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Para percorrer as nervuras do mundo, palestra não acadêmica com Rabih Mroue

Estreia mundial de Antes de cair procure o amparo da sua bengala, do libanês Rabih Mroue ocorre nesta segunda-feira (23), às 19h, em apresentação única e gratuita via YouTube da Complexo Sul. Foto: Bobby Rogers

O trabalho que o diretor de teatro, performer, dramaturgo e artista visual Rabih Mroué desenvolve é simplesmente apaixonante. Se pensarmos em temática ampla, ele vasculha vida e morte. Para quem cresceu atravessado pela experiência da Guerra Civil Libanesa (1975-1990), ele tem muito a questionar. E o artista nos envolve com perguntas ampliadas sobre a representação, o poder das imagens e a natureza subjetiva da história. A política contemporânea do Oriente Médio pulsa nas suas obras, que ardem de dúvidas sobre o estado da humanidade. Suas investigações sobre o estatuto das imagens e sua influência na percepção já levaram esse libanês radicado Beirute a muitos lugares do mundo. Inclusive ao Brasil. Mroué participou da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, em 2017, com três peça Revolução em pixels (2012), Cavalgando nuvens (2013) e Tão pouco tempo (2016).

Rabih Mroué já disse que considera o teatro e as artes como a filosofia, que, talvez, não possam mudar o mundo, mas podem fabricar novas inquietações, inspirações, estímulos a novos debates. A palestra não acadêmica Antes de cair procure o amparo da sua bengala versa sobre arte e esfera pública, o que inclui um instigante diálogo sobre legitimação da arte e dos artistas e esgarça ainda mais os limites entre ficção e realidade. Quais são as fronteiras entre arte e vida quando estas se encontram fora da instituição da arte? Como um objeto de arte perde a sua definição enquanto arte, e se torna um objeto-ameaça? São instigações que desencadeiam e se entrelaçam com outras histórias, como os panfletos de aviso jogados por aviões de guerra estadunidenses em diferentes ocasiões, como os bombardeios a Hiroshima e Nagasaki (1945), a Guerra do Iraque (2003-2011) e a Guerra Civil Libanesa (1975-1990).

Com estreia internacional na Complexo Sul 2020, nesta segunda-feira, 23/11, no canal YouTube do Complexo Duplo (youtube.com/complexoduplo), Antes de cair procure o amparo da sua bengala teve como disparador um incidente que envolveu a polícia de Salzburgo, acionada para deter uma suposta ameaça aos cidadãos numa exposição de Mroué numa galeria na Áustria. A apresentação online ao vivo é em inglês com legendas em português e não ficará gravada. Após a apresentação, segue uma conversa com o artista, com tradução consecutiva, tendo como provocador o crítico de teatro e professor de filosofia Patrick Pessoa e mediação de Daniele Avila Small.

Nesta segunda edição da Complexo Sul, toda online, a reflexão e a experimentação da linguagem da palestra-performance norteiam as atividades deste ano de 2020, em novembro e dezembro.

A primeira parte da programação, ocorreu de 2 a 17 de novembro, no Palco Virtual do Itaú Cultural. A segunda parte da programação segue até 18 de dezembro, no canal do YouTube do Complexo Duplo. Esta edição da Complexo Sul conta com o Itaú Cultural, o Goethe Institut e o Consulado Geral da República Federal da Alemanha no Rio de Janeiro como realizadores.

OUTRAS AÇÕES – OFICINAS

Plataforma de intercâmbio internacional para artistas da cena, a Complexo Sul aposta na incrementação da tarefa criativa na perspectiva de que encenação, dramaturgia e pensamento crítico constituem faces de um mesmo trabalho, intrincados e interdependentes. Do Rio de Janeiro, os diretores artísticos do Complexo Duplo, Felipe Vidal e Daniele Avila Small, associados ao curador e produtor Paulo Mattos, investem em inscrever o Brasil no circuito de ações latino-americanas, para reforçar o diálogo da cultura teatral no continente.

As inscrições para os laboratórios criativos da Complexo Sul 2020 foram prorrogadas e podem ser feitas até o dia 25/11. Cada participante pode se inscrever em apenas um dos laboratórios. Os laboratórios conduzidos por Daniele Avila Small e Felipe Vidal serão realizados em português. A oficina de Andrés Castañeda, em espanhol. Em todos eles, haverá uma monitora presente para colaborar com o intercâmbio entre falantes de português e espanhol. Candidaturas podem ser feitas no site Complexo Sul – Plataforma de Intercâmbio Internacional, complexosul.com.br

Andrés Castañeda, do Mapa Teatro Laboratório de Artistas, da Colômbia. Foto: Reprodução do Facebook

SITIO SPECIFIC, UNA PUESTA ON-LINE
OFICINA ONLINE COM ANDRÉS CASTAÑEDA
Segundas e quartas das 15h às 18h, pelo Zoom
De 07.12.20 a 16.12.20

O artista interdisciplinar, ator, performer e diretor Andrés Castañeda, mestre em Teatro e Artes Vivas pela Universidade Nacional da Colômbia e integrante do Mapa Teatro Laboratório de Artistas, vai investir no site site-specific. Pode ser casa, escritório, rua, automóvel, edifício. O termo se refere a um tipo de trabalho especificamente desenhado para um lugar em particular, no qual se pretende uma interação única com o espaço. O laboratório se propõe a investigar as casas como ambientes de confinamento durante pandemia, numa condição de site specific (o banheiro, a cozinha, o quarto, a janela), para desta vez colocar estes lugares no plano da construção e da criação-poética. O trabalho será desenvolvido a partir dos textos: Espécies de espaços, de George Perec, Corpos dóceis, de Michel Foucault e O livro das passagens, de Walter Benjamin. A oficina será realizada em espanhol, com a presença de uma monitora para colaborar com o intercâmbio entre falantes de português e espanhol
Carga horária: 12 horas
Número máximo de participantes: 10
As inscrições devem ser feitas até o dia 25 de novembro pelo formulário https://forms.gle/W9vXSbypEcXEon327

Daniele Avila Small. Foto: Reprodução do Instagram

MUSEU, TEATRO E HISTÓRIA
LABORATÓRIO CRIATIVO ONLINE COM DANIELE AVILA SMALL
Encontros coletivos às terças e sextas das 10h às 12h, pelo Zoom
De 01.12.20 a 18.12.20
A crítica, pesquisadora e curadora de teatro Daniele Avila Small, Doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO, vai ministrar o laboratório, que busca é reunir artistas de teatro para experimentar a criação na linguagem da palestra-performance, tendo como tema as relações possíveis entre teatro e história em museus. Cada participante vai criar, ao longo dos encontros, uma palestra-performance online de curta duração que aborde alguma questão relativa ao tema proposto, exercitando uma espécie de crítica historiográfica das narrativas que aparecem em museus, sítios históricos ou monumentos, bem como as teatralidades dos seus dispositivos de apresentação. O laboratório será realizado em português, com a presença de uma monitora para colaborar com o intercâmbio entre falantes de português e espanhol.
O trabalho é um desdobramento das pesquisas iniciadas com a peça Há mais futuro que passado – Um documentário de ficção, projeto idealizado por Clarisse Zarvos e Daniele Avila Small, e que tem uma filmagem disponível neste link, com opção de legendas em inglês: https://vimeo.com/210527894
Número máximo de participantes: 20
As inscrições devem ser feitas até o dia 25 de novembro pelo formulário https://forms.gle/oFnzYYJbKcHmm7eW7[/caption]

Felipe Vidal. Foto: Reprodução do Instagram

OUTROS MUNDOS
LABORATÓRIO CRIATIVO COM FELIPE VIDAL
Encontros coletivos às terças e quintas das 18h às 20h, pelo Zoom
De 01.12.20 a 17.12.20

O diretor de teatro, ator, dramaturgo, tradutor e preparador de elenco de cinema e TV Felipe Vidal vai conduzir esse laboratório para dialogar com as canções do lado B do álbum Dois da Legião Urbana, continuando a pesquisa para a obra Dois (mundos) do Complexo Duplo. A ideia é que cada participante crie, ao longo dos encontros, uma palestra-performance online de curta duração que dialogue com uma das canções do álbum. Ao final, cada integrante deverá fazer uma apresentação de até vinte minutos. Como a equipe inicial de criação de Dois (mundos) parte do elenco de Cabeça (Um documentário cênico), que é formado só por homens, esta convocatória busca parceiras criadoras mulheres, atrizes e criadoras de teatro e cinema do Brasil e de toda a América Latina. O laboratório será realizado em português, com a presença de uma monitora para colaborar com o intercâmbio entre falantes de português e espanhol.

Link para o primeiro episódio do Lado A de Dois (mundos), Daniel da cova dos leões:
https://www.youtube.com/watch?v=mn8zwrsPm7g

Esse trabalho é também um desdobramento das pesquisas iniciadas com Cabeça (um documentário cênico), espetáculo do Complexo Duplo de 2016 e que tem uma filmagem disponível neste link: https://www.youtube.com/watch?v=7uqaNUpxO6Q

Número máximo de participantes: 18
As inscrições devem ser feitas até o dia 25 de novembro pelo formulário https://forms.gle/mzZDotmYJdLYKgQx8

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Andanças de uma mulher que foi à luta
Crítica de Penélope

Pablito Kucarz e Uyara Torrente, vocalista da Banda Mais Bonita da Cidade. Foto: Reprodução do Instagram

Penélope inspira, respira, transpira. Mas como é longo o caminho e incerto o destino. Desta vez, ela não espera pelo retorno de Ulisses, como condenou Homero. Essa mulher foi à luta, mesmo fraturando sentimentos. Ela não é vítima, é senhora de si. Os riscos são enormes. Mas o benefício é estar viva e bulindo.

Penélope é uma performance cênica, ao vivo, pelo Instagram. Mas você pode chamar do que quiser. Ela não liga. Depois de tantas coisas pelas quais passou, essa moça também procura a palavra certa para denominar coisas, emoções, pessoas, a-c-o-n-t-e-c-i-m-e-n-t-o-s.

Esse construto ficcional, com texto vigoroso e delicado de Ligia Souza, criação da diretora Nadja Naira em parceria com Paulo Rosa e Álvaro Antônio, e atuação dos atores Pablito Kucarz e Uyara Torrente (da Banda Mais Bonita da Cidade) está carregado de muitas boas surpresas. Nessa época de oferta farta de experimentos cênico-tecnológicos, encontrar pertinências faz a diferença.

O trabalho consegue criar um ritmo que traduz os tempos da peça, na combinação de telas e enquadramentos, difíceis para a plataforma tão fixa do Instagram. O desenho de luz também é meticuloso. Todo esse aparato técnico potencializa a experiência artística.

 

E seguimos com a nossa “guerreira contemporânea”, controversa, quase uma outsider. Ela saiu no encalço do seu desejo. Viajou. Foi ao estrangeiro na busca do seu interior. Como ocorreu, ocorre, ocorrerá com muitos homens. Luís, por exemplo, do francês Jean-Luc Lagarce, foi e nem de longe se compara a cobrança a ele imposta. Mas ele é homem, alguns dizem/diriam/dirão. “Mas eu sou mulher”, pode retrucar Penélope.

O irmão usa desse clichê. Caberia a ela, como mulher, cuidar da mãe, cuidar do pai. Cobranças e acusações formam um terreno arenoso. Os irmãos estabelecem um diálogo profundo, concretizado em tempos esparsos, de meses ou anos. É difícil esburacar essas camadas. Resgatar afetos.

Como Molly, de Ulisses de Joyce, a “ausência presente” pesa nos movimentos que transpassam o tempo. Os silêncios camuflados nas entrelinhas são tão significativos quanto as palavras. Atravessam as estações das personagens, irmãos, tão próximos, tão distantes, nessa turnê de escuta, quem sabe em busca de cura.

Por trás das ações do mano, na cabeça dele está uma irmãzinha subserviente, que calava e concordava ao desejo masculino. Ela, a irmã, a filha, dá motivos para deslocamentos e inações dos homens da sua família. Na ausência, ela é uma sombra, que não fala, mas é especulada constantemente.

Mas a protagonista ocupa seu lugar de fala. Se revela plenamente. Ela rejeitou papeis, erotização e sexualização de sua figura, desautorizou quem quis transformá-la apenas em beleza, musa, ninfa. Recusou ser adorno para as sensibilidades dos outros.

Não a filha de fulano ou a irmã de sicrano. Mas ela é por si.

O trabalho discute misoginia e sexismo, sem que isso vire um discurso pesado. Tanto tempo, anos já nos separam da obra-prima do gênio de Joyce, mas os desvios dos padrões patriarcais ainda precisam ser repensados. Essa mulher que sai ainda carece se impor em lutas diárias para ser entendida em sua complexidade. O sistema de classe ainda é dominado por homens, que querem dar as regras, mesmo que sob o signo do amor.

Mas o amor também é um aprendizado. Longo, lento, doloroso aprendizado.

A dramaturgia de Penélope, primeira empreitada do selo La Lettre, foi publicada em livreto. A apresentação é da Yolandinha Pollyanna Diniz.

FICHA TÉCNICA:
Dramaturgia: Ligia Souza
Direção: Nadja Naira
Elenco: Uyara Torrente e Pablito Kucarz
Colaboração: Paulo Rosa e Álvaro Antonio
Produção: Livia Milhomem Sá
Realização: La Lettre

Penélope
Evento online via Instagram
Quando: 26 de setembro de 2020, 20h
Onde: @penelope.lalettre
Quanto: Pague quanto puder, de 20 (+taxa) a 100 (+taxa) pelo Sympla 

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Não é o momento para mais mortes
Crítica de “Todas as histórias possíveis”

Bruno Parmera, um dos operadores do experimento sensorial do Grupo Magiluth. Foto: Erivaldo Oliveira

Um acidente pode ser “qualquer acontecimento, desagradável ou infeliz, que envolva dano, perda, sofrimento ou morte”. Um acidente pode ser o disparador de uma reviravolta, a chave de acesso para uma viagem diferente. Um acidente pode ser tudo o que o Brasil vem passando de bizarro desde 2018. O Grupo Magiluth embaralha causas e consequências no experimento sensorial em confinamento Todas as histórias possíveis. Há fios narrativos que se misturam na cabeça do narrador e são transmitido ao participante. No espaço do pensamento, da criação, da arte, tudo é plausível.

São três histórias que cavalgam na pulsão de Eros. Com pontos em comum, a exemplo do acidente e do áudio em que o narrador conta que não vai morrer, que viu a morte de perto, mas não vai morrer.

A experiência de Todas as histórias possíveis começa com uma ligação telefônica, em que o ator do outro lado da linha contextualiza o processo e conduz essa jornada fragmentada, sensível, pelas plataformas numa linguagem coloquial.

Episódios corriqueiros na girada do mundo. Três percursos: uma chave, o abismo da separação, ida à praia.

Segui com Giordano Castro. A primeira ligação consolida o pacto ficcional no campo do imaginável, do real e da invenção. No território extenso da mente com seus recônditos misteriosos.

O passeio pelas plataformas, o jogo, máquina do tempo, uma ação extraordinária como o super-homem que muda a rotação da Terra, num torno que ultrapasse, suprima, apague o fatídico momento. É um desejo e um posicionamento político, um desabafo quase em desespero de que não é o momento para mais mortes. 

Nessa experiência individual guiada pelo performer em sua combinação de áudios previamente gravados, produzidos ao vivo no WhatsApp, YouTube, música no Spotify é o enamorado que assume o lugar de fala.

Roland Barthes (1915-1980), na obra Fragmentos de um discurso amoroso, de 1977, põe em cena uma enunciação, em que se oferece um lugar de fala, o lugar do sujeito amoroso que, apaixonadamente, fala de si mesmo diante do outro.

“Há coisas guardadas dentro do coração que ainda não se tornaram palavras”, aponta Todas as histórias possíveis. A criatura apaixonada fala do outro para falar de si. “Eu gosto dos teus detalhes. Eu gosto das marcas que o travesseiro faz no seu rosto de manhã… gosto das tuas dúvidas, gosto … gosto … gosto..”.

Entre uma canção fofa, como Volta, de O Terno, e uma música cremosinha como Jovem, de Julio Secchin, o Magiluth segue uma pegada transformadora para o participante reelaborar seus afetos. Diante do estado amoroso dominante, acachapado pela banalidade da oferta musical vigente. Ou perseguido como produto de consumo de primeira necessidade moldado pelo imaginário capitalista.

O amor e a iminência da morte são os leitmotiven dessas falas do desejo. Permanecer vivo e  seguir enamorado, como potência de vida. O Magiluth produz na alma do participante desse jogo lúdico vertentes de amor. Uma experiência que aciona os sentidos, traz lembranças de gozo e dor. Liga a chave da valorização da existência, já que sabemos mais do que nunca como é frágil a vida.

Todas as histórias possíveis. Foto: Reprodução do YouTube

O Magiluth investiu no cruzamento de mídias como uma saída para a sobrevivência material e criativa da trupe nesse momento de quarentena devido ao Covid-19. Os atores aproveitam plataformas como o WhatsApp, Instagram, YouTube, Spotify ou Deezer, para viajar com um espectador por vez.

Tudo que coube numa VHS: Experimento sensorial em confinamento, uma narrativa feita de fragmentos em várias plataformas, chegou a 1.605 ligações para criaturas de várias cidades Brasil e outros 18 países. O número soma a temporada inicial, com ingressos pagos, e a segunda apoiada pelo Sesc Avenida Paulista ofertada gratuitamente a quem garantisse (a façanha) uma senha pelo site.

Assim como Tudo que coube numa VHS, a imersão Todas as histórias possíveis permite uma experiência individualizada e bastante subjetiva. Cada pessoa é convocada a ser um construtor ativo do programa com dramaturgia e direção de Giordano Castro.

O Magiluth é um grupo pernambucano que completou 15 anos em 2019 e é composto pelos atores Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sergio Cabral, Lucas Torres e Pedro Wagner. A pandemia suspendeu uma série de projetos programados para 2020. Um deles foi o adiamento da estreia de um espetáculo de rua inspirado em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

FICHA TÉCNICA

Direção e Dramaturgia: Giordano Castro
Performers: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral e Pedro Wagner
Design de Som: Kiko Santana
Vídeo: Juliana Piesco

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Teatro para os ouvidos e outros sentidos
Crítica da peça sonora “Maré”

A atriz Cássia Damasceno, da companhia brasileira de teatro.

A companhia brasileira de teatro propõe um encontro diferente. Em vez de reforçar o apelo feito à exaustão para os olhos, o grupo privilegia outro sentido: a audição. É a partir do ato de ouvir – se quiser, de olhos fechados, e imaginar e compor e criar as paisagens sussurradas nessas Escutas Coletivas – que se instala o ato teatral

A primeira edição apresenta a peça sonora Maré, com dramaturgia e direção de Marcio Abreu; desenho sonoro do músico e compositor Felipe Storino; e conduzido pelas vozes de Cássia Damasceno, Fabio Osório Monteiro, Felipe Storino, Giovana Soar, Grace Passô, Key Sawao e Nadja Naira.

É uma criação cênica fincada na dimensão sonora. As falas, nas quatro perspectivas do acontecimento, foram gravadas pelos atores individualmente, com seus celulares e enviadas a Abreu e Storino.

Com os espectadores, cada qual no seu canto, com seus fones de ouvidos ou caixas de sons de olhos fechados, ou abertos (naveguei melhor com os olhos cerrados), acomodados em sofás, camas, chão ou onde preferisse, sentados, de pé, deitados, de lado, do jeito que quisesse, durante 40 minutos, ouvimos uma história.

O episódio está dividido em três movimentos. Um prólogo em que o diretor expõe e contextualiza a ação, a escuta sonora compartilhada ao mesmo tempo pelas pessoas presentes na sala virtual e a conversa entre a equipe artística e o público.

Maré foi escrita em 2015 por Marcio Abreu a pedido do mineiro Grupo Espanca. É situada como uma reação artística ao real: uma chacina ocorrida na Maré em 2013. O Complexo da Maré é um dos maiores conglomerados de favelas do Rio de Janeiro, na zona norte da cidade. Naquele ano, o Brasil foi sacudido por uma série de protestos e manifestações de reivindicações várias, que ficaram conhecidas como Jornadas de Junho.

Infelizmente esse não é um caso isolado. Extermínios e carnificinas são comuns nas áreas mais periféricas e empobrecidas, não só do Rio de Janeiro, como nas diversas cidades do país. São crimes cometidos normalmente pela polícia ou pela milícia. Atrocidades frequentemente acobertadas ou não combatidas com eficácia pelo Estado.

As figuras desta peça sonora moram num espaço exíguo – “uma lata de sardinha”, o que não facilita a intimidade do casal: “Esse homem é gostoso me pega quietinho” – expõe a alta voltagem de amorosidade dos seus integrantes. Os adultos trabalham longe de casa e perdem muito tempo no trajeto. A avó assume a ancestralidade, a viga mestra; as crianças, os tesouros; a mãe e o pai.

Cada um desses quatro focos narra, do seu ângulo, a violência policial em um dia de brincadeiras, televisão apaziguadora, “o melhor feijão do mundo”, o chamego no canto.

O fenômeno teatral se confere pela escuta. A dimensão acústica se faz corpo, que quase podemos tocar. Os materiais sonoros sobrepondo em camadas sucessivas, entrecruzadas pela entendimento individualizado num presente compartilhado. Imersos nessas sonâncias, cargas mnésicas pessoais, imaginação, marcas na carne, pele e osso se cruzam para cortar resquícios de indiferença. É pela escuta que poderemos transformar o espaço público.

A Avó, de Grace Passô, traça uma musicalidade tão própria, tão acolhedora, quase uma cantilena que brinca com fluxos vocais de espacialidade, temperatura, texturas. Todas as quatro perspectivas de Maré incitam a raras percepções e sensações de pertencimento a uma presença coletiva costurada pelo tempo de comunhão pelas vozes, pelo som.

As escolhas sonoras do músico Felipe Storino para materializar a chegada da polícia, levam a lugares mais poéticos, menos óbvios do que uma representação hiperrealista que inunda os noticiários, das imagens sonoras exatas. É uma fábula contada com paleta de tons acústicos mais sutis.

Maré nos chega como insights performativos de uma experiência relacional. De um tempo que ativa o entrecruzamento de universos individuais sensíveis, compartilhados um pouco na conversa depois da audição. No primeiro dia, uma das participantes levantou uma questão interessante dessa partilha do sensível carregada por memórias ditas ou silenciadas, que permitem a criação de sentidos tão particulares, íntimos até. No segundo dia, um homem cego comentou como foi afetado pela obra. Sua fala destaca o quanto precisamos ampliar nossa percepção do mundo, para além de nós mesmos.

Ouvir como exercício revolucionário, que tanto precisamos, nesses tempos de lacração. Possibilidade de expandir o fio do diálogo humano. Na oitiva grupal a arte assume papel político, convocando para o presente essa necessidade de sentir o outro. Ou tentar, ao menos.

A dramaturgia textual do Marcio Abreu, sem pontuação intermediando as intenções, faz jorrar sentidos diversos. A primeira edição da série Escutas Coletivas enfrenta o paradigma da supremacia do olhar, desde sua etimologia de ser o teatro o lugar onde (e de onde) se vê, para deslocar a possibilidade de “ver” com os ouvidos, sentir com o som, ser tocado pelo invisível, ser afetado pelo audição, por uma dramaturgia sensorial.

Mergulhar nessa Maré com seus timbres e texturas, ritmos sonoros, camadas, dinâmicas e insubordinações do encontro e do toque energético, tensiona a linguagem por ser ainda e mais música e poesia.  

Escutas Coletivas
peça sonora MARÉ
Quando: dias 29, 30 e 31 de agosto, às 20h30
Contribuição: R$ 25, à venda no Sympla

Ficha técnica:

Dramaturgia e direção: Marcio Abreu
Desenho sonoro:  Felipe Storino
Vozes: Cássia Damasceno, Fabio Osório Monteiro, Felipe Storino, Giovana Soar, Grace Passô, Key Sawao, Nadja Naira.

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Muribeca, a sobrevivente

Reinaldo Patrício em Muribeca, de Marcelino Freire, direção de Breno Fittipaldi e dramaturgia de Wellington Jr 

Muribeca é título de um conto de Marcelino Freire publicado no livro Angu de Sangue (2000). É um bairro popular em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. E tem também o Aterro Sanitário da Muribeca, mais conhecido como o Lixão da Muribeca, desativado por completo, em 17 de julho de 2009, depois de ter sido utilizado por mais de 20 anos como depósito para os resíduos sólidos das cidades do Recife, Jaboatão dos Guararapes, Cabo e Moreno.

O conto de Freire faz referência ao Lixão; a protagonista assume o nome Muribeca e introjeta os elementos do descarte como valor positivo, a sobra como saída de sobrevivência. O texto faz uma crítica feroz ao capitalismo e seus mecanismos de subjetivação.

O Coletivo Angu de Teatro, do Recife, montou em 2004 o espetáculo Angu de Sangue e Muribeca era um dos quadros mais emblemáticos. Defendido pelo ator Fábio Caio, essa mulher que considera o lixo um paraíso tinha nuances de ironia, mas com traços de uma doçura revoltada do subalterno e a projeção do cinismo dos poderosos.

Confesso, Reinaldo Patrício, que as imagens da atuação de Caio ainda dominavam minhas lembranças ao começar a assistir Muribeca – Algo sobre viver. O trabalho é  fruto da parceria na produção do Grupo Cênico Calabouço (PE) e do Coletivo (In)comum (RJ), produzido durante a pandemia da Covid-19.

Reinaldo Patrício atua de forma visceral, no limite do arrebatamento para defender sua Muribeca. Um tecido vermelho é usado como saia e também compõe o pano de fundo para dar moldura ao quadro. Um fundo infinito. Sim, podemos ler como uma sequência de quadros, encaixilhados na telinha de um único celular fincado num ponto da pequena sala do ator. Cabe a ele mudar os enquadramentos com o deslocamento do seu corpo, aproximando-se ou afastando-se da câmera.

Essa figura que defende aquele lugar como espaço de moradia e sustento, projeto de existência e futuro dos filhos discorre sobre as vantagens de sua vida e acusa o governo de forma violenta por querer desativar o Lixão. Ela é uma sobrevivente e sabe disso. No fundo, sabe também de todas as explorações e tratamentos desiguais. E dá seu grito de revolta.

O núcleo junta pernambucanos que moram em cidades distintas. O trabalho foi erguido através de plataformas da internet, com o diretor Breno Fittipaldi fazendo suas orientações do Recife, nas trocas com Reinaldo Patrício e o dramaturgista Wellington Júnior no Rio de Janeiro. Eles executam várias funções técnicas para realizar o trabalho, nessa produção que investiga a manifestação teatral tensionada pelas novas tecnologias de informação e comunicação.

Em sua interpretação antirrealista, o ator transborda e há cenas em que é possível ver e sentir o suor, a saliva e outras secreções dos olhos da boca, da pele derramarem-se pelas telas das máquinas. Somos atingidos pelas máquinas que fazem arte. Nessa partitura de movimentos, os quadros se alternam e há muita potência nessas ações.

De dentro de Muribeca, Reinaldo Patrício desliza para outro conto de Marcelino Freire, Amor cristão: “Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca”. Esse deslocamento me chegou como um obstáculo, para depois perceber a jogada da dramaturgia de clamar o amor violento que pulsa em todos os recantos do planeta. Ali está em carne viva. A carne encontrada no Lixão, que Muribeca come e oferece ao público.

A peça aumenta a acústica com Monólogo ao pé do ouvido, Chico Science, para avocar cabeças de movimentos sociais. “O homem coletivo sente a necessidade de lutar…”, diz o texto de Science. “Viva Zapata! Viva Sandino! Antônio Conselheiro! Todos os Panteras Negras! Lampião sua imagem e semelhança…” A utopia ardendo do Lixão para citar a Revolução Mexicana de 1910, liderada pelo camponês Emiliano Zapata; a Revolução Sandinista na Nicarágua (1979- 90), comandada por Augusto Sandino, assassinado em 1934; os Panteras Negras, grupo radical na ação pelos direitos civis dos negros norte-americanos, na década de 1960; o Cangaço, com Lampião no Nordeste do Brasil e o Movimento de Canudos, fundado por Antônio Conselheiro e abatido pelo Exército em 1897.

Depois de uma apresentação de pouco mais de meia hora, artistas e público conversam sobre a peça ou outro nome que queiram dar. Na sessão que assisti, pessoas de várias partes do país (Recife, Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais…) trocaram palavras amorosas sobre Muribeca – Algo sobre viver. Numa conversa horizontalizada e afetuosa, os artistas falaram do processo de criação à distância. Receberam os elogios de quem ficou para o bate-papo e se sentiu tocado pela energia do trabalho, o talento do ator Reinaldo Patrício e a paixão de todos os envolvidos nessa experiência. Vida longa à Muribeca e outros desdobramentos. A arte se reinventa a qualquer tempo.

Serviço

MURIBECA Algo sobre viver
Quando: todos os sábados de agosto, às 21h
Ingressos: A partir de R$ 10 (contribuições conscientes à venda no Sympla)
Onde: online, através da plataforma Zoom.

Ficha Técnica
Texto: Marcelino Freire
Dramaturgismo: Wellington Júnior
Direção: Breno Fittipaldi
Elenco: Reinaldo Patricio
Cenário e Figurino: Breno Fittipaldi e Reinaldo Patricio
Sonoplastia: Breno Fittipaldi
Iluminação: Wellington Júnior
Designer: Alberto Saulo
Produção executiva: Breno Fittipaldi, Reinaldo Patricio, Uirá Clemente e Wellington Júnior
Criação: Coletivo (In)comum e Grupo Calabouço e Grupo Bixigalixa
Realização: Patricius Produções
Duração : 35min

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