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Não é o momento para mais mortes
Crítica de “Todas as histórias possíveis”

Bruno Parmera, um dos operadores do experimento sensorial do Grupo Magiluth. Foto: Erivaldo Oliveira

Um acidente pode ser “qualquer acontecimento, desagradável ou infeliz, que envolva dano, perda, sofrimento ou morte”. Um acidente pode ser o disparador de uma reviravolta, a chave de acesso para uma viagem diferente. Um acidente pode ser tudo o que o Brasil vem passando de bizarro desde 2018. O Grupo Magiluth embaralha causas e consequências no experimento sensorial em confinamento Todas as histórias possíveis. Há fios narrativos que se misturam na cabeça do narrador e são transmitido ao participante. No espaço do pensamento, da criação, da arte, tudo é plausível.

São três histórias que cavalgam na pulsão de Eros. Com pontos em comum, a exemplo do acidente e do áudio em que o narrador conta que não vai morrer, que viu a morte de perto, mas não vai morrer.

A experiência de Todas as histórias possíveis começa com uma ligação telefônica, em que o ator do outro lado da linha contextualiza o processo e conduz essa jornada fragmentada, sensível, pelas plataformas numa linguagem coloquial.

Episódios corriqueiros na girada do mundo. Três percursos: uma chave, o abismo da separação, ida à praia.

Segui com Giordano Castro. A primeira ligação consolida o pacto ficcional no campo do imaginável, do real e da invenção. No território extenso da mente com seus recônditos misteriosos.

O passeio pelas plataformas, o jogo, máquina do tempo, uma ação extraordinária como o super-homem que muda a rotação da Terra, num torno que ultrapasse, suprima, apague o fatídico momento. É um desejo e um posicionamento político, um desabafo quase em desespero de que não é o momento para mais mortes. 

Nessa experiência individual guiada pelo performer em sua combinação de áudios previamente gravados, produzidos ao vivo no WhatsApp, YouTube, música no Spotify é o enamorado que assume o lugar de fala.

Roland Barthes (1915-1980), na obra Fragmentos de um discurso amoroso, de 1977, põe em cena uma enunciação, em que se oferece um lugar de fala, o lugar do sujeito amoroso que, apaixonadamente, fala de si mesmo diante do outro.

“Há coisas guardadas dentro do coração que ainda não se tornaram palavras”, aponta Todas as histórias possíveis. A criatura apaixonada fala do outro para falar de si. “Eu gosto dos teus detalhes. Eu gosto das marcas que o travesseiro faz no seu rosto de manhã… gosto das tuas dúvidas, gosto … gosto … gosto..”.

Entre uma canção fofa, como Volta, de O Terno, e uma música cremosinha como Jovem, de Julio Secchin, o Magiluth segue uma pegada transformadora para o participante reelaborar seus afetos. Diante do estado amoroso dominante, acachapado pela banalidade da oferta musical vigente. Ou perseguido como produto de consumo de primeira necessidade moldado pelo imaginário capitalista.

O amor e a iminência da morte são os leitmotiven dessas falas do desejo. Permanecer vivo e  seguir enamorado, como potência de vida. O Magiluth produz na alma do participante desse jogo lúdico vertentes de amor. Uma experiência que aciona os sentidos, traz lembranças de gozo e dor. Liga a chave da valorização da existência, já que sabemos mais do que nunca como é frágil a vida.

Todas as histórias possíveis. Foto: Reprodução do YouTube

O Magiluth investiu no cruzamento de mídias como uma saída para a sobrevivência material e criativa da trupe nesse momento de quarentena devido ao Covid-19. Os atores aproveitam plataformas como o WhatsApp, Instagram, YouTube, Spotify ou Deezer, para viajar com um espectador por vez.

Tudo que coube numa VHS: Experimento sensorial em confinamento, uma narrativa feita de fragmentos em várias plataformas, chegou a 1.605 ligações para criaturas de várias cidades Brasil e outros 18 países. O número soma a temporada inicial, com ingressos pagos, e a segunda apoiada pelo Sesc Avenida Paulista ofertada gratuitamente a quem garantisse (a façanha) uma senha pelo site.

Assim como Tudo que coube numa VHS, a imersão Todas as histórias possíveis permite uma experiência individualizada e bastante subjetiva. Cada pessoa é convocada a ser um construtor ativo do programa com dramaturgia e direção de Giordano Castro.

O Magiluth é um grupo pernambucano que completou 15 anos em 2019 e é composto pelos atores Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sergio Cabral, Lucas Torres e Pedro Wagner. A pandemia suspendeu uma série de projetos programados para 2020. Um deles foi o adiamento da estreia de um espetáculo de rua inspirado em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

FICHA TÉCNICA

Direção e Dramaturgia: Giordano Castro
Performers: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral e Pedro Wagner
Design de Som: Kiko Santana
Vídeo: Juliana Piesco

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Teatro para os ouvidos e outros sentidos
Crítica da peça sonora “Maré”

A atriz Cássia Damasceno, da companhia brasileira de teatro.

A companhia brasileira de teatro propõe um encontro diferente. Em vez de reforçar o apelo feito à exaustão para os olhos, o grupo privilegia outro sentido: a audição. É a partir do ato de ouvir – se quiser, de olhos fechados, e imaginar e compor e criar as paisagens sussurradas nessas Escutas Coletivas – que se instala o ato teatral

A primeira edição apresenta a peça sonora Maré, com dramaturgia e direção de Marcio Abreu; desenho sonoro do músico e compositor Felipe Storino; e conduzido pelas vozes de Cássia Damasceno, Fabio Osório Monteiro, Felipe Storino, Giovana Soar, Grace Passô, Key Sawao e Nadja Naira.

É uma criação cênica fincada na dimensão sonora. As falas, nas quatro perspectivas do acontecimento, foram gravadas pelos atores individualmente, com seus celulares e enviadas a Abreu e Storino.

Com os espectadores, cada qual no seu canto, com seus fones de ouvidos ou caixas de sons de olhos fechados, ou abertos (naveguei melhor com os olhos cerrados), acomodados em sofás, camas, chão ou onde preferisse, sentados, de pé, deitados, de lado, do jeito que quisesse, durante 40 minutos, ouvimos uma história.

O episódio está dividido em três movimentos. Um prólogo em que o diretor expõe e contextualiza a ação, a escuta sonora compartilhada ao mesmo tempo pelas pessoas presentes na sala virtual e a conversa entre a equipe artística e o público.

Maré foi escrita em 2015 por Marcio Abreu a pedido do mineiro Grupo Espanca. É situada como uma reação artística ao real: uma chacina ocorrida na Maré em 2013. O Complexo da Maré é um dos maiores conglomerados de favelas do Rio de Janeiro, na zona norte da cidade. Naquele ano, o Brasil foi sacudido por uma série de protestos e manifestações de reivindicações várias, que ficaram conhecidas como Jornadas de Junho.

Infelizmente esse não é um caso isolado. Extermínios e carnificinas são comuns nas áreas mais periféricas e empobrecidas, não só do Rio de Janeiro, como nas diversas cidades do país. São crimes cometidos normalmente pela polícia ou pela milícia. Atrocidades frequentemente acobertadas ou não combatidas com eficácia pelo Estado.

As figuras desta peça sonora moram num espaço exíguo – “uma lata de sardinha”, o que não facilita a intimidade do casal: “Esse homem é gostoso me pega quietinho” – expõe a alta voltagem de amorosidade dos seus integrantes. Os adultos trabalham longe de casa e perdem muito tempo no trajeto. A avó assume a ancestralidade, a viga mestra; as crianças, os tesouros; a mãe e o pai.

Cada um desses quatro focos narra, do seu ângulo, a violência policial em um dia de brincadeiras, televisão apaziguadora, “o melhor feijão do mundo”, o chamego no canto.

O fenômeno teatral se confere pela escuta. A dimensão acústica se faz corpo, que quase podemos tocar. Os materiais sonoros sobrepondo em camadas sucessivas, entrecruzadas pela entendimento individualizado num presente compartilhado. Imersos nessas sonâncias, cargas mnésicas pessoais, imaginação, marcas na carne, pele e osso se cruzam para cortar resquícios de indiferença. É pela escuta que poderemos transformar o espaço público.

A Avó, de Grace Passô, traça uma musicalidade tão própria, tão acolhedora, quase uma cantilena que brinca com fluxos vocais de espacialidade, temperatura, texturas. Todas as quatro perspectivas de Maré incitam a raras percepções e sensações de pertencimento a uma presença coletiva costurada pelo tempo de comunhão pelas vozes, pelo som.

As escolhas sonoras do músico Felipe Storino para materializar a chegada da polícia, levam a lugares mais poéticos, menos óbvios do que uma representação hiperrealista que inunda os noticiários, das imagens sonoras exatas. É uma fábula contada com paleta de tons acústicos mais sutis.

Maré nos chega como insights performativos de uma experiência relacional. De um tempo que ativa o entrecruzamento de universos individuais sensíveis, compartilhados um pouco na conversa depois da audição. No primeiro dia, uma das participantes levantou uma questão interessante dessa partilha do sensível carregada por memórias ditas ou silenciadas, que permitem a criação de sentidos tão particulares, íntimos até. No segundo dia, um homem cego comentou como foi afetado pela obra. Sua fala destaca o quanto precisamos ampliar nossa percepção do mundo, para além de nós mesmos.

Ouvir como exercício revolucionário, que tanto precisamos, nesses tempos de lacração. Possibilidade de expandir o fio do diálogo humano. Na oitiva grupal a arte assume papel político, convocando para o presente essa necessidade de sentir o outro. Ou tentar, ao menos.

A dramaturgia textual do Marcio Abreu, sem pontuação intermediando as intenções, faz jorrar sentidos diversos. A primeira edição da série Escutas Coletivas enfrenta o paradigma da supremacia do olhar, desde sua etimologia de ser o teatro o lugar onde (e de onde) se vê, para deslocar a possibilidade de “ver” com os ouvidos, sentir com o som, ser tocado pelo invisível, ser afetado pelo audição, por uma dramaturgia sensorial.

Mergulhar nessa Maré com seus timbres e texturas, ritmos sonoros, camadas, dinâmicas e insubordinações do encontro e do toque energético, tensiona a linguagem por ser ainda e mais música e poesia.  

Escutas Coletivas
peça sonora MARÉ
Quando: dias 29, 30 e 31 de agosto, às 20h30
Contribuição: R$ 25, à venda no Sympla

Ficha técnica:

Dramaturgia e direção: Marcio Abreu
Desenho sonoro:  Felipe Storino
Vozes: Cássia Damasceno, Fabio Osório Monteiro, Felipe Storino, Giovana Soar, Grace Passô, Key Sawao, Nadja Naira.

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Muribeca, a sobrevivente

Reinaldo Patrício em Muribeca, de Marcelino Freire, direção de Breno Fittipaldi e dramaturgia de Wellington Jr 

Muribeca é título de um conto de Marcelino Freire publicado no livro Angu de Sangue (2000). É um bairro popular em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. E tem também o Aterro Sanitário da Muribeca, mais conhecido como o Lixão da Muribeca, desativado por completo, em 17 de julho de 2009, depois de ter sido utilizado por mais de 20 anos como depósito para os resíduos sólidos das cidades do Recife, Jaboatão dos Guararapes, Cabo e Moreno.

O conto de Freire faz referência ao Lixão; a protagonista assume o nome Muribeca e introjeta os elementos do descarte como valor positivo, a sobra como saída de sobrevivência. O texto faz uma crítica feroz ao capitalismo e seus mecanismos de subjetivação.

O Coletivo Angu de Teatro, do Recife, montou em 2004 o espetáculo Angu de Sangue e Muribeca era um dos quadros mais emblemáticos. Defendido pelo ator Fábio Caio, essa mulher que considera o lixo um paraíso tinha nuances de ironia, mas com traços de uma doçura revoltada do subalterno e a projeção do cinismo dos poderosos.

Confesso, Reinaldo Patrício, que as imagens da atuação de Caio ainda dominavam minhas lembranças ao começar a assistir Muribeca – Algo sobre viver. O trabalho é  fruto da parceria na produção do Grupo Cênico Calabouço (PE) e do Coletivo (In)comum (RJ), produzido durante a pandemia da Covid-19.

Reinaldo Patrício atua de forma visceral, no limite do arrebatamento para defender sua Muribeca. Um tecido vermelho é usado como saia e também compõe o pano de fundo para dar moldura ao quadro. Um fundo infinito. Sim, podemos ler como uma sequência de quadros, encaixilhados na telinha de um único celular fincado num ponto da pequena sala do ator. Cabe a ele mudar os enquadramentos com o deslocamento do seu corpo, aproximando-se ou afastando-se da câmera.

Essa figura que defende aquele lugar como espaço de moradia e sustento, projeto de existência e futuro dos filhos discorre sobre as vantagens de sua vida e acusa o governo de forma violenta por querer desativar o Lixão. Ela é uma sobrevivente e sabe disso. No fundo, sabe também de todas as explorações e tratamentos desiguais. E dá seu grito de revolta.

O núcleo junta pernambucanos que moram em cidades distintas. O trabalho foi erguido através de plataformas da internet, com o diretor Breno Fittipaldi fazendo suas orientações do Recife, nas trocas com Reinaldo Patrício e o dramaturgista Wellington Júnior no Rio de Janeiro. Eles executam várias funções técnicas para realizar o trabalho, nessa produção que investiga a manifestação teatral tensionada pelas novas tecnologias de informação e comunicação.

Em sua interpretação antirrealista, o ator transborda e há cenas em que é possível ver e sentir o suor, a saliva e outras secreções dos olhos da boca, da pele derramarem-se pelas telas das máquinas. Somos atingidos pelas máquinas que fazem arte. Nessa partitura de movimentos, os quadros se alternam e há muita potência nessas ações.

De dentro de Muribeca, Reinaldo Patrício desliza para outro conto de Marcelino Freire, Amor cristão: “Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca”. Esse deslocamento me chegou como um obstáculo, para depois perceber a jogada da dramaturgia de clamar o amor violento que pulsa em todos os recantos do planeta. Ali está em carne viva. A carne encontrada no Lixão, que Muribeca come e oferece ao público.

A peça aumenta a acústica com Monólogo ao pé do ouvido, Chico Science, para avocar cabeças de movimentos sociais. “O homem coletivo sente a necessidade de lutar…”, diz o texto de Science. “Viva Zapata! Viva Sandino! Antônio Conselheiro! Todos os Panteras Negras! Lampião sua imagem e semelhança…” A utopia ardendo do Lixão para citar a Revolução Mexicana de 1910, liderada pelo camponês Emiliano Zapata; a Revolução Sandinista na Nicarágua (1979- 90), comandada por Augusto Sandino, assassinado em 1934; os Panteras Negras, grupo radical na ação pelos direitos civis dos negros norte-americanos, na década de 1960; o Cangaço, com Lampião no Nordeste do Brasil e o Movimento de Canudos, fundado por Antônio Conselheiro e abatido pelo Exército em 1897.

Depois de uma apresentação de pouco mais de meia hora, artistas e público conversam sobre a peça ou outro nome que queiram dar. Na sessão que assisti, pessoas de várias partes do país (Recife, Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais…) trocaram palavras amorosas sobre Muribeca – Algo sobre viver. Numa conversa horizontalizada e afetuosa, os artistas falaram do processo de criação à distância. Receberam os elogios de quem ficou para o bate-papo e se sentiu tocado pela energia do trabalho, o talento do ator Reinaldo Patrício e a paixão de todos os envolvidos nessa experiência. Vida longa à Muribeca e outros desdobramentos. A arte se reinventa a qualquer tempo.

Serviço

MURIBECA Algo sobre viver
Quando: todos os sábados de agosto, às 21h
Ingressos: A partir de R$ 10 (contribuições conscientes à venda no Sympla)
Onde: online, através da plataforma Zoom.

Ficha Técnica
Texto: Marcelino Freire
Dramaturgismo: Wellington Júnior
Direção: Breno Fittipaldi
Elenco: Reinaldo Patricio
Cenário e Figurino: Breno Fittipaldi e Reinaldo Patricio
Sonoplastia: Breno Fittipaldi
Iluminação: Wellington Júnior
Designer: Alberto Saulo
Produção executiva: Breno Fittipaldi, Reinaldo Patricio, Uirá Clemente e Wellington Júnior
Criação: Coletivo (In)comum e Grupo Calabouço e Grupo Bixigalixa
Realização: Patricius Produções
Duração : 35min

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Amar e mudar as coisas interessam mais
Crítica do espetáculo Bixa Viado Frango

Silvero Pereira é um artista febril. Febril, uma palavrinha que despacha para o calor do corpo em expansão e quase sinto na pele o delírio quando a temperatura passava dos 39. Esse artista transborda essa sensação de estar vivo, de algo quente. De estar presente no tempo presente. De correr riscos ao expor intimidades de sua trajetória como o faz em atitude vibrante no experimento BIXA VIADO FRANGO. Mas lá nos documentos que expõe, ele também fala de morte, uma morte provocada por uma sociedade excludente que dita quais corpos merecem ser valorizados e quais não. Ou seja, os que servem aos ataques dos instintos animalescos da nossa desumanidade.

O ator exibiu essa criação virtual do Ceará, da sua casa, onde desenvolveu sozinho a peça para o meio digital. Escreveu o roteiro, dirigiu, editou os vídeos e músicas, atua e opera com todos os equipamentos disponíveis . Isso dá um trabalhão: sincronizar luz, música, atuação, cenários, vídeos editados. E essa solidão inventiva está impregnada de nervuras.

Militante LGBQI+, ele traz seus documentos biográficos para falar de si e de muitos que também foram atravessados pela ignorância humana mascarada de superioridade. Menino, era desaconselhado a não se aproximar de outros garotos apontados com a doença de mulherzinha. Entre atração e identificação, ele se escondia. Muito tempo depois descobriu que quem está doente é a sociedade.

Ficaram as marcas. No corpo. Na alma. Na memória. Aos 38 anos completados em junho, Silvero fala que perdeu 20.  Duas décadas de um corpo vivo-morto pela sociedade. O artista quer fazer uma peça sobre sua vida. Ele tensiona dados biográficos com músicas de Belchior e reflexões sobre quem está interessado nesses relatos. Já, que, como ele mesmo salienta, o que cresce é a audiência do humor, de lugares incríveis, de luzes mirabolantes. Não há nada disso na sua criação. E por mais que seja virtual há muito mais de visceral.

Cena de BIXA VIADO FRANGO. Reprodução do Instagram

BIXA VIADO FRANGO sublinha as limitações desses tempos com proibições de toques, de interdições de ajuntamentos físicos. Quer espantar o medo da solidão Pereira retorna no mapa do seu nascimento, em Mombança, uma cidade no Sertão central do Ceará, a 350km de Fortaleza. Convoca em fotografias seus avós, sua mãe Rita Invenção, seu pai José Alves, seus tios e tias, um universo familiar para refletir e projetar a crueldade dos valores de uma sociedade cada vez mais doentia.

O ator reza o rosário de uma família disfuncional, dos avós aos tios, o que inclui na lista homens abusadores, uma tia que enterrou oito cachorros vivos porque todos eram fêmeas, um parente que não fala com os filhos, a hipocrisia social imperante no Brasil desde a chegada dos portugueses.

E se posiciona, da defesa para o ataque, ao reconhecer que para todas essas pessoas a vergonha mesmo é ser viado, balde, bixa, baitola, boiola gay, suzy, frango. E não ser bandido, estuprador, assassino, pedófilo e não cuidar dos filhos.

É possível sentir o arme farpado que ele diz atravessar sua cabeça. Ele dá seu grito contra as distorções do caráter que é apreciado numa sociedade que pouco presta atenção em honestidade, solidariedade, integridade.

Não, ele não se submete. Não mais.  

No primeiro dia de espetáculo, houve problemas de conexão com falhas e descontinuidades, uma coisa tão irritante e, por isso mesmo, carregada de fluxos de sensações humanas, o erro que aproxima do mais humano. Os limites do não compartilhamento presencial, a telinha minúscula do Instagram enviando impulsos potentes, feito uma caixa mágica. Na segunda noite, a internet funcionou e Silvero apareceu de cabelos azuis. Nesta quarta (5) tem troca de impressões com os espectadores.

Os humanos artistas tentando dominar as máquinas em tempo real. A tecnologia transmite as emoções desse trabalhador da arte, porque ele se derrama. Seguimos o pacto real ficcional de suas paredes brancas.

Serviço:
BIXA VIADO FRANGO
Quando: 3, 4 e 5 de agosto, às 20h
Onde: Via Instagram, no perfil @sala_de_espetaculos
Ingressos: R$ 10 (à venda pelo Sympla / Bixa Viado Frango)

 
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A arte possível depois do fim do mundo

Estudo nº1: Morte e Vida, processo do grupo Magiluth, emblemático em tempos de pandemia. Foto: Vitor Pessoa

Tinham acabado de se mudar para uma casa nova. Estavam submersos no movimento de criação. A vida corria como sempre corre, havia muitas coisas de ordens diversas para dar conta. De repente, sem que ninguém se apercebesse com propriedade dos avisos que vinham de outros lugares, depois de um carnaval intenso, pararam. Foram parados. Seguindo as recomendações de quem junta lé com cré, o grupo Magiluth obedece à quarentena por conta dessa pandemia que nos assola. Inseridos numa realidade ampla, complexa e cruel de desemparo às artes no país, os pernambucanos estão preocupados com a sobrevivência como grupo e como indivíduos.

A primeira estratégia de resistência à crise foi articulada rapidamente. Como estavam em pleno processo de criação de um novo trabalho, intitulado Estudo nº1: Morte e Vida, inspirado na obra de João Cabral de Melo Neto, com direção de Rodrigo Mercadante, jogaram na internet os materiais produzidos e venderam ingressos antecipados para a temporada de estreia. Giordano Castro, ator e dramaturgo do grupo, diz que “apelamos para o carinho que o público tem com o Magiluth, como um voto de credibilidade. Fizemos uma venda de ingressos antecipada sem saber ainda qual será a data de estreia. (…) Não conseguiu sanar a situação, mas no ajudou no mês de abril”.

A situação do grupo é mais crítica porque, em janeiro, a companhia inaugurou o Casarão Magiluth, um espaço cultural na Rua da Glória, na Boa Vista, bairro central da cidade do Recife. Além de servir de terreira para a trupe, a ideia é que o local abrigue eventos, espetáculos, shows, performances, lançamento de livros, cursos e o que mais a imaginação possa permitir. O Casarão de número 465 está revestido de memórias e histórias. De 1993 a 2014, funcionou lá o Espaço Inácia Rapôso Meira, tocado na base da perseverança e da dedicação pela atriz Socorro Rapôso, que interpretou Nossa Senhora na primeira montagem do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, em 1956. Ela também integrou o elenco de outra montagem da peça, que ficou em cartaz por quase 20 anos. Devido a um aneurisma que a mantém acamada há anos, Socorro se afastou das atividades do espaço.

Casarão na Rua da Glória foi inaugurado em janeiro. Foto: Estúdio Orra

O Magiluth investiu todo o caixa do grupo na empreitada. “Tudo que tínhamos entrou no Casarão.  Foram R$ 76 mil gastos.  E agora é viver dia após dia e esperar as notícias”, conta o ator Mário Sérgio Cabral. “Fizemos um acordo com a proprietária para paralisar o aluguel e conseguimos pagar as contas no dia 5 de abril. Quando chegar 5 de maio, não sabemos como será nossa vida”, complementa.

“A verdade é que acende uma luz que vai além da vermelha. Víamos o Casarão como uma carta na manga. Entendendo que a política desse governo Bolsonaro para a cultura e para o teatro é muito deficitária, a gente sabia que, em algum momento, iríamos sofrer com esses cortes, cortes de orçamento para festivais, com o corte de orçamento para incentivo à Cultura, com a perseguição que o Governo faz ao Sesc. Sabíamos que, em algum momento, essa corda ia apertar no pescoço. A carta na manga era o Casarão. Aí fomos pegos pela pandemia. Toda a sociedade. É um balde de água fria”, explica Giordano Castro.

Sem que haja uma disputa por prioridades – já que garantir a vida é a maior delas neste momento – os atores pedem atenção dos governos, nos âmbitos do município e do estado para, por exemplo, desburocratizar pagamentos de cachês, inclusive de grandes eventos como o carnaval, e de projetos, como aqueles aprovados pelo Funcultura. “Temos projetos aprovados no Funcultura que ainda não recebemos. Um deles é o projeto de Miró, que é do Funcultura 2017/2018 que ainda não foi pago. Já foi lançado outro edital, premiado outro e esse ainda não foi pago. Isso ajudaria muito o Magiluth a conseguir mais um tempo de vida, conseguir viver de uma forma mais segura dentro dessa quarentena”, explica Giordano. “É difícil não ter um diálogo dentro da Fundarpe para saber: e aí? Como é que é? Quando vem? Uma coisa era presencial, chegar lá no espaço, bater na porta das pessoas e falar. Mas agora você não sabe com quem falar. Onde estão essas pessoas? Quem pode resolver?”, pondera.

Asmáticos, Giordano e Mário Sérgio são considerados grupo de risco para a Covid-19. “Sim, tenho medo. De 1 a 10, com certeza 10. Sou asmático e medroso”, diz Mário Sérgio. Giordano, pai do bebê Gabo, de poucos meses, também sente medo. “Eu tenho muito medo de morrer. Tenho muito medo de que as pessoas ao meu redor morram, que os meus companheiros adoeçam. E eu tenho minha família, meu filho que acabou de nascer, quero curti-lo, quero viver totalmente”.

Há também a ausência da relação mais próxima com o público, o sentimento difícil de saber que pessoas que acompanham o trabalho podem ser afetadas. “Um dos espetáculos mais potentes, que para a gente é muito feliz fazer é Aquilo que o meu olhar guardou para você. Um espetáculo que a gente traz o público todo para o palco, que estamos muitos próximos, nos tocamos, conversamos. É triste não poder fazer o trabalho que a gente gosta de fazer, mas sabemos que é fundamental parar, para que a gente mantenha a vida”, complementa.

Aquilo que o meu olhar guardou para você

Além de esperar pelos “pulos de olhos fechados nas piscinas”, como diz um trecho da dramaturgia de Aquilo, o público pode aguardar – pelo que foi postado nas redes sociais – um trabalho contundente de viés social. Depois de Apenas o fim do mundo, um texto muito voltado às relações humanas, o grupo encara a realidade das migrações, se questiona o que é ser nordestino, pensa sobre a fome, o direito à terra, as desigualdades, a ruína de um sistema capitalista. Realidades que estão ainda mais brutais, escancaradas por uma pandemia. Quando o futuro se fizer presente, certamente o que vivemos nesse tempo também estará no palco do Magiluth, no Casarão da Rua da Glória e em quaisquer outros tablados possíveis.

Resposta da Fundarpe – O Satisfeita, Yolanda? conversou com a assessoria de imprensa da Fundarpe para entender a demora na liberação do projeto sobre Miró, aprovado no Funcultura Geral 2017/2018. “O referido projeto (…) apresentou problema de documentação, o que fez com que o proponente ficasse inadimplente. O mesmo solicitou ao Funcultura uma prorrogação do prazo de entrega da documentação necessária ao empenho, para resolver a situação, mas apenas no final do ano de 2019 a documentação foi regularizada. Já não havia orçamento para empenhar o projeto, condição necessária para seu pagamento. O projeto segue em análise porém, as prioridades de pagamento são para os projetos do ano vigente. Os projetos aprovados nos editais anunciados no final de 2019 receberão os recursos tão logo a Fundarpe receba autorização de pagamento da Secretaria da Fazenda estadual”, diz a nota da Fundarpe.

Com relação ao atendimento aos artistas neste período de pandemia, “enquanto durar o isolamento social, o Funcultura está com a sua Unidade de Atendimento ao Produtor Cultural funcionando com atendimento eletrônico através do e-mail: atendimentosic@fundarpe.pe.gov.br, e telefônico pelos números (81) 9.8327.0979 e (81) 3184.3026, de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h, e das 13h às 17h”.

Houve ainda a reabertura do prazo para inscrição/renovação do Cadastro de Produtor Cultural (CPD) até o dia 17 de abril. “O CPC é necessário para apresentação de projetos para os editais Geral, Música e Microprojeto, que também tiveram suas inscrições prorrogadas. O envio da documentação está sendo exclusivamente através do e-mail: cpc.funcultura@gmail.com”.

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