso não vai agradar a todos, nem vai se comunicar com todos. Mas a vida é assim, não é? E mesmo que eu (ou você) não goste de algumas coisas, o espetáculo em seu conjunto inquieta e lanha.

A mão do diretor Pedro Wagner se expõe liricamente em dó menor, com altas doses de sarcasmo, e explora os baixos sentimentos em Sol Maior. É hábil a condução. A movimentação é frenética, com situações simultâneas, e provocações que conquistam por sua falsa ingenuidade, como na charada do Imagina. (Se fôssemos honestos! Ou se pudéssemos entender as entrelinhas…)

As urdiduras cênicas erguem espelhos que refletem monstrengos, inclusive voltados para a plateia. Nesses traçados eles elegem algum jargão como “Isso é uma indireta?” e enchem de significados uma pergunta banal, carregando de dúvidas as relações sociais, as amizades, a honestidade, tirando sarro da meritocracia. Para chegar outra vez ao “…somos dinamarqueses, lembra?”. Novamente acionam as engrenagens que fazem girar o mundo. Aquele que interessa aos encastelados, que exclui, mas que compra e dissemina narrativas de que eles são democráticos, libertários, fraternos e igualitários. Vez por outra em meio a tantos mecanismos, há erupções diretas (quase como um ato falho) de um “Foda-se… eu estou feliz!”. Então tá. Quem se sente assim não tem nenhuma preocupação com o corte que provoca com sua espada.

Participação do público na festa

Participação do público na festa. Foto: Ivana Moura

Entre Titanium, de David Guetta, Danubio Azul, valsa composta por Johann Strauss e Quando o amanhã chegar, de Leonardo Sullivan, os atores operam coreografias e em algum momento chamam o público para a dança. Essa cena dialoga com Nós, do Galpão, e outros grupos que investem na participação da plateia. A música acentua o clima entre o exílio e a cerceamento, aquele falta de ar, disfarçado de festa.

Vão e voltam para a questão da felicidade, salientando um pensamento da elite. De que a felicidade pode ser produzida para pequenos grupos de eleitos, totalmente desconectada com os universos de gente carente ou miserável. Esses giros revelam outras palhetas; “Eu encontro a felicidade comendo um japonês…”, solta um. “Eu seria feliz se eu tivesse um país”, dispara outro. “Se não existisse a Noruega já estava bom pra mim”, articula mais um. E a dramaturgia vai dosando, com canais de entrada do sujeito comum. “Se eu falasse com meu pai já estaria feliz”, confessa aquele. “Eu seria feliz desbravando e conquistando coisas e pessoas”, dispara aquele outro. E mais outro: “se eu tivesse família!” E outro: “Eu seria feliz se eu fosse 2”.

O que era riso na plateia cede lugar a incômodos, porque o mundo não está desconectado, em que os felizes orbitem por si sós. É valioso perceber essas rufadas de ilusão.

Giordano Castro ao centro) . Foto: Ivana Moura

Giordano Castro ao centro . Foto: Ivana Moura

Com astúcia, eles flertam com a problemática e os limites da representação. A partir de perguntas “O que você sabe sobre mulher? Você sabe o que é uma mulher? Você sabe o que é ser uma mulher?” chamam a atenção para dilemas, como se artistas brancos podem se imiscuir sobre conteúdos, manifestações e personagens negros. Ou sobre questões de gênero ou de idade. “…Antes de falar qualquer coisa sobre mim… viva o que eu vivi! Ande por onde eu andei… pise onde eu pisei! Calce os meus sapatos… antes de falar qualquer coisa minha, pois você não conhece porra nenhuma! Porra nenhuma…”, diz a Mãe, na voz de Giordano. E não poupam humor sobre atestados e limites da contemporaneidade.

Esses traquejos reflexivos e exercícios especulativos se manifestam em argumentos e ações calculadas. Personagens, ou seus esboços, viram escudos para forjar reflexões. O grupo transita bem ao explorar a promiscuidade entre público e privado. A fala da Mãe do Garotinho é exemplar: “Ele era um homem como qualquer outro! Tão honesto quanto qualquer homem que tem o poder nas mãos. Você sabe o que é ter um reino na mão?”

Ah! Hamlet, esse poço inesgotável de inspiração. A ideia de massa “muito embolada” é um chamamento viral. O mundo não é fofinho e há formas inteligente e criativas de vociferar essa ideia. E como pergunta alguém na peça “Isso foi uma metáfora?”

beijo

O beijo surge como desdobramento da peça anterior, O Ano que Sonhamos Perigosamente. Foto: Ivana Moura

Ficha técnica
Direção:Pedro Wagner
Dramaturgia:Giordano Castro
Elenco:Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sergio Cabral e Lucas Torres
Desenho de Som:Miguel Mendes e Tomás Brandão (PACHKA)
Desenho de Luz:Grupo Magiluth
Direção de Arte:Guilherme Luigi
Fotografia:Bruna Valença
Design Gráfico:Guilherme Luigi
Técnico:Lucas Torres
Realização: Grupo Magiluth

Serviço:
Dinamarca
Quando: Sábado (05/08) e domingo (06/08), às 20h
Onde:Teatro Marco Camarotti, Sesc Santo Amaro
Quanto:R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Duração:1h20min
Classificação: 16 anos

Postado com as tags: , , , , , , , , , , ,

Crítica: Ledores do Breu

Dinho Lima Flor anda com personagens que sofrem com o analfabetismo. Foto: Divulgação

Dinho Lima Flor anda com personagens que sofrem com o analfabetismo. Foto: Divulgação

Quando assisti ao espetáculo Ledores do Breu em sessão na SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt, o deputado que jurou de pés juntos que era inocente ainda não dormia no xilindró. Era útil ao sistema e havia autorizado há poucos dias a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. O golpista começava a mostrar suas unhonas de traíra, ao enviar cartas à presidenta com um chororó de que era um “vice decorativo”. A situação política no Brasil era tensa. Tudo piorou. Direitos confiscados. Ensino sucateado. Do Planalto ao Cais do Recife a educação sofre duros golpes, incluindo o indisfarçável cárcere privado de professores sob o desapreço de Geju.

O solo Ledores do Breu já é em si e por si de grande potência, mas ganha amplitude na contraluz da realidade, como um foco de resistência e de lucidez.

O educador brasileiro Paulo Freire (1921-1997) – que criou o método de alfabetização de adultos que leva seu nome – alertava que “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”.

Entram como fatores que dificultam o processo de alfabetização o desemprego e os seus males, jornadas longas e estressantes e a falta de incentivo e até mesmo questões sexistas. Como é exibido na peça, uma menina que é proibida de estudar pelo próprio pai por ter nascido mulher. Ignorância terrível, mas que a personagem não acata e dá o seu jeito de aprender.

Então, não sejamos tolos. Mas Freire também martelava que “Num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário”. E é nisso que pulsa Ledores do Breu.

Paulo Freire se junta a Patativa do Assaré, Zé da Luz, Jackson do Pandeiro, Lêdo Ivo, Guimarães Rosa, Luis Fernando Veríssimo, Cartola. Entre canções como Palavras, de Gonzaguinha, episódios, causos, relatos, a dramaturgia é costurada com afeto e cumplicidade da plateia. Seja na imitação dos passarinhos, nos abraços carinhosos e danças.

Dinho Lima Flor chega com sua atuação emotiva, por vezes barroca e experimenta vários estilos interpretativos, navegando inclusive pela comicidade popular. Sozinho em cena trafega por vários personagens, a expor situações extremas e cobrar responsabilidade de todos nós. Como pode, em pleno século 21 o Brasil ostentar um índice tão alto de analfabetismo nas suas mais variadas gradações? Uma pergunta que vejo como resposta uma tentativa de prosseguir com a opressão, com os privilégios de quem historicamente massacrou e desviou recursos e direitos dos mais pobres.

São muitos teatros que essa montagem Ledores do Breu leva para a cena. E esse ator generoso conduz o espectador a sentir a escuridão que cerca os que não sabem ler. É uma cegueira. Como a história do homem que matou a mulher que amava por não conseguir decifrar uma carta, narrado em Confissão de Caboclo, do poeta Zé da Luz.

A Cia. do Tijolo transborda política na sua poética. Desde Concerto de ispinho e fulô, a mostrar a grandeza de Patativa do Assaré. Passando por Cantata para um bastidor de utopias, com seus anônimos na peleja para subverter as injustiças. Até a montagem O Avesso do Claustro, em que resgata a trajetória de Dom Helder Camara (1909-1999), o Bispo Vermelho, com discursos igualitários, projetos de educação e iniciativas de combate à miséria, que esteve no Janeiro de Grandes Espetáculos deste ano.

O figurino branco vai sendo machado de carvão ao longo da peça. O carvão é usado para escrever em rolos imensos de papel e também como estrada e outros suportes. E nessa caminhada orquestrada que a direção de Rodrigo Mercadante vai indicando pulsações e andamentos, num jogo de sombra e luz, silêncio e som.

A imagem de mulheres expondo faixas com dizeres como “Mais escolas e menos cadeias” (de um vídeo de manifestações exposto na cena) indica que a ignorância, infelizmente, pode ser parte de uma engrenagem que a elite que odeia os diferentes faz questão de alimentar. Mas fiquemos com outra cena do espetáculo que enseja alguma esperança. A de um homem que ao escrever sua primeira palavra, um nome de mulher, se emociona e percebe como o mundo e o seu mundo podem ser ampliados.

Serviço:
Ledores do Breu – Cia do Tijolo (São Paulo-SP), no Circuito Nacional Palco Giratório.
Quando: Quarta (26/07), às 20h
Onde:Teatro Marco Camarotti (Sesc de Santo Amaro), Recife
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia entrada)

Ledores do Breu no 13º Festival Aldeia do Velho Chico
Quando: Segunda-feira (07/08), 20h30
Onde:Teatro Dona Amélia, Petrolina
Quanto: R$ 20 (Usuário), R$ 10

Ficha técnica
Atuação, cenário, figurino: Dinho Lima Flor
Direção: Rodrigo Mercadante
Assistente de direção: Thiago França
Dramaturgia: Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante
Criação de luz: Milton Morales e Cia do Tijolo
Orientação corporal: Joana Levi
Produção: Cris Rasec e Cia do Tijolo
Produção e difusão: Thaís Teixeira – EmCartaz Empreendimentos Culturais
Registro: Bruta Flor Filmes
Câmeras registro: Bruna Lessa Cacá Bernardes e Mirrah Iañez

Postado com as tags: , , , ,