Despedida do espetáculo Ossos

Marcondes Lima e André Brasileiro na montagem Ossos. Foto: Ivana Moura

Marcondes Lima e André Brasileiro na montagem Ossos. Foto: Ivana Moura

Últimas sessões do espetáculo Ossos, do Coletivo Angu de Teatro. Hoje às 18h e 21h e amanhã (domingo), às 19h. A peça tem texto de Marcelino Freire e direção de Marcondes Lima, que também está no elenco. Ainda estão no palco os atores André Brasileiro, Arilson Lopes, Ivo Barreto, Daniel Barros e Roberio Lucado. A trilha sonora original é do talentoso Juliano Holanda.

A montagem eletriza os nervos em algumas questões, como o abandono amoroso que pode atingir qualquer um; a vida de zumbi depois do cadafalso afetivo; o envolvimento carnal com o comércio de sexo, o destino inexorável e o orgulho besta de alguns, que terminam em ossos e pó sem escapatória. As vaidades expostas em lente de aumento soam ridículas, mas profundamente humanas. Todos estão mortos, aponta um urubu para a plateia.

A encenação percorre a trilha do dramaturgo Heleno de Gusmão, que saiu de Sertânia rumo ao Recife, onde começou a fazer teatro e se mudou para São Paulo nas pisadas do namorado e na busca de êxito. A montagem de Marcondes Lima trabalha com o texto já fragmentado de Marcelino Freire. As cenas tecem um ziguezague da trajetória desse artista desiludido com a vida e o sucesso.

ossos. Coro de urubus. Foto Ivana Moura

Coro de urubus. Foto Ivana Moura

O amor fede e não tem bons sentimentos grita o coro de urubus no bailado insano e às vezes desconjuntado, exercendo a função de lembrar que essas existências tão orgulhosas de si mesmas valem muito pouco. Alimento deles. A morte está sempre à espreita.

Um homossexual de meia idade é o protagonista dessa peça triste com rasgos de irônicas gargalhadas. O intelectual nordestino que venceu na cidade grande, mas que busca nos becos sujos e nos garotos de programa a razão para continuar vivo.

Ossos disseca os traumas do desejo. Uma libido que foge ao controle do letrado. Muitas histórias parecidas nesse sentido. De muitos outros intelectuais.

A cena planejada pelo iluminador Jathyles Miranda é escura. São recônditos psíquicos, becos da paixão que não aceitam a plena luz. Os holofotes jogados do palco para a plateia é um traço propositalmente incômodo. Os sujeitos da peça se movimentam em suas ilusões de grandeza desfocados. Ambientes distorcidos vão se transformando em sala de ensaio, casa de Estrela, carro funerário, quarto, ruelas.

Ouvi gente reclamar da mimetização do coito dos dois amantes no palco. Algumas cenas exercem marco político. Além de muito interessante, traça um posicionamento. Numa época em que os direitos das chamadas minorias correm riscos, em que a intolerância recrudesce, a cena é defesa do gozo para todos, do jeito que se queira.

O espetáculo esbanja testosterona. Nos corpos dos personagens michês principalmente. E celebra o teatro poeticamente, mas lembrando que é duro chegar ao tutano.

ossos. Daniel Barros e Robério Lucado interpretam garotos de programa. Foto: Ivana Moura

Daniel Barros e Robério Lucado interpretam garotos de programa. Foto: Ivana Moura

SERVIÇO
Ossos, do Coletivo Angu de Teatro
Quando: Sextas, às 20h, sábados, às 18h e às 21h e aos domingos, às 19h
Onde: Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)
Ingresso: R$ 20 e R$ 10 (meia)
Classificação indicativa: 16 anos
Informações: 3355-3321

FICHA TÉCNICA
Texto: Marcelino Freire
Direção: Marcondes Lima
Direção de arte, cenários e figurinos: Marcondes Lima
Assistência de direção: Ceronha Pontes
Elenco: André Brasileiro, Arilson Lopes, Daniel Barros, Ivo Barreto, Marcondes Lima, Robério Lucado
Trilha sonora original – composição, arranjos e produção: Juliano Holanda
Criação de plano de luz: Jathyles Miranda
Preparação corporal: Arilson Lopes
Preparação de elenco: Ceronha Pontes, Arilson Lopes
Coreografia: Lilli Rocha e Paulo Henrique Ferreira
Coordenação de produção: Tadeu Gondim
Produção executiva: André Brasileiro, Fausto Paiva, Arquimedes Amaro, Gheuza Sena e Nínive Caldas
Designer gráfico: Dani Borel
Fotos divulgação: Joanna Sultanum
Visagismo: Jades Sales
Assessoria de imprensa: Rabixco Assessoria
Técnico de som Muzak – André Oliveira
Confecção de figurinos: Maria Lima
Confecção de cenário e elementos de cena: Flávio Santos, Jorge Batista de Oliveira.
Operador de som e luz: Fausto Paiva / Tadeu Gondim
Camareira: Irani Galdino

 

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Uma ideia sobre “Despedida do espetáculo Ossos

  1. Marcondes Lima

    Que texto inspirado e inspirador. Podem até dizer que digo isso porque sou citado. Fodam-se.
    Nos últimos tempos tenho ficado é “irado”. Não fujo da sina de todo brasileiro hoje em dia. Daí, como desocupado que faz teatro, delinquente e quase terrorista, não me cabe outra senão cometer atentados artísticos. E virão outros.
    Um amigo gay me disse que não vê sentido em falar dessas coisas da forma como colocamos no palco. Não lhe interessa fazer isso. Acho que ele gostaria de ver, sim, fora e dentro do palco, um mundo mais cor-de-rosa. Não o recrimino: quem não gostaria? Mas precisamos mesmo (e aqui vai um agradecimento direto a você) exercitar a crítica. Penso que o o gostar e o não gostar é uma coisa bem diferente do criticar. E começamos a criticar exatamente quando enxergamos no mundo as suas fraturas expostas. Além disso, particularmente, não me interesso por outra coisa senão ficar entre o doce e o amargo quando poetizo no palco.
    Amigas vieram me falar que o mundo já está tão bruto, tão triste, tão pesado que prefeririam ver no palco uma representação mais amorosa, mais fraterna, mais delicada. Sobre essas, eu acho que bateu forte a animalidade do sexo, como exposta, e o alto índice de macheza gay na cena. Está mesmo difícil ser mulher e ser gay nesse mundo. Mas como esquecemos fácil de que somos animais. Humanos e não menos animais que os urubus. Amorosidade e fraternidade é o que não falta nesse espetáculo. Nisso fomos bem cuidadosos. Não vê isso aquele que fica cego diante do desconforto.
    Diante do que escutei eu fiquei apenas calado, porque minha função é mesmo encarar e escancarar o desconfortável. Mesmo que o mundo fosse um mar de rosas eu não deixaria de lembrá-lo sobre a existência dos espinhos e das raizes.
    No delírio de Heleno de Gusmão (autor/personagem de si mesmo) ele assiste a ascenção de Estrela (a trans que eu incorporo) ao som de Chavela Vargas recitando um poema oração: “Senhor, abre seu rosal sobre minha carne mastigada” (tradução livre para aquilo que foi tomado emprestado de Lorca/Yerma, por Marcelino Freire: El cielo tiene jardines con rosales de alegría, entre rosal y rosal la rosa de maravilla. Rayo de aurora parece, y un arcángel la vigila, las alas como tormentas, los ojos como agonías. Alrededor de sus hojas arroyos de leche tibia juegan y mojan la cara de las estrellas tranquilas. Señor, abre tu rosal sobre mi carne marchita.)
    É verdade que ninguém é obrigado a entender espanhol. Mas para ir ao teatro é necessário que você seja capaz de entender metáforas. pode até ser esse um caminho para se adquirir essa capacidade. A bíblia também é recheada delas… “Vamos pedir piedade, Senhor, piedade”, para artistas como o cearense Ari Areia, o crucificado da vez. Amém e amem…
    Você falou uma coisa interessantíssima sobre a luz desenhada por Jathyles Miranda. Conceitualmente iIncômoda, como que vinda dos faróis de um carro, que não tem função de iluminar o mundo e sim lançar raios sobre a estrada. Parece que “meio mundo” está com medo de encarar o breu da alma humana e aqueles cantinhos escuros de si mesmo.
    Mais uma vez, agradecido.

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