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Experiência artística do êxtase vai à exaustão

Nereu Jr / Divulgação

Foto: Silvia machado / Divulgação

Crowd (Multidão), espetáculo da franco-austríaca Gisèle Vienne, abriu a 7ª MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, na noite de quinta-feira, 5 de março. A artista buscou o mote da coreografia em suas experiências dos “clubs” de Berlim dos anos 1990 para erguer uma impressionante encenação de rave regada a música techno, manipulação de tempos e ritmos estampados nos corpos bem treinados de 15 jovens dançarinos.

Ao som de uma trilha eletrizante concebida por Peter Rehberg, com músicas de artistas como Jeff Mills, Global Communication e Underground Resistance, Crowd propõe nessa festa selvagem um mergulho interior nessa jornada hedonista. Experimentos para a figura perder o controle coletivamente na perspectiva de vivenciar algo profundo. É o que defende Gisèle Vienne.

A artista compõe imagens exuberantes. O chão é coberto por uma espécie de terra e lixo orgânico, permitindo que esse cenário remeta a uma noite de farra, que entra pela madrugada na Europa, em São Paulo ou em qualquer outro lugar.

Os 15 dançarinos entram em cena se movendo muito lentamente, o que, num primeiro momento, pode parecer uma representação de seres de outro planeta. Mas não é isso. Ou é, noutros termos? Eles se aglomeram, traçam marchas solitárias.

É a produção de um exercício de transe pela imersão em um ambiente sonoro intenso e repetitivo. A luz de Patrick Riou equaliza significados desse cenário, desenhando quadros de efeito impactante, das figuras que atravessam a noite perseguindo prazeres efêmeros ou um sentido para a vida.

Da plateia captamos o conjunto, um bloco de gente, ou cenas específicas, fisgadas dessas pequenas narrativas que surgem por todo o palco – encontros rápidos, corpos balançando em convulsões, beijos fugazes, jogos de mãos bobas que escorregam pelo corpo alheio, brigas, luxúria, solidão, estrago. Esses seres humanos falíveis acionam em 90 minutos amplificação narcísica.

Para mim, mais do que o êxtase proposto pela diretora, o que chega é o esgotamento pela repetição em vários ritmos e andamento nos movimentos dos intérpretes. Apreendo o que essa quantidade exagerada de opções, de ofertas, de relacionamentos não assegura ou atrai para uma relação duradoura. Tudo é fugaz.

Essa experiência sonoro-motora imersa em um ambiente de alta voltagem vibratória, pelo volume alto, pelas escolhas das músicas, pela simulação da perda do controle dos movimentos, tudo isso me remete a reflexões sobre os mecanismos inconscientes que alimentam a máquina capitalista atual.

As modulações de movimento, manipulação do ritmo, do tempo e intensidade dos gestos dos corpos expõem as emoções diluídas na multidão – algo opaco e translúcido – em estados alterados de consciência.

Os recursos técnicos, de produção e de efeito, como uma lata que explode ou fumaça que brota dos casacos são realmente impressionantes. A preparação do elenco expõe um virtuosismo, como se diria na modernidade, de trabalhar os corpos em câmera lenta, com movimentos em looping ou congelados em “frames”, que são realmente incríveis.

Mas é certa a associação com o estado psíquico do país e da plateia presente à abertura da MITsp, de um esgotamento causado por ataques constantes à democracia, às liberdades individuais e coletivas, às ofensivas ao direito de desejar e ser, as investidas contra a arte.

Abertura

O lugar de resistência da MITsp parece construído às custas de muito sacrifício, esforços que, quem está de fora, talvez não consiga supor. Mais uma vez, a mostra foi erguida em quatro meses, realmente um trabalho hercúleo. Em sua fala, o diretor de produção Guilherme Marques exaltou o trabalho da equipe e convidou o grupo para se juntar na frente do palco. Foi um dos momentos mais emocionantes da abertura, o esforço tornado carne.

Elegantíssimos os mestres de cerimônia da MITsp, os atores trans Gabriel Lodi e Renata Carvalho. O sempre admirado Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc-SP, – um exemplo de combatividade em prol da cultura –, avança com seu discurso e postura coerentes desde a primeira versão da mostra. O diretor do Itaú Cultural Eduardo Saron reforçou o apoio da instituição ao evento e à cultura. O jornalista Celso Curi leu o Manifesto Artigo 5º, pelas liberdades.

Ah, os políticos… destoam do ritual, principalmente os que ocupam cargos nas gestões de centro, de centro-direita. O mundo já está muito complicado para quererem repassar responsabilidades das diretrizes culturais insuficientes.

Sigamos, pois, lutando pela arte e pelas vidas. Inclusive as nossas.

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Para que pode servir uma poética identitária? Ou sobre o beco-sem-saída de uma contracultura atual*
Crítica do espetáculo Res Publica 2023

Res Publica 2023 está em cartaz no CCSP até 10 de novembro. Foto: Priscila Prade

*Crítica escrita por Stephan Baumgartel, professor da Universidade do Estado de Santa Catarina/Programa de Pós-Graduação em Teatro. Colaboração especial para o Satisfeita, Yolanda?

Há uma vertente de mestres espirituais conhecida no mundo oriental como os malamati, os mestres do caminho da culpa e da humilhação. São mestres que assumem quase que teatralmente a culpa de outras pessoas, com a intenção de criar situações que servem como oportunidade de ensinamento do caminho do amadurecimento da consciência humana.

Talvez seja esse caminho uma ideia que atravessa mais ou menos, (in)conscientemente, a construção do espetáculo RES PVBLICA 2023, da companhia A Motosserra Perfumada, que assisti no Centro Cultural São Paulo (CCSP), no sábado do dia 26 de outubro de 2019. Seis personagens instalados num apartamento que mais parece um bunker do que um lugar de convivências. Personagens apresentados numa espécie de prólogo como figuras dotadas de clichês e contradições fixas. Estão juntos, mas não sabemos ou entendemos se eles de fato convivem. Cada um em seu mundo e juntos no mesmo espaço. Vivem seus dramas e conflitos afetivos, sexuais, musicais, morais ou amorais – todos declarados pelas figuras ficcionais como problemas existenciais, num contexto em que, lá fora, patrulham os neofascistas de plantão. Ou seja, nesse momento, o paroxismo do mundo privado deve ser visto como força política.

Na tentativa de descrever a poética da cena, quem viveu uma São Paulo dos anos 80 talvez pense no clube Madame Satã, no início da new wave e do pós-punk brasileiro. A comparação não me parece errada, se não fosse a insistência forte do texto na ameaça de uma caça aos amorais, às minorias desviantes da moralidade normatizada. Uma ameaça que paira implacavelmente sobre o mundo ficcional da montagem e até motiva, de certa maneira, o tom ora desesperador, ora niilista, ora quase paranoico presente nas ações e interações das figuras. Uma ameaça, entretanto, que existe concretamente em muitos lugares do país, com consequências nefastas e destruidoras para as pessoas que pertencem a esses grupos. Contra esse fundo, a montagem afirma sua vitalidade, sobretudo pela música pulsante, mas também por meio de atuações vibrantes, que buscam uma teatralidade claramente maior que a vida empírica ou ostensivamente menor, quase minimalista.

Um tom de deboche perante a moralidade normatizada não falta, como também não falta, para que possa desenvolver sua eficácia, a provocação simbólica de colocar o público ora como cúmplice da cena ficcional, ora como representante da maioria silenciosa que apoia, com sua inércia, o espetáculo neofascista. Os tempos, contudo, são mais difíceis do que aqueles anos 80, pois são mais abertamente brutais e intolerantes hoje. Nessa situação, todos nós estamos tentados a nos blindarmos em discursos identitários.

Nisso reside o maior desafio da montagem e, talvez, o beco-sem-saída da abordagem denominada por mim de “malamati”: como mostrar ao público que sua cumplicidade não é só com os gestos revoltados de uma contracultura (que, aliás, há tempo perdeu seu horizonte utópico), mas também com os desdobramentos monológicos de suas vertentes identitárias? Como apresentar a sintomática desse mal-estar a partir de uma posição implicada no sintoma, e ao mesmo tempo provocar uma reflexão crítica? Mas, crítica a partir de que horizonte? Apenas a partir da insustentabilidade dessa contracultura como alternativa à moralidade normatizada? Como lidar com o problema de que (quase) todos no público sabemos dessa ameaça e concordamos sobre o nome do inimigo? Como tornar esse (quase) submundo identitário interessante para além do primeiro reconhecimento de seus impasses? Nesse sentido, a montagem precisa lutar constantemente contra a absoluta ausência de desdobramentos e conflitos produtivos que esse cenário identitário, de moralistas e amoralistas, pode gerar. A atuação cênica, às vezes um tanto histérica, ganha sua justificativa aqui: de ser não apenas sintoma de um desespero temático, mas também da falta de um embate dinâmico e dialético que acredite na possibilidade de sua transformação qualitativa. Não há horizonte de superação, mas a exposição do beco-sem-saída atual, criado também por certa contracultura ensimesmada.

Espetáculo tem texto e encenação assinados por Biagio Pecorelli. Foto: Priscila Prade

Se a montagem investe durante boa parte de sua apresentação na cumplicidade do público com essa contracultura, tentando sutilmente fazer-nos aceitar o monologismo dos personagens por meio de uma vitalidade visceral da apresentação, ela muda de tom no final. Primeiro, por nos lembrar em forma de projeções gravadas de alguns incidentes de perseguição brutal às minorias presentes na ficção da cena, sobretudo a transexuais. Se essa tentativa de certa maneira introduz quase uma moral da história que talvez duvide do gesto crítico anterior e busque forçadamente acusar o público de manter-se inerte perante o tamanho do problema, o mesmo não posso dizer da última cena do espetáculo, quando a atriz Camila Rios chama ao palco o cachorrinho que foi comentado no mundo ficcional como pertencente aos moradores. O cachorro aparece vestido de uma capa de couro sobre a qual foi costurada uma suástica. Nesse gesto, o espetáculo me parece tentar estabelecer um horizonte autocrítico também: esse mundo ficcional da cena não é um contra-mundo, mas compartilha a lógica monológica dos neofascistas?

Dessa maneira, o beco-sem-saída se completa e o caminho de assumir a culpa de todos se abre para que encontremos uma solução fora das condições colocadas pelas estratégias que motivam o mundo ficcional e empírico apresentados na peça. Para tal, talvez deva-se perguntar quais são os grupos ausentes nesse mundo do bunker? Os trabalhadores formais e informais, o “precariado” novo, a pequena burguesia instavelmente ocupada em suas atividades econômicas – em outras palavras, aquela parcela de um possível público que não ganha nada concretamente ao adotar posições moralistas e identitárias, pois essas posições não resolvem nem atenuam a pressão econômica que a leva para o campo dos “perdedores” da sociedade. Em outras palavras, a saída que a peça não sugere diretamente, apenas por meio da criação do beco-sem-saída de uma política moralista, teria que ser uma ponte crítica para o imaginário desses grupos. Uma ponte para a qual uma abordagem crítica focada na política identitária não pode ser outra coisa que uma armadilha bem-intencionada.

Serviço: 
Res Publica 2023, d’A Motoserra Perfumada
Quando: De quinta a sábado, às 21h, e aos domingos, às 20h. Até 10 de novembro
Onde: Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000, Paraíso)
Quanto: R$40 e R$20 (meia-entrada). Os ingressos são vendidos pela internet no site Ingresso Rápido e na bilheteria do teatro duas horas antes do início da peça
Duração: 100 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Capacidade: 100 pessoas

Ficha técnica:  
Texto e direção artística: Biagio Pecorelli
Elenco: Biagio Pecorelli, Bruno Caetano, Camila Rios, Edson Van Gogh, Jonnata
Doll e Leonarda Glück
Diretora de produção: Danielle Cabral
Desenho de luz: Cesar Pivetti
Assistente de iluminação e operador de luz: Rodrigo Pivetti.
Preparação Viewpoints: Guilherme Yazbek
Assistente de direção: Dugg Monteiro
Cenário e figurinos: Rafael Bicudo e Coko
Design de som/sonoplastia/trilha sonora: Dugg Monteiro
Produtoras de operações: Victória Martinez e Jessica Rodrigues
Arte de divulgação: Bruno Caetano
Fotos de divulgação: Priscila Prade
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Realização: A MOTOSSERRA PERFUMADA
Produção geral: DCARTE E CONTORNO

 

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Justeza da Fúria

A mais recente peça da coreógrafa Lia Rodrigues transforma o palco num mundo de f(r)icção em constante mudança. Fúria desloca-se nas fronteiras entre dança, performance, instalação e ritual, mirando tanto o imaginário como a consciência do espectador. Foto: Sammi Landweer / Divulgação

Os corpos de nove bailarinxs da companhia (Leonardo Nunes, Felipe Vian, Clara Cavalcante, Carolina Repetto, Valentina Fittipaldi, Andrey Silva, Karoll Silva, Larissa Lima e Ricardo Xavier) traçam  formas em meio às roupas, sacos plásticos, sobras, em uma mistura de estruturas, cores e texturas. Foto: Sammi Landweer / Divulgação

Em Fúria, um mundo povoado de imagens de dor, beleza, violência, opressão e liberdade se constrói e se desmancha sem trégua, diante dos olhos da plateia. Foto: Sammi Landweer / Divulgação

Um trecho de uma música tradicional dos povos indígenas Kanak, da Nova Caledônia, repetido infinitamente, acompanha grande parte da performance. Foto: Sammi Landweer / Divulgação

Miséria, fome, escravidão. Sabotagem, estupro, negação. Tortura, drogas, crimes. Corpos dominados. Revolta. A trupe de Lia Rodrigues acusa a brutalidade da sociedade brasileira no espetáculo Fúria. A companhia da coreógrafa está situada na Favela da Maré, no Rio de Janeiro e o lugar de fala é imprescindível, no caso, para valorizar o engajamento.  A favela, entendida por extensão dos bairros negros e mais pobres a seus cidadãos desrespeitados em seus direitos civis e constitucionais.

Fúria estreou em novembro de 2018 em parceria com o Festival de Outono de Paris no Théâtre National de Chaillot (Paris) e no teatro Le Cenqquatre (Paris).  A peça já passou por sete países, 16 cidades, em mais de 40 apresentações, inclusive pelo Festival de Curitiba em março. Fica em cartaz no Sesc Consolação, em São Paulo, de 10 de outubro até o dia 27 deste mês.

A obra é o 20º trabalho da Lia Rodrigues Cia de Danças e o nono após a parceria do grupo com a Redes da Maré, uma OSCIP (Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público) criada e dirigida por moradores e ex-moradores da Maré, que busca criar e executar projetos de impacto na trajetória dos moradores de áreas periféricas.

O título Fúria reflete bem a situação do Brasil atual. Sentimento de perplexidade e indignação. A opressão escancarada. A insegurança está em toda parte e virou “lei” mais conhecida pelas pessoas comuns, ameaçadas em suas vidas constantemente.  No Brasil, um jovem negro é assassinado a cada meia hora. Isso é a barbárie. Preservar a existência a qualquer custo  é o objetivo de muitas criaturas ameaçadas,  inclusive pelo poder do estado.

No espetáculo, uma massa disforme de resquícios coloridos toma forma de procissão de seres humilhados. Algo ganha força para um ataque rítmico. Muito do que é assustador nas reações humanas. Uma galeria de personagens onde o grotesco e o que já chamaram de beleza expressam o horror em suas cenas.

A coreógrafa brasileira luta há quarenta anos contra a discriminação. Reflete desta vez sobre a violência no Brasil e trabalha a questão da alteridade, investiga as relações de poder, lança luz sobre o contexto de acirramento e polarização, destaca que muitas fúrias são atravessadas nos territórios em que polícia invade favelas atirando de helicópteros e matando até crianças.  Há imagens de gente baleada, de rainha africana, de escravo arrastado. Há pulsões do pensamento de escritoras negras como Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro e Sueli Carneiro, de livros que pensam as conexões entre racismo e capitalismo como Crítica da razão negra, de Achille Mbembe.

No país onde um autocrata foi eleito (não por mim: #elenão), a odiosidade é projetada no espaço dos noticiários, é matéria-prima das políticas públicas claramente de extermínio; está presente nas declarações desprezíveis de políticos que envergonham a democracia e comprometem o presente e o futuro do país.

Fúria traça uma confissão sucessiva da dominação de um corpo (social ou individual) sobre o outro. A exclusão social gerou imagens duras, perturbadoras e violentas no palco. Não nos esqueçamos que a sordidez é maior na real.

Serviço

Fúria

Criação: Lia Rodrigues
Assistente de criação: Amália Lima
Dançado e criado em estreita colaboração com: Leonardo Nunes, Felipe Vian, Clara Cavalcante, Carolina Repetto, Valentina Fittipaldi, Andrey Silva, Karoll Silva, Larissa Lima, Ricardo Xavier.
Dramaturgia: Silvia Soter
Colaboração artística e imagens: Sammi Landweer
Criação de Luz: Nicolas Boudier
Produção e difusão internacional: Thérèse Barbanel/Colette de Turville
Secretária: Glória Laureano
Professoras: Amália Lima, Sylvia Barreto
Produção Brasil: Corpo Rastreado / Gabi Gonçalves
Coprodução: Chaillot – Théâtre national de la Danse, CENTQUATRE-Paris, Fondation d’entreprise Hermès dans le cadre de son programme New Settings, Festival d’Automne de Paris, MA scène- nationale, Pays de Montbéliard, Les Hivernales – CDNC (França); Künstlerhaus Mousonturm Frankfurt am Main, Festival Frankfurter Position 2019 –BHF-Bank-Stiftung, Theater Freiburg, Muffatwerk/Munique (Alemanha); Kunstenfestivaldesarts, Bruxelas (Bélgica); Teatro Municipal do Porto, Festival DDD – dias de dança (Portugal).
Realização: Sesc SP
Idealização: Lia Rodrigues Companhia de Danças com o apoio da Redes da Maré e do Centro de Artes da Maré
Lia Rodrigues é artista associada ao Chaillot-Théâtre national de la Danse e ao CENTQUATRE, França.
Agradecimentos: Zeca Assumpção, Inês Assumpção, Alexandre Seabra, Mendel Landweer, Jacques Segueilla, equipe do Centro de Artes da Maré e da Redes da Maré.

SERVIÇO
Fúria
Lia Rodrigues Companhia de Danças
Quando: 10 a 27 de outubro de 2019; quintas, sextas e sábados às 21h; domingos às 18h
Onde: Teatro Anchieta (280 lugares) – Rua Doutor Vila Nova, 245, São Paulo – SP
Duração: 70 minutos | Não recomendado para menores de 18 anos
Ingresso: R$ 12,00 (trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculados no Sesc e dependentes/Credencial Plena) | R$ 20 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor de escola pública com comprovante) | R$ 40,00 (inteira).

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A cena dos Doutores da Alegria

Os Doutores Da Alegria encerram curtíssima temporada do espetáculo Aquele Momento Em Que…, nesta segunda-feira, 30/9, no Galpão Do Folias . Foto: Lana Pinho

Por trás daquela máscara de palhaço há um ser que chora, perde a paciência com o filho, faz coisas desinteligentes, mas principalmente se comove profundamente com a dor humana. Quando se caracteriza de doutor da alegria faz de tudo para diminuir ou apagar o sofrimento dos pequenos internados em hospitais públicos de São Paulo. São muitos profissionais, mas insuficientes para tanta carência de afetos.

Atuar como Doutores da Alegria parece uma nobre missão para aqueles que buscam ativar de sopro vital com o riso, os pacientes, com doses de esperança no futuro. E a trajetória é feita de vitórias felizes e vitórias tristes, quando meninos viram anjos.

No espetáculo Aquele Momento Em Que… a trupe fala sobre os desafios cotidianos enfrentados por esses profissionais, que labutam na saúde pública. As tentativas de fazer o melhor no trabalho, os momentos à paisana fora do hospital. Quatro deles representam esse grupo na peça. Estão em cena os palhaços David Taiyu, Suely Andrade, Sandro Fontes e Tereza Gontijo.

A dramaturgia de Nereu Afonso expõe em pequenos quadros, quase flashs, os momentos e motivações de cada um deles. Perder óculos, se atrapalhar com pequenas atos ou como alimentar a tolerância com as birras do filho são cenas exploradas.

Não é fácil integrar os Doutores da Alegria. O contexto hospitalar que salienta que a vida está sempre por um fio, as resistências dos pequenos, as brincadeiras que exigem improvisação dependendo das respostas do outro jogador.

Na peça eles narram / mostram alguns episódios vividos por eles nos hospitais públicos onde, sabemos, há uma precariedade de equipamentos e escassez de médicos, enfermeiros. Bons palhaços que são, eles valorizam os pequenos detalhes, o jogo de corpo, alguma gag. Quase que demonstram como constroem as atividades lúdicas, mas há o truque que é segredo.

A organização Doutores da Alegria atua no Brasil há 28 anos. A peça tem essa função também de estreitar os laços com quem está fora desse circuito de hospitais, para ressaltar a dignidade do trabalho.

As mães estão sempre presentes junto aos seus filhos; alguns – poucos – pais também. Eles pensam que os homens precisam participar mais desses processos. São tantas coisas fora do lugar. Não à censura. Sim à cultura. Eles lembram. A luta é boa por uma sociedade melhor.  

Apesar das manobras bem-sucedidas do humor, Aquele Momento Em Que… traz um tom de melancolia, talvez por tratar de algo tão surpreendente como a vida, que goteja. Talvez porque a tarefa é árdua ao atravessar cada porta, cada corredor, cada situação para extrair o riso e estancar a dor.

Humanos que são, esses palhaços também sentem os efeitos do desmonte da cultura, dos sofrimentos da Natureza e das ações maléficas de um grupo que ocupa o poder, das ameaças constantes à vida nesse país varonil; a vida que é o grande bem defendido por esses doutores. Mas encarar dificuldades faz parte do métier desses profissionais, que seguem espalhando dignidade no cenário dos hospitais.  

Serviço:
Aquele Momento Em Que…
do Doutores Da Alegria
Quando: sexta, sábado e segunda, às 21h; domingo, às 20h. Até 30 de setembro
Onde: Galpão do Folias (Rua Ana Cintra, 213, Santa Cecília)
Quanto: Ingressos gratuitos
Capacidade: 99 lugares
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 12 anos

Ficha técnica:
Direção: Val Pires
Dramaturgia: Nereu Ramos
Direção de movimento: Ronaldo Aguiar
Elenco
Cenário: Bira Nogueira
Figurino: Cleuber Gonçalves
Assistentes de figurino: Glória Amaral, Leninha Castilho
Desenho de luz: Giuliana Cerchiari
Assistente de Iluminação: Emerson Fernandes
Trilha sonora: Leandro Simões
Coordenação de produção: Marcela Castilho
Assistente de produção: Suenne Sotero
Realização: Doutores da Alegria

 

 

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Corpo estranho, lírico e político
Crítica do espetáculo E.L.A

E.L.A Foto: Guilherme Silva

E.L.A é primeiro solo da atriz cearense Jéssica Teixeira. Tem pouco a ver com o Ela (Her)¸ do diretor e roteirista Spike Jonze, que explora a relação de um homem que se apaixona pelo sistema operacional de uma máquina. O filme expõe a solidão contemporânea e novas configurações de relacionamento amoroso. Se pensarmos em esgotamento de modelos há sempre fios de conexão nas investigações artísticas atuais. Cito a obra cinematográfica por conta do nome da peça. O título do espetáculo remete à abreviatura de uma doença: Esclerose Lateral Amiotrófica – ELA.

Segundo informações em sites de saúde, trata-se da degeneração progressiva dos neurônios motores no cérebro e na medula espinhal. Isso quer dizer que esses neurônios não conseguem transmitir os impulsos nervosos de forma adequada. Essa degeneração provoca atrofia muscular, seguida de fraqueza muscular crescente. Também designada de Lou Gehrig, calcula-se que, no Brasil, 10 mil pessoas têm a doença.

Num mundo tão preconceituoso com os que não estão dentro de uma bolha hegemônica, vale destacar que Ela não atinge o raciocínio intelectual, a visão, a audição, o paladar, o olfato e o tato. E que, em grande parte dos casos, a esclerose lateral amiotrófica não afeta as funções sexual, intestinal e vesical.

O astrofísico britânico Stephen Hawking foi diagnosticado com a doença quando tinha 21 anos de idade. Mesmo sem poder movimentar o corpo ou falar durante a maior parte de sua vida, o cientista avançou em pesquisas na Física, com destaque para os trabalhos sobre as origens e estrutura do Universo, fundamentais para entender o papel dos buracos negros.

Atriz Jessica Teixeira. Foto: Carol Veras

Eu me tornei um ser indiscernível. Não pertenço a mim mesma”, registra uma fala do espetáculo. “Não queremos ver coisa alguma. Não queremos que as coisas nos vejam. Como Narciso, que recusa o espelho. Como Salomé, que decepa a própria cabeça”.

Ao tratar de assuntos relacionados diretamente ao corpo – beleza, saúde, política, feminilidade -, a artista envereda pela dinâmica da exclusão capitalista. É perversa e calculada essa eliminação de corpos que tem algumas miras prioritárias .

“Pudesse ser apenas um enigma. Mas não. O corpo faz problema. O corpo dá trabalho. Pode ser muitos. Pode ser, inclusive, o que não queremos. O corpo será sempre o que ele quiser? É social. É político. É tecnológico. É inconsciente. Pensamento. Desejo. Invisível. Invasor. O corpo se despedaça. É estrutura. É movimento. Mas, sobretudo, é estranho. Eu sou o outro e a outra. Teimo e re-existo. Ele se degenera e E.L.A se faz impossível”.

Texto de apresentação do espetáculo

Ao carregar episódios biográficos, a atriz traça em paralelo uma linha histórica desde o corpo da Grécia, encontrando as guerras mundiais e as ações mais recentes.

Jéssica fala sobre beleza, outras formas de beleza, jeitos de estar no mundo. Faz do seu corpo um ato político. Subverte lógicas. Convoca o protagonismo para si. Esquadrinha a ditadura do corpo bonito e funcional, aquele que não se encaixasse nessa régua seria exterminado.

A artista desafia a regra e assume sua diferença. A beleza da sua diferença exposta em cena para deslocar olhares contaminados. Jéssica convoca um olhar lírico para um lugar ético, onde os corpos importam em suas singularidades, sem hierarquizações de lutas contra as opressões.

O espetáculo não apresenta propriamente uma história. São fragmentos trançados por uma lógica de luta, em várias angulações e miragens. Com a utilização de vídeos e imagens em foto, a atriz cita, por exemplo, Josef Mengele – oficial alemão da Schutzstaffel (SS) e médico no campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial – que liderou os procedimentos científicos em pessoas que aparentassem algum caractere de deficiência física ou psíquica, adotando o método da eutanásia.

Em seguida, projeta robôs com camisas da seleção canarinha a defender nas ruas o indefensável. Triste Brasil.

Sabemos que as técnicas de extermínio foram sofisticadas e até mesmo legalizadas com manobras do Judiciário, Legislativo e Executivo. Os golpes na economia – previdência, direitos trabalhistas, direitos à saúde; redução de acesso a educação,cultura, futuro, comprometimento das reservas naturais e atentados contra o meio ambiente são mecanismos de aniquilamento de corpos indesejados.

 

E.L.A . Foto: Carol Veras

No escuro, uma voz com ligeiro sotaque cearense mergulha na subjetividade de autoimagem e autocrítica para construir uma narrativa. A voz quer que entendamos o corpo, suas dores, limites e prazeres. Que haja um diálogo honesto com outros corpos.

São alguns minutos. De repente, o espetáculo dirigido por Diego Landin, explode num clarão, um branco chocante que de imediato irrita e machuca os olhos de quem vê. Esse choque gera uma sensação de desconforto. Jéssica também sente desconforto quando seu corpo singular, estranho, com o tronco reduzido – esse registro diferente do convencional – chega antes dela para dizer um oi.

Entremeando dados sobre uma possível história dos impositores da beleza, a atriz assume pose de diva pop, desafiando as convenções do olhar atua como ciborgue e vai desconstruindo uma estética. A protagonista acende que é o mesmo patamar de opressão de que são vítimas mulheres, nordestinos, pretos, indígenas, quilombolas, indivíduos com algum tipo de deficiência, periféricos e LGBTs.

O teatro é uma máquina muito poderosa. E.L.A tem um figurino-síntese da peça, criativo, delicado e agressivo, de Yuri Yamamoto, do Grupo Bagaceira de Teatro, que também assina a direção de arte. A iluminação, de Fábio Oliveira, com videomapping, contracena com a atriz. E os músicos Fernando Catatau e Artur Guidugli estão na composição da música Dancing Barefoot.

A montagem mescla momentos de ataque combativos e outros mais líricos, de uma história geral do corpo, às especificidades da trajetória de Jéssica. A artista é muito generosa ao desenhar como os poderosos elegem seus alvos de destruição, das ameaças de manda-chuvas e políticos à saúde do povo.

Com arte, energia, vigor Jéssica celebra a vida. É testemunha de que a vida é extraordinária em muitos aspectos. E comenta quão valioso é estar presente, com a possibilidade de se reinventar e, com muita criatividade, ativar os sentidos.

Ficha Técnica
Elenco: Jéssica Teixeira
Direção: Diego Landin
Diretor de arte: Yuri Yamamoto
Diretor de videomapping: Pedro Henrique
Consultora dramatúrgica: Maria Vitória
Figurinista: Yuri Yamamoto e Isac Bento
Coreógrafa: Andréia Pires
Vocal coach: Priscila Ribeiro
Escultor: Kazane
Trilha Sonora: Diego Landin (Dancing Barefoot por Fernando Catatau e Artur Guidugli)
Cenotécnico: Marsuelo Sales
Iluminador: Fábio Oliveira
Videoclipe: Gustavo Portela
Música do videoclipe: Saúde Mecânica de Edgar
Textos: Jéssica Teixeira, Vera Carvalho e fragmentos de Eliane Robert Moraes e Paul Beatriz Preciado
Produção: Jéssica Teixeira
Realização: Catástrofe Produções

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