No país da Copa do Mundo e de Gleise Nana*

Concreto armado, espetáculo do Teatro Inominável, estreou no Festival de Curitiba. Foto: Pollyanna Diniz

Concreto armado, espetáculo do Teatro Inominável, estreou no Festival de Curitiba

Curitiba – Quando estamos nos debruçando, 50 anos depois, sobre as consequências e efeitos da ditadura militar no Brasil, percebemos o quanto a nossa sociedade ainda é marcada pelos resquícios da repressão. Isso parece ter ficado ainda mais claro ano passado, talvez porque tenha atingido a classe média, com as manifestações que começaram em junho. Muitas foram as histórias disseminadas pelas redes sociais de sequestros e torturas realizadas pela polícia.

Lembro que, no Recife, circulou pelo Facebook o relato de uma estudante de Direito que teria sido levada pela polícia no bairro da Boa Vista e espancada. As fotos impressionavam pela violência. Os meios de comunicação chegaram a falar sobre o caso – mas não tive notícias do seu desfecho. No Rio de Janeiro, a diretora, atriz e poetisa Gleise Nana, de 33 anos, ativista que participou da manifestações e denunciou ameças recebidas de um policial, morreu depois de ter mais de 30% do corpo queimado durante um estranho incêndio em sua casa. Uma das filhas dela, de nove anos, estava no local. Ela também ficou ferida, mas sobreviveu.

A história de Gleise Nana foi incorporada à dramaturgia do espetáculo Concreto armado, do Teatro Inominável, do Rio de Janeiro, que estreou aqui no Festival de Curitiba. O grupo esteve no Recife pela primeira vez ano passado, durante o Trema!, com Vazio é o que não falta, Miranda. A direção de Concreto armado é assinada por um garoto muito jovem – Diogo Liberano – e a dramaturgia por ele e Keli Freitas.

No espetáculo, alunos de arquitetura estudam preservação e restauração de patrimônio e, depois de vários acontecimentos, são levados a pensar as contradições em torno do Maracanã, desde a sua construção até a reforma mais recente. A principal característica da montagem do Teatro Inominável é a sua atualidade; a força advinda da capacidade de tratar de coisas muito sérias e agudas sem distanciamento temporal ou afetivo, enquanto tudo ainda está pulsando dentro de nós.

Eles estão discutindo Copa do mundo e os nosso investimento de tantos milhões na sua realização; a maneira como somos afetados pela violência que acontece aqui na esquina ou na Síria; as repercussões das ações do governo no Rio de Janeiro; a repressão policial, os tempos de ditadura que ainda não foram embora. Uma montagem que trouxe à cena o ranço coronelista da nossa política.

A dramaturgia tenta dar conta de tudo isso, mas ainda não tem essa potência. Os atores não conseguem sustentar as dualidades de uma encenação que, ao mesmo tempo em que tem textos ditos de maneira muito próxima do público, como uma conversa no Facebook ou uma discussão na sala de aula, também traz silêncios, performances e estranhamentos.

A opção por assumir uma postura política de maneira muito clara também nos deixa com a sensação de que as contradições não são assumidas pela dramaturgia como propulsoras de novas reflexões e possibilidades dialógicas. Isso se alia também às interferências na cena feitas pelo diretor e autor do texto. Ele guia o público como um narrador. Levanta-se no meio da plateia e pode dizer do que trata a montagem ou falar sobre a morte de um personagem. Coloca também no palco os dados da realidade, nos faz enxergar o tempo inteiro os dados de realidade que costuram a ficcionalidade da peça. O elenco traz Adassa Martins, Andrêas Gatto, Caroline Helena, Flávia Naves, Gunnar Borges, Marina Vianna e Natássia Vello.

Talvez seja ainda uma questão de amadurecimento do grupo com a montagem, de ritmo, de encontrar como essas fissuras entre texto e encenação, texto e política, ficção, podem se estabelecer de fato e pulsar de maneira mais efetiva no palco.

*O blog está no Festival de Curitiba a convite da produção do evento

Apresentações foram no Teatro Paiol

Apresentações foram no Teatro Paiol

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