Arquivo do Autor: Ivana Moura

Valdi Coutinho vai atuar em outros palcos

Valdi Coutinho, animador cultural no Recife, incentivador principalmente do teatro, morreu nesta terça-feira

Durante as filmagens do documentário Múltiplo Valdi, de Rafael Coelho

De espírito inquieto, Valdi Coutinho se pluralizou. Jornalista esportivo, crítico de teatro, dramaturgo, ator, escritor, professor, pintor, carnavalesco e religioso. No início deste ano foi lançado seu biodocumentário Múltiplo Valdir, dirigido, roteirizado e montado por Rafael Coelho, com produção de Cláudia Moraes, e de Amaro Filho, da Página 21, projeto aprovado pelo Funcultura.

Aos 77 anos, Valdi Coutinho morreu no começo da tarde desta terça-feira (14), no seu apartamento, no bairro de Santo Amaro, no Recife.

Vítima de três AVCs, Valdi se locomovia nos últimos tempos com dificuldade, mas mantinha sua conexão com o mundo através da redes sociais, onde deixava sua posição política mais conservadora ou treinava sua verve cômica.

Em 2015 foi o homenageado do 17º Festival Recife do Teatro Nacional e não perdeu a ironia para atestar que quase não acreditou, pois “as pessoas sempre lembram de quem está no poder (da mídia, do sucesso, da gestão pública, das finanças, etc) e eu estou tão apagadinho, há sete anos, depois que fiquei semiparaplégico em função das sequelas de dois AVCs que tive em 2009”, comentou na ocasião.

Valdi manteve uma coluna diária sobre artes cênicas no Diario de Pernambuco, Cena Aberta,  um espaço de prestígio que muito contribuiu para a difusão e o fortalecimento do teatro em Pernambuco. Sempre que falava dos 30 anos de labuta no Diario não deixava de agradecer às pessoas que lhe deram apoio: “quero dividir este mérito e reconhecimento com a jornalista Lêda Rivas, minha editora do Caderno Viver por duas décadas, os jornalistas Antônio Camelo, Adonias de Moura e José Maria, este último quem me entregou a missão de fazer a coluna de artes cênicas (substituindo Adeth Leite, quando ele faleceu), todos os três de saudosa memória”.

Por pouco, ele não foi padre. Duas tias investiram para que seguisse a carreira eclesiástica, mas faltou talento para o destino clerical, o que sobrava para as atividades artísticas e de comunicação. Começou a fazer teatro aos 10 anos no Seminário de Nazaré da Mata, depois, no Seminário de São Pedro, em Natal, e vários musicais na cidade de Gurupi, Goiás.

No Recife, estreou com o elenco dos aspirantes ao TAP, na peça A Falecida, de Nelson Rodrigues, com direção de Valter de Oliveira. Depois vieram Hoje É Dia de Rock, direção de Marcus Siqueira; Os Mistérios do Sexo, de Coelho Neto, com direções de Alex Gomes e Carlos Bartolomeu; Natal na Praça, direção de Clênio Wanderley; Jogos na Hora da Sesta, direção de Geninha Rosa Borges; As Tias, direção de Guilherme Coelho; O Beijo da Mulher Aranha, direção de José Francisco Filho; A Louca do Jardim, direção de Romildo Moreira; Cabaré Brazil¸ direção de Carlos Bartolomeu; O Buraco É Mais Embaixo, direção de Fábio Costa e Américo Barreto, entre outros.

Dirigiu dezenas de montagens entre elas, Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado, com George Meireles, Feliciano Felix; Os Mistérios do Sexo, de Coelho Neto, com Sharlene Esser. Também escreveu textos dramáticos tais como Os Coronéis Morrem Tarde; Paulete, Danação e Anjo Azul (inspirado num conto de Cícero Belmar)

Protagonizou dois curtas, um de Fernando Spencer, O Último Bolero no Recife, e outro de Ricardo Spencer, Força Brasil.

Como carnavalesco, assumiu o Baile dos Artistas depois de dois anos de assessoria de imprensa. No jornalismo esportivo, Valdi registra a façanha de cobrir quatro Copas do Mundo e uma Olimpíada. 

A jornalista Lêda Rivas, escreveu nas redes sociais: “Nosso companheiro estava, há muito tempo, afastado do dia a dia da redação. Acometido de problemas de saúde (sofreu três AVCs e tinha dificuldades de mobilidade) não foi esquecido pelos companheiros, os quais, eventualmente o cercavam de atenções e tentavam minimizar a crise financeira que enfrentava. Faz poucos anos, contei com a participação dele na confraternização em prol do Natal da APAE, que promovo junto com os coleguinhas. Ocasião em que partilhamos gratas e divertidas memórias e em que, ele, emocionado, agradeceu-nos o carinho demonstrado nas horas difíceis. Chorou: ‘Obrigado por se importarem.’ Não sei as circunstâncias da sua morte. E, nestes tempos cruéis de pandemia, lastimo que não possamos lhe prestar as últimas homenagens e dizer-lhe o quanto o seu espírito inquieto e os seus arrebatamentos nos ensinaram. Vai na paz de Deus, amigo. Qualquer dia, a gente vai se encontrar”.

Em novembro de 2015, postamos aqui no Satisfeita, Yolanda? essa entrevista com Valdi Coutinho, que reproduzimos aqui. 

ENTREVISTA // VALDI COUTINHO

Valdi, você trabalhou muito anos no Diario de Pernambuco. Você fez parte da editoria de Esportes também? Como eram divididas suas tarefas?
Passei quase 30 anos no DP e durante algum tempo me dividi entre Esportes, com o editor Adonias de Moura, e Viver – artes cênicas – com a editora Leda Rivas, o que não criava problema nenhum, pois os dois editores compreendiam minha simbiose entre o futebol e o teatro. Quando viajava, – e viajei muito, conheci toda a América do Sul, Estados Unidos, e fiz quatro Copas do Mundo (Argentina, Espanha, México e Itália), passando dois meses em cada um desses países,- era substituído na coluna diária de artes cênicas por jornalistas-colegas maravilhosos, tais como Sanelvo Cabral, Inês Cunha, Marilourdes Ferraz, entre outros, e nunca houve problemas. Grato, então a Leda Rivas e ao saudoso Adonias de Moura. José Maria, esse último foi quem me entregou  a missão de fazer a coluna de artes cênicas (substituindo Adeth Leite, quando ele faleceu), todos os dois de saudosa memória.

No período em que você atuou, o teatro pernambucano era mais vibrante? Tinha mais projeção?
Não, quando eu comecei a escrever sobre artes cênicas só havia o TAP, chamado de Jardim dos Oliveiras, o Tucap, Leandro Filho e seu teatro infantil. Aí eu fui incentivando, abrindo espaço, dando notícias sobre outras produções e começou o rebuliço, e passamos a ter um movimento teatral, chegando o Recife a ser o 3º polo de produção teatral. Enfim, sem falsa modéstia, o Recife começou a ter projeção nacional.

Como foi o seu encontro com o teatro? Como ator, diretor, crítico?
Naquela época não existia Internet nem redes sociais. O jornalista tinha que estar por dentro de tudo, bem informado sobre o que ia escrever, e eu estava até demais, só assim tinha informações, críticas e resenhas para escrever sobre teatro, diariamente. Aos 10 anos já fazia teatro interpretando Tarcísio, o mártir da Eucaristia, no Seminário de Nazaré da Mata, sob a direção do professor Higino. Depois, no Seminário de São Pedro, em Natal, comandava o show Xô Arara, Arara Show, aos domingos, para fugirmos da sala de estudos, à noite. Aos 16 anos, na cidade de Gurupi, Goiás, dirigi vários espetáculos musicais apresentados no Cine Boa Sorte, de sr. Moisés, com coreografias, esquetes dramáticos e cômicos, etc, que lotavam a casa. Quando jornalista, no Recife, fiz estreia na peça A Falecida, de Nelson Rodrigues, pelo elenco dos aspirantes ao TAP, direção de Valter de Oliveira. Depois fui presidente do Teatro Ambiente, do MAC, substituindo Petrúcio Nazareno, fundei o Teatro Experimental de Olinda, TEO, onde despontaram inúmeros talentos, como o hoje famoso José Manoel.E não parei mais, fazendo e escrevendo sobre teatro.

Uma crítica de teatro ainda tem alguma serventia?
Uma crítica de teatro ainda tem incomensurável valor não só para o público mas especialmente para os que fazem teatro.

Você ainda escreve críticas? O que você acha importante analisar?
Não escrevo mais críticas. Mas, acho tudo muito importante na crítica, desde a análise do texto até da contrarregragem.

Como se forma um bom crítico de teatro?
Um bom crítico, ao meu ver tem que compreender tudo, desde os bastidores até o produto final de uma encenação.

Uma das grandes polêmicas da produção pernambucana foi a estreia, e a curta temporada, da montagem Um Bonde chamado desejo, da qual você era assessor de imprensa. A crítica, num caso raríssimo, foi publicada duas vezes em página inteira no JC, porque trocaram a assinatura do autor da matéria. E não era uma crítica favorável ao espetáculo. O que diria sobre isso?
Naquela época existia uma guerra demolidora, amarga, azeda, de bastidores. Conheço produtores que ligavam para os teatros a fim de saber quantas pessoas tinham ido ver o outro espetáculo em cartaz para compará-lo com o seu. Um Bonde Chamado Desejo foi vítima dessa discórdia, sobrou até pra mim, foram pedir minha cabeça no jornal porque eu fiz assessoria de imprensa do espetáculo. Sofri muito na época. Foi uma baixaria. Saímos incólumes dessa violência, o espetáculo fez sucesso e eu permaneci escrevendo sobre artes cênicas. Não mexe comigo, eu não ando só…

O que acha da cena teatral brasileira contemporânea? Estamos mais ricos ou mais pobres artisticamente
Acho que estamos mais pobres. O valor comercial do espetáculo prevalece, o público adora ver pintas no palco. Mas isso está passando graças a uma nova geração que está chegando com excelentes espetáculos

Na sua carreira de crítico tem algum texto que você se arrependeu de ter escrito. Por quê? Ou alguma crítica que você lamentou não ter escrito. Por quê?
Não, não. Quando eu achava que o espetáculo era pobre demais eu simplesmente não fazia crítica para não prejudicá-lo.

Quais as melhores peças que você já conferiu?
As melhores que conferi são muitas, mas eu destacaria as dirigidas por Antonio Cadengue, Carlos Bartolomeu, José Pimentel, Guilherme Coelho, José Francisco Filho, Geninha Rosa Borges, entre outros, os citados são os melhores encenadores para mim.

Você tem alguma mágoa do teatro ou do jornalismo pernambucanos?
Não tenho. Mágoas e ressentimentos provocam câncer, infarto, depressão, já não sei o que são esses sentimentos. Se houve, passaram, hoje eu vivo o presente e cada dia como se fosse o último.

O que você faz do seu tempo?
Amo. A Deus, à vida, ao mundo, antenado e animado pelas redes socais, pela Internet.

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Itaú Cultural lança edital de emergência para cênicas

          O primeiro edital do Itaú Cultural dessa leva “Arte como respiro” é direcionado aos trabalhadores das artes cênicas (circo, dança e teatro) e está com inscrições abertas desta segunda-feira (06/04) até sexta-feira (10/04).            Na foto, o ator Paulo de Pontes, da Casa Maravilhas no Recife, apresenta programa, sem remuneração, para crianças  no Youtube durante a quarentena. Foto: Reprodução

Cerca de cinco milhões de pessoas atuam no setor cultural no Brasil, segundo dados apresentados pelo IBGE em 2018. Todas foram atingidas pela pandemia do novo coronavírus, de uma forma ou de outra. Acontece que neste país tropical de imensas desigualdades sociais e econômicas, e mais, há trabalhadores da cultura que se garantem por dois, três meses de quarentena, e aqueles que foram nocauteados com essa nova realidade brasileira e mundial. Alguns artistas estão na cota dos mais vulneráveis com essa avalanche que atinge toda a cadeia de produção.

Os artistas independentes, autônomos, que vivem de bilheteria ou de projetos foram surpreendidos. Com conta bancária no vermelho, boletos pra pagar e tarefa de garantir a alimentação da temporada. Situação complexa. Diante da crise, a cultura pede socorro. De que forma os governos federal, estaduais e municipais estão colaborando com a cultura? Assunto para alimentar muitos debates nas redes sociais e grupos de zap.

Muitos artistas expõem seus trabalhos nas redes e plataformas, sem remuneração, nessa temporada de isolamento social. O ator Paulo de Pontes, da Casa Maravilhas, do Recife, é um deles. Todo os dias, Paulinho lê um livro infantil, da Biblioteca Moura Torta, para os miúdos. O ator não está sendo remunerado por essa ação, paralisou as produções e precisa pagar as contas. São milhares na mesma situação.

O desempenho de criação online do meio artístico chamou a atenção dos dirigentes do Itaú Cultural, que resolveram criar e lançar com presteza o Arte como respiro: múltiplos editais de emergência. As inscrições estão abertas no site do instituto, desta segunda-feira, 6 de abril, até sexta-feira, 10 de abril. Interessados devem se apressar.

Com essa iniciativa, o Itaú Cultural vai apoiar os artistas que foram compelidos a atuar isoladamente e sem remuneração, devido ao isolamento social solicitado pelos organismo de saúde devido à pandemia da COVID-19. No intuito de gerar recursos na economia criativa, essa primeira etapa irá selecionar os projetos de artes cênicas – circo, dança e teatro –, em dois eixos.

O primeiro vai considerar os materiais elaborados no período da quarentena – proposta de apresentação em tempo real ou envio de programa já gravado em vídeo, com a exigência de que seja produzido nesta condição de recolhimento. O outro é direcionado a espetáculo cênico completo gravado anteriormente, mas com algum ajuste ao momento de recolhimento, “com uma intervenção gerada no momento de suspensão social”.

As inscrições devem ser realizadas pelo link https://itaucultural.formstack.com/forms/artecomorespiro .

120 projetos – até 90 no eixo “trabalhos produzidos na quarentena” e até 30 no eixo “espetáculo cênico completo já gravado” – serão selecionados pela equipe de programadores do Núcleo de Artes Cênicas da organização. O grupo avisa que serão levados em consideração critérios poéticos, apuro técnico, capacidade de realização e maior possibilidade de recepção de públicos.

A remuneração financeira será de até R$ 10 mil para todos os selecionados, como pagamento pelo licenciamento dos direitos autorais do trabalho.

Os contemplados serão informados por e-mail no dia 25 de abril. O material selecionado será exibido ao público de acordo com a agenda organizada pela equipe de artes cênicas dentro do prazo de até dois meses, com possibilidade de alteração diante do quadro social da pandemia ou de adequação do Itaú Cultural.

“Acreditamos que as instituições que têm condições semelhantes a nós, possam desenvolver programas e ações para oferecer mais imaginação, criatividade e oxigênio afetivo, em circunstâncias tão difíceis para a população, e, ao mesmo tempo, garantir algum apoio para a economia da cultura”, incentiva Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.

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Experiência artística do êxtase vai à exaustão

Nereu Jr / Divulgação

Foto: Silvia machado / Divulgação

Crowd (Multidão), espetáculo da franco-austríaca Gisèle Vienne, abriu a 7ª MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, na noite de quinta-feira, 5 de março. A artista buscou o mote da coreografia em suas experiências dos “clubs” de Berlim dos anos 1990 para erguer uma impressionante encenação de rave regada a música techno, manipulação de tempos e ritmos estampados nos corpos bem treinados de 15 jovens dançarinos.

Ao som de uma trilha eletrizante concebida por Peter Rehberg, com músicas de artistas como Jeff Mills, Global Communication e Underground Resistance, Crowd propõe nessa festa selvagem um mergulho interior nessa jornada hedonista. Experimentos para a figura perder o controle coletivamente na perspectiva de vivenciar algo profundo. É o que defende Gisèle Vienne.

A artista compõe imagens exuberantes. O chão é coberto por uma espécie de terra e lixo orgânico, permitindo que esse cenário remeta a uma noite de farra, que entra pela madrugada na Europa, em São Paulo ou em qualquer outro lugar.

Os 15 dançarinos entram em cena se movendo muito lentamente, o que, num primeiro momento, pode parecer uma representação de seres de outro planeta. Mas não é isso. Ou é, noutros termos? Eles se aglomeram, traçam marchas solitárias.

É a produção de um exercício de transe pela imersão em um ambiente sonoro intenso e repetitivo. A luz de Patrick Riou equaliza significados desse cenário, desenhando quadros de efeito impactante, das figuras que atravessam a noite perseguindo prazeres efêmeros ou um sentido para a vida.

Da plateia captamos o conjunto, um bloco de gente, ou cenas específicas, fisgadas dessas pequenas narrativas que surgem por todo o palco – encontros rápidos, corpos balançando em convulsões, beijos fugazes, jogos de mãos bobas que escorregam pelo corpo alheio, brigas, luxúria, solidão, estrago. Esses seres humanos falíveis acionam em 90 minutos amplificação narcísica.

Para mim, mais do que o êxtase proposto pela diretora, o que chega é o esgotamento pela repetição em vários ritmos e andamento nos movimentos dos intérpretes. Apreendo o que essa quantidade exagerada de opções, de ofertas, de relacionamentos não assegura ou atrai para uma relação duradoura. Tudo é fugaz.

Essa experiência sonoro-motora imersa em um ambiente de alta voltagem vibratória, pelo volume alto, pelas escolhas das músicas, pela simulação da perda do controle dos movimentos, tudo isso me remete a reflexões sobre os mecanismos inconscientes que alimentam a máquina capitalista atual.

As modulações de movimento, manipulação do ritmo, do tempo e intensidade dos gestos dos corpos expõem as emoções diluídas na multidão – algo opaco e translúcido – em estados alterados de consciência.

Os recursos técnicos, de produção e de efeito, como uma lata que explode ou fumaça que brota dos casacos são realmente impressionantes. A preparação do elenco expõe um virtuosismo, como se diria na modernidade, de trabalhar os corpos em câmera lenta, com movimentos em looping ou congelados em “frames”, que são realmente incríveis.

Mas é certa a associação com o estado psíquico do país e da plateia presente à abertura da MITsp, de um esgotamento causado por ataques constantes à democracia, às liberdades individuais e coletivas, às ofensivas ao direito de desejar e ser, as investidas contra a arte.

Abertura

O lugar de resistência da MITsp parece construído às custas de muito sacrifício, esforços que, quem está de fora, talvez não consiga supor. Mais uma vez, a mostra foi erguida em quatro meses, realmente um trabalho hercúleo. Em sua fala, o diretor de produção Guilherme Marques exaltou o trabalho da equipe e convidou o grupo para se juntar na frente do palco. Foi um dos momentos mais emocionantes da abertura, o esforço tornado carne.

Elegantíssimos os mestres de cerimônia da MITsp, os atores trans Gabriel Lodi e Renata Carvalho. O sempre admirado Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc-SP, – um exemplo de combatividade em prol da cultura –, avança com seu discurso e postura coerentes desde a primeira versão da mostra. O diretor do Itaú Cultural Eduardo Saron reforçou o apoio da instituição ao evento e à cultura. O jornalista Celso Curi leu o Manifesto Artigo 5º, pelas liberdades.

Ah, os políticos… destoam do ritual, principalmente os que ocupam cargos nas gestões de centro, de centro-direita. O mundo já está muito complicado para quererem repassar responsabilidades das diretrizes culturais insuficientes.

Sigamos, pois, lutando pela arte e pelas vidas. Inclusive as nossas.

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Terreira do Magiluth se alimenta de culturas e afetos

Casarão de número 465 na Rua da Glória é inaugurado nesta quarta-feira (15) como espaço cultural. Na foto, os atores Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sérgio Cabral, Bruno Parmera, Wellington Gomes (produtor), Pedro Wagner e Lucas Torres. Foto: Acervo Magiluth/ Divulgação

O Grupo Magiluth ganha o mundo com seus trabalhos, mas finca os pés no Recife, berço dos primeiros afetos, para criar arte, exercitar democracia, difundir cultura, re-existir. Nesta quarta-feira (15), a trupe abre as portas do espaço cultural, porque é mais que uma nova sede, território com quase mil metros quadrados, na região central da capital pernambucana, próximo ao tradicional Mercado da Boa Vista. O desejo e a intenção são de que o espaço tenha uma atuação cultural ampla na cidade, agregando outras pulsações e outras linguagens de música, dança, teatro exposições e outras artes. PC Silva e Martins comandam o show de abertura da terreira.

O casarão de número 465 da Rua da Glória tem história nas suas salas e no quintal arborizado. O local já foi palco de encenações, festas-encontros, ensaios. Até eu já ensaiei por lá quando tive a honra de dirigir junto com a atriz e diretora Lúcia Machado as atrizes Maria de Jesus Baccarelli e Leila Freitas na peça Os Desastres de Sofia. Muitas lembranças boas nesse pedaço da Boa Vista.

De 1993 a 2014, lá funcionou o Espaço Inácia Rapôso Meira, tocado na base da perseverança e da dedicação pela atriz Socorro Rapôso. Socorro interpretou Nossa Senhora na primeira montagem do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, em 1956, encenação que projetou nacionalmente Suassuna como dramaturgo. Ela integrou o elenco de outra montagem da peça, que ficou em cartaz por quase 20 anos. Devido a um aneurisma que a mantém acamada há anos, ela se afastou das atividades do espaço.

Vida longa ao novo espaço do Magiluth. Foto: Reprodução do Facebook

O Magiluth decidiu ocupar e revitalizar o extenso imóvel depois da gravação da série Chão de Estrelas, de Hilton Lacerda, no final de 2019. O trabalho audiovisual trata justamente do uso do espaço abandonado por uma trupe teatral e que brevemente será exibido pelo Canal Brasil.

Não é passe de mágica e a revitalização do espaço ainda precisa de muitos reparos. O Magiluth investiu mais de R$ 20 mil do fundo de caixa, mas vai correr atrás de apoio do poder público e de empresas privadas para que o casarão tenha uma vida longa e atuação plena de cultura. Sugestões são bem-vindas e podem ser enviadas para casaraomagiluth@gmail.com

Os rapazes do Magiluth sabem que é uma empreitada arriscada. Mas eles gostam desse exercício. O coletivo busca transformar o espaço em local de convivência e de trocas artísticas, afetivas, políticas. Aceita e anseia o engajamento da população para efetivas melhorias físicas do lugar. Nossos corações festejam mais uma conquista desses aguerridos aristas.

PROGRAMAÇÃO DO MÊS

Quarta-feira (15/01), às 20h
Show de abertura do casarão, PC Silva e Martins

De quinta (16/01) a sábado (18/01), às 20h; domingo (19/01), às 18h
Aquilo Que o Meu Olhar Guardou Pra Você, espetáculo do repertório do Magiluth

Sábado (18), às 14h
Oficina de maquiagem para Carnaval com Cris Malta (R$ 100, com material para a prática incluído)

Dia 22, às 20h
Show de Una (Aninha Martins) com Jonatas Onofre

Dias 23 e 24, às 20h
O Canto de Gregório, espetáculo do repertório do Magiluth

Dias 25 e 26, às 18h
Luiz Lua Gonzaga, espetáculo do repertório do Magiluth

Dia 29, às 20h
Lançamento do frevo Quer Mais o Quê?, da Banda de Pau e Corda, com Marcello Rangel

Serviço:

Onde: Casarão Magiluth (Rua da Glória 465, Boa Vista)
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia entrada), à venda pelo Sympla. Moradores da rua da Glória com comprovante de residência em mãos têm desconto

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Memória em chamas no Mercado Eufrásio Barbosa

Natali Assunção entrelaça vozes reais e ficcionais para investigar temas como aprisionamentos e liberdades femininos numa sociedade patriarcal no espetáculo Ainda escrevo para elas. Foto: Li Buarque / Divulgação

O espetáculo Ainda escrevo para elas joga foco sobre vidas de 11 mulheres comuns, de feitos minimalistamente extraordinários no enfrentamento de suas prisões subjetivas e sociais. O monólogo de Natali Assunção, com direção de Hilda Torres e Analice Croccia, percorre territórios de delicadezas e complexidades para traçar uma rebelião silenciosa (ou nem tanto) numa sociedade patriarcal.

Com a escuta da fala dessas mulheres de diferentes realidades sócio-econômico-culturais, as vivências, histórias e memórias, além da fricção com a escrita de Mia Couto, foi tecido esse monólogo, que faz duas apresentações, nos dias 10 e 11 de janeiro, no Teatro Fernando Santa Cruz (Mercado Eufrásio Barbosa – Varadouro, Olinda).

A peça integra o projeto Narrativas de uma memória em chamas, idealizado por Natali Assunção. Algumas ações foram traçadas para perscrutar os limites da liberdade e dos aprisionamentos no cotidiano feminino. Uma imersão na linguagem documental alinhavada pela literatura, pelo  ensaio fotográfico Espelhos, um filme e o monólogo. A dissertação Narrativas de uma memória em chamas: Uma experiência em teatro documentário, a ser defendida no início de fevereiro de 2020, no Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), traça pensamentos e vivências desse processo.

SERVIÇO

Ainda escrevo para elas
Quando: 10 e 11 de janeiro, às 19h30
Onde: Teatro Fernando Santa Cruz (Mercado Eufrásio Barbosa – Av. Joaquim Nabuco – Varadouro, Olinda)
Ingresso: R$ 30 e R$ 15

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